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8 de outubro de 2023

Isso é uma blasfêmia


Houve um momento muito interessante, durante a Segunda Guerra Mundial, quando estávamos em guerra com o Japão, que me possibilitou entender algumas coisas. Um dos jornais de Nova York publicou uma fotografia de um dos guardiões da entrada do templo de Nara, no Japão, logo na saída de Tóquio.
E ali estava o guardião da entrada - o querubim colocado no portal do Jardim do Éden. E este guardião está de pé junto ao pórtico, enquanto o Buda está sentado sob a Árvore da Imortalidade da Vida. Mas a legenda da foto dizia: "Os japoneses adoram deuses como este!".
Muito bem, eles não adoram! Esse é um símbolo do seu próprio medo e o que o prende ao ego, e é isso que o mantém fora do Jardim, onde o Buda está sentado embaixo de uma árvore e sua mão direita diz: "Não tenha medo desses caras. Atravesse."
Subitamente passei a ver que o nosso deus era aparentemente aquele guardião do portal, pelo fato de ter colocado guardiões nos portais e nos dito enfaticamente que eles lá estão de fato e nós não devemos atravessá-lo. Isso modifica tudo.
Portanto, nossa religião é basicamente uma religião de exílio.
Segundo a tradição cristã, é como se Jesus tivesse atravessado o portal, comido o fruto da árvore, transformando-se na árvore, que é a da Crucificação. É esse o sentido do crucifixo. Entregar-se. deixar-se ir. Incorporar à nossa mentalidade a imortalidade divina, que está em nós e em todas as coisas.
E assim Jesus, preso na cruz, que é a segunda árvore do Jardim, equivale a Buda sentado sob a Árvore da Imortalidade da Vida, a árvore Bo. Bodhi significa "aquele que despertou para o fato de que ele é aquilo que busca conhecer". Literalmente, o ser eterno. As duas religiões são interessantes pois fomos ensinados que não somos um só com Jesus, mas ele é o nosso modelo e nós devemos segui-lo. Mas no Evangelho segundo Tomé, Jesus diz: "Aquele que bebe da minha boca torna-se como eu sou, e eu sou ele".
Essa é a diferença entre o budismo e o cristianismo. Portanto, estamos novamente no exílio. Não podemos ser Jesus. Mas na religião budista já somos o Buda, e apenas não sabemos disso.
Eu estava proferindo uma palestra sobre essa questão, dizendo que para o cristão devemos viver em termos do Cristo em nós, e algumas semanas depois uma senhora me procurou e contou que estava sentada perto de um padre e este dissera: "Isso é uma blasfêmia".
Bem, se isso é blasfêmia, em nome dos céus, do que é que estamos falando?

Joseph Campbell

4 de outubro de 2023

Mitologia não é História


No hinduísmo ou no budismo a interpretação histórica dos símbolos, a referência à vida de Buda, é bastante secundária. O enfoque no hinduísmo ou no budismo é a relevância das formas simbólicas para nossa própria vida. Entendemos essas referências em relação ao nosso íntimo. Por exemplo, a maioria dos Budas não teve uma existência histórica e ninguém pensa que jamais tenham tido. Para os chineses Kwan Yin, ou para os japoneses Kwannon, o grande Bodhisattva de compaixão inexaurível é uma figura meramente mítica, mas que representa algo.
Quanto às tradições cristãs, o enfoque está no entendimento histórico dos termos, das imagens. Se dissermos para um cristão que Jesus não ressuscitou fisicamente de entre os mortos, e não subiu aos céus, estaremos desafiando o que ele considera importante na sua fé.
No que se refere aos judeus, se começarmos a questionar toda a história do Êxodo e de Moisés subindo a montanha para voltar com as tábuas da lei, em seguida quebrá-las e voltando a fim de obter uma segunda versão; se expressarmos dúvidas sobre tudo isso, estaremos fazendo uma afronta direta.
Para os hindua não é importante o que aconteceu há dois ou três mil anos, em algum outro lugar, mas o que está acontecendo a você agora. O que o símbolo está fazendo a você agora?
Mas como o judaísmo e o cristianismo são ordens de símbolos mitologicamente estruturados ambos são suscetíveis de outra espécie de leitura. E isso aparece de vez em quando, com um profeta ou um místico que subitamente vê o símbolo dizendo algo inteiramente diferente. E isso é algo que tem a ver com uma atitude imediata, de você para com a vida.
Por exemplo, em relação à Crucificação, se a vemos como uma calamidade que é o resultado de nossos pecados e do pecado de Adão, e que Jesus, o Filho do Pai, tinha de vir à terra, e entregar-se para morrer na cruz, e veja a tristeza que há - bem, essa é uma leitura.
Mas é possível ler de outra maneira; como o desejo da eternidade pela encarnação no tempo, que envolve a fragmentação do uno em muitos e a aceitação dos sofrimentos da vontade como parte dos deleites orgânicos, a Sabedoria Receptiva e o êxtase, a bem-aventurança - ele está em bem-aventurança. Santo Agostinho diz, em algum lugar: "Jesus foi para a Cruz como o noivo vai para a noiva". Essa é uma transformação total da ideia. 
Ainda outra: a ideia do final dos tempos. O final dos tempos como um evento histórico. Não faz sentido. E o que importa? A importância do final dos tempos é um evento psicológico. Temos de nos render e experienciá-lo dessa forma.
(...)
Bem, neste momento, competindo com todos os gurus, rinpoches e rishis que estão vindo para cá, os cristãos estão começando a pensar: "Talvez não seja somente sociologia ou a ajuda aos pobres", mas sim encontrar o divino dentro de si mesmo e viver não só por si mas com o Cristo dentro de si. Precisamos que o Oriente nos ensine os aspectos da experiência pessoal na religião. 
A ideia de Cristo e a ideia de Buda são símbolos mitológicos perfeitamente equivalentes. Duas maneiras de dizer a mesma coisa: que uma consciência energética transcendente dá forma ao mundo todo e nos dá forma.

Joseph Campbell

A luz e a Luz


Temos a questão do que teria acontecido em Jerusalém no ano 30 d.C. Será que realmente aconteceu? E o que é que isso tem a ver com outros eventos?
Há uma pequena e maravilhosa história que Daisetz Suzuki, o filósofo Zen, contou, em uma de suas palestras sobre o Zen. Um jovem pergunta a seu guru: "Será que possuo a consciência de Buda?", e o guru diz: "Não". E o jovem continua: "Bem, eu ouvi dizer que todas as coisas possuem a consciência de Buda, as pedras, as árvores, as flores, os pássaros, os animais, e todos os seres".
"Sim", diz o Mestre, "tens razão. Todas as coisas possuem a consciência de Buda. As pedras, as flores, as abelhas, os pássaros, mas tu não tens."
"Por que eu não tenho?"
"Porque estás fazendo essa pergunta."
O que quer dizer que, em vez de viver na consciência de si mesmo a partir daquela fonte transcendente, ele vive na consciência de si mesmo como uma unidade separada. E isso o lança fora. Portanto, ele não está vivendo pela sua consciência de Buda.
Agora aqui vai o truque usado pelo artista: apresentar o seu material de tal forma que não coloque um anel em torno de si próprio e fique ali como separado de você, o observador. E aquele "Ah!" obtido quando se vê uma obra de arte que realmente nos atinge, aquele "Eu sou isso!", eu sou o resplendor e a energia que está falando a mim, por meio desse objeto. Em termos puramente empíricos isso se chama participação. Mas é mais do que isso: é identificação.
Vocês sabem que os hindus perguntam: "Quem sou eu?". Uma pergunta que requer muita disciplina. Sou eu este corpo? Uma vez eu estava proferindo uma palestra sobre budismo a um grupo de rapazes de escola secundária e pensava: como vou passar esta ideia a eles? Porque aquilo que chamamos consciência de Buda é a consciência da qual todos nós somos manifestações. Nós todos somos coisas de Buda. Nós todos somos manifestações separadas dessa grande consciência que informa todo o universo. As plantas são conscientes. As pedras são conscientes. Todas as coisas são conscientes. 
Então eu disse aos rapazes: Olhem para o teto. Vocês podem dizer que as luzes, no plural, estão acesas, ou podem dizer que a luz está acesa. São duas maneiras de dizer exatamente a mesma coisa. A frase As luzes estão acesas acentua o veículo individual, a lâmpada, ao passo que a luz está acesa acentua a luz em geral. Mas são duas formas de dizer exatamente a mesma coisa".
No Japão o foco sobre a coisa individual é chamado ji hokai, ou o reino individual, e o foco sobre o que é geral é chamado ri hokai, o reino geral. E há um pequeno ditado assim: ji-ri-um-ge [individual, geral, nenhuma obstrução. Nenhuma diferença].
Portanto, quando uma lâmpada queima, o zelador do edifício ou do parque não vem dizer: "Ah, eu gostava especialmente daquela lâmpada. Ela era importante. Isto é uma calamidade". Ele tira a lâmpada e a substitui por outra.
O que é importante? É a luz ou o seu veículo? Eles são os veículos da consciência. Então, qual deles são vocês? A cabeça ou a consciência? Com o que vocês se identificam? Com o veículo ou com aquilo que é conduzido? E se você pode se identificar com aquilo que é conduzido, isto é, a consciência, é a consciência que está em todas as lâmpadas. E assim você está se identificando com o que é o princípio unificador, e é com esse princípio que se identifica a pessoa que se dispõe a salvar espontaneamente outra pessoa. Esses são os dois enfoques para a percepção de que a separação é secundária e separação é uma função da experiência no tempo e no espaço.

