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8 de setembro de 2023

O lendário país do recall

Leitora manda boneca para recall e não a recebe de volta. "Como explicar para uma criança que seus brinquedos foram embora há três meses e não voltaram?"

"MINHA QUERIDA DONA: quem lhe escreve sou eu, a sua fiel e querida boneca, que você não vê há três meses. Sei que você sente muitas saudades, porque eu também sinto saudades de você. Lembro de você me pegando no colo, me chamando de filhinha, me dando papinha... Você era, e é, minha mãezinha querida, e é por isso que estou lhe mandando esta carta, por meio do cara que assina esta coluna e que, sendo escritor, acredita nas coisas da imaginação.

Posso lhe dizer, querida, que vivi uma tremenda aventura, uma aventura que em vários momentos me deixou apavorada. Porque tive de viajar para o distante país do recall.

Aposto que você nem sabia da existência desse lugar; eu, pelo menos, não sabia. Para lá fui enviada. Não só eu: bonecas defeituosas, ursinhos idem, eletrodomésticos que não funcionavam e peças de automóvel quebradas. Nós todos ali, na traseira de um gigantesco caminhão que andava, andava sem parar.

Finalmente chegamos, e ali estávamos, no misterioso e, para mim, assustador país do recall. Um homem nos recebeu e anunciou, muito secamente, que o nosso destino em breve seria traçado: as bonecas (e os ursinhos, e outros brinquedos, e objetos vários) que tivessem conserto seriam consertados e mandados de volta para os donos; quanto tempo isso levaria era imprevisível, mas três meses era o mínimo. Uma boneca que estava do meu lado, a Liloca, perguntou, com os olhos arregalados, o que aconteceria a quem não tivesse conserto. O homem não disse nada, mas seu sorriso sinistro falava por si.

Passamos a noite num enorme pavilhão destinado especialmente às bonecas. Éramos centenas ali, algumas com probleminhas pequenos (um braço fora do lugar, por exemplo), outras já num estado lamentável. Estava muito claro que para várias de nós não haveria volta.

Naquela noite conversei muito com minha amiga Liloca - sim, querida dona, àquela altura já éramos amigas. O infortúnio tinha nos unido. Outras bonecas juntaram-se a nós e logo formamos um grande grupo. Estávamos preocupadas com o que poderia nos suceder.

De repente a Liloca gritou: "Mas gente, nós não somos obrigados a aceitar isso! Vamos fazer alguma coisa!". Nós a olhamos, espantadas: fazer alguma coisa? Mas fazer o quê?

Liloca tinha uma resposta: vamos tomar o poder. Vamos nos apossar do país do recall.

No começo, aquilo nos pareceu absurdo. Mas Liloca sabia do que estava falando. A mãe da dona dela tinha sido uma militante revolucionária e sempre falava nisso, na necessidade de mudar o mundo, de dar o poder aos mais fracos.

Ora, dizia Liloca, ninguém mais fraco do que nós, pobres, desamparados e defeituosos brinquedos. Não deveríamos aguardar resignadamente que decidissem o que fazer com a gente.

De modo, querida dona, que estamos aqui preparando a revolução. Breve estaremos governando o país do recall. Mas não se preocupe, eu a convidarei para uma visita. Você poderá vir a qualquer hora. E não precisará de recall para isso.”


