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27 de outubro de 2016

O aroma do deserto


Os semitas não tinham meios-tons em seu registro de visão. Constituíam um povo de cores primárias, ou melhor, de preto e branco; viam o mundo sempre em contornos definidos. Constituíam um povo dogmático, que desprezava a dúvida, nossa moderna coroa de espinhos. Não compreendiam nossas dificuldades metafísicas, nossas indagações introspectivas. Conheciam apenas a verdade e a inverdade, a crença e a descrença, sem o nosso séquito hesitante de tonalidades mais sutis.
Sua maior produção era a de crenças; eram quase os monopolistas de religiões reveladas. Três desses esforços haviam persistido entre eles: dois deles também haviam sido exportados (em formas modificadas) para povos não-semitas. O cristianismo, traduzido para os espíritos diversos das línguas grega, latina e teutônica, conquistara a Europa e a América. O Islã, em várias transformações, estava submetendo a África e partes da Ásia. Eram sucessos semitas; os fracassos eles guardavam para si mesmos. As orlas de seus desertos estavam coalhadas de fés abandonadas.
Era significativo que essas ruínas de religiões abandonadas se espalhassem pela área em que o deserto se encontrava com a terra cultivada. Indicava o ponto de geração de todos esses credos. Eram asserções e não argumentos; portanto, exigiam um profeta para desencadeá-los. Os árabes diziam que houvera quarenta mil profetas; temos o registro de pelo menos algumas centenas. Nenhum deles pertenceu ao deserto, mas suas vidas pareciam seguir um padrão determinado. O nascimento os colocava em lugares apinhados. Um anseio intenso e incompreensível os levava ao deserto. Ali viviam por mais ou menos tempo, em meditação e abandono físico. Depois voltavam, com suas mensagens imaginadas perfeitamente definidas, a fim de pregá-las aos seus antigos - e agora duvidosos - companheiros. Os fundadores dos três grandes credos seguiram esse ciclo; a possível coincidência foi confirmada como lei pelas histórias paralelas de miríades de outros, os desafortunados que fracassaram, que não podemos julgar como inferiores em fé, mas apenas como homens para quem o tempo e a desilusão não haviam acumulado almas secas prontas a se incendiar. O impulso para o deserto sempre foi irresistível aos pensadores da cidade, provavelmente não porque lá encontrassem Deus, mas porque na solidão ouviam mais claramente a palavra viva que já levavam dentro de si.
A base comum de todos os credos semitas, vencedores ou perdedores, foi a ideia sempre presente de imprestabilidade do mundo. A reação profunda contra a matéria levava-os a pregar a austeridade, a renúncia, a pobreza; e a atmosfera dessa invenção sufocava implacavelmente as mentes do deserto. Um primeiro conhecimento de seu sentido de pureza da rarefação foi-me proporcionado logo no início, quando avançávamos muito longe pelas colinas ondulantes do norte da Síria, até ruínas do período romano, que os árabes acreditavam terem sido construídas por um príncipe da fronteira, como um palácio no deserto para sua rainha. Dizia-se que a argila da construção fora feita não com água, mas com preciosos óleos de flores. Meus guias, farejando o ar como cachorros, levaram-me de um canto em ruínas para outro, comentando na passagem: "Isto é jasmim, isto é violeta, isto é rosa".
Mas, finalmente, Dahoum chamou-me para um lado:
- Venha cheirar a mais doce de todas as fragrâncias.
Fomos para o aposento principal, cuja abertura da janela dava para leste. E ali aspiramos o vento sem esforço, vazio e sem turbulências do deserto, pulsando com o passado. Aquele suave sopro nascera em algum lugar além do distante Eufrates e se arrastara por muitos dias e noites através das planícies, até encontrar o primeiro obstáculo feito pelo homem, as paredes do palácio em ruínas. Em torno delas, parecia perdurar e se impacientar, murmurando nervosamente. E eles me disseram:
- Este é o melhor de todos. Não tem aroma.
Meus amigos árabes estavam virando as costas a perfumes e riquezas, optando pelas coisas em que a humanidade não tinha qualquer participação. O beduíno do deserto, nascido e criado no deserto, assumira com toda a sua alma essa nudez, inóspita demais para os voluntários. A verdade, sentida mas não definida, é que ali ele se descobria indubitavelmente livre. Perdia os vínculos materiais, confortos, todas coisas supérfluas e outras complicações, alcançando uma liberdade pessoal que desafiava a fome e a morte. Não via qualquer virtude na pobreza em si mesma: apreciava os pequenos vícios e luxos, como café, água fresca e mulheres, que ainda podia preservar. Em sua vida, tinha ar e vento, sol e luz, espaços abertos e um imenso vazio. Não havia esforço humano, não havia fecundidade na natureza; havia apenas o céu por cima e a terra impoluta por baixo. Ali, inconscientemente, ele chegava perto de Deus. O beduíno não podia procurar Deus dentro de si mesmo; estava absolutamente convencido de que era ele quem estava dentro de Deus.
 
