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14 de julho de 2020

Solitude


Fico imensamente feliz por ter descoberto que trago paciência em minha alma por tanto tempo, que não desejo as coisas materiais e não preciso de nada mais que livros e a possibilidade de escrever e de estar sozinho por algumas horas todos os dias. Esse último desejo é o que mais me angustia. Por quase cinco anos tenho estado sob constante vigilância, ou com várias outras pessoas, e nem uma hora sequer sozinho comigo mesmo. Estar só é um estado natural, como comer e dormir; nessa forma concentrada de comunismo, qualquer um se torna um inimigo ferrenho da humanidade. A constante companhia de outros funciona como um veneno ou uma praga; e desse martírio sem fim é que eu sofri nos últimos quatro anos. Houve momentos em que odiei a cada homem, fosse bom ou ruim, e tomei-o como um ladrão que, impune, me roubasse continuamente a vida. A parte mais insuportável é quando nos tornamos injustos, maliciosos e maus - é repugnante, temos consciência disso, reprovamos a nós mesmos e ainda assim não temos o poder de nos controlarmos. Já passei por isso várias vezes.
 
Fiodor Dostoievski

22 de outubro de 2017

Um pedaço de banha


Era tido como um homem inteligente. É assim que, em certos círculos, se denomina a uma espécie peculiar de indivíduos que engordam à custa alheia, que não fazem absolutamente nada, que não querem fazer absolutamente nada, e que, por sua preguiça e ociosidade eternas, têm um pedaço de banha no lugar do coração. A todo instante se pode ouvir deles mesmos que não há nada que possam fazer, devido a certas circunstâncias muito adversas e complexas, que "lhe frustram o gênio", e que por isso são "dignos de pena". Essa é a sua frase pomposa habitual, a sua palavra de ordem, a sua senha e o seu lema, a frase que esses senhores saciados e gorduchos ficam o tempo todo prodigalizando por toda parte, de modo que há muito tempo começou a nos enfastiar como um tartufismo rematado e uma conversa fiada. Aliás, alguns desses histriões que não conseguem de modo algum encontrar o que fazer - o que, aliás, nunca sequer procuram -, justamente por isso pretendem fazer com que todo mundo pense que não é um pedaço de banha que têm no lugar do coração, mas, ao contrário, de modo geral, algo muito profundo, embora o quê, precisamente, nem mesmo o maior cirurgião diria, claro que por cortesia. Esses senhores abrem caminho no mundo concentrando todos os seus instintos num sarcasmo grosseiro, numa reprovação míope e numa altivez desmedida. Como não têm mais nada a fazer a não ser ficar reparando e repisando as fraquezas e os erros alheios, e como seus bons sentimentos são tal qual os que são apanágio de uma ostra, então nem lhes é difícil, mediante tais meios de proteção, conviver com as pessoas com bastante cautela. E disso se vangloriam além da conta. Estão, por exemplo, quase convencidos de que praticamente o mundo todo deve lhes render tributo; de que o mundo é para eles como uma ostra que pegam em caso de necessidade; que todos, com exceção deles, são tolos; que todos se parecem com uma laranja ou com uma esponja, que uma vez ou outra podem espremer quando têm necessidade do suco; que são os donos de tudo, e que toda essa ordem louvável das coisas se deve justamente ao fato de serem eles pessoas tão inteligentes e peculiares. Em sua altivez desmedida não admitem quaisquer defeitos em si mesmos. Eles se parecem com aquela espécie de trapaceiros práticos, Tartufos e Falstaffs congênitos, que de tanto trapacear acabaram convencendo a si mesmos que era assim que devia ser, ou seja, que para viver tinham que trapacear; e insistiam sempre tanto em assegurar a todo mundo que eram pessoas honestas e que sua trapaçaria também era uma coisa honesta. Nunca são capazes de um exame interior consciente, de uma autoavaliação nobre: para certas coisas são rudes demais. Acima de tudo e em primeiro plano está sempre a sua própria e valiosa pessoa, seu Moloch e Baal, seu esplêndido eu. Toda a natureza e o mundo inteiro não são para eles senão um espelho esplêndido, criado para que esse ídolo possa incessantemente admirar a si mesmo e não ver nada nem ninguém além de si; depois disso, não é de se estranhar que veja tudo no mundo sob um aspecto tão disforme. Para tudo ele tem reservada uma frase feita, e, o que é o cúmulo da destreza de sua parte, uma frase da última moda. Inclusive são eles mesmos que contribuem com a moda, difundindo boca a boca por todos os cruzamentos essa ideia na qual farejam sucesso. São justamente eles que têm faro para farejar essa frase da moda e se apoderar dela antes dos outros, de tal modo que é como se ela tivesse saído deles. Eles sobretudo se abastecem de suas frases para exprimir sua profunda simpatia pela humanidade, para definir qual a forma de filantropia mais correta e justificável racionalmente e, por fim, para punir incansavelmente o romantismo, ou seja, amiúde tudo o que é belo e verdadeiro, que em cada átomo tem mais valor que toda a espécie de moluscos deles. Mas são muito toscos para reconhecer a verdade numa forma anômala, transitória e inacabada, e rejeitam tudo o que ainda não amadureceu, não é estável e está em fermentação. Um homem bem nutrido passou sua vida toda alegremente, teve tudo de mão beijada, ele mesmo não fez nada e não sabe como que é difícil fazer qualquer trabalho, e por isso ai daquele que tocar nos seus sentimentos gordurosos com alguma aspereza: ele nunca o perdoará por isso, sempre haverá de se lembrar e se vingar dele com prazer.

