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7 de outubro de 2020

Sem sonhos

 

Oh Musas, por que sacudistes meu corpo inerte?

Deixem-me dormir! Por que quereis despertar quem, 

Cansado e vencido, busca no sono a paga da desesperança,

Nas sombras o abrigo, e no esquecimento a dissolução do ser?


Oh Musas, quero-vos muito mal, e, se estiver em meu poder,

E julgar que for de bom alvitre, esquentarei suas belas bundas,

De ambos os jeitos, pare que não voltem a me perturbar, e então

Voltarei ao escuro que me acolhia, sem recordar patavina.

 

Oh Musas, eu vos odeio do fundo do meu ser! Não podem para de falar?

Não fôsseis filhas de Zeus! O quê? Meu eu lírico? O que é que tem o meu eu lírico?

Sumido? Cansado? Vocês estão com saudade dos meus versos? Ah! Por favor,

Não me façam rir, porque isso espantaria o resto de torpor que ainda me sustém.


Oh Musas, suas danadas de traseiros lindos e empinados

(Andaram tendo aulas com Afrodite não é? Suas safadinhas...)

O que quereis de mim, além de excitar-me com suas belas vozes,

Peles macias, pés bem feitos, gemidos virginais e olhos sagazes e fugidios?

 

Oh Musas, isso não!, isso não farei! Isso seria minha morte (de novo).

Por favor, não me adulem com elogios e belos epítetos. A mudez se instalou.

Aquela epifania não quero mais. Parti minha flauta, quebrei minha harpa.

Nem pássaro canta mais por aqui, nem jovem pastor passa cantarolando

 

Oh Musas, Vossa tagarelice está a me deixar de mau humor, o que

Me recorda que foi sob os cuidados do vermelho Ares que me recolhi

Sedento de sangue, de vingança e, finalmente, abatido pela fadiga...

Não, a guerra não vale a pena, mas os encantos de Afrodite valem mais?

 

Oh Musas! Tudo ilusões! Como confundir o fogo com o sol,

A luz com a chama, a vontade com a certeza, e a certeza com a razão...

Os deuses, imersos no tédio inescapável de Sua imortalidade,

Divertem-se, pondo-se a observar as humanas provações.

 

Oh Musas! Atentem-se quanto a isso! Os deuses tudo podem,

Tudo sabem, tudo decidem. Mas são deuses, desde o início dos tempos,

Estão gastos. De tanto pensarem, já de nada sabem, de tanto sentirem,

Tornarem-se insensíveis, e tudo decidem como velhos bêbados!

 

Oh Musas! Aproximai-vos, que lhes contarei o grande segredo:

Os deuses invejam os mortais. Porque são mortais, não condenados ao tédio.

Quando um mortal pensa sabe que não tem o resto da vida para se desenganar,

Quando um mortal sente, sente como se fosse a primeira vez, e torna-se novo a si mesmo.


Oh Musas! Quando um mortal decide, ele é tão animal e displicente...

Mas quando um mortal ama... Ah!... Quando um mortal ama...

Quando um mortal ama ele vai para além do infinito, onde deus algum

Pode alcançar, experimentar-se, compreender ou sofrer...


Oh Musas! Minhas queridas de belos trejeitos sedutores!

Entendam que eu já fui tudo e não fui nada e fui além de tudo

Comi a terra, respirei o céu, me liquefiz, e a tudo incendiei

Tornei-me deus, nada mais é novidade para mim.


Oh Musas, percebeis que há tempos não sou mais mortal

Que não estava deveras dormindo, nem vos querendo mal

Que aqui vieram a serviço do meu próprio ardil, só para eu pudesse

Vos dizer, sem sonhos, que não lhes quero nunca mais.

 

André Faustino

15 de agosto de 2018

Barba


Quarenta anos nas costas. Mulheres e relacionamentos já vieram e já foram. Aprendi muitas coisas nessa trajetória, outras pelo jeito estou apenas tateando. Seja como for, homem adulto que sou, decidi que por nada nesse mundo vou mudar meu jeito de ser por causa de mulher alguma, mesmo que seja a própria Letícia Sabtatella só de roupas íntimas e olhar de fuck me please. Há razões para isso que envolvem desde aspectos pouco explorados de Romeu e Julieta e o amor romântico no mundo ocidental desde os trovadores medievais até consequências profundas relacionadas aos imperativos categóricos da Crítica da razão pura de Kant, segundo o qual...
- Papai!
- Ahñ!?
- Aonde você tá indo?
- Ah, filha... O papai tá indo até o banheiro. Vou fazer a barba, mas vou deixar a porta do banheiro aberta caso você...
- Não quero que você tira a barba!
- Mas filha, o pap...
- Não quero que você tira a barba! Você fica mais bonito com barba!
- Tá bom... Te amo! Quer tetê?

André Faustino

30 de setembro de 2017

Medo de diabéticos


Com o tempo vim a perceber que minha mãe tem um hábito que, em si, é inofensivo: toda vez que encontra alguma sua conhecida e, durante a conversa, vai fazer menção a algo sobre a vida de alguém (eufemismo para fofoca), levanta uma das mãos e aproxima-a bem da boca, para que seus lábios não possam ser lidos, e então sussurra a preciosa informação que, o mais das vezes, é banal e poderia muito bem dispensar todo esse cerimonial. Bem ou mal, isso me encheu de pavor, em certa ocasião.
Era um dia normal como qualquer outro. Eu tinha dez anos, mais ou menos, e minha mãe me levou consigo para fazer compras num supermercado. De repente, ela reconheceu uma conhecida, acenou, se aproximou, cumprimentou e logo as duas começaram a entabular conversa. Eu sabia que uma ida de quinze minutos ao supermercado poderia se transformar num esforço de tolerância de uma hora quando encontros como esse aconteciam. Mas não liguei. No meio da tagarelice, minha mãe deu um pequeno passo à frente, aproximando-se de sua colega e, tapando parcialmente a boca e sussurrando disse algo como: "Você ficou sabendo que Fulana de Tal descobriu que é diabética?".
Na época, eu não sabia que esse jeito de falar da minha mãe era habitual: interpretei que ela não queria que eu ouvisse o que ela queria dizer à sua colega. E isso só podia significar uma coisa, isto é, minha mãe estava tentando me poupar de algo ruim, algo que de jeito nenhum eu poderia ouvir ou vir a saber, para o meu próprio bem. Mas eu ouvi.
Pus-me a pensar com meus botões. "Nunca ouvi esta palavra, 'diabético'. O que é que é um diabético?" Do nada, um clarão se fez em minha mente. Eu nunca tinha ouvido a palavra 'diabético', mas já tinha ouvido a palavra 'diabo', e conhecia seu conceito tão bem quanto possa conhecê-lo uma criança de dez anos. Fiquei aterrorizado. Então quer dizer que esses diabéticos são pessoas que seguem o Tinhoso?
Xô diabetes!

André Faustino

28 de setembro de 2017

Água


Longo é o percurso de um rio, desde sua nascente até o salgado oceano 
Tímido rumorejar de uma fenda na rocha, logo se encorpa e se acelera 
Sua natureza água não se transmuta enquanto se avoluma 
Procura os lugares mais baixos enquanto mais profundo se torna 
A água tem dessa beleza, de nunca confrontar seu oponente 
Preferindo antes contornar-lhe os flancos e evitar o embate 
Grande lição aprendida, às vezes, por diversos seres vivos
Quase todos quase tudo água, orvalho, seiva, sangue, saliva, sêmen e suor 
Nunca um rio é tão imenso e grandioso como quando termina
Acaso haverá algo ou alguém que possa dizer o mesmo de si?
Já não se sabe se ainda é rio ou se começa a ser mar, não importa 
Rio ou mar, é mera questão de salinidade, ainda sua natureza é água 
Os oceanos ocupam mais espaço do que a terra 
A água ocupa mais espaço do que os ossos e a carne 
Até na terra e no ar ela se encontra, mesmo que diminuta 
Do fogo ela foge, mas logo volta de onde ele não alcança, do céu 
A água permite que exista vida, e a vida nela surgiu 
A água mantém a vida, mesmo que engarrafada com código de barras 
A água leva a sujeira dos corpos dos animais, frete grátis, 
Embora às vezes se sujeite a tubulações e aparelhos elétricos 
Para uso de uma espécie específica segundo os interesses desta 
A água acalma 
Cruze as pernas na beira de um rio e observe-o em seu curso 
Sente-se confortavelmente e, inteiro em si, contemple um aquário 
Mergulhe numa piscina rodeada de sossego, ou se entregue ao mar 
Em pensamento, em braçadas, em olhares ou em pescarias descompromissadas 
A água é mestra: nada há mais no mundo do que água 
Ainda assim, Água não é o nome deste planeta 
Tão sábia a água é que, embora grande o tempo todo, ela, pródiga e 
Gratuitamente, se coloca sempre abaixo dos continentes e seus seres
Assim como o mestre que, ao ensinar, conforma-se ao seu discípulo 
E ainda assim, a quem tem olhos e ouvidos, se oferece cheia de cores 
E sabores, liquidamente testemunhando algo maior do que si própria,
Àqueles que dizem apenas que ela é incolor, insípida e inodora.

