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27 de outubro de 2016

O barbante


Zorba abanou a cabeça:
- Não, você não é livre. A corda que o amarra é um pouco mais comprida que a dos outros. É tudo. Você, patrão, tem um barbante comprido, você vai, você vem, pensa que é livre, mas não consegue cortar o barbante. E quando a gente não corta o barbante...
- Vou cortá-lo um dia! - disse em tom de desafio, pois as palavras de Zorba me haviam tocado numa chaga aberta e me fizeram mal.
- É difícil, patrão, muito difícil. Para isso a gente precisa de um bocadinho de loucura; de loucura, está ouvindo? Arriscar tudo! Mas você tem uma cabeça sólida, que vai levar a melhor. O cérebro é um vendeiro, tem as suas contas: paguei tanto, tenho tanto em caixa, aqui estão os lucros, aqui as perdas! É um pequeno lojista prudente; não põe tudo em jogo, guarda sempre umas reservas. Ele não corta o barbante, não. Segura-o solidamente na mão, o velhaco. Se o barbante escapa, o coitado está perdido, perdidinho! Mas se você não cortar o barbante, me diga, que sabor pode ter a vida? Um gosto de camomila, de insossa camomila! Não é o gosto do rum, que faz a gente ver o mundo virado do avesso!
 
Nikos Kazantzakis

26 de outubro de 2016

Lágrimas da avó


Eu tinha uma avó que ia fazer uns oitenta anos. Um verdadeiro romance, a história dessa velha. Bem, mas isso é uma outra história também... Ela tinha então uns oitenta anos, e diante de nossa casa morava uma mocinha fresca como uma flor. Chamava-se Kristalo. Todas as noites de sábado, nós, os transviados da aldeia, íamos tomar uns tragos, e vinho nos estimulava. Púnhamos um ramo de basílica atrás da orelha, meu primo pegava o violão e íamos fazer serenata. Que chama! Que paixão! Berrávamos como búfalos. Todos nós a desejávamos, e todas as noites de sábado íamos em rebanho para que ela escolhesse. Pois bem, você acredita, patrão? É um mistério impressionante. Há na mulher uma chaga que não se fecha nunca. Todas as outras se curam, mas essa, não creia nos seus livrecos, essa não se fecha nunca. Só porque a mulher tem oitenta anos? Não importa. A chaga continua aberta. Todos os sábados, então, a velha puxava o seu colchão para debaixo da janela, apanhava às escondidas o seu espelho e começava a pentear os poucos fios de cabelo que lhe restavam e a se pintar... Olhava ela em torno, disfarçadamente, com medo de ser vista; se alguém se aproximava, ela ficava quieta como uma santinha e fingia dormir. Mas dormir como? Ela estava esperando a serenata. Com oitenta anos! Você sabe, patrão, isso hoje me dá vontade de chorar. Mas naquele tempo eu era bobo, não entendia, e me dava vontade de rir. Um dia fiquei com raiva dela. Ela estava resmungando comigo porque eu vivia atrás das moças, e resolvi botar tudo para fora: “Por que você se pinta e se penteia todos os sábados? Você está pensando que a serenata é para você? Pois não é, não. Nós desejamos Kristalo. Você cheira a cadáver!” Creia-me, patrão! Foi nesse dia, quando vi duas lágrimas caírem dos olhos de minha avó, que pela primeira vez entendi o que é uma mulher. Ela havia se encolhido em seu canto, acuada como uma cadela, e o seu queixo tremia. “Kristalo!”, gritava eu, me aproximando dela para que ouvisse melhor, “Kristalo!” A juventude é um animal feroz, que não entende nada. Minha avó levantou os braços descarnados em direção ao alto e gritou para mim: “Eu te maldigo do fundo do meu coração”. A partir desse dia ela começou a decair, depauperou-se, e dois meses depois estava morrendo. Na sua agonia, ela me viu. Soprou como uma tartaruga e estendeu sua mão seca para me agarrar: “Foi você que me matou, Alexis, foi você que me matou, maldito. Maldição sobre você, e que sofra o que eu sofri.”

Nikos Kazantzakis

23 de outubro de 2016

O que fazer com Stratis?


