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3 de maio de 2024

Os grãos da ampulheta


Faz alguns anos que um grupo de amigos se reúne comigo para ler poesia. Numa dessas reuniões nos deparamos com esta afirmação de Gandhi: “Eu nunca acreditei que a sobrevivência fosse um valor último. A vida, para ser bela, deve estar cercada de vontade, de bondade e de liberdade. Essas são coisas pelas quais vale a pena morrer”. Essas palavras provocaram um silêncio meditativo, até que um dos membros do grupo, que se chama Canoeiros, sugeriu que fizéssemos um exercício espiritual. Um joguinho de “faz de conta”. “Vamos fazer de conta que sabemos que temos apenas um ano a mais de vida. Como é que viveremos sabendo que o tempo é curto?”
A consciência da morte nos dá uma maravilhosa lucidez. D. Juan, o bruxo do livro de Carlos Castañeda, Viagem a Ixtlan, advertia seu discípulo: “Essa bem pode ser a sua última batalha sobre a terra”. Sim, bem pode ser. Somente os tolos pensam de outra forma. E se ela pode ser a última batalha, que seja uma batalha que valha a pena. E, com isso, nos libertamos de uma infinidade de coisas tolas e mesquinhas que permitimos se aninhem em nossos pensamentos e coração. Resta então a pergunta: “O que é o essencial?”. Um conhecido meu, ao saber que tinha um câncer no cérebro e que lhe restavam não mais que seis meses de vida, começou uma vida nova. As etiquetas sociais não mais faziam sentido. Passou a receber somente as pessoas que desejava receber, os amigos, com quem podia compartilhar seus sentimentos. Eliot se refere a um tempo em que ficamos livres da compulsão prática – fazer, fazer, fazer. Não havia mais nada a fazer. Era hora de se entregar inteiramente ao deleite da vida: ver os cenários que ele amava, ouvir as músicas que lhe davam prazer, ler os textos antigos que o haviam alimentado.
O fato é que, sem que o saibamos, todos nós estamos enfermos de morte e é preciso viver a vida com sabedoria para que ela, a vida, não seja estragada pela loucura que nos cerca.

Rubem Alves

21 de agosto de 2021

Imaginação e objetividade


Não se pode negar que a consciência humana seja movida pela imaginação. O problema surge quando tentamos interpretar a função da imaginação.
Para entender esta questão temos de nos lembrar dos ideais epistemológicos que têm dominado a ciência moderna e, derivativamente, dos ideais de normalidade psíquica que daí se derivam. Não há nenhum estudante de ciência que ignore que o conhecimento deve ser objetivo. O que é objetividade? Objetividade é aquela condição da consciência em que ela se disciplina para simplesmente refletir e reduplicar os dados da realidade. Ela não pode permitir que as suas aspirações, os seus valores, os seus desejos, de qualquer forma interfiram neste processo. A realidade ignora as nossas aspirações. Por isto, sempre que permitimos que o objeto seja representado na consciência pela influência dos desejos, o objeto é sistematicamente falsificado. Quando isto acontece o objeto representado não é o que é, na realidade, mas simplesmente aquilo que desejamos que ele seja. Não é difícil entender que, dentro desta perspectiva, a imaginação deva ser rejeitada. A imaginação é filha dos nossos desejos e, consequentemente, sempre que imaginamos passamos a ver as coisas reais no fascinante esplendor do capricho. Ao ideal epistemológico de objetividade, assim, corresponde a exigência de que a imaginação seja eliminada, como origem de perturbações no processo de conhecer o mundo. Este mesmo ideal foi transplantado para o campo da psicologia. Freud define o neurótico como aquele que troca a realidade pela imaginação. Qual, então, seria o modelo de personalidade normal? Normal é a pessoa que sabe que a imaginação é ilusão, e que portanto voluntariamente a reprime (já que não é possível eliminá-la), e que se ajusta à lógica do princípio da realidade.
Estes ideais de conhecimento objetivo e de normalidade psíquica têm exercido uma influência dominante na ciência ocidental e têm sido responsáveis, em grande medida, pelo tratamento que o fenômeno religioso tem recebido nos seus círculos e, indiretamente, pela nossa forma de compreender a imaginação. Porque, o que é a religião senão uma forma de imaginação? E, inversamente, na medida em que a imaginação é sempre filha do desejo, não será ela sempre religiosa?
Cabe, entretanto, a seguinte pergunta: se vamos levar o critério de objetividade até as suas últimas consequências, não será forçoso reconhecer que o ideal de consciência pura, totalmente objetiva, é um mito? Onde é que a encontramos como um dado da experiência? A consciência objetiva não existe. Ela é um ideal, que nasceu de condições históricas específicas. A própria consciência objetiva é uma construção normativa da imaginação. Nas palavras de Werner Stark, "o pensamento não-valorativo (value-free) pode ser um ideal, mas certamente ele não é encontrado em parte alguma como realidade". Empiricamente, o que é que encontramos, mesmo naquelas atividades que o homem pretende serem rigorosamente objetivas, como a ciência? Encontramos uma consciência concreta, envolvida nos problemas reais da vida e morte que a condicionam e, portanto, dominada pela emoção e embalada pela imaginação. A ciência, não importa quão pura, é o produto de seres humanos comprometidos na tarefa excitante de viver as suas vidas pessoais. Assim, as criações científicas não são apenas representações simbólicas dos assim chamados eventos externos, mas antes arranjos que devem servir à necessidade humana de autoconsciência.
Uma dimensão fascinante da história da ciência moderna é o papel que a imaginação e a fantasia desempenharam em muitas de suas grandes descobertas. Mais curioso ainda é verificar como os cientistas, ao repensar o seu método de invenção, não se deram conta disto.