André Faustino

28 de junho de 2017

Persistência


Diz um ditado popular que a persistência é o caminho do êxito. Claro que, como todo ditado popular, este também precisa ser relativizado ao invés de ser aceito como dogma. Não vale a pena, por exemplo, persistir em algo que toda a ciência e toda a lógica condenam como irrealizável. Tampouco vale a pena persistir em algo que, embora possível, não será bom para mim. 
Como se vê, a questão não é apenas de persistência enquanto tal, mas de clareza na definição de metas e de autoconhecimento sobre as próprias capacidades e limitações.
Hoje recebi um golpe muito, muito doloroso. Posso afirmar sem pestanejar que estou muito triste. Porém (e isso está causando estranhamento até em mim), não estou abatido. Não estou maldizendo os deuses ou a vida, nem me julgando vítima ou sentindo autopiedade. Não. A vida é insensível na medida certa. O fato ruim veio e de nada adianta espernear. Meu objetivo é me tornar mais resiliente, e nunca baixar a cabeça. Não posso confundir as vicissitudes que o mundo e a vida me reservam com meu valor enquanto ser. Não posso porque devo isso a mim e à minha filha.
Não, não se trata de otimismo irracional, de fé cega em santo do pau oco. É uma postura diante da vida que me parece a mais saudável. Escolher o melhor e deixar que o hábito torne agradável, eis talvez a essência da persistência que leva ao êxito. No nível intelectual, essas considerações e reconsiderações sobre o significado do ditado podem durar eternidades. No meu coração, agora, é o que é. Amém.

André Faustino

26 de janeiro de 2017

Você não é geleia


A realidade não existe por si só como algo externo e independente. A sua realidade é criada por seu pensamento. Por isso, cuidado com seus próprios pensamentos. Cuidado com as historinhas que você, até de forma inconsciente, conta sobre si mesmo e para si mesmo. Por exemplo: se numa determinada situação que exige mais de você do que você gostaria você diz pra si mesmo "Eu não consigo" é claro que você não vai conseguir. Não porque você não é capaz de conseguir, mas porque você contou essa historinha da incapacidade para si mesmo e seu comportamento incapaz foi mero resultado disso. Jesus disse: "Vós sois deuses", ou seja, seres criados à imagem e semelhança de Deus, isto é, como Ele capaz de criar a partir de pensamentos e palavras (Verbo Divino). Isso significa que somos capazes de tudo e a vida é uma enorme massa de modelar, como aquelas da nossa infância. Por isso insisto: vigie seus pensamentos. Liberte-se de si mesmo. Definir é limitar o entendimento. Rótulos são para geleias.
 
André Faustino

23 de outubro de 2016

Um sonho


Seu Pereira e Dona Mirtes casaram-se há vinte anos. Para a festa de comemoração desse importante aniversário, Seu Pereira chegou ao luxo de servir vinho aos duzentos convidados. "Não é argentino, é de Jundiaí" - disse várias vezes Seu Pereira, como quem pede desculpas. Dona Mirtes, toda emperiquitada, cumprimentou e sustentou breves diálogos com todos os convidados, enquanto certificava-se de que havia uma boa porção de barquetes ou croquetes em cada uma das mesas.
Vinte anos antes, Dona Mirtes, querendo comprar seis pães, um leite e duas paçocas, entrou na padaria em que o jovem Seu Pereira havia começado a trabalhar. Dona Mirtes cruzou seu olhar com o olhar do Seu Pereira, que estava do outro lado do balcão e quase perdeu um polegar enquanto fatiava presunto gordo para outra cliente. Naquele momento, olhando para os lados e tentando inutilmente disfarçar um sorriso irreprimível, ambos sentiram-se atraídos, mas paralisados pela timidez.
"Seis pães, por favor..." - pediu Dona Mirtes. E acrescentou, aveludando a voz: "dos mais branquinhos..." O timbre da voz de Dona Mirtes fez Seu Pereira vencer a timidez. Ele entregou o saquinho com os seis pães que Dona Mirtes havia pedido não sem antes acrescentar um saquinho menor, que enchera rapidamente. Nele havia um sonho feito no dia anterior, mas ainda bastante apresentável. "Isso é pra você. É um sonho!" - disse então Seu Pereira, peito inflado. Dona Mirtes aceitou o sonho e não conseguiu mais reprimir seu sorriso.
Desse dia em diante Dona Mirtes só quis saber do pão do Seu Pereira. Os dois pombinhos, apaixonados, começaram a conversar sobre assuntos corriqueiros, enquanto Seu Pereira pegava um saquinho e forrava-o lentamente com a quantidade de pães que Dona Mirtes pedia. Aos poucos, Seu Pereira foi acrescentando, por sua conta, coisas que Dona Mirtes não havia pedido, como doces, pedaços de diversos queijos e, certa vez, até um salame hamburguês (inteiro). Não demorou até que eles trocassem seus telefones. Logo em seguida começaram a se encontrar. Dona Mirtes era uma moça muito ciosa da sua decência. Seu Pereira era um jovem honrado e respeitador. Pensando na noite de núpcias, ambos convenceram-se de que era a hora de noivar.
O casório, dois meses depois, foi espetacular. O pai de Dona Mirtes, Seu Waldisney (o Wal-Wal da peixaria), havia encomendado várias caixas de bebida. A comida não era excêntrica e agradou a todos. Havia até garçons "especialmente contratados", como dizia o Wal-Wal, servindo as mesas de armação de ferro que logo foram afastadas pra que todos pudessem dançar animadamente. Consta que o Wal-Wal gastou nessa festa quase todas suas economias, mas a banda contratada era uma das melhores do bairro, trezentos fogos de artifício coloriram o céu após o corte do bolo pelos pombinhos e ao que se sabe ninguém que tenha comido maionese passou mal. Naquela ocasião, os destinos de Seu Pereira e de Dona Mirtes aliaram-se por toda a eternidade.
Passados esses vinte anos, os dois continuam tão acesos como na tarde em que se conheceram. Dona Mirtes faz feijão com banha de porco, já que Seu Pereira gosta assim. Não é raro ela queimar as golas das camisas do Seu Pereira, esquecendo-se do ferro de passar roupa e lembrando-se, como que numa miragem, dos músculos do braço esquerdo do Seu Pereira contraindo-se, quando certa vez ele torceu o pescoço de uma galinha. Seu Pereira às vezes leva Dona Mirtes na quermesse de domingo, e compra para ela vestidos ou sandálias novas, além de sempre comprar algodão doce para os dois. É comum Seu Pereira colocar, às escondidas, trufas e bilhetinhos insinuantes nas bolsas e na gaveta de roupas íntimas de Dona Mirtes. Quando os encontra, Dona Mirtes arrepia-se toda por dentro e corre para a cozinha. Para retribuir o agrado, nada melhor que o doce de abóbora que faz Seu Pereira babar como um cão.
Quase todos os dias, Seu Pereira levanta-se cedo, apruma-se e ganha a rua com a intenção ("necessidade", como ele diz justificando-se para Dona Mirtes) de saber as novidades políticas e futebolísticas com amigos que moram ou trabalham nas redondezas: taxistas, guardinhas de estacionamento e donos de banquinhas de jornal. Por volta das dez horas, Seu Pereira costuma se sentir cansado e senta numa das mesas do bar do Seu Neílson. Enquanto assiste atentamente aos programas culinários e infantis, Seu Pereira hidrata-se com cerveja e abre o apetite com uma farta porção de linguiça calabresa acebolada, cortada bem grossa por Dona Katherynne, esposa do Seu Neílson.
É com os lábios brilhantes de gordura e o bigode encharcado de maionese que Seu Pereira saúda Dona Mirtes, que sempre liga no celular por volta do meio-dia para avisar que as encomendas já estão prontas. Seu Pereira pede então ao Seu Neílson que anote tudo direitinho no caderninho que fica guardado embaixo da caixa registradora. Chegando em casa, ajuda Dona Mirtes a colocar as encomendas nos bancos de trás da Kombi e sempre abre a porta para que Dona Mirtes entre.
A essa altura do dia Dona Mirtes já está cansada. Após fritar cerca de setecentos salgados de variados tipos para festas de aniversário, noivados, bodas, casamentos, formaturas, coquetéis empresariais e velórios os cabelos de Dona Mirtes já perderam o doce aroma do xampu de jabuticaba usado no banho matinal.
Seu Pereira consegue por milagre acomodar sua barriga entre o banco e o volante da Kombi. Sem camisa, passando inadvertidamente por sobre todos os buracos, Seu Pereira dirige com uma mão só, enquanto que com a outra segura um cigarro, ou acena para um de seus muitos conhecidos ou buzina para que algum ônibus saia logo do caminho. Exausta, Dona Mirtes acomoda sua cabeça sobre a lustrosa barriga do Seu Pereira. Enquanto escuta ruídos de tons e timbres variados vindos da pança do Seu Pereira, Dona Mirtes sente a mão calosa do Seu Pereira deslizar de vez em quando por seu braço e por sua cintura, provocando-a.
Dona Mirtes sente-se feliz, realizada, amada por aquele que um dia lhe ofereceu um sonho. Involuntariamente, Dona Mirtes retribui o agrado brincando de enrolar pequenas cordinhas com os pêlos que circundam o umbigo do Seu Pereira. Ocasionalmente, Dona Mirtes retira do umbigo tufinhos de lã que se desprenderam do cobertor durante o último sono. Enquanto a voz de Inezita Barroso ressoa pelo interior do veículo, Seu Pereira limpa a garganta e sussurra pensamentos íntimos e apimentados, alto o suficiente para que Dona Mirtes ouça. Mais um buraco, mais um chacoalhão. E assim prossegue trepidante o amor mais verdadeiro que existe sobre a terra.
 
