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8 de maio de 2018

Imagem de Deus


A natureza tem perfeições para mostrar que ela é a imagem de Deus, e imperfeições para mostrar que não é mais do que a imagem.

Blaise Pascal

7 de maio de 2018

Tadinho dele


Lamentar os infelizes não é contrário à concupiscência. Longe disso, grande é a satisfação de poder prestar esse testemunho de amizade e granjear fama de bons sentimentos sem nada dar.

Blaise Pascal

6 de maio de 2018

Sono, vigília e despertar


Como a metade de nossa vida se passa no sono, onde nós próprios reconhecemos que não temos nenhuma ideia do verdadeiro, e tudo que sentimos não é mais que ilusão, quem sabe se essa outra metade da vida em que pensamos estar acordados não é um outro sono um pouco diferente do primeiro, e do qual despertamos quando julgamos dormir?
E quem duvida que, se as pessoas sonhassem em companhia, e casualmente os sonhos se harmonizassem entre si, o que é bastante comum, e ficassem sós quando acordadas, acreditariam o inverso do que acreditam agora? E finalmente, como muitas vezes sonhamos que estamos sonhando e amontoamos um sonho sobre o outro, não será possível que essa metade da vida em que pensamos estar despertos também não seja mais do que um sonho sobre o qual vêm enxertar-se os outros, e de que despertamos ao morrer; que durante esse tempo conhecemos tão pouco os princípios da verdade e do bem como durante o sono natural; e que esses diferentes pensamentos que nele nos agitam não são, talvez, mais que ilusões, semelhantes ao transcurso do tempo e às vãs fantasias dos nossos sonhos?

Blaise Pascal

União com Deus


Incrível que Deus se una a nós.
Esta ideia só provém da consideração de nossa baixeza. Mas, se ela é bem sincera em vós, segui-a comigo até o fim e reconhecei que estamos efetivamente tão baixo que por nós mesmos somos incapazes de saber se a sua misericórdia não nos pode tornar capazes dele. Pois eu pergunto de onde vem a esse animal, que se reconhece tão fraco, o direito de medir a misericórdia de Deus e de traçar-lhe os limites que a sua fantasia lhe sugere. Tão longe de saber o que é Deus, que nem sequer sabe o que ele mesmo é; e, confuso à vista do seu próprio estado, ousa dizer que Deus não o pode tornar acessível à sua comunicação.
Mas eu gostaria de perguntar-lhe se Deus lhe pede outra outra coisa senão que o conheça e o ame; e porque julga que Deus não pode fazer-se conhecido e amado por ele, já que é naturalmente capaz de amor e de conhecimento. Indubitavelmente, ele sabe que ao menos existe e que ama alguma coisa. Portanto, se vê alguma coisa nas trevas em que anda, e se encontra algum objeto de amor entre as coisas da Terra, - por que, se Deus lhe concede algum raio da sua essência, não será ele capaz de conhecê-lo e de amá-lo segundo o modo por que lhe aprouver comunicar-se a nós? Não há dúvida, pois, que há uma presunção insuportável nessa espécie de raciocínios, embora pareçam fundados numa humildade aparente que nem é sincera, nem razoável, se não nos leva a confessar que, ignorando por nós mesmos quem somos, só podemos aprendê-lo de Deus.

Blaise Pascal

Ambição da glória


A maior baixeza do homem é a ambição da glória, mas esse é também o maior sinal da sua excelência; pois, por muitas riquezas que possua, por muita saúde e comodidade que desfrute, não está satisfeito se não goza a estima dos homens. Dá tanto valor à razão humana que, por mais vantagens materiais que tenha, se não ocupa também um lugar vantajoso na razão do homem, não está contente. É o mais belo lugar do mundo, nada pode dissuadi-lo desse desejo, e essa é a qualidade mais indelével do coração humano.
E os que mais desprezam os homens, igualando-os aos animais, ainda querem ser admirados e acreditados por eles, e contradizem a si mesmos pelo seu próprio sentimento: sua natureza, que é mais forte do que tudo, os convence da grandeza do homem com mais força do que a razão os convence da humana baixeza.

