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8 de outubro de 2017

Ópio


Havia ruas inteiras dedicadas ao ópio... Os fumadores deitavam-se sobre baixas tarimbas... Eram os verdadeiros lugares religiosos da Índia... Não tinham nenhum luxo, nem tapeçarias, nem coxins de seda... Era tudo madeira por pintar, cachimbos de bambu e almofadas de louça chinesa... Pairava ali uma atmosfera de decência e austeridade que não existia nos templos... Os homens adormecidos não faziam movimento ou ruído... Fumei um cachimbo... Não era nada... Era um fumo caliginoso, morno e leitoso... Fumei quatro cachimbos e estive cinco dias doente, com náuseas que vinham da espinha dorsal, que me desciam do cérebro... E um ódio ao sol, à existência... O castigo do ópio... Mas aquilo não podia ser tudo... Tanto se dissera, tanto se escrevera, tanto se vasculhara nas maletas e nas malas, tentando apanhar nas alfândegas o veneno, o famoso veneno sagrado... Era preciso vencer a repugnância... Devia conhecer o ópio, provar o ópio, afim de dar o meu testemunho... Fumei muitos cachimbos, até que conheci... Não há sonhos, não há imagens, não há paroxismos... Há um enfraquecimento metódico, como se uma nota infinitamente suave se prolongasse na atmosfera... Um desvanecimento, um vácuo dentro de nós... Qualquer movimento do cotovelo, da nuca, qualquer som distante de carruagem, uma buzinadela ou um grito de rua, começam a fazer parte de um todo, de uma repousante delícia... Compreendi as razões por que os trabalhadores de plantação, os jornaleiros, os rickshamen que puxam e continuam a puxar o ricksha dia após dia, ficavam ali de súbito, escurecidos, imóveis... O ópio não era o paraíso de seres exóticos que me tinham pintado, mas a evasão dos exploradores... Todos os clientes da casa do fumo eram pobres diabos... Não havia nenhum coxim bordado, nenhum indício da menor riqueza... Nada brilhava no recinto, nem sequer os semicerrados olhos dos fumadores... Descansavam, dormiam?.... Nunca o soube... Ninguém falava... Ninguém falava nunca... Não havia móveis, tapetes, nada... Sobre as tarimbas surradas, suavíssimas ao tato humano, viam-se umas pequenas almofadas de madeira... Nada mais, além do silêncio e do aroma do ópio, estranhamente repulsivo e poderoso... Existia ali, sem dúvida, um caminho para o aniquilamento... O ópio dos magnatas, dos colonizadores, destinava-se aos colonizados... As casas de fumo tinham à porta a autorização legal, com o número e o registro... No interior reinava um grande silêncio opaco, uma inação que abrandava a desdita e adoçava a fadiga... Um silêncio caliginoso, sedimento de muitos sonhos mutilados que encontravam o seu remanso... Aqueles que sonhavam, com os olhos semicerrados, viviam uma hora submersos pelo mar, uma noite inteira numa colina, gozando um repouso sutil e deleitoso...
Depois daquela vez, não voltei às casa de ópio... Já sabia... Já conhecia... Já havia alcançado algo de inapreensível... remotamente escondido por detrás do fumo... 
 
Pablo Neruda

8 de agosto de 2017

A palavra


Tudo o que você quiser, sim senhor, mas são as palavras que cantam, que sobem e descem... Prosterno-me diante delas... Amo-as, abraço-as, persigo-as, mordo-as, derreto-as... Amo tanto as palavras... As inesperadas... As que glutonamente se amontoam, se espreitam, até que de súbito caem... Vocábulos amados... Brilham como pedras de cores, saltam como irisados peixes, são espuma, fio, metal, orvalho... Persigo algumas palavras... São tão belas que quero pô-las a todas no meu poema... Agarro-as em voo, quando andam a adejar, e caço-as, limpo-as, descasco-as, preparo-me diante do prato, sinto-as cristalinas, vibrantes, ebúrneas, vegetais, oleosas, como frutas, como algas, como ágatas, como azeitonas... E então revolvo-as, agito-as, bebo-as, trago-as, trituro-as, alindo-as, liberto-as... Deixo-as como estalactites no meu poema, como pedacinhos de madeira polida, como carvão, como restos de naufrágio, presentes das ondas... Tudo está na palavra... Uma ideia inteira altera-se porque uma palavra mudou de lugar, ou porque outra se sentou como um reizinho dentro de uma frase que não a esperava, mas que lhe obedeceu... Elas têm sombra, transparência, peso, penas, pêlos, têm de tudo quanto se lhes foi agregando de tanto rolar pelo rio, de tanto transmigrar de pátria, de tanto serem raízes... São antiquíssimas e recentíssimas... Vivem no féretro escondido e na flor que desponta... Que bom idioma o meu, que boa língua herdamos dos torvos conquistadores... Andavam a passo largo pelas tremendas cordilheiras, pelas Américas encrespadas, em busca de batatas, chouriços, feijões, tabaco negro, ouro, milho, ovos fritos, com aquele voraz apetite que nunca mais se viu no mundo... Tudo engoliam, juntamente com as religiões, pirâmides, tribos, idolatrias iguais às que traziam nas grandes bolsas... Por onde passavam ficava arrasada a terra... Mas aos bárbaros caíam das botas, das barbas, dos elmos, das ferraduras, como pedrinhas, as palavras luminosas que ficaram aqui, resplandecentes... o idioma. Ficamos a perder... Ficamos a ganhar... Levaram o ouro e deixaram-nos o ouro... Levaram tudo e deixaram-nos tudo... Deixaram-nos as palavras. 
 
Pablo Neruda
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