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12 de junho de 2019

Um fio narrativo para o ego


Ainda hoje dizemos: eu amo esta mulher, e odeio aquela pessoa, em vez de dizer, elas me atraem ou repelem. Para sermos mais exatos, deveríamos acrescentar: sou eu quem desperta nelas a capacidade de me atrair ou repelir. E para sermos mais exatos ainda, seria preciso acrescentar que elas fazem brotar em mim as qualidades necessárias para isso. E assim por diante; não se pode dizer onde se dá o primeiro passo, pois é uma dependência mútua, funcional, como entre dois balões de borracha ou dois circuitos elétricos. E naturalmente há muito tempo sabemos que também nós deveríamos sentir assim, mas ainda preferimos, de longe, ser a causa primeira nos campos das forças das emoções que nos rodeiam; mesmo quando um de nós admite que imita outro, exprime isso como se fosse uma realização ativa! Por isso perguntei, e pergunto de novo, se já se apaixonou desmedidamente, ou se sentiu desmedidamente irada ou desesperada. Pois então, com um pouco de capacidade de observação, a gente compreende perfeitamente que no meio da maior excitação somos como uma abelha numa janela, ou um infusório numa água envenenada; sofremos uma tempestade emocional, corremos cegamente para todos os lados, batemos cem vezes contra o impenetrável, e uma vez, com sorte, passamos pela porta que dá para a liberdade, o que mais tarde, é claro, no rígido estado consciente, julgamos ter sido ato planejado.
 
Robert Musil

8 de outubro de 2017

Rebeldia jovem


Poucas pessoas saberão, a meio da vida, como chegaram a ser o que são, aos seus prazeres, à sua visão do mundo, à sua mulher, ao seu caráter, à sua profissão e aos seus êxitos; mas sentem que a partir daí as coisas já não irão mudar muito. Poderia mesmo afirmar-se que foram enganadas, porque não se consegue descobrir em lugar nenhum a razão suficiente para que tudo tenha acontecido como aconteceu, quando teria sido perfeitamente possível ter acontecido de outra forma. O que acontece, aliás, raramente depende da iniciativa dos homens, mas quase sempre das mais variadas circunstâncias, dos caprichos, da vida e da morte de outras pessoas, e, de certo modo, limita-se a vir ter conosco naquele preciso momento. Na juventude, a vida está ainda à nossa frente como uma manhã inesgotável, plena de possibilidades e de vazio; mas logo ao meio-dia algo se anuncia que reclama ser a nossa própria vida, mas que é tão surpreendente como uma pessoa com quem nos correspondemos durante vinte anos sem a conhecer, e que um belo dia, de repente, temos diante de nós e constatamos que é completamente diferente do que havíamos imaginado.
Mas o mais estranho é que a maior parte das pessoas nem deem por isso; adotam aquele que veio ter com elas e cuja vida se fundiu com a própria, as vivências dele parecem-lhes agora ser a expressão das suas próprias qualidades, e o destino dele é o seu mérito ou sua desgraça. Sucedeu-lhes o mesmo que às moscas com o papel mata-moscas: algo as apanhou por um pêlo, lhes impediu os movimentos, as manietou a pouco e pouco até ficarem sepultadas sob uma espessa cobertura que já só vagamente corresponde à sua forma primitiva. Nessa altura, já só têm pensamentos desfocados da sua juventude, quando nelas existia qualquer coisa como uma força de resistência. Uma força de tração turbilhonante que não pára e desencadeia uma tempestade de movimentos de fuga sem orientação; o espírito escarninho da juventude, a sua revolta contra o estabelecido, a disponibilidade para toda a espécie de heroísmo, para o sacrifício e para o crime, a sua ardente gravidade e a sua inconstância - tudo movimentos de fuga. No fundo, impulsos que apenas indicam que nada do que na juventude se empreende é fruto de uma necessidade e de uma clarividência interiores, ainda que nessa fase o modo como isso acontece queira fazer crer que todos os projetos do momento são inadiáveis e necessários. Alguém inventa um belo gesto novo, exterior ou interior... Como traduzir isso? Uma pose vital? Uma forma para a qual a interioridade escorre como o gás para um balão de vidro? Uma expressão da impressão? Uma técnica do ser? Tanto pode tratar-se de um novo bigode como de um novo pensamento. É teatro, mas, como todo o teatro, tem o seu sentido - e as almas jovens precipitam-se num instante sobre isso, como os pardais dos telhados quando alguém espalha migalhas no chão. Não é difícil de compreender: quando lá fora um mundo nos pesa sobre a língua, as mãos, os olhos, uma Lua arrefecida feita de terra, casas, costumes, imagens e livros, e cá dentro só existe uma névoa em eterno movimento - que felicidade, quando alguém nos acena e nós julgamos reconhecer-nos nesse sinal! Haverá coisa mais natural do que um ser intenso que se apropria dessa nova forma antes das pessoas vulgares? É ela que lhe oferece o instante do ser, o equilíbrio tenso entre dentro e fora, entre ser esmagado, ou voar e explodir. 
(...) O que faz desta ânsia de renovação do ser um perpetuum mobile mais não é do que o desconforto resultante da intrusão, entre o eu próprio, nebuloso, e o eu dos predecesssores, petrificado numa carapaça que nos é estranha, de um pseudo-eu, de uma alma de grupo mais ou menos ajustada. E se estivermos atentos, por pouco que seja, veremos sempre aflorar no último futuro que acabou de entrar em cena os sinais do que num próximo futuro serão os velhos tempos. As novas ideias serão então apenas trinta anos mais velhas, mas apaziguadas e um pouco mais rechonchudas ou obsoletas, como o rosto radioso de uma rapariga ao lado do rosto apagado da mãe; ou então não tiveram êxito, mirraram e ficaram reduzidas a um qualquer projeto de reforma defendido por um velho idiota a quem uma meia centena de admiradores chama o grande Fulano.
 
Robert Musil

5 de outubro de 2017

Utopia


Uma utopia é mais ou menos o equivalente de uma possibilidade; o fato de uma possibilidade não ser uma realidade significa apenas que as circunstâncias com as quais a primeira está articulada num determinado momento a impedem de ser a segunda, porque de outra forma ela mais não seria do que uma impossibilidade. Se essa possibilidade for liberta das suas dependências e puder desenvolver-se, nasce a utopia. É um processo semelhante àquele que se verifica quando um investigador observa a transformação de um elemento num composto para daí tirar as suas conclusões. A utopia é a experiência na qual se observam a possibilidade de transformação de um elemento e os efeitos que ela provocaria naquele fenômeno composto a que chamamos vida. 

Robert Musil
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