Blaise Pascal

4 de maio de 2018

A força das leis


É justo que seja obedecido o que é justo, e é necessário que se siga o mais forte. A justiça sem a força é impotente; a força sem a justiça é tirânica. A justiça sem força é contestada, porque sempre existem malvados; a força sem a justiça é acusada. É preciso, pois, unir a justiça e a força; e, com esse fim, com que o justo seja forte, ou com que o forte seja justo.
A justiça é muito sujeita à disputa, a força se reconhece muito facilmente sem disputa. Por isso não se pôde dar força à justiça, porque a força contestou a justiça e sustentou que ela é que era justa. E assim, como não se podia fazer com que o justo fosse forte, fez-se com que o forte fosse justo.

Blaise Pascal

1 de maio de 2018

Tempo presente


Jamais nos atemos ao tempo presente. Antecipamos o futuro, que nos parece demasiado lento a chegar, como se quiséssemos apressar a sua vinda; ou recordamos o passado como se quiséssemos retê-lo, por se afastar com excessiva rapidez: tão imprudentes que vagueamos através de outros tempos que não são os nossos, e não pensamos no único que nos pertence; e tão fúteis que pensamos naqueles que já nada são e escapamos sem refletir ao único que subsiste. É que o presente de ordinário nos ofende. Ocultamo-lo às nossas vistas porque nos aflige; e, se porventura nos é agradável, vemo-lo fugir com tristeza. Procuramos sustê-lo por meio do futuro e pensamos em dispor de coisas que não dependem de nós para um tempo a que não temos nenhuma certeza de chegar.
Que cada um examine os seus pensamentos: encontrá-los-á completamente ocupados com o passado e o futuro. Quase não pensamos no presente; e quando o fazemos, é apenas para planejar o futuro à sua luz. O presente nunca é o nosso fim: passado e presente são nossos meios, e só o futuro é nosso fim. De sorte que nunca vivemos, mas esperamos viver; e, preparando-nos constantemente para ser felizes, é inevitável que não o sejamos jamais.

Blaise Pascal

A miséria do divertimento


Quando me pus a considerar, por vezes, as diversas agitações dos homens e os perigos e fadigas a que se expõem na corte, na guerra, de onde nascem tantas disputas, empreendimentos ousados e tantas vezes condenáveis, etc., descobri que todas as desgraças dos homens provêm de uma só coisa, que é o não saberem ficar sossegados num aposento. Um homem que tivesse bens suficientes para viver, se soubesse ficar contente em sua casa, não sairia dela para aventurar-se no mar ou no cerco de uma praça. Ninguém compra por tão alto preço um posto no exército senão porque acha insuportável permanecer tranquilo na sua cidade; e só buscamos as conversações e os divertimentos dos jogos porque não podemos ficar sozinhos em nossa casa e sentir-nos felizes.
Mas quando examinei isso mais de perto, e depois de haver encontrado a causa de todas as nossas infelicidades, quis descobrir-lhes a razão, verifiquei que existe uma bem efetiva, que consiste na infelicidade natural de nossa condição débil e mortal, e tão miserável que nada nos pode consolar quando refletimos a fundo sobre ela.
Suponha-se a condição que se quiser, acrescentem-se-lhe todos os bens que podem pertencer ao homem, a realeza e o mais belo posto do mundo, e imaginem-se essas coisas acompanhadas de todas as satisfações que ele é capaz de gozar. Se lhe faltar divertimento e se o deixarem considerar e refletir sobre o que ele é, não será sustentado por essa precária felicidade; cairá necessariamente na representação das coisas que o ameaçam, das revoltas que podem ocorrer, e finalmente da morte e das doenças inevitáveis; de sorte que, se lhe faltar o que se chama divertimento, será um infeliz, e mais infeliz do que o mais ínfimo dos seus súditos, que joga e se diverte.
Por isso são tão procurados o jogo e a companhia das mulheres, a guerra e as grandes empresas. Não que haja realmente felicidade nisso, ou que alguém imagine que a verdadeira beatitude consista em possuir dinheiro que se ganhou ao jogo ou a lebre atrás da qual se corre: não os aceitaríamos se nos fossem oferecidos. O que buscamos não é esse hábito indolente e pacífico que nos dá ensejo de pensar na nossa desgraçada condição, nem os perigos da guerra, nem as fadigas dos empregos, mas sim a agitação que desvia o nosso pensamento dessas coisas e que nos distrai.
Razões pelas quais nos deleitamos mais na caça do que na presa.