Rubem Alves

10 de junho de 2021

Mais cientistas e menos ciência


Universos simbólicos que num certo período histórico funcionaram de forma utópica passam a exercer, no período que se segue, uma função conservadora. Explosões carismáticas se domesticam em rotinas burocráticas, profetas se metamorfoseiam em sacerdotes, revolucionários, uma vez no poder, se tornam conservadores. A ciência, sem dúvida alguma, exerceu uma função altamente crítica e revolucionária quando do seu surgimento. Sua metafísica, seus métodos e suas alianças sociais colidiam frontalmente com aqueles da ordem hierárquica, religiosa e estática dominante. Entretanto, uma vez demolido este mundo, a ciência perdeu, progressivamente, o seu gume crítico. O seu poder manipulador cresceu na razão inversa do seu poder questionador. Com o advento da civilização utilitária e pragmática, a ciência, como especialista na manipulação de coisas e pessoas, tornou-se numa peça indispensável deste lado. A nossa sociedade não se tornou mais científica por ter mais cientistas. O contrário é a verdade. Temos mais cientistas hoje que durante todo o resto da história porque os interesses econômicos conseguiram colocar a ciência a seu serviço. A sociedade não se tornou mais científica. A ciência se transformou numa função explorável. 

Rubem Alves

5 de março de 2021

Papéis e receitas


A vida cotidiana é constituída por sistemas de rotinas de interação entre pessoas, coisas e instituições. Interação, como o nome indica, tem a ver com ações recíprocas: o que fazemos com as coisas e o que elas fazem conosco, o que fazemos com as pessoas e o que elas fazem conosco, o que fazemos com as instituições e o que elas fazem conosco. Mundo essencialmente prático, definido pelas relações de uso e programado segundo uma lógica estrutural. Apenas uma ilustração. Se estamos viajando e nosso companheiro, estranho, nos pergunta, como início de conversa: "O que é o senhor?" Nossa resposta: "Sou uma pessoa estranha. Não me entendo a mim mesmo. Meio neurótica. Frequentemente tenho pesadelos. Gosto de guiar em alta velocidade porque isto me dá uma sensação de liberdade. Gosto de orquídeas e tenho dois cachorros. Sou louco por Scarlatti. E além disto tenho medo de morrer". É muito provável que nosso amigo se encolhesse assustado e que a conversa parasse aí. Não era esta a resposta que ele esperava. Ah! Mas que grande papo teria começado se disséssemos: "Sou professor" ou "Sou agente funerário". Qual o problema na primeira resposta? Muito embora ela fosse a mais autêntica e honesta, ela não contou ao meu vizinho o que faço. Não me definiu como papel, como conjunto de comportamentos práticos ajustados ao sistema social. No mundo do cotidiano somos o que fazemos. Papéis são uniformes que usamos. E frequentemente papéis chegam a definir a nossa identidade. É necessário saber o papel do outro para saber que tipo de comportamento devo adotar. Para reis, "Vossa Majestade", para alto dignitários, "Vossa Excelência", para garçons, "Ei..." Papéis simplificam o comportamento, por simplificar o outro. Livram-nos do problema de encontrar cada pessoa com um Tu único e reduzem os homens a tipos, havendo para cada um deles uma receita precisa acerca do que fazer. Isto é válido para toda a realidade social. As rotinas sociais são, na realidade, um conjunto de receitas que programam nosso agir e pensar. Há receitas para todas as coisas, que vão desde como pegar no garfo até como morrer com dignidade. Esta é uma realidade objetiva, rotineira, previsível, resistente a mudanças, e que pode ser estudada como se fosse uma coisa.

Rubem Alves

17 de dezembro de 2020

Prazer não é alegria


Freud disse que são duas as fomes que moram no corpo. A primeira é a fome de conhecer o mundo em que vivemos. Queremos conhecer o mundo para sobreviver. Se não tivéssemos conhecimento do mundo à nossa volta saltaríamos pelas janelas dos edifícios, ignorando a força de gravidade, e colocaríamos a mão no fogo, por não saber que o fogo queima.
A segunda é a fome do prazer. Tudo o que vive busca o prazer. O melhor exemplo dessa fome é o desejo do prazer sexual. Temos fome de sexo porque é gostoso. Se não fosse gostoso, ninguém o procuraria e, como consequência, a raça humana acabaria. O desejo do prazer seduz.
Gostaria de poder ter tido uma conversinha com ele sobre as fomes, porque acredito que há uma terceira: a fome de alegria. Antigamente eu pensava que prazer e alegria eram a mesma coisa. Não são. É possível ter um prazer triste. A amante de Tomás, de A insustentável leveza do ser, se lamentava: "Não quero prazer, quero alegria!".
As diferenças. Para haver prazer, é preciso primeiro que haja um objeto que dê prazer: um caqui, uma taça de vinho, uma pessoa a quem beijar. Mas a fome de prazer logo se satisfaz. Quantos caquis conseguimos comer? Quantas taças de vinho conseguimos beber? Quantos beijos conseguimos suportar? Chega um momento em que se diz: "Não quero mais. Não tenho mais fome de prazer...".
A fome de alegria é diferente. Primeiro, ela não precisa de um objeto. Por vezes, basta uma memória. Fico alegre só de pensar num momento de felicidade que já passou. E, em segundo lugar, a fome de alegria jamais diz "Chega de alegria. Não quero mais...". A fome de alegria é insaciável.
 