Fiodor Dostoievski

17 de setembro de 2017

Que Deus lhe ajude


Parei para ver o tocador de realejo. Arrastavam-se-me à cabeça uns pensamentos - então eu parei, para dissipá-los. Estávamos ali eu, uns cocheiros, uma jovenzinha e havia ainda uma garota pequena, toda suja. O tocador de realejo se instalou debaixo de uma janela. Noto a presença de um garotinho, um menino de uns dez anos; era para ser bonitinho, se não fosse seu aspecto tão enfermiço e mirrado, estava só com uma camisinha e alguma outra coisa mais, praticamente descalço, ouve a música boquiaberto - o que é a infância! As mãos e os pés estão congelados, mas mordisca a pontinha da manga tiritando. Reparo que tem nas mãos um papelzinho. Passou um senhor e atirou uma moedinha pequena ao tocador de realejo. Mal a moedinha tilintou, o meu menino estremeceu, olhou timidamente em redor e, pelo visto, pensou que fora eu a dar o dinheiro. Correu para mim, com as mãozinhas tremendo, a vozinha tremendo, estendeu-me o papelzinho e diz: é um bilhete! Desdobrei o papel - o que já era de se esperar: dizia, meus benfeitores, uma mãe de três filhos está morrendo, as crianças estão passando fome, então ajude-nos agora e assim, quando morrer, não os esquecerei no outro mundo, meus benfeitores, por não terem agora se esquecido de meus pequeninos. E daí, nada demais; a situação é clara, isso é uma coisa corriqueira, mas o que podia eu lhe dar? E não lhe dei nada. Mas que pensa me deu! Um menino palidozinho, azulado de frio, talvez também faminto, e não está mentindo, realmente, não está mentindo. (...) E o que há de aprender o pobre menino com uns bilhetes desses? Só hão de endurecer-lhe o coração; fica só andando, correndo, pedindo. As pessoas passam, mas não têm tempo para ele. Elas têm coração de pedra; suas palavras são cruéis. "Dá o fora! desaparece! malandro!" É isso o que ele ouve de todos, seu coração de criança vai endurecendo, e o menino assustado e palidozinho, como se fosse um passarinho que caiu do ninhozinho destruído, treme de frio em vão. Tem as mãos e os pés gelados, sua respiração é ofegante. Você olha, ei-lo já tossindo; nem há muito o que esperar para que a doença, qual um réptil imundo, se ponha a rastejar para o seu peito, e quando você olha, a morte já paira sobre ele em algum canto fedorento, sem saída, sem socorro - e aí está toda sua vida! Há vidas que são assim mesmo! Oh, Várienka, que martírio é ouvir um pelo amor de Deus e fazer de conta que não percebeu, não dar nada, e dizer: "Que Deus lhe ajude".