Joseph Campbell

3 de outubro de 2023

Mentira e metáfora


Quando o primeiro volume do atlas foi lançado, The way of the animal powers, o editor me enviou em uma turnê destinada a divulgá-lo. É o pior tipo de turnê que há, pois temos de falar a pessoas que não sabem absolutamente nada sobre o tema tratado nno livro. E a primeira pergunta que em geral fazem é: "O que é um mito?".
Mas eu conseguira, finalmente, pensar em uma boa definição, capaz de manter o interesse dessas pessoas. Eu sabia, é claro, que ninguém entenderia o que era mito, mas de qualquer forma o que eu diria pareceria uma definição.
Assim, lá pelo final daquela turnê eu cheguei a... - não vou dizer o nome da cidade nem de quem se tratava - mas tive de dar uma entrevista de hora e meia, ao vivo, em uma rádio. Quando entrei na sala a luz vermelha não estava acesa ainda, e tivemos uma pequena conversa. E a primeira coisa que me disse o jovem que estava sentado bem diante de mim, à mesa, foi: "Eu sou durão. Vou lhe dizer logo uma coisa, não tente me enganar, eu estudei Direito".
Para mim, tudo bem. A luz vermelha foi acesa e o jovem inicia o programa com esta ideia bem popular: "Mito é uma mentira, não é?".
Eu respondi: "Não, deve-se falar de mitologia, de toda uma mitologia pela qual um povo vive. Mitologia é a organização de narrativas simbólicas e imagens que são metafóricas das possibilidades da experiência humana e da sua realização em determinada cultura, em certa época".
É claro que foi a mesma coisa que jogar palavras pela janela.
"É uma mentira."
"É uma metáfora."
"É uma mentira".
Ainda tínhamos uns cinco minutos para ficar naquilo e eu compreendi que o rapaz não sabia o que era uma metáfora. Pensei que eu também poderia ser durão. Eu o havia pego e ele não conseguiria escapar.
Eu disse: "Não, eu estou lhe dizendo que os mitos são metáforas. Me dê um exemplo de metáfora".
"Dê-me o senhor um exemplo de metáfora", respondeu ele.
Mas eu fora professor durante trinta e oito anos e portanto insisti: "Não, sou eu que estou fazendo uma pergunta dessa vez. Dê-me o exemplo de uma metáfora".
Bem, o coitado desmoronou. Sabe, eu me senti envergonhado. Não se faz uma coisa dessas.
Nietzsche escreveu, creio que em Assim falava Zaratustra, ou em A vontade de poder, sobre o criminoso covarde, que tem coragem para usar a faca mas não para ver o sangue correr. E eu naquele momento não tinha coragem para encarar o que eu fizera ao jovem no seu próprio programa, diante do seu público. Era um programa que tinha o seu nome.
Transtornado, ele disse: "Não sei o que fazer. Espere um pouco". Tomou fôlego (faltava ainda um minuto e meio ou dois para acabar o programa) e continuou: "Vou tentar... Fulano corre velozmente. Dizem que ele corre como um cervo". 
Eu: "Isso é uma comparação, não é uma metáfora". Tique-taque, tique-taque, fazia o relógio. "A metáfora é: Fulano é um cervo".
"Isso é mentira", disse ele.
"É uma metáfora!", eu disse.
E foi o fim do programa.
Então compreendi uma coisa muito simples.
As pessoas dizem que acreditam em Deus. Deus é uma metáfora usada para designar um mistério que transcende totalmente as categorias humanas do pensamento. Até mesmo as categorias do ser e do não-ser. Essas são as categorias do pensamento. O que quero dizer é uma coisa muito simples - tudo depende de quanta reflexão queremos dedicar a isso. Se essa forma de pensar nos faz entrar em contato com o mistério que é a base de nossa ser. Se não fizer, então é uma mentira.
Assim, metade das pessoas do mundo é religiosa e pensa que suas metáforas são fatos. Essas são as pessoas teístas. A outra metade sabe que as metáforas não são fatos e, portanto, são mentiras. Essas são ateístas.

Joseph Campbell

Filosofia Perene


Eu tomo a Filosofia Perene como uma tradução em discurso verbal das implicações das imagens míticas. É por essa razão que as mesmas ideias podem ser encontradas nas filosofias místicas de todo o mundo. As continuidades que podemos reconhecer nos mitos aparecem também na filosofia. A ideia básica da filosofia é que as divindades são personificações simbólicas das próprias imagens que são você mesmo. E as energias que vêm de você próprio são as energias do universo. E, assim, deus está lá fora e também aqui dentro. Sim, o reino dos céus está dentro de você, mas também em todo lugar.
Mas assim como a ideia da divindade nessas tradições perenes é muito diferente da nossa ideia de divindade, também a ideia de consciência é diferente. Falando em divindades em termos adequados a essas tradições mitologicamente fundamentadas, digo que a divindade é a personificação da energia. É a personificação de uma energia que dá forma à vida. Toda a vida. A sua vida. A vida do mundo. E a natureza da personificação será determinada pelas circunstâncias históricas. A personificação é folclórica; a energia é humana. E assim as divindades provêm das energias. E elas são mensageiros e veículos, por assim dizer, das energias.
Há uma passagem maravilhosa no Upanixades Chandogya: "Venerar esse deus, venerar aquele deus, um deus após o outro - os que seguem essa lei não conhecem". Porque a fonte dos deuses está no seu próprio coração. Siga as pegadas até o centro e saiba que é de você que os deuses provêm.
Sonho, visão, deus. Os deuses do céu e do inferno são o que poderíamos chamar aspecto cósmico do sonho. E o sonho é o aspecto pessoal do mito. Sonho e mito pertencem à mesma ordem. E você e o seu deus são uma só coisa. Isso é você e o seu deus sonhado. E o seu deus não é o meu. Portanto, não tente impingi-lo a mim. Cada um tem a sua própria deidade e consciência.

Joseph Campbell

5 de setembro de 2023

A sociedade do búfalo


A essência da vida constitui-se de matar e de comer. Esse é o grande mistério com o qual os mitos têm de lidar. Os povos primitivos que viviam da caça tinham de reconciliar sua psique a essa condição, pois para eles os animais eram a manifestação dos poderes divinos. E não somente isso: eles vestiam as peles dos animais, faziam as tendas com elas, e, portanto, estavam vivendo da morte o tempo todo, em um mar de sangue. Um mito típico é uma espécie de pacto entre o mundo animal e o mundo humano, no qual fica estabelecido que essa é a via da natureza e que os animais se transformam espontaneamente em suas vítimas. Eles se entregam voluntariamente, entendendo que o rito de gratidão será realizado para devolver suas vidas à fonte da vida, para que outro grupo de animais da mesma espécie possa vir para ser consumido no ano seguinte. Para esses povos os animais são manifestações dos poderes divinos.
Gostariam de ouvir um mito sobre esse tema?
Há uma história que fala de um tempo em que certa tribo enfrentava um inverno desesperador. Os índios tinham um método peculiar de matar uma manada inteira de búfalos que fornecia carne à tribo durante o inverno, assustando os animais e fazendo-os correr até a beira de um grande precipício. Dessa maneira os animais despencavam e se despedaçavam no fundo do abismo, podendo depois ser completada a sua matança. Mas naquele determinado ano, quando os índios assustaram o rebanho e os búfalos correram até a beira do precipício, eles se desviaram para um lado - nenhum deles caiu no abismo. A tribo teve de enfrentar uma situação muito difícil.
Em uma daquelas manhãs uma jovem levantou-se para ir buscar água na fonte para a família. Da sua tenda viu os búfalos lá, bem na beira do precipício, e disse: "Oh! Se vocês despencarem e fornecerem comida ao meu povo durante este inverno, eu me caso com um de vocês". E imediatamente os búfalos começaram a despencar no precipício.
Ela ficou surpresa com isso. Mas sua surpresa foi ainda maior quando um deles chegou e disse: "Tudo bem, garota, vamos embora".
"Ah, não", disse a moça.
"Ah, sim", responde o búfalo. "Veja só o que aconteceu, você fez uma promessa e nós cumprimos a nossa parte."
Assim, ele pegou a jovem pelo braço (é difícil imaginar como um búfalo possa segurar alguém pelo braço, mas ele fez isso) e levou-a consigo, subindo uma colina e depois descendo para a planície.
Na manhã seguinte, a família da moça acorda e todos olhavam e perguntavam: "Onde está Minnehaha?".
O Pai sai, e como é índio, sabe ler nas pegadas o que acontece. Dá uma olhada e diz: "Ela fugiu com um búfalo". Coloca seus mocassins, pega seu arco e flecha e vai procurar a filha que estava entre os búfalos.
Depois de seguir as pegadas durante bastante tempo, ele chega a um atoleiro onde os búfalos gostavam de rolar para se livrar dos piolhos. O índio senta-se e põe-se a pensar: o que vou fazer? 
Então ele vê uma bela pega. Nas mitologias dos povos caçadores há certos animais que são muito espertos: pegas, raposas, gaio-azul e corvos. São uma espécie de animais xamânicos. A pega se aproxima e começa a ciscar e o pai lhe diz: "Belo pássaro, minha filha fugiu com um búfalo. Será que você viu alguma jovem com os búfalos?".
A pega responde: "Sim, há uma jovem lá com os búfalos agora mesmo".
O pai pergunta: "Será que você pode ir dizer a ela que seu pai está aqui?".
E a pega voa até onde está a moça. Não sei o que ela estava fazendo exatamente, tricotando ou algo semelhante, e atrás dela todos os búfalos estavam tirando uma soneca. Bem atrás dela estava o maior deles. O pássaro chega ciscando e fala: "O seu pai está lá no atoleiro".
"Nossa", diz ela, "que perigo! Isto é terrível! Diga para ele esperar. Vou ver o que posso fazer."
Logo depois o búfalo acorda, o grandão bem atrás dela, tira um dos seus chifres e ordena: "Vá buscar um pouco de água para mim".
Ela pega o chifre e vai até o atoleiro e lá está seu pai. O pai a agarra e diz: "Vem comigo".
"Não, não, isso é muito perigoso. Me deixe arranjar as coisas." Ela pega a água e volta para o búfalo. Ele pega a água e a cheira, e diz: "Hum!... sinto cheiro de sangue de índio".
E ela exclama: "Oh! Não!".
E ele diz: "Sim", e dá um urro acordando todos os búfalos, que se levantam, erguem suas caudas e começam a dançar e a urrar seguindo em direção ao atoleiro. Pisoteiam e esmagam o pai da moça, tornando-o invisível. Ele apenas não está mais ali, eles o haviam eliminado.
A moça começa a chorar e o velho búfalo pergunta: "Você está chorando, o que aconteceu?".
"Era o meu pai."
Ele diz: "Sim, você perdeu seu pai, mas nós perdemos nossas esposas, nossos tios, nossos filhos, todos, para alimentar o seu povo".
"Bem", ela responde, "mas... Papai!"
O búfalo tem uma espécie de compaixão por ela, e diz: "Bem, se você conseguir trazer seu pai de volta à vida eu vou libertar você".
Ela então chama a pega e pergunta: "Quer ciscar um pouco por aí para ver se pode encontrar um pedacinho de Papai?". E o pássaro obedece. Vai ciscando, ciscando, até encontrar uma lasca de vértebra, um pedacinho de osso das costas.
"Acho que encontrei uma coisa aqui", diz.
"Está bem, isso vai servir", afirma ela. E coloca o pedacinho de osso no chão, pega seu manto e coloca-o sobre ele, começando a cantar. É uma canção mágica, poderosa. Logo depois pode se ver que há um homem sob o manto. A moça vai olhar e é mesmo seu Papai. Mas ele ainda precisa de um pouco mais de canto.
Ela continua com seu canto e logo depois ele se levanta. Os búfalos estavam tremendamente empolgados com tudo isso. E dizem: "Por que vocês não fazem a mesma coisa conosco? Por que vocês não nos trazem de volta à vida, depois de nos matar? Vamos dar a vocês a nossa dança dos búfalos, vamos ensinar como se faz. Depois que vocês tiverem matado uma grande parte do nosso povo, dançarão e cantarão sua canção e nós voltaremos todos os anos para alimentar o seu povo".
Essa é a lenda de origem  da sociedade do búfalo com os índios Blackfoot. A lenda foi publicada - em um livro que li quando criança - originalmente por George Bird Grinnell. Ele era um escritor realmente maravilhoso e colecionador de material sobre os índios norte-americanos. O título desse livro é Blackfoot lodge tales [Contos da morada dos Blackfoot].
Passando de um povo a outro continuamente encontramos histórias como essa, relativas a um pacto entre as pessoas e os animais, todos entendidos como parte da natureza do mundo, da vida se alimentando da vida. E, quando esses povos comem, naturalmente eles não agradecem a Deus o fato de Ele lhes ter dado o animal como alimento. Eles agradecem ao próprio animal, um ato muito mais apropriado.