Rubem Alves

21 de agosto de 2020

Engessamento da religião


A religião não se torna transparente a menos que vejamos, por detrás de suas expressões objetivas, a consciência no seu momento de experiência religiosa. Frequentemente, as instituições religiosas nada mais são que fósseis de uma experiência religiosa que há muito desapareceu. Por força do próprio poder da inércia continuam a habitar o mundo social, a ocupar espaço e a falar de deuses e demônios, mas os seus símbolos deixaram de ser expressões de qualquer experiência vivenciada no presente. É este processo de distanciamento progressivo das instituições, centrífugo, para longe das experiências que lhes deram origem, que explica o inevitável envelhecimento dos deuses e a progressiva perda de significação da linguagem religiosa, outrora carregada de conteúdos emocionais. Por isto de quando em quando morrem os deuses, porque de repente se descobre que nada significam, que são inutilidades feitas de madeira e pedra, fabricadas pelas mãos dos homens. Na realidade, neste momento o homem simplesmente descobre que nunca havia pensado coisa alguma sobre as suas imagens. Aqui estão as raízes deste curioso fenômeno: enquanto o homem continua por força da rotina e da coerção social, a reverenciar os deuses que a sociedade entronizou, mas que perderam o poder para simbolizar e expressar suas vivências emocionais, ao mesmo tempo ele busca outros deuses, talvez menos respeitáveis, mas que de alguma forma corporifiquem as suas experiências vividas.

Rubem Alves

24 de junho de 2020

Isto (não) é um chapéu


Prometi que iria relatar o caso clínico do homem que confundiu a sua esposa com um chapéu. Não se trata de ficção. O que quero dizer com isso é que esse caso não é uma estória inventada, como “A terceira margem do rio” ou “O afogado mais lindo do mundo”. Mas que tem uma pitada de ficção, isso lá tem. Não conhecemos aquilo a que damos o nome de “fatos”. Os ditos “fatos” são apenas uma matéria-prima bruta que a imaginação, essa artista que mora em nós, usa para fazer suas “artes”, no sentido duplo da palavra. Cada um conta do seu jeito... Quem conta é Oliver Sacks, um famosíssimo neurologista. Aconselharia a todos que lessem os seus livros. São fascinantes, porque nos fazem entrar no mundo bizarro da alma humana. Pois ele foi procurado por um homem que a ele veio, empurrado por amigos, para lidar com algo estranho em sua forma de ver as coisas. Sacks relata a primeira entrevista, ele e o homem conversando de maneira normal, sem que fosse possível notar qualquer coisa que sugerisse alguma perturbação mental. Mas Sacks ficou intrigado com um sentimento estranho: ele tinha a impressão de que aquele homem que o encarava de frente não o estava vendo. Tinha os olhos perfeitos, via tudo, mas não via... Até que ele, Sacks, atinou com o mistério dos seus olhos: eles viam as partes perfeitamente bem, mas não eram capazes de juntá-los num todo significativo. Via as orelhas, a boca, o nariz, os cabelos — mas os viam soltos, sem que se encaixassem para formar um rosto. Sim, os olhos daquele homem não eram capazes de ver um rosto. Diante de uma fotografia do seu irmão que lhe foi mostrada com a pergunta “Quem é essa pessoa?”, ele se pôs imediatamente a descrever as partes da imagem com a maior precisão. A testa larga, os lábios finos, o nariz ligeiramente achatado, o maxilar... “Esse maxilar, com esse ângulo me faz pensar... Sabe? Meu irmão tem um maxilar com um ângulo exatamente igual a esse. Será, por acaso, uma foto do meu irmão?”. Ele foi incapaz de reconhecer o rosto do irmão. Chegou ao irmão através da geometria: a igualdade dos ângulos do maxilar. “O que é isso?”, Sacks lhe perguntou, mostrando-lhe uma luva. “Bem, trata-se de um saco maior do qual saem cinco sacos finos e compridos...” Isso é precisamente uma luva. Mas ele era incapaz de reconhecer, naquilo que via, uma luva. Seus olhos só percebiam as partes. O interessante das patologias é que elas frequentemente não passam de traços comuns das pessoas ditas normais, aumentados por meio de uma lupa. A patologia, assim, serve-nos como um espelho. As grandes bizarrices da patologia são nossas pequenas bizarrices vistas através de um zoom... Como é o caso do homem que assistiu a um concerto e dele o que mais o impressionou foi a calva do clarinetista... Às vezes eu tenho a impressão de que a especialização científica pode produzir um efeito semelhante: os cientistas se tornam especialistas nas partes e as conhecem com grande precisão. Mas ficam perdidos quando se trata de ver o “rosto” da realidade. Na verdade, nem mesmo reconhecem o seu próprio rosto quando o veem no espelho. Essas associações foram provocadas pelo homem, desconhecido, que toma a sopa mas só percebe o lascado na beirada do prato...
 