Fiodor Dostoievski

16 de setembro de 2017

Laços de família


- Não sei, Liza. Veja uma coisa: conheci um pai que era um homem severo, rigoroso. Diante da filha, porém, punha-se de joelhos, beijava-lhe as mãos e os pés, não se cansava de admirá-la. É verdade. Se ela dançava num baile, ele passava cinco horas no mesmo lugar, não tirando dela os olhos. Era doido por ela. E eu compreendo isto. De noite, cansada, ela adormecia. E ele acordava e ia beijá-la durante o sono, e fazer sobre ela o sinal da cruz. Era avarento para com os outros, e ele próprio usava um redingotezinho sebento. Para ela, porém, gastava até o último níquel; fazia-lhe presentes ricos, e ficava contente quando o presente agradava. O pai sempre ama as filhas mais do que a mãe. Para muitas moças, viver em casa é uma alegria! Eu, se tivesse uma filha, creio que nem a casaria.
- Como assim? - perguntou ela, com um ligeiro sorriso.
- Teria ciúme, juro por Deus. Ora, poderia ela beijar um estranho? Como poderia amar um outro mais do que o próprio pai? É penoso até imaginar isto. Está claro que tudo isto é um absurdo; está claro que, por fim, cada um acaba sendo razoável. Mas eu, creio, antes de entregá-la, ia torturar-me com esta preocupação: rejeitaria os noivos um a um. Mas, apesar de tudo, acabaria casando-a com aquele que ela própria amasse. Na realidade, porém, aquele que a filha ama sempre parece ao pai o pior de todos. É sempre assim. Muito mal acontece nas famílias por causa disso.
- Há gente que se sente mais feliz vendendo a filha do que casando-a honestamente - disse ela, de repente.
- Isto acontece, Liza, entre famílias malditas, onde não há Deus nem amor - repliquei exaltado. - E, onde não existe amor, também não há razão. É verdade que há famílias assim, mas não é delas que eu falo. Você, provavelmente, não viu coisas boas em sua família e, por isto, fala assim. Realmente, você é uma infeliz. Hum... Tudo isso acontece, principalmente, devido à pobreza.
- E entre os ricos será acaso melhor? As pessoas honestas são felizes até mesmo na pobreza.
- Hum... sim. Pode ser. Mas acontece também o seguinte, Liza: o homem gosta de levar em conta unicamente a sua aflição; não pensa na sua felicidade. Se considerasse isto, veria que lhe está reservado também um bom lote. Ora, pode acontecer que tudo dê certo numa família: com a graça de Deus, o marido é bom, cuida de você, ama-a, não a deixa um pouco sequer! É bom viver numa família assim! Por vezes, mesmo que haja aflição, é bom; e onde é que não existe aflição? Você talvez ainda se case, e saberá então. Tomemos para exemplo ao menos os primeiros tempos de casamento com aquele que se ama: quanta felicidade pode advir disso! E é algo contínuo. Nos primeiros tempos, até as brigas com os maridos acabam bem. Algumas, quanto mais amam, mais brigas com o marido arranjam. É verdade; conheci uma que dizia: "Amo-te muito, é por amor que te atormento, e para que sintas isto". Sabe que, por amor, pode-se atormentar uma pessoa? Sobretudo as mulheres. E elas pensam, no íntimo: "Em compensação, vou depois amar tanto, hei de acarinhar tanto, que não é pecado atormentá-lo agora um pouco". E, em casa, todos se alegram com vocês, tudo é bom, agradável, pacífico, honesto... Algumas existem que são ciumentas. Se ele vai a alguma parte (conheci uma assim), a mulher não se contém e sai correndo no meio da noite, para espiar às escondidas: não é ali que ele está, naquela casa, com aquela? Isto já é ruim. E ela mesma sabe que é ruim, e o seu coração se congela e se atormenta, mas ela ama; é tudo por amor. E como é bom, depois de uma briga, fazer as pazes, ela mesma se culpar perante ele, ou perdoar! E ambos se sentirão tão bem, tão bem! É como se tivessem acabado de se encontrar, de se casar, como se o amor tivesse começado de novo. E ninguém, ninguém deve saber o que acontece entre marido e mulher, se eles se amam. E, seja qual for a briga, não devem chamar nem a própria mãe para juiz, nem contar nada um do outro. Eles mesmos são seus próprios juízes. O amor é um mistério de Deus e deve ser oculto de todos os olhares estranhos, aconteça o que acontecer. Deste modo, tudo é mais santo, tudo é melhor. Eles se respeitarão mais um ao outro, e muita coisa baseia-se no respeito mútuo. E se já houve amor, se se casaram por amor, por que há de este amor acabar?! Não se pode acaso mantê-lo? É difícil que não se consiga isto. Bem, e se o marido se revela uma pessoa boa e honesta, neste caso como é que o amor vai acabar? Passará o primeiro amor conjugal, é verdade, mas então chegará um amor ainda melhor. Ambas as almas se unirão, todos os seus interesses serão comuns, e um não terá qualquer segredo para com o outro. E, quando os filhos vierem, mesmo os tempos mais difíceis vão parecer uma felicidade; é só amar e ser corajoso. Então, até o trabalho dá alegria, e é com alegria também que às vezes se recusa o próprio pão para dá-lo aos filhos. E eles, depois, vão amar-nos por isto, mais tarde. É, pois, para nós próprios que amealhamos. As crianças crescem, e nós sentimos que somos para elas um exemplo, um apoio; e, mesmo que a gente morra, elas hão de trazer consigo, pela vida toda, os nossos sentimentos e as nossas ideias, do modo como os receberam de nós, e serão feitos à nossa imagem e semelhança. Quer dizer que isto é um alto dever. Como é possível, no caso, um pai não se unir mais intimamente à mãe? Dizem alguns que é coisa árdua criar filhos. Mas quem é que o diz? É uma felicidade dos céus! Você gosta de crianças pequenas, Liza? Eu gosto delas terrivelmente. Você sabe... um menino assim, todo rosadinho, a sugar-lhe o seio... E qual o marido que não sente o coração voltar-se para a esposa, vendo-a sentada com o filho dele?! A criança rosadinha, rechonchudinha, revira-se, dengosa, pezinhos e mãozinhas gorduchinhos, unhinhas bem limpas, pequenas, tão pequenas que se tornam até engraçadas, e olhinhos que já parecem compreender tudo. E, quando mama, fica repuxando o seio da mãe, brincando. Se o pai se aproxima, ela se desprende do peito, inclina-se toda para trás, olha o pai, dá uma risada, como se o caso fosse - sabe Deus por que - engraçado, e de novo, de novo se põe a mamar. Ou então, de repente, dá uma mordida no peito da mãe, se é que os dentinhos já lhe estão surgindo, e lhe dirige os olhinhos de viés: "Está vendo, dei uma mordida!". Mas não estará nisso toda a felicidade, quando ficam juntos os três - o marido, a mulher e o filho? Em troca de momentos como este, muita coisa se pode perdoar. Não, Liza, antes de acusar os outros, é preciso que cada um aprenda por si mesmo a viver!