Blaise Pascal

Embuste recíproco

 
A natureza do amor-próprio e deste eu humano é não amar e considerar senão a si mesmo. Mas que fará ele? Não pode impedir que esse objeto do seu amor seja cheio de defeitos e de misérias; quer ser grande, e vê-se pequeno; quer ser feliz, e vê-se miserável; quer ser perfeito, e vê-se crivado de imperfeições; quer ser o objeto do amor e estima dos homens, e percebe que os seus defeitos só lhes merecem a aversão e o desprezo. O dilema em que se encontra faz nascer nele a mais injusta e criminosa paixão que se possa imaginar, pois concebe um ódio mortal a essa verdade que o censura e convence dos seus defeitos. Desejaria aniquilá-la e, não podendo destruí-la em si mesma, destrói-a, tanto quanto possível, no seu conhecimento e no alheio, em outras palavras, põe o maior cuidado em ocultar seus defeitos aos outros e a si mesmo, e não pode suportar que lhos façam ver, nem que os vejam.
É, sem dúvida, um mal ser cheio de defeitos; mas é um mal ainda maior ser cheio deles e não querer reconhecê-los, pois isso lhes vem acrescentar o da ilusão voluntária. Não queremos que os outros nos enganem; não nos parece justo que pretendam ser estimados por nós mais do que o merecem: logo, não é justo, tampouco, que os enganemos e pretendamos que nos estimem mais do que merecemos.
Assim, quando não descobrem senão imperfeições e vícios que realmente possuímos, é evidente que não nos fazem nenhuma injustiça, visto não serem eles as causas do que denunciam; e não é menos evidente que nos fazem um bem por nos ajudarem a expurgar-nos de um mal, que é a ignorância dessas imperfeições. Não devemos irritar-nos com o fato de as conhecerem e de nos desprezarem, pois é justo que nos conheçam pelo que somos, e que nos desprezem se somos desprezíveis.
Eis aí os sentimentos que isso despertaria num coração cheio de equidade e de justiça. Que dizer, então, do nosso quando o vemos numa disposição inteiramente contrária? Pois não é verdade que odiamos a verdade e os que no-la declaram, e preferimos que se enganem em nosso proveito, e queremos que eles nos considerem diferentes do que na realidade somos?
(...)
Há diferentes graus nessa aversão pela verdade; mas podemos dizer que todos a tem em grau maior ou menor, visto que é inseparável do amor-próprio. É essa falsa delicadeza que obriga aqueles que se veem na necessidade de censurar os outros a usar de tantos rodeios e paliativos a fim de não chocá-los. É preciso que atenuem os nossos defeitos, que aparentem desculpá-los, que ponham de mistura alguns elogios e testemunhos de afeição e estima. Malgrado todas essas precauções, o remédio não deixa de ser amargo ao amor-próprio. Toma-o o menos possível, sempre com repugnância e muitas vezes até com um secreto rancor contra quem lho apresenta.
Resulta daí que aqueles que têm um interesse em captar nossa afeição abstêm-se de nos prestar um serviço que sabem ser-nos desagradável. Tratam-nos como queremos ser tratados: já que odiamos a verdade, eles no-la escondem; já que queremos ser lisonjeados, lisonjeiam-nos; já que nos apraz ser enganados, enganam-nos.
Isso faz com que, à medida que nossa posição social vai subindo, nos afastemos mais e mais da verdade, pois todos receiam ferir aqueles cuja afeição é mais útil e cuja aversão, mais perigosa. Um príncipe servirá de pasto à maledicência de toda a Europa, e ele será o único a ignorá-lo. Isso não me admira: dizer a verdade é útil a quem a ouve, mas prejudicial para os que a dizem, porque se fazem odiar. Ora os que convivem com os príncipes têm mais amor aos seus interesses do que aos do príncipe a quem servem; estão muito longe, pois, de querer oferecer-lhes um proveito em detrimento próprio.
Essa desgraça é, sem dúvida, maior e mais comuns nas posições mais elevadas; as menores, contudo, não estão isentas dela, porque há sempre algum interesse em fazer-se estimar pelos homens. De modo que a vida humana nada mais é do que uma perpétua ilusão; todos procuram lisonjear e enganar uns aos outros. Ninguém fala de nós em nossa presença como o faz na nossa ausência. A união que possa existir entre os homens só se funda nesse embuste recíproco, e poucas amizades subsistiriam se cada um soubesse o que o seu amigo diz dele quando não o tem a seu lado, ainda que nessas ocasiões fale desapaixonadamente e com sinceridade.
O homem não é, pois, mais do que disfarce, mentira e hipocrisia, em si mesmo e em relação aos outros. Não quer que lhe digam a verdade e evita dizê-la aos demais; e todas essas disposições, tão injustas e desarrazoadas, têm uma raiz natural no seu coração.
 