Rubem Alves

26 de agosto de 2019

Homo imaginativus


Nos animais, a experiência se esgota com as informações que seus sentidos captam do mundo exterior. Por isto, não podem eles suspeitar que o possível seja maior que o real. Realidade e possibilidade se identificam. Ou mais precisamente, os limites do real denotam os limites do possível. Protótipos de realismo. Por isto, não podem transcender o seu mundo. Resta-lhes apenas a alternativa de ajustamento e adaptação às condições dadas. Com o homem não é assim. Há, dentro dele, um reduto de resistência, uma parcela do eu que se recusa a socializar-se, que se recusa em aceitar como final o veredito da realidade. Assim, quando as informações do mundo exterior lhe dizem: "Assim são as coisas!" ele retruca: "Mas serão mesmo? não será possível que elas venham a ser de forma diferente?" O homem é, assim, um ser dividido. Se a sua consciência lhe diz como é o mundo, esta mesma consciência se recusa a sacralizá-lo. O que é não pode ser verdade. Este fenômeno único que Durkheim descreveu como sendo a capacidade de "conceber o ideal, de acrescentar algo ao real", essência da religião, assim, se nos revela como uma recusa de promover ao status de realidade última a ordem instaurada, seja a ordem natural, seja a organização da civilização. A essência do realismo que, em nome da realidade objetiva, bania a religião como ilusão, não está em sua aparente irreligiosidade, mas antes na sua sistemática transformação de fatos em valores. Mas é exatamente isto que a imaginação se recusa a fazer. A imaginação só se torna compreensível se percebemos que ela se constrói a partir de uma suspeita de que é provável que os limites do possível sejam muito mais extensos que os limites do real. A imaginação é a consciência de uma ausência, a saudade daquilo que ainda não é, a declaração de amor pelas coisas que ainda não nasceram. Dar nome às coisas que estão ausentes é quebrar o feitiço daquelas que estão presentes. 

Rubem Alves

21 de agosto de 2019

A experiência do belo


Em que se constitui a experiência estética? Todos nós, de uma forma ou de outra, já sentimos o belo: ouvindo uma sinfonia de Beethoven, uma balada dos Beatles, contemplando um quadro ou uma cena da natureza. Sentimos o belo, mas quando alguém nos pede para descrever a sua essência, somos reduzidos ao silêncio. Palavras são adequadas para descrever objetos: pedras, árvores, montanhas. Mas a experiência estética não é um objeto. A experiência do belo não é a sinfonia de Beethoven, não é a balada dos Beatles, não é o quadro ou a cena da natureza. Se pedíssemos a um físico para fazer uma análise da peça musical, ele poderia fazê-lo. Uma sinfonia é um conjunto de sons, e sons são realidades físicas. Ele reduziria os sons a vibrações, e seria capaz de expressar matematicamente suas intensidades e frequências. Mais do que isto, ele nos poderia fornecer um gráfico que nos revelasse não só a estrutura arquitetônica da obra, como também as nuances de interpretação. Mas de posse dos resultados científicos do seu trabalho perguntaríamos: "Mas, e o belo? Onde está?" Ele não se encontra em nenhum ponto de sua análise científica. Como cientista o físico lida com objetos. Mas a experiência estética não é um objeto. Tanto assim que ela se desvanece quando soa o último acorde da sinfonia. E ficamos apenas com a tristeza de que o belo tenha chegado ao fim. O belo não é nem uma propriedade do objeto e nem uma propriedade do sujeito. Ele vem a existir quando o sujeito é levado a vibrar, emocionalmente, em resposta ao objeto. Esta é a razão por que, frequentemente, aquilo que produz em uma pessoa uma experiência estética profunda e emocional me deixa totalmente frio. Falta-me a sensibilidade. E por isto, para todos os efeitos práticos, é como se o belo não existisse para mim. O belo não é um objeto, mas uma relação harmônica entre o sujeito e a obra de arte. 

