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28 de outubro de 2016

O mar


Para toda a humanidade e no decorrer de todos os tempos, o mar tem sido o grande símbolo do inconsciente. As ilhas do outro lado do mar, os reinos exóticos e as terras distantes, sempre representaram o Grande Desconhecido. A atração que sentimos por estes lugares tão cheios de mistérios, de magia, de tapetes voadores e gênios, tem um significado interior profundo. É a nostalgia das profundezas misteriosas e inexploradas de nossa própria psique, das potencialidades ocultas dentro de nossa alma - aquilo que jamais conhecemos, jamais vivemos ou ousamos.
 
Robert Johnson

Complementares


Jung constatou que a psique é andrógina: ela contém componentes masculinos e femininos. Assim, homens e mulheres vêm equipados com uma estrutura psicológica que na sua totalidade inclui a riqueza de ambos os lados, de ambas as naturezas, de ambos os conjuntos de capacidades e forças. A psique espontaneamente se divide em opostos complementares e os representa com uma configuração masculino-feminina. Ela assinala algumas características como sendo "masculinas" e outras, como "femininas". Como o yin e o yang, na antiga psicologia chinesa, estes opostos complementares se equilibram e se completam mutuamente. Nenhuma qualidade ou característica da personalidade humana é completa em si: cada uma deve se fazer acompanhar de seu "par" masculino ou feminino, numa combinação consciente, se quisermos alcançar equilíbrio e totalidade.
A psique encara a capacidade de amor e relacionamento como sendo uma qualidade "feminina", que vem do lado feminino da psique. Por outro lado, ela considera a capacidade de exercer poder, de controlar situações e de defender posições como manifestações do seu setor masculino. Para nos tornarmos um ser completo, cada um de nós precisa desenvolver ambos os lados da psique. Precisamos ter a capacidade, tanto de lidar com o poder como de amar, tanto de exercer o controle como de deixar fluir naturalmente a vida - cada valor no seu momento apropriado.
Quando dizemos "feminino" nesse sentido, obviamente não estamos querendo dizer "próprio de mulheres". Estamos falando de qualidades interiores, psicológicas, que são comuns aos homens e às mulheres. Quando um homem desenvolve as forças do seu lado feminino interior, isto, na verdade, completa sua masculinidade. Ele se torna mais completamente viril na medida em que se torna mais completamente humano. O homem mais forte é aquele que é capaz de verdadeiramente demonstrar amor a seus filhos, da mesma forma que enfrenta a guerra do mundo de negócios, durante a sua jornada de trabalho. Sua força masculina é aumentada e equilibrada pela sua capacidade feminina de se relacionar, expressando seus sentimentos e seu afeto.
Em cada um de nós existe um potencial para a totalidade, para realizar uma síntese, juntando as partes conflitantes dentro de nós. Temos um nome simples para esta totalidade do indivíduo: Jung a chamou de self.
O self é a soma de todas as forças divergentes, das energias e das qualidades que vivem dentro de nós e que nos fazem ser o que somos: um indivíduo único. O self é a unidade equilibrada, harmônica e simétrica, no próprio núcleo do ser, que cada um de nós sente existir no interior. Mas raramente sentimos o self conscientemente; raramente temos esta sensação de unidade e de totalidade. Geralmente nós nos sentimos como uma massa caótica de desejos conflitantes, de valores, ideais e possibilidades, alguns conscientes, outros inconscientes, que nos puxam simultaneamente em várias direções.
O trabalho da "iluminação" consiste em tornar conscientes estas partes divididas e conflitantes dentro de nós, em despertar para a unidade primordial que junta todas estas partes. Acordar para a unidade do self é a grande meta da nossa evolução psicológica, a Pérola Que Não Tem Preço, o objeto dos nossos desejos mais profundos. É esta possibilidade que se manifesta pela natureza dual masculino-feminino da psique.
No simbolismo mítico, o self frequentemente é representado por um par masculino-feminino: um rei e uma rainha, um irmão e uma irmã divinos, um deus e uma deusa. Por este símbolo de casal real, a psique nos diz que o self é uno, apesar de o sentirmos formado por opostos complementares. Isto nos mostra que precisamos fazer um "casamento", uma união sagrada, entre as duas grandes polaridades da nossa natureza humana. Como os dragões do yin e do yang, o rei e a rainha interiores constantemente criam nosso mundo a partir das energias masculinas e femininas do self, numa dança cósmica eterna.