Fiodor Dostoievski 

15 de setembro de 2017

Criatura volúvel


O homem é um animal criador por excelência, condenado a tender conscientemente para um objetivo e a ocupar-se da arte da engenharia, isto é, abrir para si mesmo um caminho, eterna e incessantemente, para onde quer que seja. Mas talvez precisamente por isto lhe venha às vezes uma vontade de se desviar, justamente por estar condenado a abrir esse caminho, e talvez ainda porque, por mais estúpido que seja um homem direto e de ação, ocorre-lhe às vezes que o caminho vai quase sempre para alguma parte, e que o principal não está em saber para onde se dirige, mas simplesmente em que se dirija, e em que a criança comportada, desprezando a arte da engenharia, não se entregue à ociosidade destruidora, que, como se sabe, é mãe de todos os vícios. O homem gosta de criar e de abrir estradas, isto é indiscutível. Mas por que ama também, até a paixão, a destruição e o caos? Dize-me! Mas eu mesmo quero dizer separadamente duas palavras sobre o assunto. Não amará ele a tal ponto a destruição e o caos (é indiscutível que ele às vezes os ama e muito, não há dúvida sobre isto) porque teme instintivamente atingir o objetivo e concluir o edifício em construção? Como podeis sabê-lo? Talvez ele ame o edifício apenas a distância e nunca de perto; talvez ele goste apenas de criá-lo, e não viver nele, deixando-o depois para os animais domésticos, isto é, formigas, carneiros etc. etc. Já as formigas têm um gosto de todo diferente. Elas possuem um edifício surpreendente no gênero, indestrutível para os séculos: o formigueiro.
As dignas formigas começaram pelo formigueiro e certamente acabarão por ele, o que confere grande honra à sua constância e caráter positivo. Mas o homem é uma criatura volúvel e pouco atraente e, talvez, a exemplo do enxadrista, ame apenas o processo de atingir o objetivo, e não o próprio objetivo. E - quem sabe? -, não se pode garantir, mas talvez todo o objetivo sobre a terra, aquele para o qual tende a humanidade, consista unicamente nesta continuidade do processo de atingir o objetivo, ou, em outras palavras, na própria vida e não exatamente no objetivo, o qual, naturalmente, não deve ser outra coisa senão que dois e dois são quatro, isto é, uma fórmula; mas, na realidade, dois e dois não são mais a vida, meus senhores, mas o começo da morte. Pelo menos, o homem sempre temeu de certo modo este dois e dois são quatro, e eu o temo até agora. Suponhamos não faça outra coisa senão procurar este dois e dois são quatro: ele atravessa os oceanos a nado, sacrifica a vida nesta busca, mas, quanto a encontrá-lo realmente... juro por Deus, tem medo. Bem que ele sente: uma vez encontrado isto, não haverá mais o que procurar. Operários que terminam uma tarefa com certeza recebem dinheiro e vão a um botequim, acabando no distrito policial - bem, aí estão ocupações para uma semana. Mas o homem para onde irá?

