No mundo primitivo, onde temos que buscar a maioria dos indícios sobre a origem da mitologia, os deuses e demônios não são concebidos à maneira das realidades evidentes, rígidas e fixas. Um deus pode estar simultaneamente em dois ou mais lugares - como uma melodia ou sob a forma de uma máscara tradicional. E onde quer que ele surja, o impacto de sua presença é o mesmo: ele não é reduzido pela multiplicação. Além disso, a máscara em um festival primitivo é venerada e vivenciada como uma verdadeira aparição do ser mítico que ela representa - apesar de todo mundo saber que foi um homem quem fez a máscara e que é um homem que a está usando. Mas, durante o tempo do ritual do qual a máscara faz parte, aquele que a estiver usando é também identificado com o deus. Ele não apenas representa o deus; ele é o deus. O fato literal de que a aparição seja composta por A, uma máscara; B, sua referência a um ser mítico; e C, um homem, é rejeitado pela mente e isso dá lugar a que a apresentação funcione independente dos valores, tanto do observador quanto do ator. Em outras palavras, houve uma mudança de perspectiva, da lógica da esfera secular normal, onde as coisas são vistas como diferentes umas das outras, para a esfera teatral ou representativa, onde as coisas são aceitas pelo que são enquanto vivenciadas, e a lógica é a do "faz-de-conta", do "como se".
Todos nós conhecemos muito bem a convenção! É um artifício primário, espontâneo e mágico das crianças, pelo qual o mundo pode ser, em um passe, transformado de banal em mágico. E sua inevitabilidade na infância é uma daquelas características universais do homem, que nos unem em uma família. Consequentemente, é um dado primário da ciência do mito, que se ocupa precisamente do fenômeno da crença auto-induzida.
"Um professor", escreveu Leo Frobenius em um famoso ensaio sobre a força do mundo demoníaco (daimoniacós) na infância, "está escrevendo em sua mesa de trabalho e sua filha de quatro anos está correndo pela sala. Ela não tem nada para fazer e o está perturbando. Então, ele dá a ela três palitos de fósforo queimados, dizendo: 'Olhe, brinque com isto', e ela senta-se no tapete e começa a representar, com os fósforos, Joãozinho, Mariazinha e a bruxa. Assim passa um bocado de tempo, durante o qual o professor se concentra em seu trabalho sem ser interrompido. Até que, de repente, a menina grita aterrorizada. O pai corre, perguntando: 'O que é? O que aconteceu?' A menina corre para ele, mostrando todos os sinais de pânico. 'Papai, papai', ela grita, 'tire a bruxa daqui! Não suporto mais a bruxa!"
"Uma explosão emocional", observa Frobenius,
é característica de uma mudança espontânea de uma ideia, do nível dos sentimentos para o da consciência sensorial. Além do mais, o surgimento de tal explosão obviamente significa que determinado processo espiritual se completou. O palito de fósforo não é uma bruxa; tampouco o era para a menina no início da brincadeira. O processo, portanto, está no fato de o fósforo ter-se transformado numa bruxa no nível dos sentimentos e a conclusão do processo coincide com a transferência dessa ideia para o plano da consciência. A observação do processo escapa à avaliação do pensamento consciente, pois ela entra na consciência apenas após ou no momento da conclusão. Entretanto, desde que a ideia é, ela deve ter-se tornado. O processo é criativo, no melhor sentido da palavra; pois, como vimos, para uma criança um palito de fósforo pode tornar-se uma bruxa. Concluindo: a fase do tornar-se ocorre no nível dos sentimentos, enquanto a do ser está no plano consciente.