Robert Johnson

27 de outubro de 2016

Mitos


Há alguns anos, uma professora primária perguntou aos seus alunos: "O que é um mito?" Um menino, filho de um casal que conheço bem, levantou a mão e respondeu: "Um mito é uma coisa que é verdade por dentro, mas não é verdade por fora." A professora não compreendeu, mas frequentemente as crianças têm mais sabedoria psicológica que os adultos. Um mito é verdadeiro, não no sentido exterior, físico, mas é uma expressão exata de uma situação psicológica, da condição interior da psique.
Os mitos são como os sonhos, e os sonhos são os mensageiros do inconsciente. Através deles o inconsciente comunica seu conteúdo e suas inquietações à mente consciente. Se aprendermos a linguagem simbólica dos sonhos, entenderemos o que está se passando lá dentro, em um nível inconsciente. Poderemos até descobrir o que fazer a respeito. Jung demonstrou que os mitos são também expressões simbólicas do inconsciente. Mas enquanto um sonho expressa o que se passa dentro de um indivíduo, o mito expressa o que se passa dentro da mente coletiva de uma sociedade, de uma cultura ou de uma raça.
Um mito é o "sonho" coletivo de um povo inteiro em um determinado ponto de sua história. É como se todo o povo sonhasse junto, e esse "sonho", o mito, irrompesse em suas poesias, canções e histórias. Mas o mito não vive apenas na literatura e na imaginação; ele logo encontra um meio de se manifestar nas atitudes e no comportamento de uma cultura, ou seja, na vida diária, prática, das pessoas.
 