Thomas Lawrence

24 de outubro de 2016

A verdadeira culinária árabe


Depois de um silêncio, o anfitrião ou seu representante se adiantava para perguntar "Preto ou branco?", um convite para escolhermos entre café e chá. Nasir sempre respondia "Preto", e o escravo se adiantava, com um bule de café numa das mãos e três ou quatro xícaras de louça branca retinindo na outra. Ele despejava alguns goles de café na primeira xícara e a estendia para Nasir. A segunda xícara era para mim, e a terceira para Nesib. Havia uma pausa, enquanto girávamos as xícaras lentamente, tomando o café devagar, a fim de desfrutar ao máximo o líquido saboroso.
Assim que as xícaras ficavam vazias, o escravo as recolhia, uma por cima da outra, ruidosamente, oferecendo-as com um floreio menor aos hóspedes seguintes; e assim por diante, até que todos fossem servidos. E depois ele voltava a Nasir. A segunda xícara era ainda mais saborosa do que a primeira, em parte porque o café no fundo do bule sofrera maior infusão, em parte por causa dos resíduos existentes no fundo das xícaras depois de tantos bebedores anteriores; a terceira e quarta rodadas, se servidas por estar a carne demorando muito, apresentavam um sabor surpreendente.
Finalmente, dois homens avançavam cambaleando entre a multidão excitada, carregando a travessa de cobre com arroz e carne, com um metro e meio de comprimento, instalada numa armação, como um grande braseiro. Havia apenas uma travessa daquele tamanho na tribo, com uma inscrição em caracteres árabes: "À glória de Deus, na confiança de sua misericórdia, a propriedade de seu pobre suplicante, Auda abu Tayi". O anfitrião que nos recebia tomava-a emprestada para a ocasião. Como meu cérebro inquieto e meu corpo alerta deixavam-me vigilante desde a primeira claridade do amanhecer, eu sempre via a travessa circulando pelo acampamento e, por seu destino, sabia onde seríamos alimentados naquele dia.
A travessa vinha transbordando: a margem de mais de um palmo de largura e uns quinze centímetros de profundidade coberta por arroz branco, tendo no meio pedaços de carneiro empilhados. Havia necessidade de duas ou três vítimas para formar a pirâmide de carne, como a honra exigia. As peças centrais eram as cabeças, fervidas e viradas para cima, sobre os cotos dos pescoços cortados, as orelhas aflorando à superfície do arroz, marrons como folhas secas. As mandíbulas escancaradas estavam viradas para cima, vazias, deixando à mostra a garganta vazia, com a língua, ainda rosa, grudada nos dentes inferiores. Os incisivos brancos, bem compridos, coroavam a pilha, proeminentes acima dos cabelos eriçados do nariz, os beiços repuxados num sorriso escarninho.
A travessa fumegante era colocada no espaço aberto entre nós, enquanto uma procissão de ajudantes trazia os caldeirões e panelas de cobre em que a comida fora preparada. Desses caldeirões e panelas, com a ajuda de muitas conchas de ferro esmaltado, eles despejavam as entranhas sobre o prato principal: fragmentos de intestino amarelo, gordura branca, músculos marrons e nacos de carne, a pele torrada, tudo boiando em manteiga derretida e gordura. Os espectadores observavam-nos ansiosamente, murmurando palavras de satisfação quando caía um pedaço particularmente suculento.
A gordura estava escaldante. De vez em quando um homem largava o seu recipiente com uma exclamação, levando os dedos queimados à boca, sem qualquer relutância, a fim de esfriá-los. Mas eles perseveravam, até que finalmente as conchas ressoavam no fundo dos recipientes. Com um gesto de triunfo, eles retiravam os fígados intactos, de seu esconderijo no molho, depositando-os sobre as mandíbulas escancaradas.
Dois homens erguiam cada caldeirão e inclinavam-no, deixando o líquido se derramar sobre a carne, até que a cratera de arroz estivesse cheia, os grãos soltos boiando na abundância do molho. Mesmo assim, eles continuavam a despejar o líquido, até que, entre gritos de espanto de nossa parte, a travessa começasse a transbordar, formando poças na areia. Era o toque final de esplendor, e o anfitrião nos chamava para comer.
Simulávamos estar surdos, como determinavam as boas maneiras. Finalmente o ouvíamos e olhávamo-nos surpresos, cada um exortando seu companheiro a se mexer primeiro. Nasir acabava se levantando, timidamente. Todos seguíamos atrás dele, caíamos de joelhos em torno da travessa, espremendo-nos, até que todos os vinte e dois aos quais se destinava a comida estivessem acomodados. Levantávamos as mangas direitas até os cotovelos e, seguindo o exemplo de Nasir, murmurando baixo "Em nome de Deus o misericordioso", começávamos a comer, com a mão.