Rubem Alves

28 de outubro de 2016

Pipoca ou piruá


A culinária me fascina. De vez em quando eu até me até atrevo a cozinhar. Mas o fato é que sou mais competente com as palavras do que com as panelas.
Por isso tenho mais escrito sobre comidas que cozinhado. Dedico-me a algo que poderia ter o nome de "culinária literária". Já escrevi sobre as mais variadas entidades do mundo da cozinha: cebolas, ora-pro-nobis, picadinho de carne com tomate, feijão e arroz, bacalhoada, suflês, sopas, churrascos.
Cheguei mesmo a dedicar metade de um livro poético-filosófico a uma meditação sobre o filme A Festa de Babette que é uma celebração da comida como ritual de feitiçaria. Sabedor das minhas limitações e competências, nunca escrevi como chef. Escrevi como filósofo, poeta, psicanalista e teólogo — porque a culinária estimula todas essas funções do pensamento.
As comidas, para mim, são entidades oníricas.
Provocam a minha capacidade de sonhar. Nunca imaginei, entretanto, que chegaria um dia em que a pipoca iria me fazer sonhar. Pois foi precisamente isso que aconteceu.
A pipoca, milho mirrado, grãos redondos e duros, me pareceu uma simples molecagem, brincadeira deliciosa, sem dimensões metafísicas ou psicanalíticas. Entretanto, dias atrás, conversando com uma paciente, ela mencionou a pipoca. E algo inesperado na minha mente aconteceu. Minhas ideias começaram a estourar como pipoca. Percebi, então, a relação metafórica entre a pipoca e o ato de pensar. Um bom pensamento nasce como uma pipoca que estoura, de forma inesperada e imprevisível.
A pipoca se revelou a mim, então, como um extraordinário objeto poético. Poético porque, ao pensar nelas, as pipocas, meu pensamento se pôs a dar estouros e pulos como aqueles das pipocas dentro de uma panela. Lembrei-me do sentido religioso da pipoca. A pipoca tem sentido religioso? Pois tem.
Para os cristãos, religiosos são o pão e o vinho, que simbolizam o corpo e o sangue de Cristo, a mistura de vida e alegria (porque vida, só vida, sem alegria, não é vida...). Pão e vinho devem ser bebidos juntos. Vida e alegria devem existir juntas.
Lembrei-me, então, de lição que aprendi com a Mãe Stella, sábia poderosa do Candomblé baiano: que a pipoca é a comida sagrada do Candomblé...
A pipoca é um milho mirrado, subdesenvolvido.
Fosse eu agricultor ignorante, e se no meio dos meus milhos graúdos aparecessem aquelas espigas nanicas, eu ficaria bravo e trataria de me livrar delas. Pois o fato é que, sob o ponto de vista de tamanho, os milhos da pipoca não podem competir com os milhos normais. Não sei como isso aconteceu, mas o fato é que houve alguém que teve a ideia de debulhar as espigas e colocá-las numa panela sobre o fogo, esperando que assim os grãos amolecessem e pudessem ser comidos.
Havendo fracassado a experiência com água, tentou a gordura. O que aconteceu, ninguém jamais poderia ter imaginado.
Repentinamente os grãos começaram a estourar, saltavam da panela com uma enorme barulheira. Mas o extraordinário era o que acontecia com eles: os grãos duros quebra-dentes se transformavam em flores brancas e macias que até as crianças podiam comer. O estouro das pipocas se transformou, então, de uma simples operação culinária, em uma festa, brincadeira, molecagem, para os risos de todos, especialmente as crianças. É muito divertido ver o estouro das pipocas!
E o que é que isso tem a ver com o Candomblé? É que a transformação do milho duro em pipoca macia é símbolo da grande transformação porque devem passar os homens para que eles venham a ser o que devem ser. O milho da pipoca não é o que deve ser. Ele deve ser aquilo que acontece depois do estouro. O milho da pipoca somos nós: duros, quebra-dentes, impróprios para comer, pelo poder do fogo podemos, repentinamente, nos transformar em outra coisa — voltar a ser crianças! Mas a transformação só acontece pelo poder do fogo.
Milho de pipoca que não passa pelo fogo continua a ser milho de pipoca, para sempre.
Assim acontece com a gente. As grandes transformações acontecem quando passamos pelo fogo. Quem não passa pelo fogo fica do mesmo jeito, a vida inteira. São pessoas de uma mesmice e dureza assombrosa. Só que elas não percebem. Acham que o seu jeito de ser é o melhor jeito de ser.
Mas, de repente, vem o fogo. O fogo é quando a vida nos lança numa situação que nunca imaginamos. Dor. Pode ser fogo de fora: perder um amor, perder um filho, ficar doente, perder um emprego, ficar pobre. Pode ser fogo de dentro. Pânico, medo, ansiedade, depressão — sofrimentos cujas causas ignoramos. Há sempre o recurso aos remédios. Apagar o fogo. Sem fogo o sofrimento diminui. E com isso a possibilidade da grande transformação.
Imagino que a pobre pipoca, fechada dentro da panela, lá dentro ficando cada vez mais quente, pense que sua hora chegou: vai morrer. De dentro de sua casca dura, fechada em si mesma, ela não pode imaginar destino diferente. Não pode imaginar a transformação que está sendo preparada. A pipoca não imagina aquilo de que ela é capaz. Aí, sem aviso prévio, pelo poder do fogo, a grande transformação acontece: PUF!! — e ela aparece como outra coisa, completamente diferente, que ela mesma nunca havia sonhado. É a lagarta rastejante e feia que surge do casulo como borboleta voejante.
Na simbologia cristã o milagre do milho de pipoca está representado pela morte e ressurreição de Cristo: a ressurreição é o estouro do milho de pipoca. É preciso deixar de ser de um jeito para ser de outro.
"Morre e transforma-te!" — dizia Goethe.
Em Minas, todo mundo sabe o que é piruá. Falando sobre os piruás com os paulistas, descobri que eles ignoram o que seja. Alguns, inclusive, acharam que era gozação minha, que piruá é palavra inexistente. Cheguei a ser forçado a me valer do Aurélio para confirmar o meu conhecimento da língua. Piruá é o milho de pipoca que se recusa a estourar.
Meu amigo William, extraordinário professor pesquisador da Unicamp, especializou-se em milhos, e desvendou cientificamente o assombro do estouro da pipoca. Com certeza ele tem uma explicação científica para os piruás. Mas, no mundo da poesia, as explicações científicas não valem.
Por exemplo: em Minas "piruá" é o nome que se dá às mulheres que não conseguiram casar. Minha prima, passada dos quarenta, lamentava: "Fiquei piruá!" Mas acho que o poder metafórico dos piruás é maior.
Piruás são aquelas pessoas que, por mais que o fogo esquente, se recusam a mudar. Elas acham que não pode existir coisa mais maravilhosa do que o jeito delas serem.
Ignoram o dito de Jesus: "Quem preservar a sua vida, perdê-la-á". A sua presunção e o seu medo são a dura casca do milho que não estoura. O destino delas é triste. Vão ficar duras a vida inteira. Não vão se transformar na flor branca macia. Não vão dar alegria para ninguém. Terminado o estouro alegre da pipoca, no fundo a panela ficam os piruás que não servem para nada. Seu destino é o lixo.
Quanto às pipocas que estouraram, são adultos que voltaram a ser crianças e que sabem que a vida é uma grande brincadeira...
Nunca imaginei que chegaria um dia em que a pipoca iria me fazer sonhar. Pois foi precisamente isso que aconteceu.