André Faustino

De mãos dadas com a solidão


Ela trancou a casa com aquela sensação, já bastante familiar, de quem sai sem saber exatamente o porquê de estar saindo. Estava bem vestida, como se fosse encontrar alguém. Tarefas domésticas esperavam-na na volta, e não eram poucas. Mas o fato é que sempre há e haverá tarefas domésticas esperando. A vida, por outro lado, não podia esperar. Não naquela noite (e ela desejou secretamente que nunca mais). Por que ficaria ela em casa, ocupando-se de móveis empoeirados, roupas não passadas e verduras que estavam quase estragando? Para sentir-se responsável? Para sentir-se normal? Perante os olhos de quem? Hum... Se naquela noite houvesse um bom par de braços fortes e cuidadosos enlaçando-a, ou se houvesse uma boa recordação vívida o suficiente para entorpecê-la ou então se ela simplesmente se sentisse feliz sem nem saber por que... Não. Não havia nada, absolutamente nada. Menos que nada. Sua casa, que ela esforçava-se por chamar de lar, pareceu-lhe um ambiente estranho e hostil, um lugar pequeno demais para tudo o que carregava dentro de si e ainda assim enorme para sua solidão.
Em sua casa trancada não ficou ninguém, em sua mente nenhuma recordação, em seu coração nenhuma felicidade. Após se afastar alguns passos da porta da casa, parou e acendeu um cigarro. Sem sair do lugar, tragou lentamente duas vezes, olhar perdido, aspirando rapidamente e soltando a fumaça bem devagar, pelas narinas, enquanto olhava para os lados e sentia a presença da noite enorme. Noite brumosa e fria, noite sem som nem céu nem estrelas, noite sem graça, noite de trevas. Seus olhos sem brilho não se detiveram em nenhum objeto, em nenhum ângulo, em ninguém: olhavam sem saber o que procurar e nada registravam: olhavam, simplesmente, pois não havia nada realmente interessante para ser visto. Quando seus olhos se demoraram nos bicos dos seus sapatos, decidiu-se. Caminhou, então, alguns quarteirões. Quase sorriu quando notou que no bar habitual uma das mesas que ficava do lado de fora estava vazia. Sobre a mesa pousou o essencial: cigarro, isqueiro e celular. Sentou-se e acenou meio nervosamente para o garçom.
- Vinho da casa. Jarra. Obrigada.
O lugar trazia-lhe recordações que desejaria não ter. "Ou então", matutou, "vim para cá justamente por causa dessas recordações, para revivê-las em meu íntimo, para o bem ou para o mal, por necessidade. Estaria o meu inconsciente dominando o meu consciente agora?", filosofou. "Provavelmente sim. Afinal, faz só 23 anos que ele faz isso...". E sorriu. Sorriu o sorriso debochado e amargo da ironia contra si mesma, sorriu o sorriso de lábios tortos de quem se sabe refém dos próprios sentimentos. "Ele costumava se sentar aqui... Puxava sua cadeira para o lado da minha e seu braço repousava minha nuca quando nos beijávamos... E que sorriso... ai meu Deus! Que sorriso! A minha alegria sorria pelos lábios dele." E foi lembrando disso que sua face se contraiu toda, num misto de dor e desespero e perdição. Seus olhos finalmente brilharam até ficarem lacrimejantes. "Droga! Nada de dar bafão!", ordenou-se, lembrando-se de que não estava em casa.
Um pouco tarde demais, ela havia percebido que seu conflito interior chamara a atenção de algumas das mesas circundantes. Ciosa da indiscrição alheia, ergueu o queixo, franziu o cenho e passou a vizinhança em revista, como um general que revista suas tropas no campo de batalha. Todos os casais e grupos de amigos desviaram os olhos, nem tanto porque se sentiram intimidados, mas principalmente porque o espetáculo da moça triste e solitária perdera o atrativo tão logo descoberto. Havia apenas uma exceção, um homem com os seus trinta anos, ele também sozinho, que a encarou diretamente sem desgrudar seus olhos dos dela. Mas a cena era ridícula, pois ele semicerrou os olhos como um galã de filme B, como se ela estivesse ali para ser salva por...
- Bond, James Bond!
E gargalhou. Disse e gargalhou alto o suficiente para que todos ouvissem. E, talvez, todos estivessem pensando que ela não era uma moça triste e solitária, e sim uma moça louca e solitária. "Pronto", pensou ela, "o inevitável bafão..." O homem, que entendera o recado, afundou a cabeça nos ombros e fingia, vermelho como um tomate, ler um letreiro qualquer do outro lado da rua.
De repente, aquele bar, o bar das fortes lembranças, tornara-se, qual sua casa, um ambiente estranho e hostil. Ela perguntou-se, censurando-se antes de qualquer resposta, o que ela havia ido fazer ali, sozinha, fumando um cigarro após o outro e tomando uma jarra de vinho sozinha. Ela não sabia, não sabia de verdade, e na verdade nem queria saber. Mas censurava-se. Olhou para o celular. Mudo. Placidamente mudo. Irritantemente mudo. "Ele não vai ligar." Cruzou os braços e pousou os olhos sobre o cinzeiro, os pensamentos acelerando-se, encavalando-se, misturando-se e confundindo-se. Subitamente, como quem toma consciência de uma catástrofe iminente, ergueu os olhos, aterrorizada: "E se ele não me ligar nunca mais?" Seu rosto contraiu-se novamente, e dessa vez foi necessário trancar a garganta com muito ímpeto para não rebentar em soluços.
Sem olhar para os lados, ela dirigiu-se apressadamente ao caixa e pagou a conta. Não quis esperar o troco. Caminhou lentamente de volta para casa. A casa onde não havia ninguém esperando por ela, nem uma boa recordação e nem uma alegria qualquer: só as tarefas domésticas. Caminhou a passos firmes, embora deixasse sua cabeça pender para frente e para baixo, como quem se dirige ao patíbulo após um crime confessado. Um vento gelado queimava seu rosto e secava seus olhos. Seu corpo perdeu-se nas brumas. Talvez ela tenha chorado, de mão dadas com a solidão.

André Faustino

Fábula da andorinha


Não me recordo com exatidão se eu tinha dezesseis, dezessete ou dezoito anos. Sei que cursava o Colegial (atual Ensino Médio) e que certa vez, tive uma aula de Biologia para lá de interessante. Miguel, o professor, era um professor de verdade, ou seja, não se contentava em ministrar os conhecimentos que possuía. Por simpatizar com os adolescentes justamente nessa fase difícil e problemática da vida deles, sempre dava um jeito de usar os minutos finais da aula pra ensinar algo daquilo que não se encontra nos livros didáticos. Confesso que nunca gostei muito de Biologia. Aquele papo todo de angiospermas e gimnospermas sempre me deu um sono de múmia egípcia. Entretanto, quando o Miguel encerrava oficialmente a aula e dizia "agora eu quero dizer uma coisinha pra vocês", todos, sem exceção, aguçavam os ouvidos e prestavam uma atenção semelhante à do pecador em relação ao padre no confessionário. Certa vez, ele contou a fábula da andorinha imprudente, que transcreverei aqui com minhas próprias cores.
Era uma vez uma andorinha que, no verão, havia acompanhado suas companheiras até o polo sul, na época de reprodução. Uma vez "feito o serviço", ela permitiu-se descansar. Cavou uma covinha com o bico e ali descansou, tendo o límpido céu como vista relaxante. Passado certo tempo, o outono começou a se manifestar. No polo sul a manifestação do outono corresponde ao mais inclemente dos invernos nos trópicos. Sem perder tempo, as companheiras da nossa andorinha começaram a voar, em busca de um local mais quente e aprazível. E a andorinha nada de nada, não movia uma pena de preocupação. Uma das últimas andorinhas a partir, sua amiga, aproximou-se admoestando:
- Venha conosco! Estamos partindo!
- É cedo! Está tão bom aqui no meu buraquinho...
- Venha - insistiu a andorinha amiga. - Logo chegarão os ventos frios e se você não nos acompanhar, morrerá com certeza!
- Sossega! Isso é obsessão da sua parte. Eu logo vou e me salvo. Confie em mim.
- Você é quem sabe - respondeu a andorinha amiga. Dita essa frase, ela alçou voo e desapareceu.
Nossa andorinha ficou mais alguns dias em seu confortável buraquinho. Estava completamente alheia a tudo o que acontecia ao redor e só cuidava de permanecer aquecida e rememorar os bons momentos da última estação. Mas o frio é inclemente e logo começou a engrossar de tal modo que nossa andorinha não conseguiu ignorá-lo. Vencendo sua resistência e comodismo ela enfim confessou-se: "É hora de partir!"
Tarde demais. Não muito depois de ter levantado voo a andorinha começou a sentir cãibras enormes por causa do frio. "Isso passa" - pensou ela, enganando-se sem perceber. Alguns quilômetros adiante o frio era tão intenso que uma fina película de gelo começou a se acumular sobre suas asas. Sentindo a dificuldade crescente de usá-las a andorinha arrependeu-se sinceramente: "Devia ter dado o devido valor ao aviso da minha amiga. Da forma como estou não duro mais meia hora e logo morrerei no mar." Entregando-se ao destino cruel da morte por afogamento a andorinha sentiu suas forças desaparecerem. Era questão de segundos até que ela se entregasse quando, inesperadamente, ela avistou uma ilhota perdida no meio do oceano. Isso fez com que ela recobrasse o ânimo. "Uma ilhota!" - empolgou-se - "Ali poderei descansar antes de prosseguir viagem e, assim, me salvo!" Não foi um verdadeiro pouso, foi mais uma carreira desabalada até o solo da ilha.
Assim que a andorinha tocou o solo, sentiu sobre si o soterramento de uma enorme massa quente. É que, sem perceber, ela havia pousado entre as pernas traseiras de uma vaca que os ilhéus ali criavam. Sim, a vaca cagou nela. E acaso pensa você, leitor, que ela se sentiu a última das últimas por causa disso? Longe disso! O calor da merda derreteu o gelo que se acumulava em suas asas e transmitiu-lhe uma indescritível sensação de bem-estar. Uma sensação tão intensa que ela não conseguiu se conter: começou a piar de felicidade, cantou e cantou como se fosse a pomba branca do Paraíso.
Para sua infelicidade, naquele exato momento uma cobra rastejava por ali. Distraída por seus próprios pensamentos, a cobra procurava seu ninho quando o canto da andorinha despertou-lhe a atenção. Agradecida ao deus das cobras por oferecer-lhe um almoço assim tão eloquente e fácil, a cobra aproximou-se da andorinha e sem pensar duas vezes engoliu-a.
A fábula termina aqui. Dela o professor Miguel extraiu três máximas: duas existenciais e uma pragmática respectivamente.