Joseph Campbell

29 de outubro de 2016

Ioga


Ioga é a suspensão (intencional) da atividade espontânea da substância mental.
A teoria psicológica arcaica envolvida nessa definição sustenta que na matéria bruta do cérebro e do corpo há uma substância sutil extremamente volátil, continuamente ativa, que assume as formas de tudo o que é apresentado pelos sentidos e que, em virtude das transformações dessa matéria sutil, nos tornamos conscientes das formas, sons, gostos, odores e toques do mundo exterior. Além do mais, a mente está num contínuo fluir de transformações – e com tal força que se alguém sem treinamento em ioga tentasse fixá-la em uma única imagem ou ideia por, digamos, um minuto, a veria quase de imediato afastar-se dessa imagem ou ideia em fluxos de pensamentos ou sentimentos correlatos ou mesmo remotos. O primeiro objetivo da ioga é, por isso, alcançar o controle desse fluxo espontâneo, diminui-lo e interrompê-lo.
A analogia é dada pela superfície de um pequeno lago soprada pelo vento. As imagens refletidas em tal superfície são entrecortadas, fragmentárias e continuamente oscilantes. Mas se o vento parasse de soprar e a superfície ficasse imóvel - nirvana: “além ou fora (nir-) do vento (vana)” – poderíamos ver não imagens entrecortadas, mas o reflexo perfeito de todo o céu, das árvores em volta e, nas profundezas calmas do próprio lago, seu belo fundo arenoso e os peixes. Poderíamos então ver que todas as imagens entrecortadas, que antes percebíamos fugazmente, eram na verdade apenas fragmentos dessas formas fixas reais, agora vistas de modo nítido e estável. E poderíamos ter à nossa disposição, em consequência, tanto a possibilidade de imobilizar a superfície do lago para apreciar a forma fundamental, quanto a de deixar o vento soprar e a água encrespar-se, pelo simples prazer do jogo (lila) das transformações. Já não se tem medo quando uma vem e a outra vai; nem mesmo quando a forma que parece ser o Si-Próprio desaparece. Pois Aquele que é tudo permanece para sempre: transcendente – além de tudo; porém também imanente – presente em tudo. Ou, como diz um texto chinês mais ou menos contemporâneo do Yoga Sutra:

Os Verdadeiros Homens dos tempos antigos não sabiam nada a respeito do amor à vida nem do ódio à morte. A entrada na vida não lhes causava nenhuma alegria; o sair dela não despertava nenhuma resistência. Serenamente eles iam e vinham. Não esqueciam qual havia sido sua origem e não inquiriam sobre seu fim. Eles aceitavam a vida e a desfrutavam; passavam por cima do medo da morte e retornavam a seu estado anterior à vida. Dessa maneira, havia neles o que se chama ausência de toda intenção de resistir ao Tao e ausência também de qualquer esforço através do Humano para estar entre os Celestiais. Assim eram aqueles que são chamados Verdadeiros Homens. Suas mentes estavam livres de todo pensamento; sua conduta era tranquila e estável; suas testas irradiavam simplicidade. Qualquer frieza provinda deles era como a do outono; qualquer calor provindo deles era como o da primavera. Sua alegria e raiva assemelhavam-se ao que vemos nas quatro estações. Eles agiam em relação a todas as coisas de maneira apropriada e ninguém podia conhecer o alcance dos seus atos.

Enquanto o ponto de vista e a meta habituais e típicos do indiano sempre foram os do iogue esforçando-se por ter uma experiência como a da água parada, o chinês e o japonês, em contrapartida, tenderam a balançar com o movimento das ondas. Comparadas com qualquer dos sistemas teológicos ou científicos do Ocidente, as duas visões são nitidamente da mesma espécie; entretanto, comparando uma com a outra em seus próprios termos, revelam-se diametralmente opostas: o indiano, rompendo a casca do ser, vive em êxtase no vazio da eternidade, que está a um só tempo fora e dentro, ao passo que o chinês ou japonês, satisfeito com o fato de a Grande Vacuidade ser o Motor de todas as coisas, aceita que as coisas se movam e, sem temer e sem desejar, permitindo que sua própria vida se movimente com elas, participa, no ritmo do Tao.

Magnífico, ele prossegue.
Prosseguindo, torna-se remoto.
Tendo-se tornado remoto, retorna.
Por isso, o Tao é magnífico; o Céu é magnífico.
A Terra é magnífica, e o Rei sábio é também magnífico.
A lei dos homens provém da Terra; a da Terra, do Céu;
A do Céu, do Tao.
E a lei do Tao é ela ser o que é.


Em vez de imobilizar tudo, o sábio do Extremo Oriente permite que as coisas se movam nos vários modos de seu surgimento espontâneo, acompanhando-as como se fosse uma espécie de dança, “agindo sem agir”. O indiano, por outro lado, tende a celebrar a catalepsia do vazio:

Para mim, habitando em minha própria glória:
Onde está o passado, onde o futuro?
Onde o presente?
Onde o espaço?
Ou onde está até mesmo a eternidade?

Em termos gerais, as duas visões foram, respectivamente: “Tudo é ilusão, deixe passar” e “Tudo está em ordem: deixe acontecer”; na Índia, Iluminação (samádi) com os olhos fechados; no Japão, Iluminação (satori) com os olhos abertos. A palavra moksa, “libertação”, tem sido aplicada a ambos os termos, mas eles não são a mesma coisa.
 
Joseph Campbell

Que sujeito formidável eu sou!


Aconteceu, numa certa época, que um monstro gigantesco engoliu toda a água da terra, de modo que houve uma terrível seca e o mundo se viu em péssimas condições. Indra, o rei dos deuses, levou algum tempo até se dar conta de que possuía uma caixa repleta de raios e tudo o que tinha a fazer era lançar um deles sobre o monstro, fazendo-o explodir. Quando ele fez isso, as águas jorraram e o mundo se refrescou. E Indra disse: "Que sujeito formidável eu sou!"
Assim, pensando no sujeito formidável que era, Indra se dirige à montanha cósmica, que é a montanha do centro do mundo, e decide construir um palácio à altura do seu valor. O melhor carpinteiro dos deuses põe-se a trabalhar e rapidamente o palácio está erguido e em excelentes condições. Mas cada vez que vai inspecioná-lo, Indra tem ideias mais ambiciosas a respeito de quão esplêndido e grandioso o palácio deveria ser. Por fim o carpinteiro exclama: "Ora, ambos somos imortais, e não há limites para os desejos dele. Estou preso por toda a eternidade". Então decide dirigir-se a Brahma, o deus criador, para reclamar.
Brahma está sentado num lótus, o símbolo da divina energia e da divina graça. O lótus cresce do umbigo de Vishnu, o deus adormecido, cujo sonho é o universo. Assim, o carpinteiro se aproxima da borda da grande lagoa de lótus do universo e conta sua história a Brahma. Brahma diz: "Pode ir para casa. Eu vou dar um jeito nisso." Brahma deixa seu lótus e se ajoelha para se dirigir ao adormecido Vishnu. Vishnu apenas esboça um gesto e diz qualquer coisa ininteligível.
Na manhã seguinte, no portal do palácio que estava sendo construído, aparece um belo garoto com um bando de crianças ao seu redor, admirando o esplendor da construção. O porteiro, que estava na entrada do novo palácio, corre até Indra e este diz: "Bem, mande entrar o garoto". O garoto é levado até Indra, e o deus-rei, sentado em seu trono, diz: "Seja bem-vindo, jovem. O que o traz ao meu palácio?"
"Bem", diz o garoto com uma voz que soa como um trovão rolando no horizonte, "ouvi dizer que você está construindo um palácio como nenhum Indra antes de você jamais construiu".
E Indra diz: "Indras antes de mim... de que você está falando?"
O garoto diz: "Indras antes de você. Eu os tenho visto vir e desaparecer. Pense nisso, Vishnu dorme no oceano cósmico, e o lótus do universo cresce do seu umbigo. No lótus se assenta Brahma, o criador. Brahma abre os olhos e um mundo se cria, governado por um Indra. Brahma fecha os olhos e um mundo desaparece. A vida de um Brahma conta quatrocentos e trinta e dois mil anos. Quando ele morre, o lótus se desfaz e outro lótus se forma, e outro Brahma. Agora pense nas estrelas além das estrelas, no espaço infinito, cada qual com um lótus, com um Brahma sentado nele, abrindo os olhos, fechando os olhos. E Indras? Deve haver homens avisados em sua corte, que se prestariam a contar as gotas de água dos oceanos ou os grãos de areia nas praias, mas nenhum contaria aqueles Brahmas, muito menos aqueles Indras".
Enquanto o garoto fala, um exército de formigas desfila pelo chão. O garoto ri, ao vê-las; os cabelos de Indra ficam arrepiados, e ele pergunta ao garoto: "Por que você ri?"
O garoto responde: "Não pergunte, a menos que você queira ficar magoado".
Indra diz: "Eu pergunto. Ensine-me". (Esta, aliás, é uma bela ideia oriental: não ensine, até ser instado a isso. Você não deve impor seu conhecimento goela abaixo das pessoas.)
Então o garoto aponta para as formigas e diz: "Todas antigos Indras. Através de muitas vidas, eles se elevam das mais baixas condições à mais alta iluminação. Aí eles lançam um raio sobre um monstro e pensam: 'Que sujeito formidável eu sou!' E voltam a despencar.

Joseph Campbell

Mulher serpente


Moyers: "Vós comestes da árvore da qual ordenei que não comêsseis?" O homem disse: "A mulher que me destes para estar comigo, essa mulher me deu o fruto da árvore e eu comi." Então o Senhor Deus disse à mulher: "Que fizestes vós?" E a mulher disse: "A serpente me enganou e eu comi".
Isso de transferir responsabilidades começou muito cedo.

Campbell: É verdade, e foi muito severo com as serpentes. (...) A serpente é o símbolo da vida desfazendo-se do passado e continuando a viver.

Moyers: Por quê?

Campbell: O poder da vida leva a serpente a se desfazer de sua pele, exatamente como a lua se desfaz da pele para renascer. São símbolos equivalentes. Às vezes a serpente é representada como um círculo, comendo a própria cauda. É uma imagem da vida. A vida se desfaz de uma geração após outra, para renascer. A serpente representa a energia e a consciência imortais, engajadas na esfera do tempo, constantemente atirando fora a morte e renascendo. Existe algo extremamente horrível na vida, quando você a encara desse modo. Com isso, a serpente carrega em si o sentido da fascinação e do terror da vida, simultaneamente.
Além disso, a serpente representa a função primária da vida, sobretudo comer. A vida consiste em comer outras criaturas. Você não pensa muito a respeito quando faz uma boa refeição, mas o que está fazendo é comer algo que há pouco estava vivo. E quando você olha para a bela natureza e vê os passarinhos saltitando daqui para ali... eles estão comendo coisas. Você vê as vacas pastando, elas estão comendo coisas. A serpente é um canal alimentar que se move, isso é tudo. Ela lhe dá aquela sensação primária de espanto, da vida em sua condição mais primitiva. Não há absolutamente o que discutir com esse animal. A vida vive de matar e comer a si mesma, rejeitando a morte e renascendo, como a lua. Este é um dos mistérios que as formas simbólicas, paradoxais, tentam representar.
Agora, em muitas culturas é dada uma interpretação positiva à serpente. Na Índia, mesmo a mais venenosa das serpentes, a naja, é um animal sagrado, e a mitológica Serpente Rei é quem está ao lado do Buda. A serpente representa o poder da vida, engajado na esfera do tempo, e da morte, não obstante eternamente viva. O mundo não é senão a sua sombra - a pele rejeitada.

Moyers: Na história cristã a serpente é o sedutor.

Campbell: Isso representa a recusa em afirmar a vida. Na tradição bíblica que herdamos, a vida é corrupta e todo impulso natural é pecaminoso, a menos que tenha havido circuncisão ou batismo. A serpente é aquele ser que trouxe o pecado ao mundo. E a mulher é quem ofereceu a maçã ao homem. Essa identificação da mulher com o pecado, da serpente com o pecado, e portanto da vida com o pecado, é um desvio imposto à história da criação, no mito e na doutrina da Queda, segundo a Bíblia.