Robert Johnson

26 de outubro de 2016

A harpa e a espada


Para o homem ocidental, o ego precisa ser heroico, só o espírito heroico ergue-nos acima do egocentrismo mesquinho. É ele que nos coloca a serviço de um ideal mais elevado e nos dá meios para realizar nossa tarefa evolutiva.
O trabalho do herói é específico: empreender a jornada interior, enfrentar os dragões e gigantes que lá existem e encontrar o tesouro escondido. O papel externo do herói é cada vez menos importante nos dias de hoje. Castelos a conquistar e dragões a serem abatidos estão em falta atualmente. No entanto, a tarefa mais heroica de todas pode ser realizada por qualquer pessoa, independentemente de suas circunstâncias externas. Qualquer um pode empreender a jornada interior e assumir a tarefa de se tornar completo.
Duas coisas são necessárias a um herói: uma espada e uma harpa. Toda nossa história até agora foi uma interação entre o poder da espada e o poder da harpa. Tristão necessitou da espada para a batalha, primeiro com o cruel Duque Morgan, depois com o brutal Morholt. A espada simboliza o uso drástico e agressivo do poder masculino. Com a espada, o herói enfrenta o mundo agressivamente, assume o controle da situação, posiciona-se firmemente, derrota o adversário. A nível mental, a espada é o intelecto discriminador, que divide e analisa. Em sentido figurado, ela "corta" em pedaços os problemas e as ideias para compreendê-los; é a faculdade lógica, crítica da mente.
Todos nós necessitamos do poder da espada. Existem ocasiões em que precisamos ser lógicos e analíticos. As vezes precisamos nos posicionar com firmeza, mas também existem ocasiões em que nem a lógica nem a força nos podem ajudar; é então que precisamos recorrer à harpa.
Depois da batalha com Morholt, quando Tristão está ferido e a espada não lhe serve mais, ele a abandona e toma a harpa; é ela que o acompanha no mar, ela é o lado lírico, sentimental, que corresponde ao feminino interior. Com o poder da harpa, ele constrói seus relacionamentos, demonstrando sentimento e amor. Foi com o poder da harpa que Tristão despertou a afeição de seu tio. Ao ouvir a harpa, o Rei Mark exclamou: "Para nossa alegria vieste a este teto, fica conosco por longo tempo, amigo!"
A harpa representa o poder de desenvolver um senso de valores, de afirmar o que é bom e verdadeiro, de apreciar o belo; a harpa permite que o herói coloque a espada a serviço de um ideal nobre. Nossa história mostra que é a harpa que nos permite viajar pelos mares do inconsciente.
Para ser completo, o herói necessita ter as duas coisas, pois sem a espada a harpa se torna ineficaz e sem a harpa, a espada fica reduzida à força bruta, egoísta. As pessoas confundem estes dois poderes nos seus relacionamentos, mais do que em qualquer outra área da vida humana. Frequentemente, vemos um homem e uma mulher tentando "pôr as coisas em ordem" e para isso discutem, criticando-se mutuamente, falando sobre lógica, descobrindo contradições nas argumentações contrárias, discutindo detalhes. Depois ainda se perguntam porque o sentimento espontâneo do amor e do calor humano desapareceu de seu casamento ou das ocasiões que passam juntos! As negociações desse tipo são sempre atividades da "espada"; as pessoas não estão conversando, estão se degladiando. A espada não é capaz de construir relacionamentos; ela não pode resolver coisa alguma, não pode unir as coisas; ela só consegue rasgar. Se você quiser "juntar os pedaços" e construir um bom relacionamento, então vai precisar aprender a usar a linguagem da harpa. Você precisa dar segurança à outra pessoa, expressar seu amor, seus sentimentos e sua dedicação. Esta é uma lei absoluta: a espada fere e separa; a harpa une e cicatriza.