1) NEM TODO MUNDO QUE TE CAGA EM CIMA É TEU INIMIGO.

2) NEM TODO MUNDO QUE TE TIRA DA MERDA É TEU AMIGO.

3) QUANDO VOCÊ ESTIVER FELIZ, FIQUE QUIETO!

André Faustino

Eugenia


A palavra eugenia é de origem grega (eugéneia) e significa “bem nascido(a)”. Nascer bem, na Grécia Antiga, não era vir ao mundo através de um parto sem complicações, era nascer em uma família nobre, isto é: o novo serzinho dedicar-se-ia à ciência ou às artes sem se preocupar em demasia com o trabalho, que era obrigação dos pobres mal nascidos e escravos (que, por serem escravos, eram considerados meio humanos). Entretanto, a partir dos estudos evolucionistas de Darwin, no século XIX, seu primo Francis Galton deu ao termo eugenia seu significado moderno: uma ciência que estuda as condições mais propícias à reprodução e melhoramento da espécie humana ou, sem rodeios, a “ciência dos bons genes”. Na prática, essa ciência visava a aperfeiçoar a população humana por meio da seleção de características hereditárias desejáveis. Há duas correntes: a eugenia negativa, cuja proposta é obter o aperfeiçoamento desestimulando a reprodução dos portadores de genes defeituosos, e a eugenia positiva, cujo objetivo é o mesmo, mas incentivando a procriação de pessoas geneticamente superiores. A dificuldade é, precisamente, fixar o que é uma pessoa geneticamente superior, sem deixar de levar em conta aspectos não genéticos da vida, como a cultura e o instinto natural de reprodução comum a todos os seres vivos. Sou daqueles que pensam que superioridade e inferioridade são palavras que não se aplicam a qualquer ser vivo. Bem ou mal, o caramujo que vive no meu jardim consegue enfrentar seus problemas e sobreviver tão bem quanto eu e você.
Antes mesmo que, animados por essa ideia eugênica, os nazistas transformassem milhões de não germânicos em cinzas, uma senhora imigrante chamada Annunziata Leo, natural de Roma, dava à luz seu décimo primeiro bebê, na pacata cidade de Araraquara, interior de São Paulo. Esse bebê era minha avó materna. Desconfio que minha bisavó não conhecia a etimologia do termo eugenia e que nem suspeitava o que, em nome dela, povos fariam em busca do seu “aperfeiçoamento” genético. Fosse como fosse, minha avó ganhou o nome de Eugênia.
Duplo engano, como demonstrarei. Engano, em primeiro lugar, porque a família da minha avó era numerosa e vivia numa pequena propriedade rural onde quem não trabalhasse não tinha direito a um lugar na mesa, na hora das refeições. A infância era feita de brinquedos e instrumentos de trabalho, e mais de instrumentos de trabalho do que de brinquedos. O nascimento da minha avó não foi nobre, no sentido grego do termo. Engano, em segundo lugar, porque minha avó herdou o tom de pele do meu bisavô, português da ilha da Madeira, descendente dos mouros do norte da África que dominaram Portugal e Espanha por quase oito séculos e misturaram seus genes com a população preexistente de celtas e romanos (Hispânia) e germânicos (Reino Visigodo). Na Araraquara do início do século XX, ser bem nascido era, em primeiro lugar, ter a pele o mais branca possível: herança da mentalidade escravocrata que ainda existe e que associa ser feliz com não trabalhar. A maioria da população brasileira ainda vivia mais no campo do que na cidade, e ter a pele bronzeada era sinônimo de ser trabalhador pobre. Os ricos mal saíam de casa ou trabalhavam em ambientes fechados, e por isso eram mais brancos. Além do mais era muito comum o uso de pó de arroz pelas mulheres. Uma moça rica dessa época mal saía de casa, embora pudesse se distrair fartamente com aulas de francês, piano ou valsa.
Nessa época, uma menina que se alfabetizasse e terminasse a quarta série, rica ou pobre, já estava pronta para casar. Como não havia controle de natalidade, ter uma boca a menos para alimentar era uma tentação muito grande para os pais e por isso os casamentos eram arranjados sem muitas consultas aos noivos. Com não pouca ansiedade, minha avó esperava ter sua mão pedida por um rapaz pelo qual ela se apaixonara profundamente. O nome dele? Eugênio... Segundo minha avó, Eugênio, que era branquinho e bem nascido no sentido grego do termo, também se apaixonara por ela. O único problema que impedia a realização do casamento era a mãe do Eugênio, que se desdobrou em quatro para afastar Eugênio da minha avó até finalmente convencê-lo a se casar com outra moça, uma qualquer que fosse mais branquinha e bem nascida. Isso de fato aconteceu. Minha avó descobriu o noivado e ficou arrasada, claro. Meses depois ela foi casada com meu avô, e entre os dois sempre existiu muito respeito e nenhum amor. Meu avô não viveu muito (desenvolveu um câncer no estômago) e minha avó nunca mais se interessou por outro homem (trabalhando o tempo todo para sustentar seus cinco filhos, ela mal tinha tempo pra isso...).
Após décadas de viuvez pacata e resignada, minha avó, já idosa, recebeu uma visita inesperada. Era o Eugênio. Minha avó tem o hábito de ler o obituário da cidade todos os dias (como ela diz: “toda semana tem alguém que eu conheço que é premiado!”). Alguns meses antes ela soubera do falecimento da esposa branquinha do Eugênio. O Eugênio apareceu todo atencioso e pimpão, vestido com um terno muito elegante, os poucos cabelos penteados com esmero para trás. Em uma das mãos o Eugênio tinha uma única rosa. Ele ofertou essa rosa à minha avó e, enquanto mantinha o braço esticado com a rosa presa pelos dedos, pediu sua mão em casamento.
Minha avó desconfiou que ele só queria uma nova esposa para lavar as cuecas dele e de pronto recusou o pedido. Secamente. Entre os dois, o portão gradeado que não foi aberto. Voltou-lhe as costas e fez menção de deixa-lo falando sozinho quando algo estalou em sua mente. Veio-lhe à memória o vexame da adolescência. Então, voltou-se e perguntou:
"- Por que você veio me pedir em casamento? Eu não sou escura demais pra você?"
 