Rubem Alves

Deus engaiolado


Há dois tipos de religião. Um deles é a religião que oferece fórmulas para manipular o sagrado. Manipular o sagrado! Esse é o mais antigo e o mais profundo sonho da alma humana. Atrelar os deuses aos nossos arados! Engaiolar o Pássaro Encantado e levá-lo por onde eu for! Engarrafar o Vento! Pôr sela e freio em Pégasso, o cavalo voador, e cavalgá-lo! O homem que fizesse isso já não seria homem! Seria um deus… E como a Serpente, aquela do Paraíso, psicóloga conhecedora dos desejos do coração humano, sabia desse desejo, foi bem nesse lugar que ela tentou: "… e sereis como os deuses!"
Poder é bom. Sem poder a gente morre. Saúde é poder. A doença, ao contrário, é um declínio de poder. Fraqueza. Fraqueza e morte andam próximas. Já imaginaram a euforia do homem quando ele conseguiu domar o fogo? Que extraordinários poderes novos o fogo lhe deu! A luz, na noite escura; o calor, na noite fria; o fogão e a culinária; o poder para derreter os metais, na fundição; o poder para endurecer o barro, na cerâmica… Sem o fogo não haveria civilização. Se a tecnologia nos dá poderes extraordinários, que poderes muito mais extraordinários nos serão dados se conseguirmos manipular o sagrado para os nossos propósitos, da mesma forma como manipulamos o fogo! Pois Deus não é fogo? Afinal de contas os deuses são onipotentes, podem todas as coisas!
E é isso que esse tipo de religião promete: atrelar os deuses aos nossos desejos, para que eles façam a nossa vontade. A oração do Pai Nosso dessa religião é meio diferente, embora ninguém reconheça. Ela reza: "Seja feita a minha vontade…" Pois, não é para isso que os deuses existem? Para fazer a nossa vontade? De que me valeria um deus que não faz o que desejo? Não seria melhor procurar um outro? Não é por isso que as pessoas trocam de religião? Bem dizia Dostoiévski que o que os homens desejam não é Deus, é o milagre. Milagre é quando o meu desejo se realiza! A jovem linda dá o seu carinho a um homem repulsivo. Por amor? Não. Ela o beija porque ele é rico e pode fazer as suas vontades. Não é o seu amor que ela busca. Ela busca o seu dinheiro. Assim os homens buscam a Deus não por amá-lo mas pelo milagre que ele pode operar. A prostituição acontece também no mundo das religiões. Do jeito preciso como aconteceu com o homem que achou a lâmpada mágica onde mora um gênio. É só esfregar a lâmpada para que ele apareça e pergunte: "Mestre, qual é o teu desejo para que eu o realize?" Na história do gênio o truque é simples: basta esfregar a garrafa. Nessas religiões o "esfregar da garrafa" assume uma variedade de formas diferentes, dependendo da barraca, na feira das religiões, em que se vendem e se compram as arapucas para se prender o sagrado: fórmulas mágicas, gestos, rezas, amuletos, livros santos (dizem que são poderosos como proteção para os relâmpagos, em dias de tempestade), colares (pendurados nos carros evitam acidentes), promessas (os deuses vendem os seus serviços por favores), peregrinações a lugares santos (pois lá o poder do sagrado está mais próximo), exorcismos, copos de água à frente dos aparelhos de TV, além dos despachantes sagrados de vários tipos, sendo que um deles promete rapidez, milagres para o dia de hoje. Alega-se, inclusive, que um adesivo num carro, dizendo ser ele propriedade exclusiva de Jesus, afugenta os ladrões. Um ladrão religioso jamais se arriscaria a roubar um carro de Jesus. O castigo seria certo … Boas relações com Deus são garantias de sucesso. Só é pobre quem quer. Coitados dos profetas! Certamente não tinham boas relações com Deus. Não tiveram sucesso. Não souberam manipular o sagrado para que ele realizasse os seus desejos!
Esse tipo de religião é o que é mais procurado porque o que mais desejamos é a realização dos nossos desejos – mesmo que sejam desejos tolos, embora nunca reconheçamos que nossos desejos podem ser tolos…. O seu nome próprio seria magia. Porque magia são as técnicas de que se lança mão para manipular o sagrado para a realização dos nossos desejos. Os profetas do Antigo Testamento o chamavam de idolatria. O idólatra é a pessoa que pensa que o sagrado está preso num objeto, qualquer objeto, um santinho, um templo, uma relíquia, um livro, uma fórmula, uma comida, uma bebida, um rito. Estando preso, o sagrado está sob o seu controle: Deus está engaiolado. É possível levá-lo para onde quero. Posso usá-lo para fazer a minha vontade. Mas um Deus engaiolado deixou de ser um Deus!
O outro tipo de religião? Pena. O espaço chegou ao fim.
 