Blaise Pascal 

3 de outubro de 2017

A vida é um sonho um pouco menos inconstante


Se sonhássemos todas as noites a mesma coisa, ela afetar-nos-ia tanto como os objetos que vemos todos os dias. E, se um artista estivesse seguro de sonhar todas as noites, durante doze horas, que é um rei, creio que seria quase tão feliz como um rei que sonhasse todas as noites, durante doze horas, que era um artista.
Se sonhássemos todas as noites que somos perseguidos por inimigos, e agitados por esses fantasmas penosos, e se passássemos todos os dias em diversas ocupações, como quando se faz uma viagem, sofrer-se-ia quase tanto como se isso fosse verdadeiro, e apreender-se-ia o dormir como se apreende o despertar quando se teme entrar em semelhantes desgraças realmente. E, com efeito, isto faria pouco mais ou menos o mesmo mal que a realidade.
Mas, porque os sonhos são todos diferentes, e porque mesmo um se diversifica, o que se vê neles afeta bem menos que o que se vê acordado, por causa da continuidade, que não é contudo tão contínua e igual que não mude também, mas menos bruscamente, a não ser raramente, como quando se viaja; e então diz-se: "Parece-me que sonho"; pois a vida é um sonho um pouco menos inconstante. 
 
Blaise Pascal

23 de agosto de 2017

O presente inexistente


Nunca nos detemos no momento presente. Antecipamos o futuro que nos tarda, como para lhe apressar o curso; ou evocamos o passado que nos foge, como para o deter: tão imprudentes, que andamos errando nos tempos que não são nossos, e não pensamos no único que nos pertence; e tão vãos, que pensamos naqueles que não são nada, e deixamos escapar sem reflexão o único que subsiste. É que o presente, em geral, fere-nos. Escondemo-lo à nossa vista porque nos aflige; e se nos é agradável, lamentamos vê-lo fugir. Tentamos segurá-lo pelo futuro, e pensamos em dispor as coisas que não estão na nossa mão, para um tempo a que não temos garantia alguma de chegar.
Examine cada um os seus pensamentos, e há de encontrá-los todos ocupados no passado ou no futuro. Quase não pensamos no presente; e, se pensamos, é apenas para à luz dele dispormos o futuro. Nunca o presente é o nosso fim: o passado e o presente são meios, o fim é o futuro. Assim, nunca vivemos, mas esperamos viver; e, preparando-nos sempre para ser felizes, é inevitável que nunca o sejamos.
 
Blaise Pascal
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