Na missa católica romana, por exemplo, quando o padre, citando as palavras de Cristo na Última Ceia, pronuncia a fórmula da consagração - com máxima solenidade - primeiro sobre a hóstia (Hoc est enim Corpus meum: "pois este é o Meu Corpo") e depois sobre o cálice de vinho (Hic est enim Calix Sanguinis mei, novi et aeterni Testamenti: Mysterium fidei: qui pro vobis et pro multis effundetur in remissionen peccatorum: "pois este é o Cálice do Meu Sangue, do novo e eterno Testamento: o Mistério da fé: o qual será derramado para vós e para muitos até a remissão dos pecados"), é de se supor que o pão e o vinho se tornem o corpo e o sangue de Cristo, que cada fragmento da hóstia e cada gota do vinho sejam, de fato, o Salvador do mundo vivo. O sacramento, portanto, não é concebido para ser uma referência, um mero sinal ou símbolo para despertar em nós uma série de reflexões; ele é o próprio Deus, o Criador, o Juiz e Salvador do Universo, que aqui vem atuar diretamente sobre nós, para livrar nossas almas (criadas à Sua imagem) dos efeitos da Queda de Adão e Eva no Jardim do Éden (o qual, devemos supor, existiu como uma realidade geográfica).
De maneira semelhante, na Índia acredita-se que, em resposta às fórmulas de consagração, as divindades descerão graciosamente para infundir sua substância divina às imagens dos templos, que são então chamadas de seus tronos ou assentos. Também é possível - e, em algumas seitas da Índia, até esperado - que o próprio indivíduo se torne uma morada da divindade. No Gandharva Tantra está escrito, por exemplo: "Ninguém que não seja ele próprio divino pode, com êxito, adorar uma divindade"; e, ainda: "Tendo-se tornado a divindade, a pessoa deveria oferecer-lhe sacrifício".
Além do mais, é ainda possível a um oficiante realmente dotado descobrir que tudo - absolutamente tudo - se tornou o corpo de um deus, ou revela a onipresença de Deus como o fundamento de todos os seres. Há uma passagem, por exemplo, entre as conversações do mestre espiritual bengali do século XIX, Ramakrishna, na qual ele descreve uma dessas experiências. "Um dia", diz-se que ele relatou, "foi-me revelado subitamente que tudo é Puro Espírito. Os objetos de adoração, o altar, o caixilho da porta - tudo Puro Espírito. Homens, animais e outros seres vivos - tudo Puro Espírito. Então, como um louco, eu comecei a jogar flores em todas as direções. O que quer que eu visse, eu adorava".
A fé - ou, pelo menos, o jogo do "como se" - é o primeiro passo em direção a tal arrebatamento divino. Nas crônicas dos santos abundam relatos de longas provações auto-impostas, que precederam seus momentos de arrebatamento. E, ilustrando o princípio em questão, temos ainda os jogos e exercícios religiosos populares, mais espontâneos (dos leigos). O espírito do festival, o feriado, o dia santo do cerimonial religioso, requer que a atitude normal diante das preocupações da vida seja temporariamente posta de lado em favor de uma disposição especial para se engalanar. Enfeita-se o mundo. Assim, nos santuários religiosos consagrados - templos e catedrais, onde uma atmosfera de santidade paira permanentemente - deve-se impedir a intromissão da lógica da realidade fria e dura, para não acabar com o encantamento. O gentio, o "desmancha-prazeres", o positivista, que não pode ou não quer participar, tem que ser mantido à distância. Daí as figuras guardiãs que ladeiam as entradas dos lugares sagrados: leões, touros ou guerreiros temíveis com suas armas empunhadas. Elas estão ali para manter afastados os "desmancha-prazeres", os defensores da lógica aristotélica, para quem A jamais pode ser B; para quem o ator jamais deve confundir-se com o papel; para quem a máscara, a imagem, a hóstia consagrada, a árvore ou o animal não podem tornar-se Deus, mas apenas uma referência. Tais pensadores analíticos devem ser mantidos fora. Porque o único propósito de se entrar num santuário ou participar de uma festividade é deixar-se tomar pelo estado que na Índia é conhecido como "a outra mente" (em sânscrito, anya-manas: "disposição mental ausente, possuído por um espírito"), em que se está "fora de si", encantado, separado de sua própria lógica de autopossessão e subjugado pela força de uma lógica "não dissociativa" - na qual A é B e C também é B.