Fiodor Dostoievski

26 de outubro de 2016

Ricardo salva sua alma


Possuo uma interessante brochura traduzida do francês, em que se conta a execução em Genebra, há cinco anos, de um assassino chamado Ricardo, que se converteu ao cristianismo antes de morrer, na idade de 24 anos. Era filho natural, dado por seus pais, quando tinha seis anos, a pastores suíços, que o educaram para fazer dele um trabalhador. Cresceu como um pequeno selvagem, sem nada aprender; aos sete anos, mandaram-no a fazer pastar o rebanho, ao frio e à umidade, mal vestido e faminto. Aquela gente não sentia nenhum remorso ao tratá-lo assim; pelo contrário, achava que tinha direito de fazê-lo, porque lhe haviam dado Ricardo como uma coisa e não julgava mesmo necessário nutri-lo. O próprio Ricardo conta que então, como o filho pródigo do Evangelho, quis mesmo comer a varredura destinada aos porcos que eram engordados, mas era privado e batiam-lhe quando ele a roubava dos animais; foi assim que passou sua infância e sua mocidade, até que, tornando-se grande e forte, pôs-se a roubar. Aquele selvagem ganhava a vida em Genebra com bicos, bebia seu salário, vivia como um monstro e acabou por assassinar um velho para roubá-lo. Foi preso, julgado e condenado à morte. Não se é sentimental naquela cidade! Na prisão, é logo cercado pelos pastores, pelos membros de associações religiosas, pelas senhoras patrocinadoras. Aprendeu a ler e a escrever, explicaram-lhe o Evangelho e, à força de doutriná-lo e de catequizá-lo, acabou por confessar solenemente seu crime. Dirigiu ao tribunal uma carta declarando que era um monstro, mas que o Senhor havia se dignado esclarecê-lo e enviar-lhe sua graça. Toda Genebra ficou emocionada, a Genebra filantrópica e beata. Tudo quanto havia de nobre e de bem pensante acorreu à prisão. Beijam-no, abraçam-no: "Tu és nosso irmão! Foste tocado pela graça!" Ricardo chora de enternecimento: "Sim, Deus iluminou-me! Na minha infância e na minha mocidade, invejava eu a varredura dos porcos; agora, a graça tocou-me, morro no Senhor!" "Sim, Ricardo, tu derramaste sangue e deves morrer. Não é culpa sua se ignoravas Deus, quando roubavas a varredura dos porcos e batiam-te por causa disso (aliás, tinhas bastante culpa, porque é proibido roubar), mas derramaste sangue e deves morrer." Enfim chega o derradeiro dia. Ricardo, enfraquecido, chora e só faz repetir a cada instante: "Eis o mais belo dia de minha vida, porque vou para Deus!". "Sim", exclamam pastores, juízes e senhoras patrocinadoras, "é o mais belo dia de tua vida, porque vais para Deus!" O grupo se dirige para o cadafalso, atrás da carreta ignominiosa que leva Ricardo. Chega-se ao local do suplício. "Morre, irmão", gritam para Ricardo, "morre no Senhor, Sua graça te acompanhe." E, coberto de beijos, o irmão Ricardo sobe ao cadafalso, colocam-no na guilhotina e sua cabeça cai, em nome da graça divina.
 