Moyers: A ideia da mulher como pecadora aparece em outras mitologias?

Campbell: Não, não tenho referência disso em parte alguma. O que mais se aproxima talvez seja Pandora, com a caixa de Pandora, mas não se trata de pecado, é apenas confusão. A ideia, na tradição bíblica da Queda, é que a natureza, como a conhecemos, é corrupta, o sexo em si é corrupto, e a fêmea, como epítome do sexo, é um ser corruptor. Por que o conhecimento do bem e do mal foi proibido a Adão e Eva? Sem esse conhecimento, seríamos todos um bando de bebês, ainda no Éden, sem nenhuma participação na vida. A mulher traz a vida ao mundo. Eva é a mãe deste mundo temporal. Anteriormente, você tinha um paraíso de sonho, ali no Jardim do Éden - sem tempo, sem nascimento, sem morte -, sem vida. A serpente, que morre e ressuscita, largando a pele para renovar a vida, é o senhor da árvore primordial, onde tempo e eternidade se reúnem. A serpente, na verdade, é o primeiro deus do Jardim do Éden. Jeová, o que caminha por ali no frescor da tarde, é apenas um visitante. O Jardim é o lugar da serpente. Esta é uma velha, velha história. Existem sinetes sumerianos, que remontam a 3500 a. C., mostrando a serpente, a árvore e a deusa, e esta oferecendo o fruto da vida ao visitante masculino. A velha mitologia da deusa está toda aí. (...) Existe, na realidade, uma explicação histórica baseada na chegada dos hebreus a Canaã e na subjugação do povo de Canaã. A principal divindade desse povo era a Deusa, e, associada à Deusa, estava a serpente. Este é o símbolo do mistério da vida. Os hebreus, orientados na direção do deus masculino, rejeitaram isso. Em outras palavras, existe uma rejeição histórica da Deusa Mãe, implícita na história do Jardim do Éden.

Moyers: Essa história parece ter prestado à mulher um grande desserviço, atribuindo-lhe a responsabilidade pela Queda. Por que recaiu sobre as mulheres a responsabilidade pela Queda?

Campbell: Elas representam a vida. O homem não chega à vida senão através da mulher; é a mulher, portanto, que nos traz a este mundo.
 
Joseph Campbell

28 de outubro de 2016

Receita de salvador do mundo


É impossível reconstruir o caráter, a vida e a verdadeira doutrina do homem que se tornou o Buda. Supõe-se que ele tenha vivido entre 563 e 483 a.C. Entretanto, sua mais antiga biografia, a do cânon páli, começou a ser escrita apenas por volta de 80 a.C.v no Sri Lanka, a cinco séculos e 2400km de distância do verdadeiro cenário histórico. E a vida, a essa altura, tinha-se tornado mitologia - segundo um padrão característico dos Salvadores do Mundo do período entre aproximadamente 500 a.C. e 500 d.C., seja na Índia, como nas lendas dos jainas, ou no Oriente Próximo, como na visão evangélica de Cristo.
Em resumo, essa biografia arquetípica do Salvador fala de:

1. o descendente de uma família real
2. nascido milagrosamente
3. em meio a fenômenos sobrenaturais
4. sobre quem um santo ancião (Simão = Asita), logo após o nascimento, profetizou uma mensagem de salvação do mundo, e
5. cujas façanhas na infância proclamam seu caráter divino.

Na sequência indiana, o herói do mundo:

6. casa-se e gera um herdeiro
7. desperta para sua missão
8. parte, com o consentimento de seus progenitores (no jainismo), ou secretamente (o Buda)
9. para engajar-se em árduas disciplinas na floresta
10. que o confrontam, finalmente, com um adversário sobrenatural, sobre o qual
11. a vitória é alcançada.

O último citado, o Adversário, é uma figura que nos tempos védicos teria aparecido como um dragão anti-social (Vritra) mas, em concordância com a nova ênfase psicológica, representa agora aqueles equívocos da mente que o mergulho do Salvador do Mundo nas suas próprias profundezas traz à luz, e contra os quais ele está lutando, tanto por sua própria vitória quanto para a salvação do mundo.
Na lenda cristã, não há registro dos anos de juventude representados acima pelos estágios 6 a 8. Entretanto, os episódios culminantes (9 a 11) estão representados pelo jejum de quarenta dias no deserto onde se deu o confronto com Satã. Ademais, pode-se argumentar que as cenas infantis da matança dos inocentes pelo rei Herodes, a aviso dos anjos a José e a fuga da Sagrada Família correspondem simbolicamente ao 6, isto é, aos esforços do pai do futuro Buda para frustrá-lo em sua missão, confinando-o no palácio e fazendo-o casar-se depois do que (7) ele foi despertado para sua missão pela visão de um ancião, um homem doente, um cadáver e um iogue, ante o que (8) planejou fugir. Em ambos os casos a narrativa é a de um inimigo régio do espírito, lutando com todos seus recursos - sejam eles maléficos (rei Herodes) ou benignos (rei Suddhodana) - que se mostram vãos para frustrar o infante Salvador em sua predestinada missão.
Seguindo seu encontro cara a cara com o Antagonista e vencendo-o, o Salvador do Mundo:

12. realiza milagres (caminha sobre as águas etc.)
13. torna-se um pregador errante
14. prega a doutrina da salvação
15. a um séquito de discípulos e
16. a uma pequena elite de iniciados
17. um dos quais, menos rápido para aprender do que o resto (Pedro = Ananda), recebe o comando e se torna o modelo da comunidade leiga, enquanto
18. outro, obscuro e traiçoeiro (Judas = Devadatta), está empenhado na morte do Mestre.

Em várias versões da lenda são dadas diferentes interpretações aos temas comuns, coincidindo com as diferenças de doutrina. Por exemplo, 2: enquanto a Virgem Maria concebeu do Espírito Santo, a rainha Maya, mãe do Buda, era uma verdadeira esposa de seu consorte; tampouco o Salvador do Mundo que ela dera à luz era uma encarnação de Deus, o Criador do Universo, mas um jiva reencarnado iniciando a última de suas inumeráveis vidas. Igualmente os itens 10-11: enquanto a vida do Buda atingiu o ápice na sua vitória sobre Mara sob a árvore Bodhi, a lenda cristã transfere a Árvore da Redenção para o estágio 19, isto é, a morte do Salvador, que na vida do Buda não é mais do que uma passagem pacífica no final de uma longa carreira de mestre. Pois o ponto principal do budismo não é - como no antigo sacrifício Soma - a imolação física do Salvador, mas seu despertar (bodhi) para a Verdade das verdades e, em consequência, a libertação (moksa) da ilusão (maya). Por isso, o ponto principal para o indivíduo budista não é se a lenda do Buda corresponde ao que de fato e historicamente ocorreu entre 563 e 483 a.C., mas se serve para inspirá-lo e guiá-lo para a iluminação.

Joseph Campbell

Indiscutível consenso


As leis de Deus, conforme concebidas pela revelação anterior de Jeová no deserto, tinham sido os costumes de uma sociedade que existia realmente, enquanto as leis de Deus, conforme concebidas no Islã, deviam resultar de uma série de revelações emitidas em estado de transe por um único indivíduo no curso de apenas vinte e três anos; e transformá-las num sistema viável para uma comunidade mundial seria um feito de temeridade inigualável - o que, mirabile dictu, foi realizado.
Na criação dessa ordem legal muçulmana, três autoridades foram reconhecidas, das quais a primeira foi, obviamente, o próprio Alcorão. Quando ordens e proibições eram claramente expressas no Alcorão, não havia lugar para discussões, pois eram para ser obedecidas inquestionavelmente. Entretanto, existiam casos não contemplados, e para esses os juristas muçulmanos tiveram que instituir outras "raízes". Seu segundo suporte, por isso, foi um corpo adicional de ensinamentos chamado "ditos do Profeta" ou hadith. Trata-se de uma coletânea de casos e provérbios edificantes do Profeta, supostamente contados por um ou outro de seus companheiros próximos. Um vasto corpo de tais "ditos" passou a existir durante os primeiros dois ou três séculos do islamismo. As mais dignas de confiança foram compiladas em edições canônicas - notavelmente as de al-Bukhari (morreu em 870) e Moslem (morreu em 875) - as quais, como demonstrou o Prof. H. A. R. Gibb, "rapidamente quase chegaram a se constituir em autoridade canônica".
Porém, na prática, continuaram a surgir questões legais não contempladas nem nos preceitos do Alcorão nem nos hadith, e para lidar com elas foram instituídas decisões por "analogia" (qiyas), o que quer dizer (para citar novamente o Prof. Gibb) "a aplicação, a um novo problema, dos princípios subjacentes a uma decisão já existente sobre alguma outra questão, que pudesse ser considerada como correspondente ao novo problema".
O Prof. Gibb continua:

Sob essa base aparentemente limitada e literalista, os teólogos e juristas dos séculos II e III (do Islã) elaboraram não apenas a lei, mas também os rituais e doutrinas que seriam o patrimônio especial da comunidade islâmica, diferenciando-a de outras religiões e organizações sociais. Todavia, a limitação é mais aparente na teoria do que na prática, pois (...) muita coisa de fontes externas foi naturalizada no islamismo por meio de tradições consideradas como emanadas do Profeta.
Mas como os princípios sobre os quais foi construída essa estrutura lógica eram imutáveis, o mesmo aconteceu com o próprio sistema que, uma vez formulado, foi sustentado como imutável e, na verdade, como tão divinamente inspirado quanto as fontes das quais ele foi obtido. Daquela época até hoje, a sharia, como é chamada, ou a "via" da ordem e orientação divinas, permaneceu, em sua essência, sem mudança alguma.


Spengler, comparando essa abordagem da lei com a clássica, afirma que:

Enquanto a lei clássica foi criada por cidadãos com base na experiência prática, a lei muçulmana proveio de Deus, que a manifestou através do intelecto de homens escolhidos e ilustrados (...). A autoridade das leis clássicas fundamenta-se no seu sucesso, a das muçulmanas, na majestade do nome que elas levam. De fato, é muito significativo para os sentimentos do homem se ele considera a lei como uma expressão da vontade de um seu semelhante ou como um elemento do desígnio divino. No primeiro caso ele conclui por si mesmo que a lei está certa ou cede à força; mas no segundo ele se submete devotamente (islam). O oriental não pede para ver nem o objeto prático da lei que lhe é imposta, nem os fundamentos lógicos de seus julgamentos.
A relação do cádi com o povo não tem, por isso, nada em comum com a do pretor com os cidadãos. O último baseia suas decisões numa percepção treinada e testada em altas funções, e o primeiro num espírito que é efetivo e imanente a ele e se expressa por sua boca. Mas resulta disso que suas respectivas relações com a lei escrita - o pretor com seu édito e o cádi com os textos jurídicos - têm que ser inteiramente diferentes. O pretor toma sua decisão com base na síntese mais refinada da experiência; o cádi, em contrapartida, consulta misteriosamente os textos que constituem para ele uma espécie de oráculo. Não importa o mínimo para o cádi o que uma passagem significou originalmente ou por que ela foi formulada. Ele consulta as palavras - mesmo as letras - e não o faz de maneira alguma em busca de seus significados corriqueiros, mas das relações mágicas nas quais elas devem estar com relação ao caso que tem diante de si. Sabemos dessa relação do "espírito" com a "letra" a partir da Gnose, da antiga literatura apocalíptica e mística cristã, judaica e persa, da filosofia neopitagórica e da Cabala; e não há a menor dúvida de que os códices latinos foram usados exatamente do mesmo modo nas práticas judiciais cotidianas do mundo aramaico. A convicção de que as letras contêm certos significados secretos, permeadas pelo Espírito de Deus, encontra expressão imaginativa no fato de que todas as religiões do mundo árabe criaram escritas próprias, nas quais os livros sagrados tinham que ser escritos e os quais se mantiveram com uma tenacidade surpreendente como distintivo das respectivas "Nações" mesmo após mudanças de idioma.