"Um dia", disse Ramakrishna, "enquanto adorava Shiva, eu estava a ponto de atirar em oferenda uma folha de bilva na cabeça da imagem, quando me foi revelado que este universo é, ele próprio, Shiva. Outro dia, quando estava colhendo flores, foi-me revelado que cada planta era um ramalhete adornando a forma universal de Deus. Aquilo foi o fim da minha coleta de flores. Eu olho para o homem exatamente da mesma maneira. Quando vejo um homem, vejo que é o Próprio Deus, andando na terra, balançando-se para lá e para cá, como se fosse um coxim flutuando sobre as ondas".
Desse ponto de vista, o universo é o assento de uma divindade, que não nos é possível perceber com nosso estado comum de consciência. Mas, participando no jogo dos deuses, damos um passo em direção a essa realidade que é, em última instância, a realidade de nós mesmos. Daí o êxtase, as sensações de deleite e a sensação de renovação, harmonia e recriação! No caso do santo, a representação leva ao arrebatamento - como no caso da menininha, para quem o palito de fósforo se revelou uma bruxa. Então, pode-se perder o contato com a orientação do mundo e a mente pode permanecer capturada nesse outro estado. Dessa maneira é impossível retornar a este outro jogo, o jogo da vida no mundo. Os santos são possuídos por Deus; isso é tudo o que conhecem na terra e tudo o que precisam conhecer. E podem contagiar sociedades inteiras, de maneira que elas, inspiradas por seus arrebatamentos, podem igualmente romper o contato com o mundo e refutá-lo como ilusório ou daninho. A vida secular pode então ser interpretada como um pecado - a perda da Graça, Graça que é o êxtase do festival divino.
Mas há outra atitude, mais compreensiva, que deu beleza e amor aos dois mundos: a chamada lila, "o jogo", como foi denominado no Oriente. O mundo não é condenado e evitado como um pecado, mas voluntariamente assumido como um jogo ou dança, onde o espírito brinca.
Ramakrishna fechou os olhos. "É apenas isso?", perguntou. "Deus existe apenas quando os olhos estão fechados e desaparece quando estão abertos?" Ele abriu os olhos. "O jogo pertence a Ele, a quem pertence a Eternidade, e a Eternidade pertence a Ele, a quem o Jogo pertence... Algumas pessoas sobem os sete andares de um prédio e não conseguem descer; mas outras sobem e então, à vontade, visitam os andares inferiores."
A questão então torna-se apenas: quanto uma pessoa pode subir ou descer sem perder a noção do jogo? O Prof. Huizinga observa que em japonês o verbo asobu, que se refere a jogar em geral - recreação, relaxamento, diversão, passeio ou excursão, dissipação, jogos de azar, andar à toa ou estar desempregado - também significa estudar na universidade ou com um mestre; igualmente, envolver-se em um combate simulado; e, por último, participar nas formalidades muito estritas da cerimônia do chá.
Todos nós conhecemos muito bem a convenção! É um artifício primário, espontâneo e mágico das crianças, pelo qual o mundo pode ser, em um passe, transformado de banal em mágico. E sua inevitabilidade na infância é uma daquelas características universais do homem, que nos unem em uma família. Consequentemente, é um dado primário da ciência do mito, que se ocupa precisamente do fenômeno da crença auto-induzida.
"Um professor", escreveu Leo Frobenius em um famoso ensaio sobre a força do mundo demoníaco (daimoniacós) na infância, "está escrevendo em sua mesa de trabalho e sua filha de quatro anos está correndo pela sala. Ela não tem nada para fazer e o está perturbando. Então, ele dá a ela três palitos de fósforo queimados, dizendo: 'Olhe, brinque com isto', e ela senta-se no tapete e começa a representar, com os fósforos, Joãozinho, Mariazinha e a bruxa. Assim passa um bocado de tempo, durante o qual o professor se concentra em seu trabalho sem ser interrompido. Até que, de repente, a menina grita aterrorizada. O pai corre, perguntando: 'O que é? O que aconteceu?' A menina corre para ele, mostrando todos os sinais de pânico. 'Papai, papai', ela grita, 'tire a bruxa daqui! Não suporto mais a bruxa!"
