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8 de outubro de 2017

A ilusão da viagem


Viajar é o paraíso dos tolos. Devemos às nossas primeiras jornadas a descoberta de que o lugar não significa nada. Em casa, imagino sonhadoramente que em Nápoles ou em Roma poderei intoxicar-me de beleza e livrar-me da tristeza. Faço as malas, abraço os amigos, tomo um vapor e, finalmente, acordo em Nápoles e lá, diante de mim, está o fato insubornável, o triste eu, implacável, idêntico, de que fugi. Visito o Vaticano e os palácios. Finjo estar intoxicado com as visitas e as sugestões, mas não é verdade. O meu gigante acompanha-me por onde vou. 
 
Ralph Emerson

29 de outubro de 2016

O dom da amizade


Mesmo se for condenada a vagar solitária durante mil anos, se a alma tem certeza de que em algum lugar do universo ela se unirá a seus amigos, se mostrará contente e confiante.
Essa manhã acordei com um divino agradecimento por meus amigos, os velhos e os novos. Por apresentar essa forma, não devo chamar Belo ao Deus que diariamente se revela para mim em seus dons? Apesar de reprovar a sociedade e abraçar a solidão, não sou tão ingrato a ponto de não ver o sábio, o amável e o de mente nobre quando esporadicamente eles passam diante do meu portão. Quem me ouve, quem me entende, torna-se meu - uma possessão para todos os instantes. A natureza não é tão pobre a ponto de não me conceder essa alegria diversas vezes, de modo que tecemos nossos próprios fios sociais, uma nova teia de relações; e, como diversos pensamentos em sequência se auto-substanciam, de repente nos encontraremos com um novo mundo criado por nós, e não mais seremos visitantes e peregrinos em um planeta que nos foi entregue. Sem que eu os procurasse, meus amigos me encontraram. O grande Deus me presenteou. Por meio do mais antigo direito, da divina afinidade da virtude consigo mesma, eu os encontro, ou melhor, não eu, mas a Divindade que em mim e neles habita suprime e faz ridículas as muralhas espessas do caráter individual - e das relações, da idade, do sexo, das circunstâncias, com as quais ele normalmente conspira - transformando assim em um o que era múltiplo.
 