André Faustino

Tiberius Aethiopicus


Não fazia ainda dois meses desde que eu havia me mudado da minha quitinete, em São Paulo, onde morei durante três anos, para a casa do meu pai, no interior do estado: mais exatamente, em Araraquara, uma cidade pouco verticalizada e com cerca de duzentos mil habitantes que conseguem a duras penas sobreviver sob o intenso bombardeio de um sol causticante.
Pois então... A casa do meu pai está entranhada em algum ponto dentro de um emaranhado de casas que, suspeito eu, faziam há décadas parte de uma única e mesma casa no centro velho da cidade. O retalhamento desse lote urbano foi, sem dúvida alguma, feito às pressas e sem o mínimo planejamento urbanístico. Ou seja, foi feito nas coxas. O resultado arquitetônico prático disso é que a casa do meu pai está cercada de telhados. Os muros que separam as casas são baixos e a paisagem resultante é a de um muro de telhas inclinadas por todos os lados. Até aí, tudo bem, pois esse cenário sem graça fazia parte do ambiente que sabia que teria forçosamente que chamar de “lar”.
Num fim de tarde, em que agastara-me excessivamente matutando se minha mudança de São Paulo pra Araraquara tinha sido a decisão certa ou não (não foi), saí do meu tugúrio com o intento de fumar um cigarro no quintal, todo ele cercado de telhas. O ar puro começou a restabelecer-me o ânimo. O céu estava lindo, com poucas nuvens de chuva e de um azul de conto de fadas. Enquanto eu filosofava ali no quintal sobre uma coisa qualquer, percebi que não estava sozinho. Na verdade, senti com o rabo dos olhos ou com o tal do sexto sentido que estava sendo observado. Decidido a esclarecer a questão, virei minha cabeça na direção do que parecia ser um intruso. Vi um gato no telhado.
Um gato concentrado, receoso, potencialmente arisco. Ele estava com os olhos cravados em mim, estudando-me, tentando descobrir se eu representava uma ameaça ou, quem sabe, se eu era um desses humanos babacas que correm para suas cozinhas e voltam trinta segundos depois com uma tigelinha transbordante de leite de vaca tipo C. Aquele gato não parecia exatamente um gato domesticado. Algo naquela sua postura e estudada hesitação diziam-me que aquele gato era cem por cento selvagem. E havia um sinal externo, no tronco do gato, que corroborava minha intuição. Eram suas costelas, que estavam todas bem à mostra sob o fino manto de pele e pêlos, porque gordura em seu corpo não havia. Aquele gato era um selvagem, que não sabia o significado da palavra ração e sobrevivia caçando ratos, insetos e pássaros engaiolados.
Instantes depois em que nossos olhos, pela primeira vez, se encontraram em mútua observação, o gato arriscou desfilar na passarela e percorreu retilineamente uns três metros de telhado, a uns três metros do local onde me encontrava. O jeito como ele caminhou e me olhou diziam claramente: “eu estou em casa, em qualquer lugar estou em casa, porque sou gato, mas quem é você, estranho?”
Gostei dessa postura. Considerei em meus pensamentos que o dito gato bem poderia ser um anarquista por natureza, já que havia defendido galhardamente com sua postura e seu olhar seu direito natural a zanzar por aquelas telhas e a ter sua intimidade respeitada. Mas, logo em seguida, desprezei tal ideia, pois os gatos são, na verdade, extremamente egoístas. Nunca amaldiçoei os gatos por isso. Afinal, eles nasceram gatos, não tiveram escolha. Por comparação, cheguei à conclusão de que os cachorros sim podem ser republicanos, já que naturalmente são predispostos para o convívio em bando, quer dizer, em sociedade. Os gatos seriam, antes, monarquistas, pois cada gato que se vê por aí, atravessando a rua sorrateiramente, avançando lentamente sobre um muro, estraçalhando os sacos de lixo nas ruas, atrapalhando nosso sono com suas brigas ou trepadas, esses gatos... não passam de uns pretendentes a rei! Por isso disputam territórios e fêmeas, igualzinho aos humanos que reagem às ameaças com tapas e bombas. Mas, refleti, se cada gato quer o território e as fêmeas do vizinho, deve lutar por eles. E o gato que já era dono do seu reino e conquista à força, como bem nos demonstra a história da civilização ocidental, o território de um seu concorrente, automaticamente começa a aspirar, e com razão, ao título de imperador. O fato é que nunca antes havia recebido a visita de uma corte, seja de reis e príncipes herdeiros humanos do mundo, nem mesmo a visita de um gato no telhado da minha casa. E a explicação desse fenômeno, de tão simples, chega a ser risível: até mudar-me para a casa do meu pai, eu sempre havia morado em apartamento...
Após transformar mentalmente, num átimo, a maioria das minhas suposições em fatos consolidados e, com os olhos ainda cravados nos olhos do gato, fiz o que qualquer humano que se encontrasse em minha situação faria: humanizei o gato. Sim, simples assim. Dei-lhe um nome. Todas as pessoas relativamente inteligentes sabem que gato não tem nome. Você pode dar um nome a ele. Mas, se os donos de cachorros podem se contentar chamando seus amiguinhos por um nome decorado e processado no cérebro do cão com a mensagem “o chefe chama”, os donos de gatos não podem desfrutar desse prazer. Gato nenhum decora o nome que lhe damos, porque ele é gato, não cachorro. Eles são interesseiros, aparecem quando querem comida, sombra para dormir ou carícias em seus pêlos. Caso contrário, desaparecem sem deixar vestígios, sem uma carta de despedida nem nada. O gato some. E não adianta chamar-lhe de “campeão” que ele vai achar você um ridículo e fingir que não é com ele. Afinal, todo gato sente-se um campeão só por ser gato. Parece coisa de argentino, mas é coisa dos felinos.
Apesar disso tudo, humano que sou, humanizei: “batizei”, imprimi àquele ser um nome que não perguntei ao ser se ele aceitava ter (porque sim, o homem também é, por natureza, um ser imperial, embora a cultura possa eventualmente ganhar status de verdade republicana se, como diziam Rousseau e Montesquieu, o indivíduo sacrificar parcialmente sua liberdade individual em prol do bem comum). Graças à sua magreza de costelas à vista, lembrei-me de uma fotografia do Kevin Carter, que ganhou o renomado Prêmio Pulitzer de Fotografia Jornalística. A fotografia mostrava uma criança etíope, na verdade uma caricatura de criança, um conjunto de ossos que mal conseguia manter-se em pé. Incapacitada de sustentar o peso de sua própria cabeça, a criança encontrava-se deitada, em busca de uma posição fetal. Estava desesperada e pedia ajuda. Mas não tinha forças para falar. Na foto, pouco atrás da criança devorada pela fome, encontrava-se um abutre. Ele decerto estava só começando a ficar com fome. E por que não pousar ali, ao lado daquela criança faminta, que demorará ainda umas duas ou três horas para finalmente morrer? Foi o que o pássaro fez. Pousou, esperou, antevendo o prazer de bicar aquela pele sem carne.
Muito bem, a fotografia da qual havia me recordado decidiu-me: teria que batizar o gato com um nome etíope. Mas, tendo em vista a atitude imperial concernente aos gatos, tinha que ser um nome etíope e imperial. Tiberius Aethiopicus: um imperador romano que nunca existiu, mas que em defesa da boa sonoridade dos nomes inventados, resolvi inventar. Tiberius, um nome de imperador, sem sombra de dúvida. O Aethiopicus era para lhe adornar com um manto invisível e imperial a curvatura das suas costelas.
Foi intrigante. Após desfilar retilineamente sobre aqueles três metros de telha, ele se escondeu atrás da caixa d’água de um vizinho. Instantes depois, sentindo-se bem entrincheirado, o gato partiu para o ataque: colocou sua cabeça à mostra, numa postura de general, avaliando o terreno inimigo e decidindo-se por uma estratégia combativa. As orelhas eriçadas, qual sonar, captariam qualquer movimento que eu esboçasse. Os gatos são espertos.
De repente, Tiberius recolheu sua fronte e desapareceu. Mais uns instantes se passaram e, silenciosamente, ele reapareceu e aproximou-se por um telhado bem próximo. Ele estava a um metro de mim. Entre eu e ele apenas um muro baixo. Ele parou, fixou seus olhos nos meus e lentamente começou a inclinar a cabeça para um lado. Não sei se foi uma atitude sentimentalóide da minha parte, mas interpretei aquele inclinar de cabeça como um carinho, uma espécie de manifesto de paz entre os povos e as espécies do planeta.
Como humano, desarmei-me em relação a ele. Ele, felinamente, desarmou-se também. Ficamos então a contemplar-nos um ao outro por um longo minuto e meio, como quem encontra o cadáver de um E.T. e não sabe muito bem o que fazer com ele. Nesse instante, formou-se um pacto, espontaneamente. Tiberius era bem-vindo. Se aparecesse eu lhe chamaria pra tomar um café, ou seja, serviria leite de vaca tipo C numa tigelinha. Caso contrário podia tentá-lo com carne e um tapete bem felpudo pra dormir.
Não cheguei a fazer isso. O fato é que Tiberius e eu nunca mais nos vimos. Eu até gostaria de domesticá-lo, adotá-lo... Mas Tiberius é um gato selvagem, e acha que esses cuidados que estou predisposto a lhe oferecer são, em essência, coisa de veado. Não quer saber de nada disso. Sumiu. Talvez esteja, nesse instante, imperando sobre outro quarteirão, talvez esteja morrendo de fome, com um urubu por perto.