"Uma explosão emocional", observa Frobenius,
é característica de uma mudança espontânea de uma ideia, do nível dos sentimentos para o da consciência sensorial. Além do mais, o surgimento de tal explosão obviamente significa que determinado processo espiritual se completou. O palito de fósforo não é uma bruxa; tampouco o era para a menina no início da brincadeira. O processo, portanto, está no fato de o fósforo ter-se transformado numa bruxa no nível dos sentimentos e a conclusão do processo coincide com a transferência dessa ideia para o plano da consciência. A observação do processo escapa à avaliação do pensamento consciente, pois ela entra na consciência apenas após ou no momento da conclusão. Entretanto, desde que a ideia é, ela deve ter-se tornado. O processo é criativo, no melhor sentido da palavra; pois, como vimos, para uma criança um palito de fósforo pode tornar-se uma bruxa. Concluindo: a fase do tornar-se ocorre no nível dos sentimentos, enquanto a do ser está no plano consciente.
Na missa católica romana, por exemplo, quando o padre, citando as palavras de Cristo na Última Ceia, pronuncia a fórmula da consagração - com máxima solenidade - primeiro sobre a hóstia (Hoc est enim Corpus meum: "pois este é o Meu Corpo") e depois sobre o cálice de vinho (Hic est enim Calix Sanguinis mei, novi et aeterni Testamenti: Mysterium fidei: qui pro vobis et pro multis effundetur in remissionen peccatorum: "pois este é o Cálice do Meu Sangue, do novo e eterno Testamento: o Mistério da fé: o qual será derramado para vós e para muitos até a remissão dos pecados"), é de se supor que o pão e o vinho se tornem o corpo e o sangue de Cristo, que cada fragmento da hóstia e cada gota do vinho sejam, de fato, o Salvador do mundo vivo. O sacramento, portanto, não é concebido para ser uma referência, um mero sinal ou símbolo para despertar em nós uma série de reflexões; ele é o próprio Deus, o Criador, o Juiz e Salvador do Universo, que aqui vem atuar diretamente sobre nós, para livrar nossas almas (criadas à Sua imagem) dos efeitos da Queda de Adão e Eva no Jardim do Éden (o qual, devemos supor, existiu como uma realidade geográfica).
De maneira semelhante, na Índia acredita-se que, em resposta às fórmulas de consagração, as divindades descerão graciosamente para infundir sua substância divina às imagens dos templos, que são então chamadas de seus tronos ou assentos. Também é possível - e, em algumas seitas da Índia, até esperado - que o próprio indivíduo se torne uma morada da divindade. No Gandharva Tantra está escrito, por exemplo: "Ninguém que não seja ele próprio divino pode, com êxito, adorar uma divindade"; e, ainda: "Tendo-se tornado a divindade, a pessoa deveria oferecer-lhe sacrifício".
Além do mais, é ainda possível a um oficiante realmente dotado descobrir que tudo - absolutamente tudo - se tornou o corpo de um deus, ou revela a onipresença de Deus como o fundamento de todos os seres. Há uma passagem, por exemplo, entre as conversações do mestre espiritual bengali do século XIX, Ramakrishna, na qual ele descreve uma dessas experiências. "Um dia", diz-se que ele relatou, "foi-me revelado subitamente que tudo é Puro Espírito. Os objetos de adoração, o altar, o caixilho da porta - tudo Puro Espírito. Homens, animais e outros seres vivos - tudo Puro Espírito. Então, como um louco, eu comecei a jogar flores em todas as direções. O que quer que eu visse, eu adorava".