Robert Johnson

25 de outubro de 2016

Romantismo


Frequentemente, o mundo exterior parece responder à nossa viagem interior: a vida exterior e a História confirmam o que os sonhos e os símbolos míticos nos ensinaram. Da poção do amor nós aprendemos algumas coisas impressionantes sobre este fenômeno psicológico e cultural que chamamos de amor romântico. Constatamos, também, que o amor romântico em suas origens como "amor cortês" foi concebido como sendo uma disciplina "espiritual", o que vem confirmar o simbolismo encerrado na poção do amor. Através desta retrospectiva, vamos aprofundar-nos um pouco mais; vamos ficar sabendo que o culto do "amor cortês" teve suas raízes numa religião.
Durante muitos séculos, após o advento da era cristã, a Europa foi um verdadeiro mercado de religiões. À medida que o cristianismo era imposto a vários povos por reis e imperadores, estes povos continuavam adorando, aberta ou secretamente, seus velhos deuses e deusas e misturavam suas práticas religiosas "pagãs" com uma capa de cristianismo, em combinações que pareceriam muito estranhas nos dias de hoje. Muitos dos feriados seculares, tais como o Primeiro de Maio e o Halloween, eram originalmente celebrações religiosas; são remanescentes seculares de antigas religiões que foram suprimidas pelo cristianismo. O mesmo também é válido para ideais e convicções. Muitas das posturas e das crenças das antigas religiões foram consideradas heresias e externamente reprimidas, mas continuam vivendo, inconscientemente, dentro de nós e de nossa cultura por um motivo: correspondem a necessidades e realidades psicológicas humanas, que não são satisfeitas nem pela ortodoxia nem pelos conceitos "oficiais".
Eis uma forma válida para se examinar o amor romântico como uma força psicológica: é o veículo que nos traz de volta o que havia sido banido de nossa vida e de nossa cultura há muito tempo. A natureza humana é pródiga em recursos; inconscientemente ou não, sempre arranjamos uma maneira de nos agarrarmos àquilo que necessitamos.
Uma das mais poderosas entre as primeiras religiões foi o movimento maniqueísta, cujo nome deriva do profeta persa Manes. Na Europa, esta religião se tornou o "Catarismo", pois seus seguidores se autodenominavam "cátaros", o que significa "puros". No século XII, cidades e províncias inteiras no sul da França, apesar de serem nominalmente cristãs, praticavam o catarismo, e uma boa parte da nobreza europeia era formada por cátaros. Na França, o movimento foi conhecido como heresia albigense, por ter se centralizado na cidade francesa de Albi.
Uma de suas crenças básicas era de que o "amor verdadeiro" não era o amor humano comum entre marido e mulher, mas sim a adoração de uma mulher redentora, uma mediadora entre Deus e o homem, que recebia com um beijo sagrado todo "puro" que chegava ao céu, e em seguida conduzia a ele, ou a ela, até o Reino da Luz. Em contraste com este amor "puro", a sexualidade humana comum e o casamento eram coisas bestiais e não espirituais. Os cátaros acreditavam que o amor do homem pela mulher deveria ser uma alegoria terrena do seu amor espiritual pela Rainha do Céu.
Muitos cristãos viam o catarismo como sendo um movimento reformista, uma reação contra a corrupção e os interesses políticos existentes dentro da hierarquia religiosa. A igreja patriarcal da Idade Média, há muito tempo sem contato com a alma feminina, se havia tornado materialista e dogmática. O que ela tinha a oferecer era uma série de leis e ensinamentos "revelados" - todos muito racionais e masculinos - e uma prática coletiva de ritual e dogma, que não dava às pessoas comuns a oportunidade de uma experiência pessoal com um deus vivo. Os cátaros, pelo contrário, praticavam uma moralidade exemplar e ofereciam uma experiência de Deus que era ao mesmo tempo pessoal, individual e lírica. Eles devolveram o feminino à religião: eles trouxeram de volta Isolda a Bela.
Os cátaros acreditavam num mundo feito de bem e mal absolutos. O espírito é bom, mas o mundo físico, esse é ruim. As almas são na verdade anjos, fragmentos de Deus, que se extraviaram do céu e foram aprisionados nessa matéria terrestre. Esse anjo heroico, que existe dentro de cada um de nós, almeja por uma existência espiritual pura no céu, mas Afrodite, a deusa da sensualidade, nos mantém aferrados à densa matéria física. Para encontrarem a salvação, os cátaros procuravam ser "puros", resistir às tentações que Afrodite colocava em seus caminhos, renunciar à sexualidade, comer frugalmente e evitar os apetites sensuais que nos fazem cair nas ciladas desse mundo de aflições e de maldades. Assim sendo, os cátaros evitavam a sexualidade e o casamento.
O alvo de sua veneração era a figura feminina da Redentora, um ser de pura luz, vestida toda de branco, que nos aguardava no céu para nos conduzir à presença de Deus. A salvação para os cátaros vinha apenas pela morte física: era preciso deixar este corpo e partir ao encontro da Senhora nos céus. Mas a preparação do homem cátaro para a libertação da carne era ver a mulher, não como esposa, não como companheira mortal ou parceira sexual, mas como uma imagem da Redentora - adorá-la com paixão, mas sempre como um símbolo, sempre como um lembrete de um "outro mundo", cheio de pureza e de luz.
O papa declarou o catarismo uma heresia e São Bernardo de Clairvaux, por meio de implacáveis cruzadas, condenou-o à segregação. Mas, como toda poderosa ideia que é forçada a permanecer underground, o catarismo reapareceu sob outra forma - uma forma supostamente "profana". Os ensinamentos e os ideais dos cátaros subitamente reapareceram no culto do "amor cortês", nas canções e poemas dos trovadores e nos "romances". Alguns historiadores acreditam que o "amor cortês" foi uma continuação "profana" deliberada do catarismo, e que os cavaleiros e as damas que primeiro praticaram o "amor cortês" eram cátaros, dando prosseguimento às suas práticas religiosas sob o disfarce de um culto leigo do amor. Para os de fora, parecia ser uma nova e elegante maneira de fazer a corte, de lisonjear e conquistar belas donzelas, mas para os que conheciam o "código", era uma prática alegórica dos ideais cátaros.