André Faustino

Estupra mas não mata


Senhores, senhoras, cristãos revoltados dos quatro cantos da Terra. Eu, simples mortal, venho prestar minha humilde, porém contundente homenagem ao arcebispo de Olinda e Recife: Dom José Cardoso Sobrinho, bastião e orgulho da Santa Madre Igreja Católica Apostólica Romana, amém. Posso certamente imaginar o leitor com o cenho franzido, apreensivo, imaginando por que estou aqui a defender essa nobre pessoa, vítima nos últimos dias dos vilipêndios proferidos pelas ovelhas desgarradas da milenar sabedoria teológica da instituição mais antiga do mundo em funcionamento. Como argumentarei nas próximas linhas, os dizeres do arcebispo a respeito do aborto realizado em uma menina de nove anos só têm a contribuir para a construção de um mundo mais humano e esclarecido. Passemos aos fatos sem mais delongas.
Em entrevista a diversos jornalistas, o arcebispo defendeu a excomunhão de uma menina que foi estuprada por seu padrasto. Sobre o estupro, o arcebispo disse: "Esse padrasto cometeu um pecado gravíssimo. Agora, mais grave do que isso, sabe o que é? O aborto, eliminar uma vida inocente". Que fique claro: o estupro, apesar de não apoiado pela Igreja, não é um ato indigno o suficiente para sequer aventar-se a hipótese de se excomungar o estuprador. Séculos de estudos teológicos e zelo eclesiástico sustentam essa posição. O padrasto, que inclusive admitiu o crime perante as autoridades civis, precisará sem dúvida alguma submeter-se às penitências impostas pela Igreja, ou seja, regenerar-se através da oração e da fé: Deus misericordioso o perdoará, embora não haja certeza alguma quanto a isso. Para a Igreja, porém, isso é o quanto basta. Além disso, ele poderá receber todos os sacramentos da Igreja, até o último, que é a extrema-unção, ou seja, a última confissão dos pecados antes de o corpo ser abandonado pela alma. Dito de outra maneira: o padrasto pode acalentar a esperança de ir para o céu após o julgamento de sua alma no Juízo Final.
O mesmo não se pode dizer da menina, da mãe dela e da equipe médica que participou do aborto. Estes, excluídos pela excomunhão dos sacramentos da Igreja, estão automaticamente com o acesso vedado aos portões do paraíso. São, aos olhos das ímpias autoridades civis, inocentes. Porém, aos olhos da Santa Igreja, são pecadores da pior estirpe: "A Igreja nunca pode trair o seu anúncio, que é defender a vida desde a concepção até a morte natural, mesmo em face de um drama humano tão forte como o da violência contra uma criança" - disse Gianfranco Grieco, chefe do Conselho Pontifício para a Família do Vaticano em nota de apoio ao arcebispo Sobrinho. Se eu fosse a menina de nove anos, a mãe dela, ou um dos médicos que participou do aborto, começaria a me acostumar com a ideia de sentir o cheiro de enxofre por toda a eternidade. Nada mais merecido aos que atentam contra a vida, diz a Igreja.
Isso dito, não cabe aqui o argumento demasiado frágil de que a menina, caso prosseguisse com sua gestação, correria o risco de morrer antes de o feto desenvolver-se completamente. Não, meus senhores, como o digníssimo arcebispo não nos deixou esquecer: "a lei de Deus está acima de qualquer lei humana". Em outros termos, se a criança de nove anos morresse isso seria a vontade de Deus, que só Sua Santidade, o papa Bento XVI, pode apropriadamente interpretar. Não esqueçamos que todos os papas são amparados pelo dogma da infalibilidade papal, ou seja, de acordo com a Igreja, qualquer pessoa eventualmente erra, menos o papa. A menina devia correr o risco de morte, apesar de todos os indícios apontarem para o fato de que o feto iria morrer de qualquer maneira, com ou sem aborto. A excomunhão estendeu-se da menina à sua mãe e à equipe médica porque estes, desatentos aos desígnios de Deus e da Santa Igreja, cometeram a enorme crueldade (esses inimigos da fé!) de preocupar-se em salvar a vida da menina. Aos olhos da Santa Igreja, todos se colocaram acima das leis de Deus.
Senhores! Senhoras! A Santa Igreja já sofreu os mais variados revezes: no século XVI, milhões de almas foram arrancadas do seio da verdadeira Igreja pelas mãos dos hereges protestantes. E esse foi o mal menor. Depois, veio primeiro Darwin, a contestar o Gênesis, e depois Marx, a duvidar da própria existência do Altíssimo. No século passado, esse longo século de mundanidade babilônica, a educação laica se impôs e os templos esvaziaram-se num ritmo crescente. Aqueles que se declaram católicos são, como se sabe, cada vez mais não praticantes, e distanciam-se por negligência dos ensinamentos da Santa Igreja.
Um caso como esse, envolvendo um estupro seguido da excomunhão da vítima, gerou infelizmente um sentimento de revolta no coração da maioria dos cristãos (é realmente triste quando uma ovelha se põe a raciocinar...). O que virá depois? Será que as pessoas, gozando do sabor da liberdade de viés iluminista, começarão a desconsiderar as determinações da Santa Igreja ao conduzirem suas vidas? Continuarão, por exemplo, a utilizar os métodos anticoncepcionais que só atentam contra o milagre e a dádiva da vida, só porque criar filhos com dignidade custa muito tempo e dinheiro? Prestarão mais atenção às leis civis do que aos dogmas da religião, só porque a realidade é mutante e as leis da Igreja não? Continuarão, como alguns fazem, a questionar o pressuposto da infalibilidade papal ou, ainda, a buscar o contato com o divino sem o intermédio da Igreja?
Meu Deus, onde vamos parar? Não seria o caso de o Senhor destruir essa nova Gomorra ou, nós, honrados cristãos que seguimos o ensinamento máximo de amar ao próximo como a nós mesmos, lançarmos uma cruzada purificadora que elimine todos os pecadores dos quatro cantos da terra (que como todos sabem é plana)?

André Faustino

Precisão


Sejamos precisos
Eu, precisamente,
Não me entendo com você
Nossas mentes são precisas
Nossos corações imprecisos são
Ambos erram ou reconsideram
Com refinada precisão
Diante de tantas imprecisões
Precisamos precisar
O que é preciso
Para que nada mais
Preciso seja.
 
André Faustino

Libertando vaga-lumes


Eu ainda era criança quando minha mãe me contou um episódio da infância dela.
Nascida no tempo em que era comum cada criança ter uma penca de irmãos, minha mãe dividia seu tempo entre as brincadeiras e os afazeres domésticos, e tinha mais ferramentas do que brinquedos. Carne era um luxo reservado para os domingos. Não havia geladeira, só um móvel de madeira, hoje extinto, chamado de guarda-comida, de onde minha bisavó tirava pães velhos recobertos de bolor que eram raspados com faca até ficarem apresentáveis: então fatiava-os, distribuindo cada quinhão aos filhos e netos cansados que rodeavam a mesa. Pobres a ponto de poder manter a dignidade e nada mais, meus bisavós tinham uma pequena propriedade rural nas cercanias de Araraquara. Irmã mais velha, logo minha mãe foi incumbida por minha avó de ajudar nos serviços domésticos. Com nove anos, cozinhava para todos em pé sobre um banquinho, para poder alcançar a pia da cozinha. Chorosa, enterrou a morta Teresa, boneca de papelão decorada com as cores da imaginação, que por esquecimento tomou chuva e se desfez qual bolacha mabel no leite quente. Curiosa, lia livros e gibis escondida, pois segundo minha avó instrução era coisa de homem: às mulheres bastava ser boa dona de casa e preparar-se para o celibato emocional do casamento. Quando flagrava minha mãe lendo, minha avó atirava os gibis em direção ao forro, posto que a casa não tinha teto de concreto. Aos domingos, enquanto os homens carrancudos e silenciosos permaneciam na sala de estar fumando e escutando no rádio as últimas notícias, ela e as outras mulheres ficavam entregues a si mesmas, na cozinha ou no quintal, completamente alheias ao que acontecia fora de Araraquara. Não foi fácil a infância dela.
O episódio que ela me contou foi o seguinte. Certa noite, munida apenas de uma caixa de fósforos vazia, ela saiu sozinha de casa e dirigiu-se pelo quintal em direção ao mato mais próximo. Sua intenção era aprisionar vaga-lumes. Vale lembrar que na época as cidades eram menores, e por isso era fácil encontrar vaga-lumes: hoje, para cada vaga-lume visto você terá visto antes 487 pombas, 5 yorkshires, 16 poodles, 2 psicopedagogas sexualmente frustradas e uma marcha evangélica. Minha mãe conseguiu aprisionar uma quantidade razoável de vaga-lumes dentro da caixinha de fósforos. Afoita, correu para dentro de casa. Entrou num quarto vazio e totalmente escuro e então abriu a caixinha de fósforos, libertando ao mesmo tempo todos os vaga-lumes aprisionados.
Quando ela me contou essa história, parecia que pingava açúcar da boca dela, como se a visão dos vaga-lumes iluminando o quarto fosse mais bela que a visão do Paraíso por Dante. Um lampejo daquela felicidade recordada brilhou em seus olhos, e me iluminou também. Como disse antes, eu era criança quando ouvi essa história.
Muitos anos se passaram até que minha mãe me fizesse uma revelação que desde então fica dando cambalhotas dentro de mim: toda vez que ela sonha comigo, eu tenho cinco anos de idade, e sou daquelas crianças meigas e bochechudas com olhar de cachorro abandonado que fazem qualquer ser humano recobrar a fé na humanidade. Será que é por que eu sou o caçula de uma mãe italiana ("Come senão eu me mato!")? Será que é por que eu não era tão problemático quando era criança? Será que é por que algo daquela criança ainda vive em mim, algo que eu não vejo e ela sempre viu? Não consigo abstrair, só invejar, o edenismo desse sentimento.
Poucos meses atrás, numa noite de domingo, saindo da casa da minha ex-noiva, dei quarenta passos até um matagal próximo com o intuito de praticar um dos meus esportes favoritos: dissolver-me nas sombras e no silêncio. O interessante é que há um córrego que passa no meio desse mato encravado entre bairros aqui de Marília. Isso significa que além do mato, havia uma profusão de sons de grilos e rãs inspiradas que compunham um cenário paradisíaco com a noite fresca, o céu estrelado e a lua cheia. Silencioso, comecei a respirar mais devagar, deixando que essa orquestra da natureza usasse meu coração como caixa de som. Então, inesperadamente, uma luz brilhou a poucos centímetros do meu rosto: era um vaga-lume! Como que vítima de uma avalanche, lembrei-me ao mesmo tempo da infância da minha mãe, de que ela sempre lembrava de mim criança, de que estamos em cidades diferentes e... senti uma saudade ancestral dentro de mim. Não sei se toda vez que lembrar de minha mãe lembrarei dos vaga-lumes, mas sei que toda vez que um vaga-lume piscar pra mim, me lembrarei dela.
Minha mãe, minha heroína, minha criança que mal teve infância, que casou com um homem que não amava e que o álcool tornou insuportável, que criou três filhos na raça e que foi tão maltratada por todos os três, que sofre em silêncio no silêncio de sua própria voz, que está sempre atenta e preocupada com os filhotes como uma ursa, que cozinha moela pra mim toda vez que vou pra Araraquara: eu te amo! eu te admiro! eu te agradeço! No fundo da minha alma, você é o reflexo da luz do vaga-lume nos seus olhos extasiados de criança, com o sorriso plácido que há tempos não vejo arqueando seus lábios. 
 