Tanto Gibb quanto Spengler, bem como os demais que escreveram seriamente sobre o Islã, observam, outrossim, que o corpo da tradição (sharia, a "via"), que foi forjado pela interação dos preceitos do Alcorão (kitab, "o livro"), os ditos da tradição (hadith) e as extensões por analogia (qiyas), supõe-se ser uma expressão exata da infalibilidade do grupo (ijma, "consenso") em todas as questões relativas à fé e costumes. O Prof. Gibb escreve a respeito:

Um dos motivos de orgulho do Islã é que não permite a existência de um clérigo que possa reivindicar a mediação entre Deus e o homem. Por mais que isso seja verdadeiro, entretanto, o Islã, à medida que se organizou num sistema, criou de fato uma classe clerical que adquiriu exatamente o mesmo tipo de autoridade e prestígio social e religioso que o clérigo das comunidades cristãs. Era essa a classe dos ulemás, os "sábios" ou os "doutores", correspondentes aos "escribas" do judaísmo. Devido à santidade do Alcorão e da Tradição e à necessidade de uma classe de pessoas ocupadas profissionalmente com a sua interpretação, o surgimento dos ulemás foi um desenvolvimento natural e inevitável, embora a influência das antigas comunidades religiosas pudesse ter auxiliado no estabelecimento de sua autoridade social e religiosa.
À medida que sua autoridade se firmou e se tornou amplamente aceita pela opinião pública da comunidade, a classe dos ulemás reivindicou (e, em geral, foi reconhecida) a representação da comunidade em todas as questões relativas à fé e à lei, em especial contra a autoridade do Estado. Logo mais - provavelmente em alguma data no século II (do Islã) - foi assegurado que o "consenso da comunidade" (que na prática significava o dos ulemás) tinha força de coerção. O ijma passou dessa maneira para o arsenal dos teólogos e juristas para preencher todas as lacunas restantes em seu sistema. Como a Tradição era a complementação do Alcorão, também o consenso dos eruditos tornou-se a complementação da Tradição.
De fato, numa análise estritamente lógica, é óbvio que o ijma subjaz a toda essa estrutura grandiosa e somente ele dá a ela a sua validade última. Pois é em primeiro lugar o ijma que garante a autenticidade do texto do Alcorão e das Tradições. É o ijma que determina como as palavras de seus textos devem ser pronunciadas, o que elas significam e em que sentido devem ser aplicadas. Mas o ijma vai muito além: é elevado a uma teoria de infalibilidade, um terceiro canal de revelação. As prerrogativas espirituais do Profeta - os escritores muçulmanos referem-se a elas como a "luz da Profecia" - foram herdadas não por seus sucessores no governo temporal da comunidade, os califas, mas pela comunidade inteira. (...)
Quando, por isso, um consenso de opiniões era alcançado pelos sábios dos séculos II e III em qualquer questão dada, a promulgação de novas ideias sobre a interpretação dos textos relevantes do Alcorão e do Hadith era praticamente proibida. Suas decisões eram irrevogáveis. O direito à interpretação individual (ijtihad) foi teoricamente (e também em grande parte na prática) restringido aos pontos sobre os quais não se tinha ainda alcançado um acordo geral. Como eles foram diminuindo de geração em geração, os eruditos dos séculos posteriores ficaram limitados a comentar e explicar os tratados nos quais estavam registradas aquelas decisões. A grande maioria dos doutores muçulmanos sustentava que o "portal do ijtihad" estava fechado para todos e que nenhum sábio, por mais eminente que fosse, dali em diante podia qualificar-se como mujtahid, um intérprete autorizado da lei; embora alguns poucos teólogos posteriores tenham de tempos em tempos reivindicado o direito de ijtihad.


O Prof. Gibb observa que há uma certa analogia entre essa forma de fixar a doutrina por "consenso" no Islã e os concílios da Igreja cristã, apesar das diferenças externas e que, em certos aspectos, os resultados também foram similares. "Por exemplo", conforme ele declara, "apenas após o reconhecimento geral do ijma na condição de fonte da lei e da doutrina, foi possível estabelecer e aplicar uma norma de julgamento legal para a heresia". Spengler também observa essas analogias e, de acordo com sua visão da forma histórica da comunidade espiritual mago-levantina, as interpreta em contraste geral com o sentido propriamente europeu do valor do indivíduo. A respeito disso ele afirma:

Nós procuramos encontrar a verdade cada um por si mesmo, pela reflexão pessoal; mas o erudito árabe busca e averigua a convicção geral de seus companheiros, que não podem estar errados, porque a mente de Deus e a mente da comunidade são uma única. Se o consenso é alcançado, a verdade é estabelecida. Ijma é a chave de todos os primeiros concílios cristãos, judaicos e persas, mas também é a chave da famosa Lei de Citações de Valentiniano III (426 d.C.), que (...) limita a cinco o número de grandes juristas cujos textos permitia-se citar. Dessa maneira, estabeleceu-se um cânone no mesmo sentido que o Antigo e Novo Testamento - pois ambos eram resumos de textos que podiam ser citados como canônicos.

De uma maneira muito interessante, isso nos faz lembrar das assembleias, expurgos, manifestos e pretensões dos assim chamados governos populares da província cultural da Cortina de Ferro, onde os preceitos do Profeta Marx, reinterpretados por uma elite de ulemás, são apresentados como o ijma de uma entidade puramente mítica, o Povo. Notável também é o poder dos símbolos, inclusive o da paródia da Cidade de Deus, para atuar sobre os nervos dos indivíduos livres fora do controle geográfico daquele consenso, mas nos quais o sistema mago de valores ainda vive. Como a virtude dos Sacramentos da Igreja Católica Romana - que não são afetados pelas realidades do mundo, a queda dos impérios cristãos, a vida pessoal dos clérigos ou a total refutação pela ciência da mitologia na qual eles se fundamentam -, o mesmo ocorre com a máscara do Islã - e agora igualmente a do Povo -, que é de uma ordem transcendental intocada pelas realidades temporais, ou pelos pecados daqueles em cujos ombros ela pesa. Conforme nos adverte a recente profecia de um poeta e filósofo muçulmano indiano formado em Londres, Sir Mohammed Iqbal (morreu em 1938), citado na obra de Adda Bozeman:

Acreditem-me, a Europa de hoje é o principal obstáculo no caminho da realização ética do homem. O muçulmano, por outro lado, está de posse das ideias supremas com base em uma revelação, a qual, falando das profundezas íntimas da vida, internaliza sua própria exterioridade aparente. Para ele a base espiritual da vida é uma questão de convicção, pela qual mesmo o homem menos iluminado dentre nós pode facilmente sacrificar sua vida; e em vista da ideia básica do Islã de que não pode haver outras revelações que cinjam o homem, deveríamos ser espiritualmente um dos povos mais emancipados da Terra. (...) Possa o muçulmano hoje apreciar sua situação, reconstruir sua vida social à luz dos princípios supremos e evoluir, além dos até agora parcialmente revelados propósitos do Islã, à democracia espiritual que é o objetivo social do islamismo.

Mais uma observação relativa ao contraste entre as concepções judaica, bizantina, muçulmana e comunista do indiscutível consenso: as três primeiras dessas quatro igrejas magas distinguem-se obviamente da última porquanto seu apelo supremo é para Deus, ao passo que a última orgulha-se particularmente de seu ateísmo obstinado a la Robert Ingersoll, do século XIX, para quem o objeto sagrado, o Trabalhador, é um ser mítico que se supõe encarnado em cada fábrica do mundo. Mas essa transferência da autoridade mística do céu para uma suposta entidade social na terra, simplesmente adapta ao modo de simbolização moderna e secular o conceito comum de uma lei autorizada, conhecida apenas por aqueles entre os fiéis nos quais reside o conhecimento ortodoxo, mas que deve manifestar-se totalmente quando chegar o dia da vitória final. Enquanto isso, as chamadas leis das nações não passam de ilusões, afligindo a todos em cujos corações a luz ainda não surgiu. Porque, conforme lemos no Alcorão:

O que os faz rejeitar a advertência? Como se fossem asnos assustados, fugindo de um leão. (...) Para os descrentes, preparamos correntes, jugos e um fogo ardente. Os justos (...) descansarão em tronos elevados, ao abrigo do sol e do frio. Haverá sombra para eles, e cachos de frutas estarão a seu alcance. E entre eles serão passadas bandejas de prata, taças de cristal e cristais prateados. Na medida que quiserem.

O contraste entre o ideal judaico da Lei e os outros três ideais é aquele que existe entre uma lei derivada - pelo menos em alguma medida - organicamente da vida, das experiências reais de uma comunidade real, e as leis derivadas de um texto instituído, para serem inculcadas em uma comunidade ideal futura, ou apresentadas por meio dela. O judaísmo é um produto orgânico e flexível; os outros, ao contrário, são construtos mentais, relativamente frágeis e - para aqueles que estão fora do sistema - de uma artificialidade pouco convincente, ou mesmo absurda, incrível; cujas pretensões de aplicação universal dão uma guinada ameaçadora que supera de longe a ameaça puramente fictícia do Dia do Juízo Final apocalíptico-judaico.

Joseph Campbell

Lulu


O que acontece após a morte com a vítima voluntária que se permite, por amor, ser condenada em nome de Deus? Poderia ela, por exemplo, ser condenada à danação eterna por amor segundo a lei de Deus?
O caso de Satanás é examinado como um exemplo da possibilidade, cuja conclusão causará ao leitor, ouso dizer, certo espanto. Porque, como vimos no início do Alcorão, ele foi condenado por se recusar a se curvar com os outros diante de Adão - o que, obviamente, estava certo, já que ninguém, a não ser Deus, é para ser adorado. Satanás deve então ser considerado como um verdadeiro muçulmano. Amando e adorando apenas a Deus, ele não conseguiu curvar-se diante do homem, mesmo mandado, contraditoriamente, por seu Deus que, antes, tinha-o mandado adorar apenas a Deus. Deus - conforme consta no Livro de Jó - está acima da justiça, acima da coerência, acima da lei e da ordem, quaisquer que sejam. A lição do Livro de Jó, aplicada devidamente, da maneira que começou, teria acabado com essa ideia sufi do exílio de Satanás, o perfeito devoto, sofrendo eternamente no inferno. E como o grande al-Hallaj, em sua consideração desse tema complexo, propôs para aprofundamento do mistério: Satanás nas profundezas do inferno manteve intacto o seu amor; porque, na verdade, era precisamente esse amor que o retinha ali, afastado de seu objeto de amor - sendo a própria dor pela perda de Deus o maior tormento de todos. Se perguntarmos o que o sustenta ali, na dor da perda, por todo o tempo, é o êxtase de seu coração na lembrança do som da voz amada de Deus quando pronunciou sua condenação: "Parta!"
Mas Satanás (ou Jó, neste caso) não foi, afinal, condenado injustamente. Porque ele próprio já havia abandonado o seu amado pela ideia que formara de seu amado, e esta ideia era um ídolo no sentido mais elevado. O que quer dizer: o monoteísmo rígido de Satanás (de Jó, de Muhammad, de Abraão) era apenas uma outra forma de ateísmo, e a adoração de Adão pelos anjos era correta. Já que mais uma vez, conforme lemos lemos no Alcorão: "Deus levará os celerados ao erro."