Rubem Alves

27 de outubro de 2016

A arte de ver


Ela entrou, deitou-se no divã e disse: "Acho que estou ficando louca". Eu fiquei em silêncio aguardando que ela me revelasse os sinais da sua loucura. "Um dos meus prazeres é cozinhar. Vou para a cozinha, corto as cebolas, os tomates, os pimentões - é uma alegria! Entretanto, faz uns dias, eu fui para a cozinha para fazer aquilo que já fizera centenas de vezes: cortar cebolas. Ato banal sem surpresas. Mas, cortada a cebola, eu olhei para ela e tive um susto. Percebi que nunca havia visto uma cebola. Aqueles anéis perfeitamente ajustados, a luz se refletindo neles: tive a impressão de estar vendo a rosácea de um vitral de catedral gótica. De repente, a cebola, de objeto a ser comido, se transformou em obra de arte para ser vista! E o pior é que o mesmo aconteceu quando cortei os tomates, os pimentões... Agora, tudo o que vejo me causa espanto."
Ela se calou, esperando o meu diagnóstico. Eu me levantei, fui à estante de livros e de lá retirei as Odes Elementales, de Pablo Neruda. Procurei a "Ode à Cebola" e lhe disse: "Essa perturbação ocular que a acometeu é comum entre os poetas. Veja o que Neruda disse de uma cebola igual àquela que lhe causou assombro: 'Rosa de água com escamas de cristal'. Não, você não está louca. Você ganhou olhos de poeta... Os poetas ensinam a ver".
Ver é muito complicado. Isso é estranho porque os olhos, de todos os órgãos dos sentidos, são os de mais fácil compreensão científica. A sua física é idêntica à física óptica de uma máquina fotográfica: o objeto do lado de fora aparece refletido do lado de dentro. Mas existe algo na visão que não pertence à física.
William Blake sabia disso e afirmou: "A árvore que o sábio vê não é a mesma árvore que o tolo vê". Sei disso por experiência própria. Quando vejo os ipês floridos, sinto-me como Moisés diante da sarça ardente: ali está uma epifania do sagrado. Mas uma mulher que vivia perto da minha casa decretou a morte de um ipê que florescia à frente de sua casa porque ele sujava o chão, dava muito trabalho para a sua vassoura. Seus olhos não viam a beleza. Só viam o lixo.
Adélia Prado disse: "Deus de vez em quando me tira a poesia. Olho para uma pedra e vejo uma pedra". Drummond viu uma pedra e não viu uma pedra. A pedra que ele viu virou poema.
Há muitas pessoas de visão perfeita que nada veem. "Não é bastante não ser cego para ver as árvores e as flores. Não basta abrir a janela para ver os campos e os rios", escreveu Alberto Caeiro, heterônimo de Fernando Pessoa. O ato de ver não é coisa natural. Precisa ser aprendido. Nietzsche sabia disso e afirmou que a primeira tarefa da educação é ensinar a ver. O zen-budismo concorda, e toda a sua espiritualidade é uma busca da experiência chamada "satori", a abertura do "terceiro olho". Não sei se Cummings se inspirava no zen-budismo, mas o fato é que escreveu: "Agora os ouvidos dos meus ouvidos acordaram e agora os olhos dos meus olhos se abriram".
Há um poema no Novo Testamento que relata a caminhada de dois discípulos na companhia de Jesus ressuscitado. Mas eles não o reconheciam. Reconheceram-no subitamente: ao partir do pão, "seus olhos se abriram". Vinicius de Moraes adota o mesmo mote em "Operário em Construção": "De forma que, certo dia, à mesa ao cortar o pão, o operário foi tomado de uma súbita emoção, ao constatar assombrado que tudo naquela mesa - garrafa, prato, facão - era ele quem fazia. Ele, um humilde operário, um operário em construção".
A diferença se encontra no lugar onde os olhos são guardados. Se os olhos estão na caixa de ferramentas, eles são apenas ferramentas que usamos por sua função prática. Com eles vemos objetos, sinais luminosos, nomes de ruas - e ajustamos a nossa ação. O ver se subordina ao fazer. Isso é necessário. Mas é muito pobre. Os olhos não gozam... Mas, quando os olhos estão na caixa dos brinquedos, eles se transformam em órgãos de prazer: brincam com o que veem, olham pelo prazer de olhar, querem fazer amor com o mundo. Os olhos que moram na caixa de ferramentas são os olhos dos adultos.
Os olhos que moram na caixa dos brinquedos, das crianças. Para ter olhos brincalhões, é preciso ter as crianças por nossas mestras. Alberto Caeiro disse haver aprendido a arte de ver com um menininho, Jesus Cristo fugido do céu, tornado outra vez criança, eternamente: "A mim, ensinou-me tudo. Ensinou-me a olhar para as coisas. Aponta-me todas as coisas que há nas flores. Mostra-me como as pedras são engraçadas quando a gente as têm na mão e olha devagar para elas".
Por isso - porque eu acho que a primeira função da educação é ensinar a ver - eu gostaria de sugerir que se criasse um novo tipo de professor, um professor que nada teria a ensinar, mas que se dedicaria a apontar os assombros que crescem nos desvãos da banalidade cotidiana. Como o Jesus menino do poema de Caeiro. Sua missão seria partejar "olhos vagabundos"...
 