A fé - ou, pelo menos, o jogo do "como se" - é o primeiro passo em direção a tal arrebatamento divino. Nas crônicas dos santos abundam relatos de longas provações auto-impostas, que precederam seus momentos de arrebatamento. E, ilustrando o princípio em questão, temos ainda os jogos e exercícios religiosos populares, mais espontâneos (dos leigos). O espírito do festival, o feriado, o dia santo do cerimonial religioso, requer que a atitude normal diante das preocupações da vida seja temporariamente posta de lado em favor de uma disposição especial para se engalanar. Enfeita-se o mundo. Assim, nos santuários religiosos consagrados - templos e catedrais, onde uma atmosfera de santidade paira permanentemente - deve-se impedir a intromissão da lógica da realidade fria e dura, para não acabar com o encantamento. O gentio, o "desmancha-prazeres", o positivista, que não pode ou não quer participar, tem que ser mantido à distância. Daí as figuras guardiãs que ladeiam as entradas dos lugares sagrados: leões, touros ou guerreiros temíveis com suas armas empunhadas. Elas estão ali para manter afastados os "desmancha-prazeres", os defensores da lógica aristotélica, para quem A jamais pode ser B; para quem o ator jamais deve confundir-se com o papel; para quem a máscara, a imagem, a hóstia consagrada, a árvore ou o animal não podem tornar-se Deus, mas apenas uma referência. Tais pensadores analíticos devem ser mantidos fora. Porque o único propósito de se entrar num santuário ou participar de uma festividade é deixar-se tomar pelo estado que na Índia é conhecido como "a outra mente" (em sânscrito, anya-manas: "disposição mental ausente, possuído por um espírito"), em que se está "fora de si", encantado, separado de sua própria lógica de autopossessão e subjugado pela força de uma lógica "não dissociativa" - na qual A é B e C também é B.
"Um dia", disse Ramakrishna, "enquanto adorava Shiva, eu estava a ponto de atirar em oferenda uma folha de bilva na cabeça da imagem, quando me foi revelado que este universo é, ele próprio, Shiva. Outro dia, quando estava colhendo flores, foi-me revelado que cada planta era um ramalhete adornando a forma universal de Deus. Aquilo foi o fim da minha coleta de flores. Eu olho para o homem exatamente da mesma maneira. Quando vejo um homem, vejo que é o Próprio Deus, andando na terra, balançando-se para lá e para cá, como se fosse um coxim flutuando sobre as ondas".
Desse ponto de vista, o universo é o assento de uma divindade, que não nos é possível perceber com nosso estado comum de consciência. Mas, participando no jogo dos deuses, damos um passo em direção a essa realidade que é, em última instância, a realidade de nós mesmos. Daí o êxtase, as sensações de deleite e a sensação de renovação, harmonia e recriação! No caso do santo, a representação leva ao arrebatamento - como no caso da menininha, para quem o palito de fósforo se revelou uma bruxa. Então, pode-se perder o contato com a orientação do mundo e a mente pode permanecer capturada nesse outro estado. Dessa maneira é impossível retornar a este outro jogo, o jogo da vida no mundo. Os santos são possuídos por Deus; isso é tudo o que conhecem na terra e tudo o que precisam conhecer. E podem contagiar sociedades inteiras, de maneira que elas, inspiradas por seus arrebatamentos, podem igualmente romper o contato com o mundo e refutá-lo como ilusório ou daninho. A vida secular pode então ser interpretada como um pecado - a perda da Graça, Graça que é o êxtase do festival divino.
Mas há outra atitude, mais compreensiva, que deu beleza e amor aos dois mundos: a chamada lila, "o jogo", como foi denominado no Oriente. O mundo não é condenado e evitado como um pecado, mas voluntariamente assumido como um jogo ou dança, onde o espírito brinca.
Ramakrishna fechou os olhos. "É apenas isso?", perguntou. "Deus existe apenas quando os olhos estão fechados e desaparece quando estão abertos?" Ele abriu os olhos. "O jogo pertence a Ele, a quem pertence a Eternidade, e a Eternidade pertence a Ele, a quem o Jogo pertence... Algumas pessoas sobem os sete andares de um prédio e não conseguem descer; mas outras sobem e então, à vontade, visitam os andares inferiores."
A questão então torna-se apenas: quanto uma pessoa pode subir ou descer sem perder a noção do jogo? O Prof. Huizinga observa que em japonês o verbo asobu, que se refere a jogar em geral - recreação, relaxamento, diversão, passeio ou excursão, dissipação, jogos de azar, andar à toa ou estar desempregado - também significa estudar na universidade ou com um mestre; igualmente, envolver-se em um combate simulado; e, por último, participar nas formalidades muito estritas da cerimônia do chá.
Joseph Campbell

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