Ralph Emerson

27 de outubro de 2016

Alma do mundo


Cada ser particular, no seu interior, está guardado e assimilado a todos os outros; esse coração comum, do qual toda conversação sincera é culto, ao qual toda ação justa é submissão; essa realidade subjugadora que repele nossos artifícios e talentos e obriga cada um a mostrar-se como é, a falar segundo o caráter e não segundo a língua, e que acima de tudo tende a incorporar-se a nosso pensamento e mãos, tornando-se sabedoria, virtude, poder e beleza. Todos nós vivemos em sucessão, em divisão, em partes, partículas. Porém no âmago do homem está a alma da totalidade; o silêncio sábio; a beleza universal, a que toda parte e partícula igualmente se relacionam; o eterno UM. E esse poder profundo, dentro do qual existimos, e cuja beatitude nos é inteiramente acessível, não apenas é autossuficiente e perfeito em todo aspecto, mas também o ato de ver e a coisa vista, aquele que vê e o espetáculo, o sujeito e o objeto são um. Enxergamos o mundo pedaço a pedaço, como o sol, a lua, o animal, a árvore; mas a totalidade, do qual essas são partes luminosas, é a alma.
No homem, tudo contribui para mostrar que a alma não é um órgão: ela, sim, anima e movimenta todos os órgãos; não é uma função, como o poder da memória, do cálculo, da comparação: ela usa a esses como usamos mãos e pés; não é uma capacidade, mas sim uma luz; não é o intelecto ou a vontade, mas a senhora do intelecto e da vontade; é o fundo de nosso ser, sobre o qual aqueles repousam - uma imensidão não possuída - que nunca pode ser possuída. Interior ou posteriormente, brilha uma luz através de nós e se derrama sobre as coisas, e nos faz conscientes de não sermos nada, sendo tudo a luz.
Quando, por meio de seu intelecto, a alma respira, trata-se de gênio; quando ela respira por meio de sua vontade, trata-se de virtude; quando flui por meio de suas afeições, trata-se de amor. E quando o intelecto quer ser algo por si próprio, inicia-se a sua cegueira. A fraqueza da vontade, quando o indivíduo quer ser algo por si próprio.
A encarnação do espírito em uma forma é um modo de ensinamento divino - em formas como a minha. Com pessoas que respondem a pensamentos de minha própria mente ou expressam determinada obediência aos grandes instintos segundo os quais vivo, encontro-me em sociedade. Vejo a presença desses naquelas pessoas. Sou certificado de uma natureza comum; e aquelas outras almas, aqueles indivíduos separados, atraem-me como nada mais me atrai. Agitam em mim novas emoções, que chamamos paixão, amor, ódio, medo, admiração, piedade; desses nasce a conversação, a competição, a persuasão, as cidades, a guerra. Pessoas são suplementos ao ensinamento primário da alma. Apaixonamo-nos pelas pessoas na juventude. A infância e a juventude veem o mundo inteiro nelas. Mas a experiência mais ampla do homem descobre a natureza idêntica que em todos se revela. As próprias pessoas nos acostumam ao impessoal. Entre duas pessoas, toda conversa é feita por referência tácita, como que a um terceiro membro, a uma natureza comum. Aquele terceiro membro ou natureza comum não é social; é impessoal; é Deus. Nesse sentido, em grupos nos quais é honesto o debate, especialmente sobre questões importantes, os participantes notam que o pensamento se eleva a uma altura uniforme em todos os peitos, que todos, assim como aquele que fala, têm um direito espiritual sobre o que é dito.
Todos se tornam mais sábios do que eram. Acima deles se ergue, como um templo, a unidade de pensamento em que todo coração palpita com um sentido mais nobre de poder e dever, e pensa e age com unusual solenidade. Todos se tornam conscientes de ter atingido um maior autocontrole. Ela brilha para todos.
Frequentemente, a ação da alma está mais naquilo que é sentido e permanece inexpresso do que naquilo que é dito em qualquer conversação. Ela paira sobre todas as sociedades, e cada uma inconscientemente as procura nas outras. Sabemos mais do que fazemos. Ainda não nos possuímos, e ao mesmo tempo temos consciência de que somos muito mais. Quantas vezes sinto idêntica verdade no contato trivial com meus vizinhos - que algo de mais alto em cada um observa esse passatempo, e Deus acena para Deus às costas de cada um de nós.
Os homens são percorridos por um calafrio no momento de recepção de uma nova verdade, ou no momento de exercício de uma grande ação, que venha do coração da natureza. Nessas manifestações o poder de enxergar não está dissociado da vontade de fazer, mas a intuição provém da obediência, e a obediência de uma percepção jubilosa. Memorável é todo momento em que a pessoa se sente invadida por ela. Por necessidade de nossa constituição, um determinado entusiasmo acompanha a consciência que o indivíduo tem daquela presença divina. O caráter e a duração desse entusiasmo variam com o estado do indivíduo, de um êxtase, enlevo ou inspiração profética - que são sua mais rara aparição - a um levíssimo brilho de emoção virtuosa, em cuja forma ele aquece, como nossas lareiras domésticas, todas as famílias e associações humanas, e torna possível a sociedade. Uma determinada tendência à insanidade sempre esteve presente ao surgimento do sentido religioso nos homens, como se eles "explodissem com o excesso de luz".
A alma nunca responde por palavras, mas pela própria coisa buscada.