O ideal do "amor cortês" espalhou-se rapidamente pelas cortes feudais da Europa medieval e iniciou uma revolução em nosso comportamento frente a valores femininos como amor, afinidade, sentimentos elevados, devoção, experiência espiritual e ânsia de beleza. Essa revolução amadureceu e veio a gerar o que chamamos de romantismo. O romantismo, por sua vez, também revolucionou nosso comportamento frente às mulheres, mas deixou uma estranha divisão em nossos sentimentos. Por um lado, os ocidentais passaram a ver a mulher como a encarnação de tudo o que era puro, sagrado e completo; a mulher tornou-se o símbolo da anima: "Minha Senhora Alma". Mas, por outro lado, ainda presos à mentalidade patriarcal, os homens continuaram vendo a mulher como o veículo do sentimentalismo, da irracionalidade, da apatia e da fraqueza características que são antes sintomas do lado feminino do homem, que propriamente características das mulheres.
Ainda não ocorreu ao homem ocidental a possibilidade de deixar de encarar a mulher como símbolo de alguma coisa e começar a vê-la simplesmente como uma mulher - como um ser humano. Ele está enredado na ambivalência que experimenta em relação ao seu próprio interior feminino, às vezes correndo em direção a ele em busca de sua alma perdida, às vezes desdenhando-o como sendo uma desnecessária complicação em sua vida, uma "peça solta na engrenagem" de seu maquinário patriarcal. Esta é a fratura não cicatrizada dentro do homem e que ele projeta sobre a mulher, é a guerra que ele trava às custas dela.
Algumas coisas mudaram desde os tempos do "amor cortês". No início, quando ainda era um ideal espiritual, o "amor cortês" não permitia a sexualidade ou o casamento entre os enamorados. Eles sentiam que a vibração transcendental contida na adoração não podia misturar-se com um relacionamento pessoal, com o casamento ou o contato físico. Nós, pelo contrário, sempre misturamos romance com sexo e casamento. O principal conceito que não se modificou no decorrer dos séculos é a nossa crença inconsciente de que o "amor verdadeiro" deve ser uma adoração religiosa mútua tão irresistível, que nos faça sentir que todo o céu e a terra nos são desvelados através deste amor. Mas, ao contrário dos nossos antepassados "corteses", tentamos trazer esta adoração para a nossa vida pessoal misturando-a com o sexo, o casamento, o preparo do café da manhã, as contas a pagar e os filhos para criar.
A crença cortês de que o verdadeiro amor somente pode existir fora do casamento ainda permanece entre nós, e nos afeta, inconscientemente, mais do que imaginamos. O homem espera que a mulher cuide das crianças, ponha comida na mesa, contribua para a renda familiar e o apoie nas lutas do dia a dia, mas uma outra parte dele quer que ela seja a encarnação da anima, a sagrada Senhora dos céus, sempre bela e perfeita. Ele se pergunta como é possível que a deusa pura e radiante que ele adorava se tenha transformado nessa esposa comum que parece ser extremamente desarrazoada. A mulher vê o marido trabalhando, pagando as contas, consertando o carro e defendendo os seus impérios, vivendo o lado comum da vida. Ela se pergunta o que aconteceu com o cavaleiro que a adorava nos tempos de namoro, aqueles tempos em que tudo era tão marcante, tão sublime, tão delicioso. A antiga crença inconsciente retorna para persegui-los, sussurrando que o "verdadeiro amor" está em algum outro lugar e que ele não pode ser encontrado em meio aos fatos corriqueiros do casamento.
Estas são as fraturas terríveis que todos carregamos dentro de nós. Por um lado, queremos estabilidade e um relacionamento afetivo com um ser humano comum; por outro, inconscientemente, exigimos alguém que seja a encarnação da alma, que desvele a divindade e o Reino da Luz, que nos transporte a um estado de adoração religiosa e que torne a nossa vida um permanente êxtase. E eis que encontramos, disfarçado, mas vivo dentro de nós, o ideal religioso, a fantasia dos cátaros.
Cada um destes ideais é uma verdade psicológica: cada um é uma fantasia agindo através de nós, para nos dizer quem somos, do que somos feitos e do que necessitamos.
A religião dos cátaros e o seu fruto, o "amor cortês", são responsáveis pela mais grandiosa fantasia que vive na mente do homem ocidental, a fantasia que o amor romântico representa atualmente para nós. Mas esta impressionante fantasia não é uma ilusão: toda fantasia é realidade, realidade expressa em símbolo e fluindo de uma fonte inefável. O catarismo é a fantasia de se encontrar a alma perdida. É a milagrosa fantasia de descobrir que o mundo interior é real, que a alma é real, que os deuses são reais, e que realmente podemos encontrar esse mundo, essa beleza, essa comunhão com os deuses.
Muitos homens concordariam que o amor romântico é uma "fantasia", mas não saberiam avaliar que coisa maravilhosa eles afirmaram - pois da mesma forma que é uma fantasia, também é uma verdade, uma verdade que podemos viver, desde que consigamos compreendê-la corretamente. A verdade por trás da fantasia precisa ser merecida. Para encontrar essa realidade, precisamos olhar através da fantasia e dos seus símbolos; precisamos desistir de tentar viver o catarismo e as fantasias do "amor cortês", ao pé da letra - fora de nós, com pessoas mortais, num mundo temporal - e passar a viver a verdade dessa fantasia como um evento interior, um fato interior, vivenciado no reino atemporal Dela, a quem agora damos existência.