Joseph Campbell

Mater


O estado do bebê no útero é o da bem-aventurança - uma bem-aventurança passiva - e esse estado pode ser comparado ao da beatitude no paraíso. No útero, o bebê é inconsciente da alternância do dia e da noite ou de qualquer das imagens da temporalidade. Não deveria surpreender, portanto, se as metáforas usadas para representar a eternidade sugerem, àqueles treinados no simbolismo do inconsciente infantil, o retorno ao útero.
Tem-se dito que o medo da escuridão, tão intenso nas crianças, é uma função de seu medo de retornar ao útero: o medo de que sua recém conquistada consciência da luz do dia e sua individualidade, ainda não firmada, sejam reabsorvidas.
As cavernas paleolíticas do sul da França e norte da Espanha - datadas pela maioria dos especialistas em 30000-10000 anos a.C. - foram certamente santuários, não apenas da magia de caça, mas também dos ritos da puberdade masculina. Uma terrível sensação de claustrofobia e, simultaneamente, de libertação de qualquer contexto do mundo lá fora, assalta a mente encerrada naqueles escuros abismos, onde a escuridão não é mais uma ausência de luz, mas uma força experimentada. E quando, naquelas cavernas, é lançada uma luz para revelar as belas pinturas de touros e mamutes, rebanhos de renas, cavalos em corrida, rinocerontes lanosos e xamãs dançando, as imagens assaltam a mente com marcas indeléveis. É óbvio que a ideia de morte-e-renascimento - renascimento através do ritual e com uma reorganização dos estímulos sinais profundamente estampados - é antiquíssima na história da cultura. Mesmo no período das cavernas paleolíticas, tudo se fazia com o intuito de induzir nos jovens, que eram simbolicamente privados da vida, uma reativação de seu medo infantil do escuro. O valor psicológico de tal "tratamento de choque", visando à destruição de uma estrutura de personalidade não mais desejada, parece ter sido metodicamente utilizado na bem testada crise pedagógica de lavagem cerebral e simultâneo recondicionamento dos mecanismos liberadores inatos, para a conversão de meninos em homens, caçadores seguros e defensores corajosos da tribo.
O conceito da terra como mãe, tanto gestadora quanto nutridora, foi fundamental nas mitologias das sociedades de caçadores, é do útero da terra que os animais de caça provêm, e descobrimos seus arquétipos eternos no mundo subterrâneo (ou terreiro de dança) dos ritos de iniciação - arquétipos dos quais os rebanhos na terra não são mais que manifestações seculares, enviados para alimentar o homem. Da mesma forma, para os agricultores, é no corpo da mãe que o grão é semeado: a aração da terra é a gestação e o crescimento do grão um nascimento. Além do mais, a ideia da terra como mãe e a do sepultamento como retorno ao útero para renascer, parece ter sido sustentada por algumas das comunidades da espécie humana em uma época extremamente remota. As primeiras evidências indiscutíveis de ritual e, portanto, do pensamento mitológico, são as sepulturas do Homo neanderthalensis, um remoto predecessor de nossa própria espécie, cujo período talvez seja datado em 200000-75000 anos a.C. Os esqueletos de Neandertal foram encontrados sepultados com provisões (sugerindo a ideia de outra vida), acompanhados de animais sacrificados (boi selvagem, bisão e cabra selvagem), orientados no sentido leste-oeste (o caminho do sol, o qual renasce da mesma terra em que são colocados os mortos), em posição fetal (como se estivessem no útero), ou numa posição de dormir - em um dos casos, com um travesseiro de lascas de sílex. Sono e morte, despertar e ressuscitar, a sepultura como retorno à mãe para renascer.

Joseph Campbell

27 de outubro de 2016

Céus e infernos


Há quatro décadas, Miguel Asín y Palacios, padre católico e professor de árabe da Universidade de Madri, chocou o mundo erudito europeu ao demonstrar uma influência de origem muçulmana na Divina Comédia de Dante. Revendo detalhadamente a literatura a respeito da lenda sobre a visita noturna de Maomé ao purgatório, inferno e céu, ele demonstrou haver paralelos suficientes para provar definitivamente essa relação, que também se estende à tradição da Pérsia zoroastriana e, além disso, ao julgamento da alma ante Osíris, tal como figura no Livro dos Mortos egípcio. E de particular interesse para nosso propósito é a nota, em sua obra, sobre a origem persa da tortura pelo frio no círculo inferior de Dante. "Nem seria preciso notar", afirma o padre Asín, "que a escatologia bíblica não faz menção a nenhuma tortura pelo frio no inferno. A doutrina muçulmana, entretanto, coloca essa tortura no mesmo nível da tortura pelo fogo. (...) Sua introdução no sistema muçulmano do inferno deveu-se (...) à assimilação pelo islamismo de uma crença zoroastriana. (...) É provável que ela tenha sido introduzida por zoroastrianos convertidos ao islamismo". "Tortura pelo frio", ele acrescenta, "também ocorre no inferno budista." E, como sabemos, no jainista.
Tanto no Ocidente quanto no Oriente, a fonte mais remota do céu com andares e de infernos abissais com a montanha do mundo no meio, é o conceito mesopotâmico da arquitetura do universo. Nele há uma montanha cósmica axial simbolizada pelo zigurate com os lados orientados para os pontos cardeais e acima dele, no céu mais alto, está sentado um deus supremo, An, entre um ilustre séquito de divindades. A Planta do Nascimento e o Pão e a Água da Imortalidade situam-se nessa esfera elevada. Abaixo dela, no céu intermediário, está o arquétipo divino e senhor do poder real, cujo papel, no longo curso da história mesopotâmica com sua instabilidade imperial, foi exercido por uma série de beneficiados: primeiro, aparentemente, Enlil (divindade padroeira da cidade suméria Nipur), em seguida, Bel Marduk (da Babilônia de Hamurabi), Assur (da Assíria) e, entre numerosos outros, Javé (dos antigos hebreus). Em sua corte de muitos deuses (ou anjos) luminosos eram escritas anualmente as Tábuas do Destino. E os sete céus dos planetas girando abaixo, em andares, eram representados no período da Assíria (c. 1100-630 a.C.) pelos sete terraços na encosta da montanha do zigurate, enquanto debaixo da terra, no abismo, a terrível deusa Ereshkigal, da Terra-sem-Retorno, era alcançada depois de atravessados sete portões. No reino de trevas desta deusa, chamado Arallu, uma horda de monstros e almas penadas, privados ao morrer dos últimos ritos de sepultamento, vagavam deploravelmente em forma de pássaros horrendos.
Assim, na iconografia dos primeiros focos de civilização, as cidades sumérias da Mesopotâmia ribeirinha, que floresceram mais ou menos entre 3500 e 2000 a.C. e criaram a ordem simbólica da cidade-estado hierática, vê-se a fonte comum das visões mitológicas do universo tanto orientais quanto ocidentais. Entretanto, um processo diferenciador separou claramente e transformou as duas ao longo do tempo. Pois nota-se no Ocidente, de acordo com nossa ênfase característica na dignidade da vida individual - para cada alma um nascimento, uma morte, um destino, uma maturação da personalidade - que, seja no céu, no purgatório ou no inferno, o visitante visionário logo reconhece os falecidos. Maomé, no céu, falou com seus leais e valentes amigos, da mesma forma que Dante em sua jornada o fez, tanto com os condenados quanto com os salvos. E também nas visitas gregas e romanas ao mundo ínfero, tanto Ulisses quanto Enéas falaram com seus amigos falecidos. No Oriente não há tal continuidade da personalidade. O centro de atenção não é o indivíduo, mas a mônada (o jiva reencarnado) à qual não pertence intrinsecamente nenhuma individualidade, mas que passa adiante, como um navio através das ondas, de uma personalidade para outra: ora larva, ora deus, demônio, rei ou alfaiate.
Encontramos, portanto, como observou Heinrich Zimmer, que nos céus e infernos orientais, embora multidões de seres sejam representados em suas agonias e regozijos, nenhum conserva as características de sua personalidade terrena. Alguns conseguem lembrar-se de ter estado em outro lugar e saber qual foi o ato que precipitou o atual castigo; contudo, em geral estão todos imersos e perdidos em seu estado. Da mesma forma como qualquer cão está absorvido na condição de ser exatamente o cão que ele é, fascinado pelos detalhes de sua vida atual - como nós mesmos, em geral, estamos fascinados pelas nossas atuais existências pessoais -, assim estão os seres nos outros mundos hinduístas, jainistas e budistas. Eles são incapazes de recordar qualquer condição anterior, qualquer traje usado durante uma existência anterior; eles se identificam só com o que são agora. E isso, do ponto de vista indiano, é justamente o que eles não são.
Enquanto o típico herói ocidental é uma personalidade e, por isso, necessariamente trágico, condenado a ver-se enredado seriamente na agonia e mistério da temporalidade, o herói oriental é a mônada: sem caráter em essência, uma imagem de eternidade, intocada pelos envolvimentos ilusórios da esfera mortal ou liberta deles. E da mesma forma que no Ocidente a orientação para a personalidade se reflete no conceito e experiência até de Deus como uma personalidade, no Oriente, em total oposição, a compreensão dominante de uma lei absolutamente impessoal permeando e harmonizando todas as coisas reduz o acidente de uma vida individual a um mero borrão.

Joseph Campbell

A presença do divino


No mundo primitivo, onde temos que buscar a maioria dos indícios sobre a origem da mitologia, os deuses e demônios não são concebidos à maneira das realidades evidentes, rígidas e fixas. Um deus pode estar simultaneamente em dois ou mais lugares - como uma melodia ou sob a forma de uma máscara tradicional. E onde quer que ele surja, o impacto de sua presença é o mesmo: ele não é reduzido pela multiplicação. Além disso, a máscara em um festival primitivo é venerada e vivenciada como uma verdadeira aparição do ser mítico que ela representa - apesar de todo mundo saber que foi um homem quem fez a máscara e que é um homem que a está usando. Mas, durante o tempo do ritual do qual a máscara faz parte, aquele que a estiver usando é também identificado com o deus. Ele não apenas representa o deus; ele é o deus. O fato literal de que a aparição seja composta por A, uma máscara; B, sua referência a um ser mítico; e C, um homem, é rejeitado pela mente e isso dá lugar a que a apresentação funcione independente dos valores, tanto do observador quanto do ator. Em outras palavras, houve uma mudança de perspectiva, da lógica da esfera secular normal, onde as coisas são vistas como diferentes umas das outras, para a esfera teatral ou representativa, onde as coisas são aceitas pelo que são enquanto vivenciadas, e a lógica é a do "faz-de-conta", do "como se".
Todos nós conhecemos muito bem a convenção! É um artifício primário, espontâneo e mágico das crianças, pelo qual o mundo pode ser, em um passe, transformado de banal em mágico. E sua inevitabilidade na infância é uma daquelas características universais do homem, que nos unem em uma família. Consequentemente, é um dado primário da ciência do mito, que se ocupa precisamente do fenômeno da crença auto-induzida.
"Um professor", escreveu Leo Frobenius em um famoso ensaio sobre a força do mundo demoníaco (daimoniacós) na infância, "está escrevendo em sua mesa de trabalho e sua filha de quatro anos está correndo pela sala. Ela não tem nada para fazer e o está perturbando. Então, ele dá a ela três palitos de fósforo queimados, dizendo: 'Olhe, brinque com isto', e ela senta-se no tapete e começa a representar, com os fósforos, Joãozinho, Mariazinha e a bruxa. Assim passa um bocado de tempo, durante o qual o professor se concentra em seu trabalho sem ser interrompido. Até que, de repente, a menina grita aterrorizada. O pai corre, perguntando: 'O que é? O que aconteceu?' A menina corre para ele, mostrando todos os sinais de pânico. 'Papai, papai', ela grita, 'tire a bruxa daqui! Não suporto mais a bruxa!"
"Uma explosão emocional", observa Frobenius,

é característica de uma mudança espontânea de uma ideia, do nível dos sentimentos para o da consciência sensorial. Além do mais, o surgimento de tal explosão obviamente significa que determinado processo espiritual se completou. O palito de fósforo não é uma bruxa; tampouco o era para a menina no início da brincadeira. O processo, portanto, está no fato de o fósforo ter-se transformado numa bruxa no nível dos sentimentos e a conclusão do processo coincide com a transferência dessa ideia para o plano da consciência. A observação do processo escapa à avaliação do pensamento consciente, pois ela entra na consciência apenas após ou no momento da conclusão. Entretanto, desde que a ideia é, ela deve ter-se tornado. O processo é criativo, no melhor sentido da palavra; pois, como vimos, para uma criança um palito de fósforo pode tornar-se uma bruxa. Concluindo: a fase do tornar-se ocorre no nível dos sentimentos, enquanto a do ser está no plano consciente.