Fiodor Dostoievski

24 de outubro de 2016

Deus e o diabo


Sabes, meu caro, que havia um velho pecador no século XVIII que disse: "Se Deus não existisse, precisaríamos inventá-lo"? E, com efeito, foi o homem quem inventou Deus. E o que é espantoso não é que Deus exista realmente, mas que essa ideia da necessidade de Deus tenha vindo ao espírito de um animal feroz e mau como o homem, tão santa, comovente e sábia é ela, tanta honra faz ao homem. Quanto a mim, renunciei desde muito tempo a perguntar a mim mesmo se foi Deus quem criou o homem, ou o homem quem criou Deus. Assim, declaro admitir Deus, pura e simplesmente. Assim, admito Deus, não só voluntariamente, mas ainda sua sabedoria, seu fim que nos escapa; creio na ordem, no sentido da vida, na harmonia eterna, na qual se pretende que nos fundiremos um dia: creio no Verbo para o qual propende o Universo que está em Deus e que é ele próprio Deus, até o infinito. Mas basta, a respeito. Queria somente colocar-te no meu ponto de vista. Queria falar dos sofrimentos da humanidade em geral, mas vale mais que me limite aos sofrimentos das crianças. Meu argumento ficará reduzido à décima parte, mas é melhor assim. Perco com isso, bem entendido. Em primeiro lugar, podem-se amar as crianças de perto, mesmo sujas, mesmo feias (parece-me, no entanto, que as crianças nunca são feias). Em seguida, se não falo dos adultos, é que não somente são repelentes e indignos de ser amados, mas têm uma compensação: comeram o fruto proibido, discerniram o bem e o mal, tornaram-se "semelhantes a deuses". Continuam a comê-lo. Mas as criancinhas nada comeram e são ainda inocentes. A propósito, um búlgaro contava-me outrora em Moscou as atrocidades dos turcos em seu país: temendo um levante geral dos eslavos, incendeiam, estrangulam e violam as mulheres e crianças; pregam os prisioneiros nas paliçadas pelas orelhas, abandonam-nos assim até de manhã, depois os enforcam, etc. Compara-se por vezes a crueldade do homem com a dos animais selvagens; é uma injustiça para com estes. As feras não atingem jamais os refinamentos do homem. O tigre dilacera a sua presa e a devora; não conhece outra coisa. Não lhe viria à ideia pregar as pessoas pelas orelhas, ainda mesmo que o pudesse fazer. São os turcos que torturam as crianças com um prazer sádico, arrancam os bebês do ventre materno, lançam-nos no ar para recebê-los nas pontas das baionetas, sob os olhos das mães, cuja presença constitui o principal prazer. Eis outra cena que me impressionou. Pensa nisto: um bebê ainda de peito, nos braços de sua mãe trêmula, e em torno deles os turcos. ocorre-lhes uma ideia divertida: acariciando o bebê, conseguem fazê-lo rir; depois um deles aponta-lhe um revólver bem junto ao rosto. A criança ri alegremente, estende suas mãozinhas para agarrar o brinquedo; de repente, o artista puxa o gatilho e rebenta-lhe a cabeça.
- Meu irmão, a quem vem tudo isto?
- Penso que se o diabo não existe e foi por conseguinte criado pelo homem, este deve tê-lo feito à sua imagem.
- Como Deus, então?