André Faustino

Game over


Não há nada mais democrático que a morte. A morte alcança, quando ela bem quiser, o rico e o pobre, o homem e a mulher, o sábio e o ignorante, o animal e o vegetal, o Zé da padaria e o presidente dos Estados Unidos. Não é preciso ser idoso para morrer, nem estar doente, muito menos ser um soldado em ação arriscada. Qualquer ser vivo pode morrer a qualquer momento, de causas imperscrutáveis e de modos variados. Muitos dos passageiros do Titanic, por exemplo, não pensavam que teriam um encontro iminente com a morte, antes de embarcarem. Um homem com os seus quarenta anos que sempre teve o melhor plano de saúde, sempre cuidou de sua alimentação, nunca cultivou vícios e sempre se exercitou: numa das corridas pelas ruas próximas de sua casa, um caminhão desgovernado carregado de material inflamável atropela e mata esse nobre e valente conservador da vida, e mais algumas pessoas. Um jovem qualquer, caminhando para a escola de manhã enquanto uma tempestade se divisa no horizonte, é subitamente atingido por um raio e morre instantaneamente. Uma mulher grávida e sadia, a quem um médico aconselhou o parto normal, morre durante o parto. Uma menina linda, de seis anos, sai a brincar na rua com sua bicicleta novinha em folha e é atingida entre os olhos por uma bala perdida. Os exemplos são infinitos, mas esse texto não é. É por isso que pretendo multiplicar os exemplos... Espere um pouco leitor, tem um rapaz magricela aqui, vestido de preto e carregando uma foice. Cometeu a indelicadeza de me cutucar no ombro esquerdo com seus dedos ossudos. Vou ver o que ele quer e daqui a pouco eu volto.
 
André Faustino

Deixe passar


Saudade...
A saudade passa,
A saudade está sempre a passar...
Se não passasse não seria saudade
A saudade passa se arrastando,
Rangente, como se quisesse ficar.
Olha fundo e ternamente, esperando um convite
Para os miolos docemente desmiolar.
Em a saudade passando...
Deixe-a, pois, passar.
Ela faz, sinuosa, gestos de quem vai voltando,
Mas é só para não encontrar
Diante da obstinada resistência,
Razão para retornar.
Onde está o sorriso de menino?
Cadê o brilho no olhar?
Deixa de desatino:
Deixa a saudade passar!
O mundo gira, aqui um nasce, lá outro morre.
O pó se assenta e a memória esquece.
Triste ou feliz, o coração medita o pulso.
O sol se alteia, a dor fenece,
Vendo a saudade passar.
 
André Faustino

O ano começou


As pessoas podem ser divididas em duas categorias: aquelas que adoram o calor e aquelas que, como eu, são normais.
Piadinha infame à parte, a primeira frente fria chegou, avisando que o inverno de fato não tarda. Ainda bem. Embora adore uma piscina e até uma praia de vez em quando, o fato é que o calor exerce um efeito danoso sobre meu humor e minha disposição física e mental. É como se eu, no calor, fosse uma máquina que funcionasse com apenas metade da sua capacidade produtiva. Qualquer refeição, mesmo as pequenas, me deixa sonolento quando a temperatura é alta. É por isso que gosto de comer feijoada em dias quentes: obrigado a dormir muitas horas logo após a refeição, subtraio ao verão, vingativamente, algumas horas da minha vida consciente. As roupas suadas e grudentas causam-me um desconforto enorme. Tenho a impressão de que num dia bem quente até meus pensamentos não conseguem ser terminados e espatifam-se no mormaço. Agora é diferente: se para a maioria dos brasileiros o ano só começa pra valer depois do Carnaval, pra mim o ano só começa agora.
O reveillon do meu calendário oficial foi ontem. Após uma sequência de dias irritantemente calorentos, uma chuva daquelas caiu. Chuva daquelas é chuva com direito a vento forte, trovoada e que demora horas para terminar e, quando essa terminou, já era noite. Ou seja, o sol inclemente não iria transformar a água caída em mormaço sufocante. O vento continuou soprando, menos forte é verdade, mas soprou sem parar, obrigando muitos a tirar dos seus armários cobertores grossos guardados muitos meses antes. E constatei, satisfeito, que essa é a época dos capucinos, dos filmes para se assistir embaixo de um bom edredom, das receitas gordurosas (colesterol é vida!) e dos dias em que o suor dá umas férias pra gente.
Hoje o dia amanheceu friozinho, mas à tarde o sol começou seu bombardeio e esquentou novamente. "Ele não vai parar, o maldito!", pensei comigo mesmo, desanimando. Entretanto, apesar do frio ter ido embora, o calor não chegou. Quando anoiteceu, o frio voltou sem chuva e com muito vento. Há pouco saí na rua para uma curta caminhada. O bairro onde moro é excessivamente tranquilo e mal iluminado, o que me obriga a imaginar crimes incríveis que poderiam ocorrer por aqui, pra chacoalhar a monotonia. Mas esse silêncio e escuridão foram abençoados hoje, pois o vento balançando a folhagem das árvores produziu um efeito sonoro que não é daqui: o de ondas suaves arrebentando contra rochas. Parei minha caminhada um instante, senti o frio na pele e fechei os olhos por alguns segundos. E sorri. Seja bem-vindo, Sr. Frio.

