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29 de janeiro de 2018

Receita de criança assada


Os contrários que os tupinambás cativam na guerra, ou de outra qualquer maneira, metem-nos em prisões, as quais são cordas de algodão grossas, que para isso têm mui louçãs, a que chamam muçuranas, as quais são tecidas como os cabos dos cabrestos de África; e com elas os atam pela cinta e pelo pescoço, onde lhes dão muito bem de comer, e lhes fazem bom tratamento, até engordarem, e estão estes cativos para se poderem comer, que é o fim para que os engordam; e como os tupinambás têm estes contrários quietos e bem seguros nas prisões, dão a cada um por mulher a mais formosa moça que há na sua casa, com quem se ele agasalha, todas as vezes que quer, a qual moça tem o cuidado de o servir, e de lhe dar o necessário para comer e beber, com o que cevam cada hora, e lhe fazem muitos regalos. E se esta moça emprenha do que está preso, como acontece muitas vezes, como pare, cria a criança até idade que se pode comer, que a oferece para isso ao parente mais chegado, que lho agradece muito, o qual lhe quebra a cabeça em terreiro com as cerimônias que se adiante seguem, onde toma o nome; e como a criança é morta, a comem assada com grande festa, e a mãe é a primeira que come desta carne, o que tem por grande honra, pelo que de maravilha não escapa nenhuma criança que nasce destes ajuntamentos, que não matem; e a mãe que não como seu próprio filho, a que estes índios chamam cunhambira, que quer dizer filho do contrário, têm-na em ruim conta, e em pior, se o não entregam seus irmãos ou parentes com muito contentamento. Mas também há algumas, que tomaram tamanho amor aos cativos que as tomaram por mulheres, que lhes deram muito jeito para se acolherem e fugirem das prisões, que eles cortam com alguma ferramenta, que elas às escondidas lhes deram, e lhes foram pôr no mato, antes de fugir, mantimentos para o caminho; e estas tais criaram seus filhos com muito amor, e não os entregaram a seus parentes para os matarem, antes os guardaram e defenderam deles até serem moços grandes, que como chegam a essa idade logo escapam da fúria dos seus contrários. Muitas vezes deixam os tupinambás de matar alguns contrários que cativaram por serem moços, e se quererem servir deles, aos quais criam e fazem tão bom tratamento que andam de maneira que podem fugir, o que eles não fazem por estarem à sua vontade; mas depois que este gentio teve comércio com os portugueses, folgam de terem escravos para lhos venderem; e, às vezes, depois de os criarem, os matam por fazerem uma festa destas.

Gabriel Soares de Souza

27 de janeiro de 2018

Que trata dos homens marinhos


Não há dúvida senão que se encontram na Baía e nos recôncavos dela muitos homens marinhos a que os índios chamam pela sua língua "upupiara", os quais andam pelo rio da água doce pelo tempo do Verão onde fazem muito dano aos índios pescadores e mariscadores que andam em jangadas onde os tomam e aos que andam pela borda da água metidos nela, a uns e outros apanham e metem-nos debaixo de água onde os afogam, os quais saem à terra com a maré vazia afogados e mordidos na boca, narizes e na sua natura e dizem outros índios pescadores que viram tomar a estes mortos, que viram sobre água uma cabeça de homem lançar um braço fora dela e levar o morto e os que isto viram se acolheram fugindo à terra assombrados, do que ficaram tão atemorizados que não quiseram tornar a pescar senão daí a muitos dias, o que também aconteceu a muitos pretos de Guiné; os quais fantasmas ou homens marinhos mataram por vezes cinco homens índios e já aconteceu tomar um monstro destes dois índios pescadores de uma jangada e levar um e salvar-se o outro tão assombrado, que esteve para morrer e alguns morrem disto; e um mestre do açúcar do meu engenho afirmou que olhando da janela do engenho que está sobre o rio e de que gritavam umas negras uma noite que estavam lavando umas formas de açúcar e que viu um vulto maior que um homem à borda da água que se lançou logo nela, ao qual mestre de açúcar as negras disseram que aquele fantasma vinha para pegar nelas e que aquele era o homem marinho, as quais estiveram assombradas muitos dias; e destes acontecimentos acontecem muitos no Verão, que no Inverno não falta negro algum.
 
Gabriel Soares de Souza

Diversionismo


Planta-se a mandioca em todo o ano, não sendo no inverno, e quer mais tempo seco que invernoso, se o inverno é grande apodrece a raiz da mandioca nos lugares baixos. Lança a rama da mandioca na entrada do verão umas flores brancas como de jasmins, que não têm nenhum cheiro, e por onde quer que quebram a folha lança leite, a qual folha o gentio come cozida em tempo de necessidade, com pimenta da terra. A formiga faz muito dano à mandioca, e se lhe come a folha, mais de uma vez, fá-la secar; a qual como é comesta dela, nunca dá boa raiz, e para se defenderem as roças desta praga da formiga, buscam-lhe os formigueiros, de onde as arrancam com enxadas e as queimam; outros costumam, às tardes, antes que se recolham, pisarem a terra dos olhos dos formigueiros com picões muito bem, para que de noite, em que elas dão os seus assaltos, se detenham em tornar a furar a terra para saírem fora, e lançam-lhe de redor folhas de árvores que elas comem, e das da mandioca velha, com o que, quando saem acima se embaraçam até pela manhã, que se recolhem aos formigueiros; e se as formigas vêm de fora das ruas a comer a elas, lançam-lhes dessa folha no caminho, antes que entram na roça, o qual caminho fazem muito limpo, por onde vão e vem à vontade, e cortam-lhe a erva com o dente, e desviam-na do caminho. Nesse trabalho andam os lavradores até que a mandioca é de seis meses, que cobre bem a terra com a rama, que então não lhe faz a formiga nojo, porque acha sempre pelo chão as folhas que caem de cima, com o que se contentam.

Gabriel Soares de Souza

Jararacas


Pelos matos e ao redor das casas se criam umas cobras a que os índios chamam jararacas; as maiores são de sete e oito palmos de comprido, e são pardas e brancacentas nas costas, as quais se põem às tardes ao longo dos caminhos esperando a gente que passa, e em lhes tocando com o pé lhes dão tal picada que se lhes não acodem logo com algum defensivo, não dura o mordido vinte e quatro horas. Estas cobras se põem também em ramos de árvores junto dos caminhos para morderem à gente, o que fazem muitas vezes aos índios, e quando mordem pela manhã têm a peçonha mais força, como a víbora; as quais mordem também as éguas e vacas, do que morrem algumas, sem se sentir de que, senão depois que não têm mais remédio. Tem estas cobras nos dentes presas, as quais mordem de ilhargas; e aconteceu na capitania dos Ilhéus morder uma destas cobras um homem por cima da bota, e não sentir coisa que lhe doesse, e zombou da cobra, mas ele morreu ao outro dia; e vendendo-se o seu fato em leilão comprou outro homem as botas e morreu em vinte quatro horas com lhe incharem as pernas; pelo que se buscaram as botas, e acharam nelas a ponta do dente, como de uma agulha, que estava metida na bota; no que se viu claro que estas jararacas têm a peçonha nos dentes. Essas cobras se criam entre pedras e paus podres, e mudam a pele cada ano; cuja carne os índios comem.

Gabriel Soares de Souza
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