Fiodor Dostoievski

23 de outubro de 2016

A doentinha


Nos primeiros quatro dias de enfermidade de Nelly, nós dois - eu e o médico - temíamos horrivelmente por ela; no quarto dia, porém, o doutor chamou-me de parte e me disse que não receasse nada, que a pequena se restabeleceria indiscutivelmente. Era aquele mesmo velho doutor, meu conhecido há tempos, solteirão, bonachão, e excêntrico, que eu já chamara por ocasião da primeira moléstia de Nelly, e que tanta impressão fizera à garota com sua fita de São Estanislau de dimensões desusadas, ao pescoço.
- Então já não há perigo! exclamei, radiante.
- Não, desta ela escapa; contudo está condenada a viver muito pouco.
- Como? Por quê? - indaguei, aniquilado ante aquele prognóstico.
- Sim, nossa doentinha há de infalivelmente morrer jovem. Tem um defeito orgânico no coração, e a menor circunstância desfavorável arrisca prostrá-la de novo. Poderá restabelecer-se outra vez, todavia voltará a adoecer, até que a morte sobrevenha.
- E não haverá meio nenhum de salvá-la? Não, isso não pode ser!
- Mas tem que ser, inapelavelmente. É verdade que, evitando-lhe qualquer contratempo desagradável, assegurando-lhe uma vida tranquila, se poderia ir afastando dela a morte... e até se dão casos... inesperados, anormais e raros... Em uma palavra, a doente poderia salvar-se com o concurso de muitas circunstâncias favoráveis, embora radicalmente... nunca...
- Meu Deus - que hei de fazer então?
- Seguir minhas prescrições: precisa levar uma vida calma, e tomar na hora certa os remédios. Já observei que essa menina é voluntariosa, de um caráter desigual, e até um pouco manhosa. Não gosta de tomar o remédio na hora indicada, e às vezes até se nega inteiramente a engolí-los.
- É verdade, doutor. Realmente, ela é uma criatura estranha; porém isso eu o atribuo à sua mórbida excitação. Na noite passada, esteve muito obediente; mas hoje, quando lhe levei o remédio, deu um empurrão na colherinha, como sem querer, e a derramou toda. Quando lhe quis dar outra, arrebatou-me o frasco da mão, atirou-o ao chão e se pôs a chorar... Contudo, não creio que faça isso porque eu a obrigue a tomar remédios... acrescentei, pensativo.
- Hum! Irritação! Essa grande desgraça que ela sofreu é responsável pelos fatos de agora, e daí procede sua enfermidade. Por enquanto, a única coisa a fazer é tomar os remédios, e ela os precisa tomar. Eu voltarei, e me esforçarei por lhe inculcar a ideia da obrigação que lhe cabe de seguir as prescrições do médico e... em resumo, de tomar os remédios.
Saímos da cozinha, onde tivéramos a nossa conversa, e o doutor voltou para junto da cama da doentinha. Entretanto, Nelly evidentemente ficara a nos escutar; pelo menos erguera a cabeça no travesseiro e volvera os ouvidos para nós: escutara durante todo o tempo. Observei isso pela fresta da porta, entreaberta. Ao nos aproximarmos, voltou a se embrulhar na coberta e me fitou com um sorriso malicioso. A pobrezinha enfraquecera muito naqueles quatro dias de moléstia; tinha os olhos úmidos e a febre ainda não passara. O singular foi que aquele ar zombeteiro no rosto, e aquele vivo fulgor nos olhos, causaram não pequena admiração no médico, que era o mais bonachão de todos os alemães existentes em Petersburgo.
Com toda a seriedade, mas esforçando-se o quanto possível para suavizar o tom da voz, usando de afeto e ternura, ele se pôs a demonstrar à garota quão imprescindíveis e úteis eram os remédios, e portanto, a obrigação em que ficava todo doente de os tomar. Nelly levantou a cabeça; e com um gesto que parecia inteiramente involuntário, deu um safanão na colherinha e o remédio caiu novamente no chão. Estou certo de que o fez de propósito.
- Foi um acidente lamentável, disse tranquilamente o velhinho; e suspeito que você o fez de propósito, o que é muito feio. Porém... tudo se poderá arranjar... trazendo-lhe de novo o remédio.
Nelly riu-lhe francamente, no rosto.
O doutor meneou gravemente a cabeça.
- Muito feio, muito feio, repetia, trazendo nova dose, - muitíssimo feio.
- Não se zangue comigo, falou Nelly, esforçando-se por não tornar a rir - vou tomar o remédio... Mas diga se me quer bem...
- Hei de querer muito bem, se se portar direitinho.
- Muito?
- Muito.
- E agora, não quer?
- Também lhe quero agora.
- E me dá um beijo, se eu lhe der outro?
- Sim, sempre que você o mereça.
Já não se podendo conter, Nelly novamente riu.
- A doentinha tem o gênio alegre; mas agora... esses nervos e esses caprichos... disse-me o doutor à parte, com atitude muito séria.
- Bem, vou tomar o remédio, exclamou de repente Nelly, com sua vozinha débil. Quando, porém, eu crescer, e ficar moça, o senhor se casa comigo?
Provavelmente a ideia dessa nova brincadeira a divertia muito. Os olhos lhe chispavam; mas os lábios reprimiam o riso, à espera da resposta do desconcertado médico.
- Claro que sim! respondeu ele, sorrindo involuntariamente ante aquela nova pilhéria. Sim, se você for uma moça boa, educada e obediente e...
- ... E tomar os remédios, não é verdade? completou Nelly.
- Oh! isso mesmo; sim senhora, e tomar os remédios. É uma boa moça, murmurou-me ao ouvido. Tem muita, muita... bondade e inteligência; entretanto... isso de me casar com ela... que capricho estranho!
E de novo lhe ofereceu o remédio. Desta vez ela não se deu nem ao trabalho de simular: deu simplesmente uma pancada na colher, de baixo para cima, e todo o remédio espirrou diretamente na camisa e no rosto do pobre velho. Nelly soltou uma gargalhada; mas não do modo simples e jovial de antes. Em seu rosto refletiu-se algo cruel, mau. Durante todo aquele tempo parecia fugir ao meu olhar, observando unicamente o médico, e com um risinho, através do qual se vislumbrava certa inquietação, esperava para ver o que faria agora o "ridículo" velhote.
- Oh, outra vez! que desgraça! Mas... pode-se trazer outra dose - continuou o ancião, limpando com o lenço o rosto e a camisa.
Aquilo impressionou horrivelmente Nelly. Esperava nossa zanga, pensava que íamos ralhar-lhe, censurá-la, e talvez inconscientemente desejasse que assim o fosse, naquele instante, para ter um pretexto e pôr-se a chorar e gritar como uma histérica; atirar fora os travesseiros, como antes, até mesmo quebrar qualquer coisa, em sua cólera, e com isso tudo satisfazer à sua caprichosa e doentia disposição. Caprichos semelhantes não costumam observar-se só entre doentes, nem unicamente em Nelly. Quantas vezes me tenho posto a dar voltas acima e abaixo, em meu quarto, com a ânsia inconsciente de que alguém me ofenda, quanto antes, ou me diga alguma palavra que eu possa tomar como insulto, para poder desafogar o coração! As mulheres também "desafogam" o coração dessa maneira, e começam por derramar as mais sinceras lágrimas; porém as mais sensíveis terminam histéricas. Coisa muito simples e vital, que costuma suceder principalmente quando se tem algum sofrimento que outros ignoram, que o coração gostaria de desafogar, mas que não é possível comunicar a ninguém.
Contudo, de repente, desconcertada ante a angélica bondade do velho por ela ofendido, e a paciência com que de novo ele lhe foi levar uma terceira colherada do remédio, sem lhe dirigir uma única censura, Nelly se apaziguou. O sorriso lhe voou dos lábios, a cor subiu-lhe às faces, suavizou-lhe o olhar, que me procurou de relance, mas imediatamente se desviou. O doutor lhe apresentou o remédio. Ela tranquila e mansamente o bebeu, segurou a mão vermelha e peluda do velho e lhe fitou os olhos.
- O senhor... está zangado porque sou ruim - começou a dizer, todavia não acabou a frase. Escondeu-se sob a coberta, tapando a cabeça e rompeu a soluçar ruidosa, histericamente.
- Oh! minha filha... não chore. Não foi nada... são seus nervos. Beba um pouco de água.
Porém Nelly não o escutava.
- Não se impressione... não se atormente, continuou ele, quase choramingando também, pois era homem muito sensível. Prometo me casar com você, quando crescer, se for uma moça boazinha e ajuizada...
- ... E tomar os remédios... ouviu-se, por baixo da coberta, juntamente com um risinho nervoso, fino como um tilintar de campainha, entrecortado pelos soluços; um riso que me era familiar.
- Criança boa e afetuosa! disse o doutor com solenidade e quase com lágrimas nos olhos. Pobrezinha!
E desde então, entre ele e Nelly se estabeleceu uma simpatia estranha.