André Faustino

Desertos




A palavra deserto não é muito amigável. Alguma coisa dentro de mim se incomoda com sua aparição em uma leitura ou diálogo. A razão disso é bastante simples: um deserto, por definição, é um lugar com pouca ou nenhuma vida, é um lugar que para o homem é inóspito, é mais um local de passagem obrigatória entre duas terras férteis do que um lar. Local em que céu e terra se encontram e se abraçam, feito de contrastes entre o frio e o calor, a claridade e a escuridão absolutas, entre a imensidão do próprio deserto e a sensação de pequenez que acomete todo aquele que por ele passa, de tempestades violentas contra as quais pouco ou nada se pode fazer, símbolo inequívoco da morte: o deserto é uma terra maldita.
Entretanto, é curioso que pessoas mais ou menos famosas como Abraão, Jesus e Maomé tenham procurado o deserto, de livre e espontânea vontade. Ei-los, os fundadores das três grandes religiões monoteístas indo ao deserto não para atravessá-lo, mas para ali permanecer por certo tempo, em busca de algo que o convívio entre os homens não podia lhes oferecer. Para nós, que somos seres que se consideram modernos e racionais e, geralmente, vivemos em cidades apinhadas de gente, uma temporada sozinho no deserto soaria no mínimo como uma aventura inusitada e, em última instância, razão mais do que suficiente para internação em algum hospital psiquiátrico.
O deserto... O deserto não é grande. O deserto é imenso! Ou seja, é de uma grandeza até mensurável, em termos geográficos, mas incomensurável, em termos de vivência. Uma coisa é arquear os dedos polegar e indicador sobre um mapa e dizer, com a fria certeza científica, que o deserto tal tem trocentos quilômetros quadrados. Outra coisa é se despedir dos seus entes queridos e, apesar da incompreensão e protestos deles, ir de corpo e alma ao deserto. Só quem atravessa um deserto pode dizer de quantas e de quais grandezas ele é feito. E que tal ali permanecer sozinho por um tempo? Você já passou por uma experiência pelo menos similar a essa? Julga-se capaz de avaliá-la sem tê-la vivido? O que os três grandes profetas foram fazer ali? Eu, que não sou profeta, nem religioso e nem atravessei um deserto de verdade, arrisco um palpite, pretensioso que sou.
No entanto, antes de chegar aos profetas, preciso estar entre nós. Em nossas vidas cotidianas, o que menos falta é a presença de outras pessoas, nos metrôs lotados, nos ônibus lotados, nas linhas de produção, nos estádios, nos supermercados e até (que ironia...) nas igrejas. O tempo todo estamos na companhia de outras pessoas, independente de estas pessoas serem completamente desconhecidas ou pessoas que conhecemos e em relação às quais dependemos, psicologicamente, em maior ou menor grau. Aqueles que não moram sozinhos sabem disso mais do que aqueles que moram sozinhos, mas todos, sem exceção, não moram em desertos. Mesmo o mais isolado habitante da cidade grande é atingido, ativa ou passivamente, pela presença da coletividade, seja pela televisão, pela publicidade, pelos elevadores lotados e silenciosos ou até mesmo por sentir-se bastante solitário em meio à multidão.
Há um enorme deserto nas grandes cidades. A modernidade, que é calcada na individualidade que geralmente se metamorfoseia em individualismo, se a analisarmos não em termos tecnológicos, mas em termos humanos, é um grande deserto. Atualmente, graças à internet, eu posso ter um "amigo" na Tailândia, mas a malícia necessária para se sobreviver impede-me de sequer saber qual é o nome daquele meu vizinho que cultiva um ou dois hábitos que desaprovo em meu íntimo, ou com quem simplesmente não fui com a cara. Sim, o tempo todo buscamos subterfúgios para tentar resgatar uma certa ideia de comunidade ancestral que a própria modernidade com o seu "ter" e o seu "comprar" e o seu "competir" fez questão de destruir, ou quase. Estamos tão ocupados em juntar dinheiro, atingir metas materiais ou nos diferenciarmos daqueles que nos cercam (garantindo assim o culto ao nossos deuses chamados Liberdade e Independência) que mal nos importamos com o sofrimento daqueles que, julgamos nós, "amamos". Passamos boa parte do nosso tempo criando ou aumentando desertos, e nisso somos especialistas de primeira grandeza. Sobre as pessoas que conhecemos, é mais fácil e tentador fazer fofocas maliciosas com a intenção de denegri-las do que tecer-lhes elogios e seguir-lhes os bons exemplos. As críticas avultam, a admiração mingua. É a auto-afirmação em tempo integral, e essa auto-afirmação em tempo integral é o deserto particular de cada um de nós, pois é ele que nos mantêm sozinhos e apartados. Sou capaz de me emocionar com a perseverança de um povo indígena cujos sobreviventes são apenas quinze membros, que apesar de poucos possuem laços humanos suficientemente fortes entre si para se considerarem um povo (quinze membros!). Mas quando me debruçava sobre o passadiço na estação Sé do metrô, em São Paulo, e via centenas de desconhecidos entre si acotovelando-se freneticamente, uma parte de mim morria com esse acotovelamento, uma parte de mim sentia-se... um deserto... Deserto imenso, tão mais imenso quanto maior era o número de pessoas e maior a indiferença entre elas, e entre eu e elas, e entre elas e eu.
Os três profetas pregaram, cada um em sua época, a seu próprio povo. Mas antes disso os três fizeram um "estágio" no deserto. Sozinhos. Completamente sozinhos. E apesar de estarem completamente sozinhos, ali eles pregaram. Encheram seus pulmões e falaram como se multidões atentas e sedentas ali estivessem, ajoelhadas, prontas para beber da fonte da sabedoria. Mas não havia ninguém... Ninguém? Claro que havia, havia eles mesmos. É engraçado isso, quando estamos sós e falamos algo, costumamos dizer que ninguém nos escutou. Mas nós escutamos o que dizemos, e dizer algo é muito mais do que pensar em algo. O isolamento silencioso, no qual os pensamentos sucedem-se ininterruptamente é radicalmente diferente de uma conversa em voz alta consigo mesmo a poucos centímetros do espelho do banheiro. Se eu digo ou penso constantemente que eu sou um merda, então é fatal: serei um merda. Se eu digo ou penso constantemente que eu sou um deus, então fatalmente serei um deus (mesmo que você não acredite em mim, não é esse o ponto). É fato: costumamos subestimar o poder da palavra. Há muitas pessoas que falam sem parar, e geralmente a substância de suas palavras é quebradiça, pois quem fala muito não raro nada diz. Avaliamos o tempo todo o quanto os outros escutam do que dizemos, ou quanto entendemos daquilo que os outros nos dizem. Aquilo que dizemos a nós mesmos, no entanto, normalmente é tido como verdade pura e simples. E assim será, enquanto quisermos.
Desconfio que os três profetas sabiam disso, senão racionalmente, pelo menos intuitivamente. Disse anteriormente que eles viviam em cidades apinhadas de gente e que procuravam algo que o convívio entre os homens não podia suprir. Disse que o deserto é um símbolo inequívoco da morte. E eles morreram, os três: morreram quando pregaram no deserto. Quando seus ouvidos escutaram o que suas bocas tinham a dizer, três homens morreram e três profetas nasceram. Foram ao fundo de si mesmos e dali retornaram transformados. A imensidão do deserto físico fez eco à imensidão do deserto interior deles, deserto formado nas cidades pela impessoalidade das pessoas. E creio eu que eles entenderam que o deserto verdadeiro começa onde há duas ou mais pessoas (amai ao próximo...). Todos os três voltaram do deserto pregando amor, bondade, união... o fim dos desertos. Um disse que só havia um deus verdadeiro (isso é discutível), outro disse que era a encarnação de deus e que carregaria nossos pecados em suas costas (isso também é discutível) e o terceiro disse que o fim está próximo e que os últimos não crentes devem se submeter à vontade divina (isso é discutível também). Mas o que me parece indiscutível é que desertos existem, que nós existimos e que o mundo já teve profetas demais para continuarmos desmatando nossas almas.
 
André Faustino

Osquestra Aurora


É como acordar no paraíso diariamente, isso de durante o fim da madrugada o galo despertar, empoleirar-se num bom morrinho qualquer e começar, altivo e majestático, a entoar seu canto, desejoso de dar mostras às galinhas suas esposas que quem manda ali é ele. Mas logo esse brado guerreiro é quase silenciado pelo som da orquestra que, prenunciando discretamente a execução de uma grande obra, começa aos poucos a afinar seus instrumentos. Refiro-me ao canto dos passarinhos. Aos poucos, roubando a atenção que era toda ela só para o galo, cada passarinho, com o canto breve e grave de um, agudo e longo de outro, vai afinando sua garganta e permitindo-se cantorias cada vez mais ousadas. Então, quando se pode dizer que a noite retirou-se totalmente e o dia apresentou-se para iluminar e aquecer o solo, todos os passarinhos, empolgadíssimos, estão tirando o melhor de cada fôlego, muito absortos que estão em com seus trinados, cantos, lamentos e gritos de guerra, convencer ou conquistar a atenção do adversário, da sua fêmea ou da fêmea de outrem (que além da fêmea, perderá a boa fama). Tudo o que os pássaros dizem compõem a orquestra do amanhecer.

André Faustino

Não ser


Sinto um cansaço incomum, diferente da fadiga física que se segue a um trabalho penoso e prolongado e diferente do cansaço mental que via de regra acompanha quem pensa continuamente sobre uma questão de importância superlativa ou tem que lidar com várias situações-problema simultaneamente. Trata-se, mais exatamente, de um cansaço existencial. Hoje, queria simplesmente poder não existir. Ou ser um animal bruto, que tudo sofre e tudo sente, mas que de nada guarda memória nem se remói pensando sobre o sentido das coisas, as aflições que se afiguram no futuro próximo, as feridas não cicatrizadas que gotejam sangue. Queria estar deitado sobre um pequeno bote sem velas perdido na imensidão do oceano, balançando ao sabor das ondas, sentindo, talvez, gotas de chuva chorando sobre meu corpo, ou aceitando calmamente uma onda mais forte me arrojar ao escuro abismo. Queria ser o som salgado da onda que se esparrama sobre a praia ou a dureza teimosa e cristalina de um insignificante grão de areia. Queria ser um guizo chocando-se contra o tornozelo de uma dançarina, uma pedrinha dentro de um chocalho, uma pluma esvoaçando sobre um pasto deserto. Queria colo de mãe, ou o odor latejante de peitos fartos. Queria a paciência da feminina mão ancestral num cafuné rítmico e constante que me fizesse adormecer e acordar apenas uma semana depois, com amnésia. Queria um sonho bom e infinito ou uma canção de ninar com cheiro de sopa de legumes. Queria o abraço forte e lacrimoso que só um amigo saberia dar, quando se aflige por minha causa. Queria deitar na terra num feriado de cem séculos. Queria ser terra. Queria passar mais nove meses na barriga de qualquer mãe (e nascer morto), ou doze luas ao relento. Queria não mais querer e simplesmente sentir-me em paz.

André Faustino
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