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27 de outubro de 2016

As máscaras


Perguntais-me como me tornei louco.
Aconteceu assim:
um dia, tempo antes
de muitos deuses terem nascido,
despertei de um sono profundo e notei
que todas as minhas máscaras
tinham sido roubadas -
as sete máscaras que eu havia confeccionado
e usado em sete vidas -
e corri sem máscara
pelas ruas cheias de gente, gritando:
"Ladrões, ladrões, malditos ladrões!"
Homens e mulheres riram de mim
e alguns correram para casa,
com medo de mim
E quando cheguei à praça do mercado,
um garoto trepado no telhado de uma casa
gritou: "É um louco!".
Olhei para cima, para vê-lo.
O sol beijou pela primeira vez minha face nua.
Pela primeira vez,
o sol beijava minha face nua,
e minha alma inflamou-se
de amor pelo sol,
e não desejei mais minhas máscaras.
E, como num transe, gritei:
"Benditos, benditos os ladrões
que roubaram minhas máscaras!"
Assim me tornei louco.
E encontrei tanto liberdade
como segurança em minha loucura:
e a segurança de não ser compreendido,
pois aquele desigual que nos compreende
escraviza alguma coisa em nós.

Khalil Gibran

O amor


Quando o amor o chamar
Se guie
Embora seus caminhos sejam agrestes e escarpados
E quando ele vos envolver com suas asas
Cedei-lhe
Embora a espada oculta na sua plumagem possa ferir-vos
E quando ele vos falar
Acreditai nele
Embora a sua voz possa despedaçar vossos sonhos como o vento devasta o jardim
Pois da mesma forma que o amor vos coroa, assim ele vos crucifica
E da mesma forma que contribui para o vosso crescimento
Trabalha para vossa poda
E da mesma forma que alcança vossa altura e acaricia vossos ramos mais tenros que se embalam ao sol
Assim também desce até vossas raízes e a sacode no seu apego à terra
Como feixes de trigo ele vos aperta junto ao seu coração
Ele vos debulha para expor a vossa nudez
Ele vos peneira para libertar-vos das palhas
Ele vos mói até extrema brancura
Ele vos amassa até que vos torneis maleáveis
Então ele vos leva ao fogo sagrado e vos transforma no pão místico do banquete divino
Todas essas coisas o amor operará em vós para que conheçais os segredos de vossos corações
E com esse conhecimento vos convertais no pão místico do banquete divino
Todavia se no vosso temor procurardes somente a paz do amor, o gozo do amor
Então seria melhor para vós que cobrísseis vossa nudez, abandonásseis a ira do amor
Para entrar num mundo sem estações onde rireis, mas não todos os vossos risos
E chorareis, mas não todas as vossas lágrimas
O amor nada dá, se não de si próprio
E nada recebe, se não de si próprio
O amor não possui nem se deixa possuir
Pois o amor basta-se a si mesmo
Quando um de vós ama, que não diga "Deus está no meu coração"
Mas que diga antes "Eu estou no coração de Deus"
E não imagineis que possais dirigir o curso do amor pois o amor se vos achar dignos determinará ele próprio vosso curso
O amor não tem outro desejo se não o de atingir a sua plenitude
Se contudo amardes e precisardes ter desejos
Sejam estes os vossos desejos
De vos diluirdes no amor e serdes como um riacho que canta sua melodia para a noite
De conhecerdes a dor de sentir ternura demasiada
De ficardes feridos por vossa própria compreensão do amor
E de sangrardes de boa vontade e com alegria
De acordardes na aurora com o coração alado e agradecerdes por um novo dia de amor
De descansardes ao meio-dia e meditardes sobre o êxtase do amor
De voltardes pra casa à noite com gratidão
E de adormecerdes com uma prece no coração para o bem-amado
E nos lábios uma canção de bem-aventurança.

Khalil Gibran

26 de outubro de 2016

Alegria e tristeza


A vossa alegria é a vossa tristeza mascarada.
E o mesmo poço de onde sai o vosso riso esteve muitas vezes cheio de
lágrimas.
E como poderá ser de outra maneira?
Quanto mais fundo a tristeza entrar no vosso ser, maior é a alegria que
podereis conter.
A taça que contém o vosso vinho não é a mesma que foi feita no forno do
oleiro?
E a lira que vos apanigua o espírito não é da mesma madeira com que foram
esculpidas as facas?
Quando estiverdes alegres, olhai bem dentro do vosso coração e descobrireis
que só aquele que vos deu tristezas vos dá também alegrias.
Quando estiverdes tristes, olhai novamente para dentro do vosso coração e
vereis que na verdade estais a chorar por aquilo que foi a vossa alegria.
Alguns de vós dizeis, "A alegria é maior que a tristeza" e outros dirão "Não, a
tristeza é maior".
Mas eu digo-vos que são inseparáveis.
Juntas vêm, e, quando uma se senta junto de vós lembrai-vos que a outra está
a dormir na vossa cama.
 
Khalil Gibran

21 de setembro de 2016

O louco


Foi no jardim de um hospício que encontrei um jovem da face pálida e formosa, e cheia de espanto.
Sentei-me no banco ao seu lado e perguntei-lhe: "Por que está aqui?"
E ele olhou-me, admirado, e disse: "É uma pergunta indiscreta; contudo, vou responder-lhe. Meu pai queria fazer de mim uma reprodução de si próprio; o mesmo queria meu tio. Minha mãe pretendia fazer de mim a imagem de seu ilustre pai. Minha irmã considerava seu marido, marinheiro, como o exemplo perfeito que eu deveria seguir. Meu irmão achava que eu tinha que ser como ele, um excelente atleta.
E meus professores também, o lente de filosofia, e o professor de música, e o de lógica, cada um queria que eu não fosse senão o reflexo de sua própria face.
Desta forma, vim para este lugar. Acho mais são aqui. Pelo menos, posso ser eu mesmo."
Depois, subitamente, virou-se para mim e perguntou: "Mas, diga-me, o senhor também foi trazido a este lugar pela educação e o bom conselho?"
E eu respondi: "Não, eu sou um visitante."
E ele disse: "Ah, o senhor é um daqueles que vivem no hospício do outro lado da muralha."

Khalil Gibran
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