Hoje de manhã cedo Stratis entrou no alojamento como um vendaval. Ria, dançava, batia nas coxas, cantando em altos brados:

"Até quando, meus irmãos,
Percorreremos as veredas,
Feito leões solitários,
Pelos montes e penedos?"

Rodopiou entre os leitos e não parou de nos importunar até que todo mundo se levantou.
- O que foi que lhe aconteceu, Stratis? - gritamos. - Andou bebendo?
- E onde havia de conseguir vinho? Maldita cambada de idiotas! Trago uma grande notícia para vocês! De pé, vamos! Quando souberem, saltarão até o teto, batendo nas coxas e dançando como dervixes.
Todos pularam da cama para cercá-lo:
- Ande, de uma vez, Stratis, conte, pelo amor de Deus. Também queremos celebrar a grande notícia.
- O único que sabe é o comandante. Está guardando segredo. Mas eu o surpreendi e vim correndo contar para que vocês também se regozijassem.
Estávamos presos a seus lábios:
- Ande, conte, não nos mate de curiosidade!
- Agorinha mesmo subi ao quarto do comandante e me escondi atrás da porta. Era a hora em que ele liga o rádio para escutar as notícias. Algo me dizia que havia novidade em Atenas. Prestei atenção, e o que ouço? Vocês morrerão de alegria quando souberem!
- Os boinas-rubras abandonaram o cume das Águias?
- Melhor, muito melhor que isso! - gritou Stratis. - Vamos ver o seguinte! Você, Panos, dê seu palpite, meu cordeirinho!
- O que é que pode ser, então? - retrucou o valente pastor. - Tomamos Argirocastro?
- Muito melhor ainda, estou dizendo! Fale você, o sabidíssimo.
- A guerra acabou - arrisquei, rindo, mas com o coração batendo loucamente.
- Acertou! À sua saúde, sábio Salomão! A guerra acabou, irmãos! Os capitães da montanha de um lado e o rei de outro, junto com ministros e generais, se encontraram todos em Atenas para se apertarem as mãos. "Para que nos matarmos uns aos outros, rapazes?", disseram. "Não somos todos irmãos? Depois de tirar as boinas vermelhas e as pretas, nossas cabeças não são todas gregas? Portanto, chega de massacre, vocês são valentes, nós somos valentes, apertemos as mãos!" Foi o que fizeram, então. Assinaram papéis, tudo isso na mesma noite, e se beijaram. Expediram instruções para voltarmos às nossas casas e para os guerrilheiros descerem das montanhas. E em cada aldeia vão preparar as mesas, trazer vinho e dançar lançando os gorros no ar, rubros e pretos. Neste instante Atenas está coberta de fogos de artifício, os sinos repicam, o povo se espalha pelas ruas e a catedral abre os pórticos ao rei para celebrar um Te Deum.
Caímos em cima de Stratis para beijá-lo, tropeçando uns nos outros aos brados de urra!, entre lágrimas, risos e danças. Todo mundo se abraçava: "Cristo ressuscitou!" Era preciso sermos feras, era preciso sermos malditos para continuar com aquela chacina por mais tempo! Viva a Grécia! Stratis arremessou a boina ao teto:
- Vamos dar uma volta, rapazes! - gritou. - Façamos um cortejo! Vamos tocar o sino e chamar o padre, para que traga o Evangelho ao quartel e celebre uma ação de graças!
Saímos todos correndo pela estrada, cantando o hino nacional. As portas e janelas se abriam, os aldeões vinham às ruas.
- O que foi que aconteceu, rapazes?
- Acabou a guerra, irmãos, terminou! Hasteiem as bandeiras, abram barris de vinho, bebam todos, a guerra acabou!
Os moradores se precipitaram rua afora fazendo o sinal da cruz. As mulheres e as moças ficavam nos limiares, aplaudindo.
- Até a volta, rapazes, boa viagem!
O velho padre Yannaros, com seu coque de padre e rijo como o couro, bravo veterano da guerra contra a Albânia, cujo peito está coberto de cicatrizes, saiu correndo da igreja com os braços abertos:
- É verdade o que ouvi, meus filhos? - clamou. - A guerra acabou?
- Ponha sua estola, meu pai - respondeu-lhe Stratis. - Apanhe o missal e vamos felicitar o comandante. O senhor fará um discurso e bateremos à máquina uma proclamação. A guerra acabou, está morta, maldita seja!
E entoou comicamente o réquiem: - "Vamos nos despedir pela última vez..."
O padre se persignou, com os olhos banhados em lágrimas.
- A reconciliação! - exclamou. - A reconciliação! Repitam comigo, meus filhos, para rejubilar meu coração!
- A reconciliação, a reconciliação! - berramos de modo ensurdecedor. - Ande, busque sua estola!
Mitros surgiu, esbaforido.
- O que foi que houve, rapazes? - gritou. - O que aconteceu, para que toda essa loucura?
- Belo Mitros, a guerra acabou! Você vai poder voltar à sua bela caminha, ao lado da senhora Mitros.
Mitros abriu a boca, com o coração transido.
- Estão falando sério? - conseguiu dizer. - Acabou mesmo, para sempre, esta maldita guerra? Quem trouxe a notícia?
- A voz das sereias!
Mitros aplaudiu e se pôs a dançar:
- Viva a Rumélia! - exclamou. - Deem-se as mãos, meus irmãos, e dancemos para festejar a morte de Caronte.
Cinco ou seis soldados se deram as mãos e enquanto cantavam começaram a dançar o tsamiko.
Nesse meio tempo chegou o padre, revestido da estola recamada e carregando o pesado missal de prata.
- Louvemos o Senhor - disse. - Eis a autêntica Ressurreição! A caminho.
Pusemo-nos em frente, acompanhados pela aldeia em peso, homens e mulheres, que batiam em todas as portas aos berros: "Venham! Venham!"
Eu ia ao lado de Stratis, mas minha imaginação partira a galope. Já me enxergava em Atenas, batendo em seu quarto. Você me abria e me encontrava à sua frente. Lançava-se em meus braços, enquanto eu beijava sua nuca, sem conseguir falar, estrangulado por tantas coisas que queria dizer: iríamos a Naxos, como em meu sonho, receber as bênçãos de meus pais. O nosso casamento seria realizado no jardim de vovô, em Egares, à sombra das laranjeiras, entre as rosas... Imaginava tudo isso e meu pensamento esvoaçava em torno de seus cabelos, como uma borboleta.
De repente Stratis levantou a mão.
- Parem, rapazes. Tenho algo a dizer!
Todo mundo estacou.
- É mentira! - gritou, dando risadas. - É mentira! Primeiro de abril!
 