Moacyr Scliar

5 de setembro de 2023

Quando eu tinha a tua idade


Entre as muitas frases que os pais dirigem aos filhos, existe uma que é particularmente perigosa. É aquela que começa com o “Quando eu tinha a tua idade”. A continuação frequentemente representa uma velada ou aberta censura. Quando eu tinha a tua idade acordava antes das seis. Quando eu tinha tua idade ajudava minha mãe a arrumar a casa. Quando eu tinha tua idade já estava fazendo vestibular. Quando eu tinha tua idade já estava empregado, ganhando bom dinheiro e auxiliando no sustento da família.
Ou seja: o filho ou a filha inevitavelmente perdem na comparação, ao menos do ponto de vista do adulto. Isto gera ressentimento, sobretudo porque às vezes corresponde à verdade. Tomem o mercado de trabalho; já foi bem mais fácil, menos competitivo. Quando me formei na UFRGS os médicos eram caçados no Estado. Havia dezenas, centenas de lugares de trabalho. Hoje, até a luta para conseguir uma vaga na residência é feroz. Disso os pais freqüentemente esquecem. Esquecem que, quando tinham a idade de seus filhos, o mundo era diferente.
E era melhor? Aí está uma boa pergunta. Porque a tendência dos adultos é recordar as coisas boas e esquecer as más. E confirmam seus argumentos mostrando as manchetes dos jornais ou as notícias da tevê. Um mundo violento, cheio de ameaças, um mundo que parece sempre à beira do caos. 
Será? Tomem o caso da violência. As cidades brasileiras (e outras cidades) são violentas. Mas foram as cidades que inventaram a violência? Quando a vida era principalmente rural, não havia violência? Claro que havia. Capangas degolavam inimigos a torto e a direito e isso sequer era mencionado. Poucos conflitos bélicos foram tão devastadores quanto a I Guerra Mundial.
E as doenças? A ameaça da Aids é sempre lembrada, mas no início da Idade Moderna uma epidemia de peste matou um terço da população européia, sem falar na sífilis, que se disseminou como fogo numa pradaria seca. Ainda no começo deste século a expectativa de vida na Europa era de cerca de 40 anos. Hoje chega quase aos 80. As crianças morriam como moscas, de diarréia, de pneumonia, de fome. Como disse o filósofo inglês do século 17, Thomas Hobbes, “life is solitary, poor, nasty, brutish and short”, a vida é solitária, carente, repulsiva, brutal e curta. Sobretudo curta.
Temos vacinas, temos antibióticos, temos computadores, temos eletrodomésticos – temos mil maneiras de tornar a vida mais cômoda e mais produtiva. Precisamos reconhecer que estas coisas todas mudaram a cabeça de nossos filhos, na maior parte das vezes para melhor. Portanto, o tom mais adequado para a frase “Quando eu tinha a tua idade” não é o de sermão moralizante, e sim o de afetuosa nostalgia. Nostalgia, sim: “Ai que saudades que eu tenho/ da aurora da minha vida/ da minha infância querida/ que os anos não trazem mais” De fato, os anos não trazem a infância de volta. Mas trazem os filhos, e através deles a preciosa oportunidade de recuperar um pouco do tempo que se foi. Lembrem disso, na véspera do Dia da Criança.

Moacyr Scliar

7 de julho de 2020

Clube dos suicidas


A senhora – o que foi que tomou mesmo? Comprimidos. Não sabe que comprimidos? Gardenal. Tomou Gardenal. Muitos? Cuidado, não pise no fio do microfone. Dez comprimidos. E o que foi que sentiu? Uma tontura gostosa! Vejam só, uma tontura gostosa! Não é notável? Uma tontura gostosa. E foi por causa de quem? Olha o fio. Do marido. O marido bebia. Batia também? Batia. Voltava bêbado e batia. Quebrava toda a louça. Agora prometeu se regenerar. E ela não vai mais tomar Gardenal. Palmas. Olha o fio. Fica ali, à esquerda. Ali, junto com as outras. Depois recebe o brinde.
Aproveito este breve intervalo para anunciar que a moça loira da semana passada – lembram, aquela que tomou ri-do--rato? Morreu. Morreu ontem. A família veio aqui me avisar. Foi uma dura lição, infelizmente ela não poderá aproveitar. Outros o farão. E a senhora? Ah, não foi a senhora, foi a menina. Que idade tem ela? Dez. Tomou querosene? Por que a senhora bateu nela? A senhora não bate mais, ouviu? E tu não toma mais querosene, menina. A propósito, que tal o gosto? Ruim. Não tomou com guaraná? Ontem esteve aqui uma que tomou com guaraná. Diz que melhorou o gosto. Não sei, nunca provei. De qualquer modo, bem-vinda ao nosso Clube. Fica ali, junto com as outras. Cuidado com o fio.
Olha um homem! Homem é raro aqui. O que foi que houve? A mulher lhe deixou? Miserável. Ah, não foi a mulher. Perdeu o emprego. Também não é isto. Fala mais alto! Está desenganado. É câncer? Não sabe o que é. Quem foi que desenganou? Os doutores às vezes se enganam. Fica ali à esquerda e aguarde o brinde. 
E esta moça? Foi Flit? Tu pensas que é barata, minha filha? Vai ali para a esquerda. Olha o fio, olha o fio. E esta senhora, tão velhinha – já me disseram que a senhora quis se enforcar. É verdade? Com o fio do ferro elétrico, quem diria! E dá? Mostra para nós como é que foi. Pode usar o fio do microfone.
 
Moacyr Scliar
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