Ralph Emerson

Luz no instante presente


São tão puras as relações da alma com o espírito divino que procurar intermediadores é uma profanação. É imprescindível que, quando Deus fale, comunique não uma única coisa, mas todas as coisas; que preencha o mundo com sua voz; que espalhe luz, natureza, tempo, almas, do centro do pensamento presente, e redate e recrie o todo. Todas as vezes que uma mente é simples e recebe a sabedoria divina, as coisas antigas fenecem - meios, mestres, textos, templos desabam; ela vive, então, no agora, e absorve o futuro e o passado na hora presente. Não importa essa coisa como outras, todas as coisas se tornam sagradas por força de sua relação com ela. Tudo o que existe decompõe-se em seu centro devido aos desígnios da mente: diante do milagre universal, milagres insignificantes e particulares desaparecem. Não acreditai, portanto, quando um homem sustenta conhecer Deus e falar dele, e vos faz retornar à fraseologia de alguma antiga nação dizimada em outro país, em outro mundo. A noz é melhor que a nogueira, que é sua plenitude e compleição? O pai é melhor que o filho, em quem depositou seu ser aprimorado? Essa idolatria do passado vem então de onde? Contra a sanidade e autoridade da alma os séculos conspiram. Tempo e espaço são apenas cores fisiológicas confeccionadas pela visão, mas o espírito é luz; onde ele está é dia; onde ele esteve é noite; e a história é uma impertinência e uma injúria, se de alguma maneira for algo mais do que um apólogo bem humorado ou uma parábola do meu ser e devir.
Tímido e apologético é o homem; não mais se apruma; não se atreve a dizer "eu penso", "eu sou", porém menciona algum santo ou sábio. Diante de uma folha de grama ou de uma rosa que desabrocha é invadido pela vergonha. Sob minha janela essas rosas não fazem referência a rosas anteriores ou melhores; elas são pelo que são; existem hoje com Deus. O tempo para elas não existe. Existe a rosa simplesmente; ela é perfeita em cada momento de sua existência. Mesmo antes de o botão ter-se aberto, sua vida inteira pulsa; e na flor inteiramente desabrochada não há mais, nem há menos vida que na raiz sem folhas. Repleta está sua natureza, e ela satisfaz a natureza em todos os seus momentos, quaisquer que sejam eles. O homem, no entanto, adia ou recorda; não vive no presente, mas sim com olhos voltados para o passado, que lamenta, ou, indiferente às riquezas que o rodeiam, equilibra-se na ponta dos dedos dos pés para prever o futuro. Somente quando viver com a natureza no presente, acima do tempo, o homem poderá ser feliz ou forte.
 
Ralph Emerson

22 de outubro de 2016

A verdadeira beleza


Se de tanto confabular com objetos materiais a alma se tornar grosseira e depositar erroneamente no corpo sua satisfação, nada colherá a não ser tristezas, pois o corpo é incapaz de satisfazer a promessa que a beleza sustenta; mas se ao contrário aceitar o que indicam essas visões e sugestões feitas pela beleza à sua mente, a alma passará através do corpo e poderá admirar traços de caráter; se os amantes contemplam um ao outro em seus discursos e ações, passam ao verdadeiro lugar da beleza, e mais e mais inflamam seu amor por ela e, por meio desse amor, extinguindo a afeição inferior assim como o sol extingue o fogo ao brilhar sobre a lareira, se tornam puros e abençoados. O amante, pela conversação com aquilo que é por si mesmo excelente, magnânimo, prosaico e justo, alcança o mais inflamado amor dessas nobrezas, e uma mais rápida apreensão delas. Nesse ponto ele deixa de amá-las em uma pessoa para amá-las em todas, e a primeira bela alma torna-se apenas a porta através da qual ele penetra na sociedade de todas as almas puras e verdadeiras. O amante, na companhia de sua parceira, atinge a mais nítida visibilidade de qualquer mancha, qualquer contaminação que a beleza dela tenha contraído nesse mundo e é capaz de apontá-la; e isso vice-versa, por serem ambos capazes, sem ofensa, de indicar defeitos e impedimentos um no outro e oferecer um ao outro todo auxílio e conforto para curar os mesmos.
 
Ralph Emerson
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