Fiodor Dostoievski

16 de setembro de 2016

As lágrimas das crianças


Entre nós torturar batendo constitui uma tradição histórica, um gozo pronto e imediato. Niekrassov conta num de seus poemas como um camponês bate com seu chicote nos olhos de seu cavalo. Quem já não viu isso? É bem russo. O poeta mostra que o cavalo, sobrecarregado, atolado com sua carroça, não pode desvencilhar-se. Então o camponês bate-lhe encarniçadamente, bate sem compreender o que faz, os golpes chovem numa espécie de embriaguez. "Não podes puxar, pois puxarás assim mesmo; morre, mas puxa." A besta sem defesa debate-se desesperadamente, enquanto seu dono açoita seus doces olhos, donde rolam lágrimas. Enfim, consegue ele desatolar-se e lá se vai tremendo, sem fôlego, num andar cambaleante, constrangido, vergonhoso. Produziu isto em Niekrassov uma impressão espantosa. Mas também não se trata apenas de um cavalo que Deus criou para ser chicoteado? Foi o que nos explicaram os mongóis que nos legaram o chicote. No entanto, pode-se também açoitar as pessoas. Um senhor culto e sua mulher sentem prazer em açoitar com varas sua filhinha de sete anos. E o papai sente-se feliz porque as varas têm espinhos. "Isto causará mais dor assim", diz ele. Há seres tais que se excitam a cada golpe, até o sadismo, progressivamente. Bate-se na criança um minuto, depois cinco, depois dez, sempre mais fortemente. Ela grita, afinal, já sem forças, sufoca: "Papai, meu papaizinho, tenha dó!" O caso torna-se escandaloso e recorre-se ao tribunal. Toma-se um advogado. Há muito tempo que o povo russo chama o advogado "uma consciência que se aluga". O defensor pleiteia em nome de seu cliente: "O caso é simples; é uma cena de família, como se veem muitas. Um pai açoitou sua filha, é uma vergonha processá-lo!" O júri fica convencido, recolhe-se e traz um veredito negativo. O público exulta por ver absolvido aquele carrasco. Repito-o, é um pendor especial de muitas pessoas o prazer de torturar as crianças, mas somente as crianças. Para com os outros indivíduos, esses carrascos se mostram afáveis e ternos, como europeus instruídos e humanos, mas sentem prazer em fazer as crianças sofrerem, é sua maneira de amá-las. A confiança angélica dessas criaturas sem defesa seduz os seres cruéis. Não sabem aonde ir, nem a quem se dirigir, e isso excita os maus instintos. Dizem que tudo isso (os castigos físicos) é indispensável para estabelecer a distinção entre o bem e o mal no espírito do homem. Para que pagar tão caro essa distinção diabólica? Toda a ciência do mundo não vale as lágrimas das crianças.
Os carrascos sofrerão no inferno, dir-me-ás tu. Mas de que serve esse castigo, uma vez que as crianças tiveram também o seu inferno? Aliás, que vale essa harmonia divina que comporta um inferno? Quero o perdão, o beijo universal, a supressão do sofrimento. E, se o sofrimento das crianças serve para perfazer a soma das dores necessárias à aquisição da verdade, afirmo desde agora que essa verdade não vale tal preço.


Fiodor Dostoievski
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