Robert Johnson

24 de outubro de 2016

Nem só os navios afundam


O amor romântico é o maior sistema energético dentro da psique ocidental. Na nossa cultura, é - mais ainda que a própria religião - a arena em que homens e mulheres tentam conseguir transcendência, plenitude, êxtase e sentido para a vida.
Como fenômeno de massa, o amor romântico é peculiar ao Ocidente. Estamos tão acostumados a conviver com as crenças e as suposições do amor romântico, que o consideramos como a única forma de "amor" que pode gerar casamento e relacionamentos verdadeiros. Achamos que o amor romântico é o único "verdadeiro amor". Mas existem muitas outras coisas a este respeito que podemos aprender do Oriente. Nas culturas orientais, como a da Índia ou a do Japão, constatamos que os casais se amam com muita cordialidade, muitas vezes com uma devoção e uma estabilidade que desconhecemos.
Mas o amor deles não é o "amor romântico" como nós o conhecemos. Eles não impõem aos seus relacionamentos os mesmos ideais que impomos aos nossos, nem fazem exigências impossíveis ou alimentam expectativas como nós fazemos.
O amor romântico não é apenas uma forma de "amor", mas é todo um conjunto psicológico - uma combinação de ideais, crenças, atitudes e expectativas. Estas ideias, frequentemente contraditórias, coexistem no nosso inconsciente e, sem que percebamos, dominam nossos comportamentos e reações. Inconscientemente, predeterminamos como deve ser um relacionamento com outra pessoa, o que devemos sentir e mesmo o que devemos "lucrar com isso".
O amor romântico não significa apenas amar alguém; significa "estar apaixonado". Este é um fenômeno psicológico muito peculiar. Quando estamos "apaixonados", acreditamos ter encontrado o verdadeiro sentido da vida revelado num outro ser humano. Sentimos que finalmente nos completamos, que encontramos as partes que nos faltavam. A vida, de repente, parece ter atingido uma plenitude, uma vibração sobre-humana, que nos ergue acima do plano comum da existência. Para nós, estes são os sinais seguros do "amor verdadeiro". Este conjunto psicológico inclui uma exigência inconsciente de que o nosso amante ou cônjuge nos alimente continuamente com esta sensação de êxtase e de emoção intensa.
Com a típica presunção ocidental de estarmos sempre com a razão, achamos que o nosso conceito de "amor", o amor romântico, deva ser o melhor. Presumimos que, comparado a este, qualquer outro tipo de amor entre homens e mulheres seria frio e insignificante. Mas se nós, ocidentais, formos realistas, teremos de admitir que o nosso enfoque do amor romântico não está funcionando bem.
Apesar do êxtase que sentimos quando estamos "apaixonados", passamos boa parte do nosso tempo com uma profunda sensação de solidão, alienação e frustração causada pela nossa incapacidade de construir relacionamentos afetuosos, baseados em compromissos. Culpamos geralmente os outros por nos terem falhado; não nos ocorre que talvez sejamos nós que precisemos modificar nossas próprias atitudes inconscientes - as expectativas que alimentamos e as exigências que impomos aos nossos relacionamentos e às demais pessoas.
 