Na missa católica romana, por exemplo, quando o padre, citando as palavras de Cristo na Última Ceia, pronuncia a fórmula da consagração - com máxima solenidade - primeiro sobre a hóstia (Hoc est enim Corpus meum: "pois este é o Meu Corpo") e depois sobre o cálice de vinho (Hic est enim Calix Sanguinis mei, novi et aeterni Testamenti: Mysterium fidei: qui pro vobis et pro multis effundetur in remissionen peccatorum: "pois este é o Cálice do Meu Sangue, do novo e eterno Testamento: o Mistério da fé: o qual será derramado para vós e para muitos até a remissão dos pecados"), é de se supor que o pão e o vinho se tornem o corpo e o sangue de Cristo, que cada fragmento da hóstia e cada gota do vinho sejam, de fato, o Salvador do mundo vivo. O sacramento, portanto, não é concebido para ser uma referência, um mero sinal ou símbolo para despertar em nós uma série de reflexões; ele é o próprio Deus, o Criador, o Juiz e Salvador do Universo, que aqui vem atuar diretamente sobre nós, para livrar nossas almas (criadas à Sua imagem) dos efeitos da Queda de Adão e Eva no Jardim do Éden (o qual, devemos supor, existiu como uma realidade geográfica).
De maneira semelhante, na Índia acredita-se que, em resposta às fórmulas de consagração, as divindades descerão graciosamente para infundir sua substância divina às imagens dos templos, que são então chamadas de seus tronos ou assentos. Também é possível - e, em algumas seitas da Índia, até esperado - que o próprio indivíduo se torne uma morada da divindade. No Gandharva Tantra está escrito, por exemplo: "Ninguém que não seja ele próprio divino pode, com êxito, adorar uma divindade"; e, ainda: "Tendo-se tornado a divindade, a pessoa deveria oferecer-lhe sacrifício".
Além do mais, é ainda possível a um oficiante realmente dotado descobrir que tudo - absolutamente tudo - se tornou o corpo de um deus, ou revela a onipresença de Deus como o fundamento de todos os seres. Há uma passagem, por exemplo, entre as conversações do mestre espiritual bengali do século XIX, Ramakrishna, na qual ele descreve uma dessas experiências. "Um dia", diz-se que ele relatou, "foi-me revelado subitamente que tudo é Puro Espírito. Os objetos de adoração, o altar, o caixilho da porta - tudo Puro Espírito. Homens, animais e outros seres vivos - tudo Puro Espírito. Então, como um louco, eu comecei a jogar flores em todas as direções. O que quer que eu visse, eu adorava".
A fé - ou, pelo menos, o jogo do "como se" - é o primeiro passo em direção a tal arrebatamento divino. Nas crônicas dos santos abundam relatos de longas provações auto-impostas, que precederam seus momentos de arrebatamento. E, ilustrando o princípio em questão, temos ainda os jogos e exercícios religiosos populares, mais espontâneos (dos leigos). O espírito do festival, o feriado, o dia santo do cerimonial religioso, requer que a atitude normal diante das preocupações da vida seja temporariamente posta de lado em favor de uma disposição especial para se engalanar. Enfeita-se o mundo. Assim, nos santuários religiosos consagrados - templos e catedrais, onde uma atmosfera de santidade paira permanentemente - deve-se impedir a intromissão da lógica da realidade fria e dura, para não acabar com o encantamento. O gentio, o "desmancha-prazeres", o positivista, que não pode ou não quer participar, tem que ser mantido à distância. Daí as figuras guardiãs que ladeiam as entradas dos lugares sagrados: leões, touros ou guerreiros temíveis com suas armas empunhadas. Elas estão ali para manter afastados os "desmancha-prazeres", os defensores da lógica aristotélica, para quem A jamais pode ser B; para quem o ator jamais deve confundir-se com o papel; para quem a máscara, a imagem, a hóstia consagrada, a árvore ou o animal não podem tornar-se Deus, mas apenas uma referência. Tais pensadores analíticos devem ser mantidos fora. Porque o único propósito de se entrar num santuário ou participar de uma festividade é deixar-se tomar pelo estado que na Índia é conhecido como "a outra mente" (em sânscrito, anya-manas: "disposição mental ausente, possuído por um espírito"), em que se está "fora de si", encantado, separado de sua própria lógica de autopossessão e subjugado pela força de uma lógica "não dissociativa" - na qual A é B e C também é B.
"Um dia", disse Ramakrishna, "enquanto adorava Shiva, eu estava a ponto de atirar em oferenda uma folha de bilva na cabeça da imagem, quando me foi revelado que este universo é, ele próprio, Shiva. Outro dia, quando estava colhendo flores, foi-me revelado que cada planta era um ramalhete adornando a forma universal de Deus. Aquilo foi o fim da minha coleta de flores. Eu olho para o homem exatamente da mesma maneira. Quando vejo um homem, vejo que é o Próprio Deus, andando na terra, balançando-se para lá e para cá, como se fosse um coxim flutuando sobre as ondas".
Desse ponto de vista, o universo é o assento de uma divindade, que não nos é possível perceber com nosso estado comum de consciência. Mas, participando no jogo dos deuses, damos um passo em direção a essa realidade que é, em última instância, a realidade de nós mesmos. Daí o êxtase, as sensações de deleite e a sensação de renovação, harmonia e recriação! No caso do santo, a representação leva ao arrebatamento - como no caso da menininha, para quem o palito de fósforo se revelou uma bruxa. Então, pode-se perder o contato com a orientação do mundo e a mente pode permanecer capturada nesse outro estado. Dessa maneira é impossível retornar a este outro jogo, o jogo da vida no mundo. Os santos são possuídos por Deus; isso é tudo o que conhecem na terra e tudo o que precisam conhecer. E podem contagiar sociedades inteiras, de maneira que elas, inspiradas por seus arrebatamentos, podem igualmente romper o contato com o mundo e refutá-lo como ilusório ou daninho. A vida secular pode então ser interpretada como um pecado - a perda da Graça, Graça que é o êxtase do festival divino.
Mas há outra atitude, mais compreensiva, que deu beleza e amor aos dois mundos: a chamada lila, "o jogo", como foi denominado no Oriente. O mundo não é condenado e evitado como um pecado, mas voluntariamente assumido como um jogo ou dança, onde o espírito brinca.
Ramakrishna fechou os olhos. "É apenas isso?", perguntou. "Deus existe apenas quando os olhos estão fechados e desaparece quando estão abertos?" Ele abriu os olhos. "O jogo pertence a Ele, a quem pertence a Eternidade, e a Eternidade pertence a Ele, a quem o Jogo pertence... Algumas pessoas sobem os sete andares de um prédio e não conseguem descer; mas outras sobem e então, à vontade, visitam os andares inferiores."
A questão então torna-se apenas: quanto uma pessoa pode subir ou descer sem perder a noção do jogo? O Prof. Huizinga observa que em japonês o verbo asobu, que se refere a jogar em geral - recreação, relaxamento, diversão, passeio ou excursão, dissipação, jogos de azar, andar à toa ou estar desempregado - também significa estudar na universidade ou com um mestre; igualmente, envolver-se em um combate simulado; e, por último, participar nas formalidades muito estritas da cerimônia do chá.