Nikos Kazantzakis

29 de setembro de 2016

A criação de Adão


- Pois bem, ouça, patrão! Uma manhã o bom Deus acorda um bocado aborrecido. "Que espécie de Deus sou eu? Não tenho nem ao menos homens para me louvarem ou jurarem pelo meu nome e me ajudarem a passar o tempo! Estou farto de viver só como uma velha coruja". Cospe nas mãos, arregaça as mangas, põe os óculos, toma um punhado de terra, cospe em cima, fazendo lama, amassa-o bastante, confecciona um homenzinho e o põe ao sol.
Ao fim de sete dias, retira-o. Estava cozido. O bom Deus olha-o e começa a rir: "O diabo que me carregue", diz ele, "mas é um porco em pé nas patas traseiras! Não era absolutamente o que eu queria fazer. Enganei-me redondamente".
Pega-o pela pele do pescoço e lhe dá um pontapé: "Vá! Suma daqui! Você tem agora é que fazer outros porquinhos, a Terra é sua! Vá embora! Um, dois, para a frente, marche!"
Mas, meu caro, absolutamente ele não era um porco. Usava chapéu de feltro, casaco jogado negligentemente nos ombros, calça com vinco e chinelas com pompons vermelhos. E mais ainda, trazia no cinto - foi certamente o Diabo que lhe deu - um punhal bem afiado, com estas palavras gravadas: "Hei de tirar-lhe a pele".
Era um homem. O bom Deus estende a mão para que o outro a beije, mas o homem torce os bigodes e diz: "Vamos, meu velho, sai daí para eu passar!"

Nikos Kazantzakis
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