Sempre me servia da primeira porção com cautela, já que a gordura líquida era tão quente que meus dentes desacostumados raramente a suportavam. Assim, eu ficava me distraindo com um pedaço de carne, deixando-o esfriar, até que as escavações dos outros drenassem a minha parte do arroz. Formávamos bolas de arroz e gordura entre os dedos (sem sujar a palma), com pedaços de carne e fígado. Levantávamos essas bolas à altura da boca e as projetávamos para dentro, com um impulso suave do polegar. Quando se fazia da maneira certa e a bola estava bem compacta, não ficava resíduo algum nos dedos. Mas quando manteiga em excesso e fragmentos de carne nos grudavam nos dedos, esfriando, tínhamos de lambê-los cuidadosamente, a fim de fazer com que a próxima bola escapulisse facilmente.
À medida que a pilha de carne ia baixando (ninguém realmente se importava com o arroz, a carne era a iguaria), um dos chefes dos howeitats que comia conosco sacava a sua adaga, com cabo de prata e uma turquesa, sinal de uma obra-prima de Mohammed ibn Zari, de Jauf, e cortava losangos de carne dos ossos grandes, que se podia arrancar facilmente com os dedos, pois estava macia de tanto cozimento. A mão direita era a única que se podia usar honrosamente para comer.
Nosso anfitrião permanecia em torno do círculo, estimulando o apetite com exclamações. Em alta velocidade, nós torcíamos, rasgávamos e cortávamos a carne, e nos empanturrávamos, mas nunca falávamos, já que a conversa seria um insulto à qualidade de uma refeição, embora fosse conveniente sorrir em agradecimento quando um hóspede mais íntimo nos entregava um pedaço mais saboroso ou quando Mohammed el Dheilan pegava solenemente um pedaço grande de osso, oferecendo-o com uma benção. Nessas ocasiões eu retribuía o cumprimento com algum pedaço repulsivo das entranhas, o que divertia os howeitats mas causava a desaprovação do aristocrático Nasir.
Alguns de nós acabavam ficando saciados e passavam a comer devagar, escolhendo os pedaços de carne. Olhávamos furtivamente para os outros, até que finalmente passassem a comer também mais devagar. Parávamos então de comer. Com o cotovelo apoiado no joelho, estendíamos a mão sobre a borda da travessa, para deixar pingar a gordura, a manteiga e fragmentos de arroz, que acabavam esfriando e grudando-nos nos dedos. Quando todos paravam, Nasir limpava a garganta significativamente, e nos levantávamos abruptamente, com um explosivo "Deus lhe pague, ó nosso anfitrião". Íamos nos agrupar no canto da tenda, enquanto os vinte convidados seguintes ocupavam nossos lugares.
Alguns iam à extremidade da tenda, e limpavam a maior parte da gordura da mão na cortina que havia ali (era uma espécie de lenço coletivo; o pêlo de cabra estava flexível e lustroso de muito uso). Voltávamos depois a nossos lugares originais e sentávamo-nos com um suspiro. Os escravos, largando a sua parte do banquete, os crânios das ovelhas, circulavam com uma tigela de madeira cheia de água, na qual uma xícara de café servia como concha. Derramavam água em nossos dedos, enquanto os esfregávamos com uma barra do sabão tribal.
Enquanto isso, o segundo e o terceiro grupo de convivas se fartavam de comer. Ao final, havia mais café ou uma xícara de chá, grosso como um xarope. Finalmente os cavalos eram trazidos e deixávamos a tenda. Montávamos e murmurávamos uma benção aos anfitriões, enquanto passávamos. Quando virávamos as costas, as crianças se lançavam correndo, na maior confusão, sobre a travessa, disputando os ossos e escapando com fragmentos valiosos, que seriam devorados em segurança por trás de alguma moita. Os cachorros de todo o acampamento ficavam rondando, à espera dos restos do banquete. O dono da tenda sempre oferecia a melhor parte das sobras a seu cachorro.

Thomas Lawrence

Ibrahim Pasha


Lembrei a grandeza de Ibrahim Pasha, o líder dos milicianos curdos, no norte da Mesopotâmia. Quando ele se punha em marcha, suas mulheres levantavam-se antes do amanhecer, desmontando silenciosamente a tenda e distribuindo tudo entre os camelos de carga. E depois se afastavam, esperando que ele acordasse sozinho, sob o céu aberto, quando à noite adormecera no suntuoso interior de sua tenda.
Ele se levantava lentamente e tomava o café no tapete. Depois, os cavalos eram trazidos, e todos partiam para novo local de acampamento. Se sentia sede no caminho, ele estalava os dedos para os servos. O homem do café se aproximava dele, com os bules prontos, um braseiro ardendo num suporte de metal na sela, servia-lhe o café em marcha, sem interromper a andadura. Ao pôr do sol, eles encontravam as mulheres esperando na tenda armada, da mesma forma que na noite anterior.

Thomas Lawrence
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