Joseph Campbell

O diálogo mítico entre o Ocidente e o Oriente


O mito do eterno retorno, que continua sendo essencial na vida oriental, revela uma ordem de formas imutáveis que surgem e ressurgem ao longo do tempo. A rotação diária do sol, o minguar e o crescer da lua, o ciclo do ano e o ritmo de nascimento, morte e renascimento no mundo orgânico, representam um milagre de surgimento contínuo, fundamental à natureza do universo. Todos conhecemos o mito arcaico das quatros idades - do ouro, da prata, do bronze e do ferro - em que o mundo é mostrado em seu declínio, sempre para pior. Em seu devido tempo ele se desintegrará no caos, apenas para ressurgir, viçoso como uma flor, e recomeçar espontaneamente seu curso inevitável. Jamais houve um tempo em que não houvesse tempo. Tampouco haverá um tempo em que esse jogo caleidoscópico da eternidade no tempo deixe de existir.
Não há, portanto, nada a ser ganho, nem pelo universo nem pelo homem, através de originalidade e esforço individuais. Aqueles que se apegaram ao seu corpo mortal e a suas afeições, necessariamente acharão tudo muito penoso, pois tudo - para eles - terá que acabar. Mas para aqueles que encontraram o ponto imóvel da eternidade, em volta do qual tudo gira, inclusive eles próprios, tudo é aceitável da maneira como é, e pode ser vivenciado como magnífico e maravilhoso. O primeiro dever do indivíduo é, portanto, simplesmente exercer o papel que lhe é atribuído - como o fazem o sol e a lua, as várias espécies animais e vegetais, as águas, as rochas e as estrelas - sem resistência, sem negligência, e então, se possível, orientar a mente de maneira a identificar sua consciência com o princípio contido no todo.
O encantamento onírico dessa tradição contemplativa, orientada metafisicamente, onde a luz e as trevas dançam juntas no fogo cósmico de sombras criador do mundo, traz até os tempos modernos uma imagem de idade incalculável. Em sua forma primitiva, ela é simplesmente conhecida entre as aldeias tropicais da vasta zona equatorial que se estende da África, em direção leste, através da Índia, Sudeste Asiático e Oceania, até o Brasil, onde o mito básico é o da idade dos sonhos do princípio, quando não havia nem morte e nem nascimento e que, entretanto, acabou quando foi cometido um assassinato. O corpo da vítima foi cortado e enterrado. E das partes enterradas não apenas surgiram as plantas comestíveis das quais a comunidade vive: também surgiram os órgãos reprodutivos naqueles que comeram de seus frutos. Foi assim que a morte, que chegou ao mundo através de um assassinato, foi contrabalançada por seu oposto, a geração, e a vida, essa coisa que se autoconsome e que vive da própria vida, iniciou seu interminável curso.
Em todas as selvas do mundo abundam não apenas cenas violentas entre animais, mas também espantosos ritos humanos de comunhão canibal, representando dramaticamente - com a força de um choque iniciatório - a cena do assassinato, o ato sexual e o banquete do princípio, quando a vida e a morte, que haviam sido uma, tornaram-se duas, e os sexos, que antes eram um, tornaram-se dois. As criaturas passam a ter existência, vivem da morte de outras, morrem e tornam-se alimento de outras, perpetuando através das transformações do tempo o arquétipo sem-tempo do princípio mitológico. O indivíduo, neste contexto, não é mais importante do que uma folha caída. Do ponto de vista psicológico, o efeito da prática de tal rito é retirar o foco da mente do individual - que perece - e colocá-lo no grupo - que permanece. Do ponto de vista mágico, reforça a vida perene em todas as vidas, que parecem muitas, mas na verdade são uma só, estimulando assim o crescimento do inhame, do coco, dos porcos, da lua, da fruta-pão, bem como da comunidade humana.
Sir James Frazer, em O Ramo Dourado, mostrou que nas primeiras cidades-estados do Oriente Próximo, de cujo centro se originaram todas as civilizações avançadas do mundo, reis-deuses eram sacrificados em conformidade com esse rito selvagem. E a escavação de Sir Leonard Wooley das tumbas reais de Ur, nas quais cortes inteiras haviam sido cerimonialmente enterradas vivas, revelou que na Suméria tais práticas continuaram até aproximadamente 2350 a.C. Sabemos, além do mais, que na Índia, no século XVI da nossa era, foram observados reis retalhando cerimonialmente a si próprios, e nos templos da deusa negra Kali, a terrível de muitos nomes, "difícil de ser abordada" (durga), cujo estômago é um vácuo que jamais pode ser preenchido e cujo útero está eternamente parindo todas as coisas, um rio de sangue de oferendas decapitadas tem fluido continuamente por milênios através de canais abertos para devolver esse sangue, ainda vivo, à sua fonte divina.
Até hoje setecentas ou oitocentas cabras são abatidas em três dias no Kalighat, o principal templo da deusa em Calcutá, durante seu festival de outono, o Durga Puja. As cabeças são empilhadas diante da imagem e os corpos vão para os devotos, para serem consumidos em comunhão contemplativa. Búfalos, ovelhas, porcos e aves também são imolados prodigamente em adoração a ela e, antes da proibição do sacrifício humano em 1835, ela recebia de todas as partes do país banquetes ainda mais abundantes. Em Tanjore, no templo dedicado a Shiva, uma criança do sexo masculino era decapitada diante do altar da deusa todas as sextas-feiras na hora sagrada do crepúsculo. No ano de 1830, um insignificante monarca de Bastar, desejando sua graça, sacrificou-lhe em uma ocasião vinte e cinco homens em seu altar em Danteshvari e, no século XVI, um rei de Cooch Behar imolou cento e cinquenta no mesmo local.
Nas montanhas Jaintia, no Assam, era costume de uma certa casa real oferecer todos os anos uma vítima humana durante o Durga Puja. Depois de ter-se banhado e purificado, o sacrificado era vestido com roupas novas, coberto com sândalo e vermelhão, adornado com grinaldas, e dessa maneira instalado sobre uma plataforma elevada diante da imagem, onde passava algum tempo em meditação, repetindo sons sagrados e, quando pronto, fazia um sinal com o dedo. O carrasco, também pronunciando sílabas sagradas, primeiro elevava a espada e em seguida cortava a cabeça do homem, que logo era ofertada à deusa numa bandeja de ouro. Os pulmões, depois de cozidos, eram consumidos pelos iogues, e a família real compartilhava uma pequena porção de arroz embebido no sangue sacrificial. Os que eram oferecidos em tais sacrifícios eram habitualmente voluntários. Entretanto, quando se carecia deles, eram sequestrados fora do pequeno feudo. Assim aconteceu em 1832, quando quatro homens desapareceram do domínio britânico, dos quais um escapou para contar a história, e no ano seguinte o reino foi anexado - sem esse costume.
"Por cada sacrifício humano acompanhado de seus devidos ritos, a deusa fica agradecida mil anos", podemos ler no Kalika Purana, uma escritura hindu datada de cerca do século X da nossa era; "e pelo sacrifício de três homens, cem mil anos. Shiva, em seu aspecto terrífico, como consorte da deusa, é aplacado durante três mil anos por uma oferenda de carne humana. Pois o sangue, se imediatamente consagrado, torna-se ambrosia, e, como a cabeça e o corpo são extremamente gratificantes, deveriam ser oferecidos nas devoções à deusa. O sábio faria bem se acrescentasse tais carnes, livres de pêlos, às suas oferendas de comida."
No jardim da inocência, onde tais ritos podem ser realizados com perfeita equanimidade, tanto a vítima quanto o sacerdote sacrificial são capazes de identificar sua consciência com o princípio contido no todo. Eles podem verdadeiramente dizer e sentir, nas palavras da Bhagavad Gita, que "assim como as roupas gastas são jogadas fora e as novas são vestidas, também corpos gastos são jogados fora pelo habitante do copo e novos são vestidos".
Para o Ocidente, entretanto, a possibilidade de retorno a tal estado sem ego, anterior ao nascimento da individualidade, não existe há muito tempo, e pode-se considerar que o primeiro estágio importante da separação ocorreu naquela mesma parte do Oriente Próximo nuclear, onde os primeiros reis-deuses e suas cortes foram sepultados ritualmente durante séculos: na Suméria, onde a separação das esferas divina e humana começou a ser representada no mito e no ritual por volta de 2350 a.C. O rei, então, não era mais um deus, mas um servo de deus, seu "lugar-tenente na terra", supervisor da raça de escravos humanos criada para servir aos deuses com labuta incessante. E a questão suprema já não era a da identidade, mas a da relação. O homem tinha sido feito não para ser Deus, mas para conhecê-lo, honrá-lo e servi-lo; de modo que o próprio rei - que de acordo com a visão mitológica anterior tinha sido a principal personificação da divindade na terra - era apenas um sacerdote oferecendo sacrifício em honra Àquele acima, não um deus retornando, ele mesmo, em sacrifício dedicado ao Si-Próprio.
No curso dos séculos seguintes, um novo sentido de separação levou a uma aspiração inversa de retorno, isto é: não à identidade, pois já não era mais possível conceber isso (criador e criatura não eram o mesmo), mas à presença e visão do deus perdido. Em consequência, a nova mitologia produziu, no devido tempo, um processo que se afastava da visão estática anterior de ciclos repetidos. Assim, de uma criação feita no princípio do tempo de uma só vez e para sempre, de uma queda subsequente e de uma obra de restauração ainda em curso, surge uma mitologia progressiva de orientação temporal. O mundo não mais era para ser conhecido como mera demonstração no tempo dos paradigmas da eternidade, mas como um campo de conflito cósmico inaudito entre as duas forças, a da luz e a das trevas.
O primeiro profeta dessa mitologia de restauração cósmica foi, ao que parece, o persa Zoroastro, cujas datas, entretanto, não foram fixadas com segurança. Elas foram situadas variadamente entre cerca de 1200 a 550 a.C., de maneira que, como Homero (de mais ou menos a mesma datação), ele talvez devesse ser olhado mais como símbolo de uma tradição do que como específica ou exclusivamente um homem. O sistema associado a seu nome está baseado na ideia de um conflito entre o senhor sábio, Ahura Mazda, "primeiro pai da Ordem Justa, que determinou o rumo do sol e das estrelas", e um princípio independente do mal, Angra Mainyu, o Impostor, princípio da mentira que, quando tudo estava perfeitamente acabado, penetrou em cada partícula. O mundo, em consequência, é um complexo dentro do qual o bem e o mal, a luz e as trevas, a sabedoria e a violência, estão disputando a vitória. E o privilégio e dever de cada homem - que, como parte da criação, é ele próprio um composto de bem e mal - é escolher, voluntariamente, participar da luta em defesa da luz. Supõe-se que com o nascimento de Zoroastro, doze mil anos após a criação do mundo, o conflito experimentou uma mudança decisiva em favor do bem, e que quando ele retornar, passados outros doze milênios, na pessoa do messias Saoshyant, ocorrerá a batalha final e a conflagração cósmica, através da qual o princípio das trevas e a mentira serão destruídos. Depois disso, tudo será luz, não haverá mais história e o Reino de Deus (Ahura Mazda) terá sido fundado em sua forma pristina para sempre.
É evidente que para a reorientação do espírito humano seria necessária aqui uma poderosa fórmula mítica, capaz de arremessar esse espírito para a frente no decorrer do tempo e de convocar o homem a assumir uma responsabilidade autônoma pela renovação do universo em nome de Deus. Capaz também de promover uma nova e potencialmente política (ou seja, não-contemplativa) filosofia de guerra santa. Diz uma oração persa: "Que possamos ser como aqueles que causam a renovação e o progresso deste mundo, até que sua perfeição seja atingida".
A primeira manifestação histórica da força dessa nova visão mítica ocorreu no império aquemênida de Ciro, o Grande (morto em 529 a.C.), e Dario I (que reinou de cerca de 521 a 486 a.C.), que em algumas décadas estendeu seu domínio da Índia à Grécia e sob cuja proteção os hebreus do pós-êxodo tanto reconstruíram seu templo (Ezra 1:1-11) como reconstruíram sua herança tradicional. A segunda manifestação histórica dessa nova visão foi a aplicação por parte dos hebreus de sua mensagem universal a si próprios; a seguinte foi a missão mundial do cristianismo e a quarta, a do islamismo.
"Ampliem o lugar de suas tendas e deixem abertas as cortinas de suas habitações; não recuem, estendam suas cordas e fortaleçam suas estacas. Pois vocês se dispersarão para o exterior para a direita e para a esquerda e seus descendentes possuirão as nações, e o povo escolhido, as cidades abandonadas (Isaías 54:2-3; cerca de 546-536 a.C.).
"E esse evangelho do reino será pregado em todo o mundo como testemunho para todas as nações, e então chegará o fim" (Mateus 24:14; cerca de 90 d.C.).
"E mate-os onde quer que os encontre, e expulse-os de onde eles o expulsaram; pois o tumulto e a opressão são piores que a matança. (...) E combata-os até não haver mais tumulto ou opressão e ali prevalecer a justiça e a fé em Alá; mas se eles cessarem, não permita que haja hostilidade, exceto para aqueles que praticam a opressão" (Alcorão 2:191, 193; cerca de 632 d.C.).
Duas mitologias completamente opostas sobre o destino e virtude humanos, portanto, chegaram juntas ao mundo moderno. E ambas estão contribuindo com qualquer nova sociedade que possa estar em processo de formação. Pois, da árvore que cresce no jardim onde Deus anda no frescor do dia, os sábios a oeste do Irã compartilharam do fruto do conhecimento do bem e do mal, enquanto os do outro lado daquele limite cultural, na Índia e Extremo Oriente, provaram apenas do fruto da vida eterna. Entretanto, os dois galhos, somos informados, unem-se no centro do jardim, onde formam uma única árvore na base, ramificando-se quando atingem uma certa altura. Igualmente, as duas mitologias originam-se de uma única base no Oriente Próximo. E se o homem provasse de ambos os frutos ele se tornaria, disseram-nos, como o próprio Deus (Gênese 3:22) - o que constitui a benção que o encontro do Oriente e do Ocidente hoje nos oferece a todos.

Joseph Campbell
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