Robert Johnson

16 de setembro de 2016

Amor de mexer mingau de aveia


Há muitos anos, uma sábia amiga deu-me um nome para o amor humano. Ela o chamou de amor de "mexer mingau de aveia". Ela estava certa: dentro desta frase, desde que nos tornemos suficientemente humildes para perceber, está a verdadeira essência do que é o amor humano, e ela nos mostra as principais diferenças entre amor humano e romance.
"Mexer mingau de aveia" é um ato humilde, não é excitante, nem causa sensação, mas simboliza a afeição que traz o amor para a dimensão do terra-a-terra. Representa a vontade premente de compartilhar da vida humana comum, encontrar significado nas tarefas simples e não românticas: ganhar a vida, viver dentro de um orçamento, levar a lata do lixo para fora, preparar a mamadeira do bebê no meio da noite. "Mexer mingau" significa encontrar a afeição, o valor, até mesmo a beleza, nas pequenas coisas corriqueiras, não ficar exigindo eternamente um drama cósmico, grandes diversões ou uma vibração extraordinária em todas as coisas. Como o descascar do arroz dos monges Zen, a roca de fiar de Ghandi e a feitura de tendas de São Paulo, representa a descoberta do sagrado em meio às coisas humildes e comuns.
Disse Jung certa vez que sentimento é uma questão de âmbito pequeno, e no amor humano podemos ver que isso é verdadeiro. A ligação real entre duas pessoas é vivida nas pequenas coisas que fazem juntas: a conversa calma que mantêm quando termina a faina diária, a palavra meiga de compreensão, o companheirismo de todo o dia, aquele encorajamento nos momentos difíceis, um pequeno presente nos momentos em que menos se espera, os gestos espontâneos de amor.
Quando um casal está verdadeiramente ligado pelos laços da afeição, os dois estão dispostos a abraçar o espectro total da vida humana. Conseguem transformar até mesmo coisas maçantes, coisas difíceis ou prosaicas, em aspectos alegres e gratificantes da vida. Por outro lado, o amor romântico só pode durar enquanto ambos estiverem "altos", enquanto houver dinheiro e os lazeres forem emocionantes. "Mexer mingau de aveia" significa que duas pessoas tiram seu amor do nível etéreo e emocionante da fantasia e o trazem para o nível prático do terra-a-terra.
O amor se alegra em fazer as coisas que aborrecem o ego, está disposto a trabalhar com os variados humores de uma pessoa e com seus momentos de irracionalidade. O amor está pronto para preparar o desjejum e fazer o balanço da conta bancária. O amor está ansioso por fazer esses "mingaus de aveia" da vida, porque há ternura e não projeção.


Robert Johnson
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