28 de outubro de 2016

Mater


O estado do bebê no útero é o da bem-aventurança - uma bem-aventurança passiva - e esse estado pode ser comparado ao da beatitude no paraíso. No útero, o bebê é inconsciente da alternância do dia e da noite ou de qualquer das imagens da temporalidade. Não deveria surpreender, portanto, se as metáforas usadas para representar a eternidade sugerem, àqueles treinados no simbolismo do inconsciente infantil, o retorno ao útero.
Tem-se dito que o medo da escuridão, tão intenso nas crianças, é uma função de seu medo de retornar ao útero: o medo de que sua recém conquistada consciência da luz do dia e sua individualidade, ainda não firmada, sejam reabsorvidas.
As cavernas paleolíticas do sul da França e norte da Espanha - datadas pela maioria dos especialistas em 30000-10000 anos a.C. - foram certamente santuários, não apenas da magia de caça, mas também dos ritos da puberdade masculina. Uma terrível sensação de claustrofobia e, simultaneamente, de libertação de qualquer contexto do mundo lá fora, assalta a mente encerrada naqueles escuros abismos, onde a escuridão não é mais uma ausência de luz, mas uma força experimentada. E quando, naquelas cavernas, é lançada uma luz para revelar as belas pinturas de touros e mamutes, rebanhos de renas, cavalos em corrida, rinocerontes lanosos e xamãs dançando, as imagens assaltam a mente com marcas indeléveis. É óbvio que a ideia de morte-e-renascimento - renascimento através do ritual e com uma reorganização dos estímulos sinais profundamente estampados - é antiquíssima na história da cultura. Mesmo no período das cavernas paleolíticas, tudo se fazia com o intuito de induzir nos jovens, que eram simbolicamente privados da vida, uma reativação de seu medo infantil do escuro. O valor psicológico de tal "tratamento de choque", visando à destruição de uma estrutura de personalidade não mais desejada, parece ter sido metodicamente utilizado na bem testada crise pedagógica de lavagem cerebral e simultâneo recondicionamento dos mecanismos liberadores inatos, para a conversão de meninos em homens, caçadores seguros e defensores corajosos da tribo.
O conceito da terra como mãe, tanto gestadora quanto nutridora, foi fundamental nas mitologias das sociedades de caçadores, é do útero da terra que os animais de caça provêm, e descobrimos seus arquétipos eternos no mundo subterrâneo (ou terreiro de dança) dos ritos de iniciação - arquétipos dos quais os rebanhos na terra não são mais que manifestações seculares, enviados para alimentar o homem. Da mesma forma, para os agricultores, é no corpo da mãe que o grão é semeado: a aração da terra é a gestação e o crescimento do grão um nascimento. Além do mais, a ideia da terra como mãe e a do sepultamento como retorno ao útero para renascer, parece ter sido sustentada por algumas das comunidades da espécie humana em uma época extremamente remota. As primeiras evidências indiscutíveis de ritual e, portanto, do pensamento mitológico, são as sepulturas do Homo neanderthalensis, um remoto predecessor de nossa própria espécie, cujo período talvez seja datado em 200000-75000 anos a.C. Os esqueletos de Neandertal foram encontrados sepultados com provisões (sugerindo a ideia de outra vida), acompanhados de animais sacrificados (boi selvagem, bisão e cabra selvagem), orientados no sentido leste-oeste (o caminho do sol, o qual renasce da mesma terra em que são colocados os mortos), em posição fetal (como se estivessem no útero), ou numa posição de dormir - em um dos casos, com um travesseiro de lascas de sílex. Sono e morte, despertar e ressuscitar, a sepultura como retorno à mãe para renascer.

Joseph Campbell

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