Rubem Alves

Os homossexuais e o pecado


Laura Schlessinger é uma conhecida locutora de rádio nos Estados Unidos. Ela tem um desses programas interativos que dá respostas e conselhos aos ouvintes que a chamam ao telefone. Recentemente, perguntada sobre a homossexualidade, a locutora disse que se trata de uma abominação, pois assim a Bíblia o afirma no livro de Levítico 18:22. Um ouvinte escreveu-lhe então uma carta que vou transcrever: “Querida Dra. Laura: Muito obrigado por se esforçar tanto pra educar as pessoas segundo a Lei de Deus. Eu mesmo tenho aprendido muito do seu programa de rádio e desejo compartilhar meus conhecimentos com o maior número de pessoas possível. Por exemplo, quando alguém se põe a defender o estilo homossexual de vida eu me limito a lembrar-lhe que o livro de Levítico, no capítulo 18, verso 22, estabelece claramente que a homossexualidade é uma abominação. E ponto final... Mas, de qualquer forma, necessito de alguns conselhos adicionais de sua parte a respeito de outras leis bíblicas concretamente e sobre a forma de cumpri-las:

1. Gostaria de vender minha filha como serva, tal como o indica o livro de Êxodo, 21:7. Nos tempos em que vivemos, na sua opinião, qual seria o preço adequado?

2. O livro de Levítico 25:44 estabelece que posso possuir escravos, tanto homens quanto mulheres, desde que sejam adquiridos de países vizinhos. Um amigo meu afirma que isso só se aplica aos mexicanos, mas não aos canadenses. Será que a senhora poderia esclarecer esse ponto? Por que não posso possuir canadenses?

3. Sei que não estou autorizado a ter qualquer contato com mulher alguma no seu período de impureza menstrual ( Lev. 18:19, 20:18, etc.). O problema que se me coloca é o seguinte: como posso saber se as mulheres estão menstruadas ou não? Tenho tentado perguntar-lhes mas muitas mulheres são tímidas e outras se sentem ofendidas.

4. Tenho um vizinho que insiste em trabalhar no sábado. O livro de Êxodo 35:2 claramente estabelece que quem trabalha nos sábados deve receber a pena de morte. Isso quer dizer que eu, pessoalmente, sou obrigado a matá-lo? Será que a senhora poderia, de alguma maneira, aliviar-me dessa obrigação aborrecida?

5. No livro de Levítico 21:18-21 está estabelecido que uma pessoa não pode se aproximar do altar de Deus se tiver algum defeito na vista. Preciso confessar que eu preciso de óculos para ver. Minha acuidade visual tem de ser 100% para que eu me aproxime do altar de Deus? Será que se pode abrandar um pouco essa exigência?

6. A maioria dos meus amigos homens tem o cabelo bem cortado, muito embora isto esteja claramente proibido em Levítico 19.27. Como é que eles devem morrer?

7. Eu sei, graças a Levítico 11:6-8, quem tocar a pele de um porco morto fica impuro. Acontece que adoro jogar futebol americano, cujas bolas são feitas de pele de porco. Será que me será permitido continuar a jogar futebol americano se usar luvas?

8. Meu tio tem uma granja. Deixa de cumprir o que diz Levítico 19:19, pois que planta dois tipos diferentes de semente ao mesmo campo, e também deixa de cumprir a sua mulher, que usa roupas de dois tecidos diferentes a saber, algodão e poliester. Além disto ele passa o dia proferindo blasfêmias e maldizendo. Será que é necessário levar a cabo o complicado procedimento de reunir todas as pessoas da vila para apedrejá-los? Não poderíamos adotar um procedimento mais simples, qual seja o de queimá-los numa reunião privada, como se faz com um homem que dorme com a sua sogra, ou uma mulher que dorme com o seu sogro (Levítico 20:14)?

Sei que a senhora estudou estes assuntos com grande profundidade de forma que confio plenamente na sua ajuda. Obrigado de novo por recordar-nos que a Palavra de Deus é eterna e imutável.

Rubem Alves

23 de outubro de 2016

Presença da ausência


Os animais vivem em meio às presenças. Mas nós somos moradores das ausências. Desejo: reconhecer que algo está faltando. Saudade. Eu sugeriria que espiritualidade tem algo a ver com isto: viver em meio à presença de uma ausência. É daí que surge tudo que de belo fazemos: o amor, a poesia, os jardins, a música, as revoluções... Tudo. Fazemos essas coisas para completar esse pedaço que está faltando. Ah! Pedaço de mim, que me arrancaram... Sou espiritual por causa disto: do meu corpo sai uma canção, um suspiro, um desejo, uma saudade de algo que não encontro, e penso que sinto, no vento, o cheiro dessa coisa...
Desejo: somos espirituais por causa do desejo. O desejo aponta aquilo que está ausente. E nós, seres estranhos, somos capazes de viver por causa dessa ausência.
Não, não é o desejo de uma casa, ou de uma namorada, ou de um automóvel... É aquela tristeza que permanece, mesmo quando todas essas coisas pequenas são satisfeitas. Nós somos, incuravelmente, pranteadores de algo que se perdeu...
 
Rubem Alves
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