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1 de dezembro de 2019

Alma revelada


A noite em que me sentei para ler Dostoiévski pela primeira vez foi um acontecimento muito importante em minha vida, mais importante mesmo que meu primeiro amor. Foi o primeiro ato deliberado e consciente que teve significado para mim; mudou toda a face do mundo. Se é verdade que o relógio parou naquele instante em que ergui o olhar após a primeira engolida a seco, já não sei. Mas o mundo parou por um momento, isso eu sei. Era meu primeiro vislumbre da alma de um homem, ou devo dizer simplesmente que Dostoiévski foi o primeiro homem a revelar-me sua alma? Talvez eu fosse um pouco esquisito antes disso, sem perceber, mas a partir do momento em que mergulhei em Dostoiévski me tornei definitiva, inequívoca e alegremente esquisito. O mundo comum, desperto e rotineiro, acabou para mim. Qualquer ambição ou desejo de escrever também morreu - por muito tempo. Eu era como um daqueles homens que estiveram tempo demais nas trincheiras, tempo demais sob fogo. O sofrimento comum, a inveja humana comum, as ambições humanas comuns - não passavam de um monte de merda para mim.
 
Henry Miller

6 de julho de 2017

Belicismo


Ah, a palavra "moral"! Sempre que aparece, penso nos crimes que foram cometidos em seu nome. As confusões que este termo engendrou abarcam quase toda a história das perseguições movidas pelo homem ao seu semelhante. Para além do fato de não existir apenas uma moral, mas muitas, é evidente que em todos os países, seja qual for a moral dominante, há uma moral para o tempo de paz e uma moral para a guerra. Em tempo de guerra tudo é permitido, tudo é perdoado. Ou seja, tudo o que de abominável e infame o lado vencedor praticou. Os vencidos, que servem sempre de bode expiatório, "não têm moral".
Pensar-se-á que, se realmente glorificássemos a vida e não a morte, se déssemos valor à criação e não à destruição, se acreditássemos na fecundidade e não na impotência, a tarefa suprema em que nos empenharíamos seria a da eliminação da guerra. Pensar-se-á que, fartos de carnificina, os homens se voltariam contra os assassinos, ou seja, os homens que planeiam a guerra, os homens que decidem das modalidades da arte da guerra, os homens que dirigem a indústria de material de guerra, material que hoje se tornou indescritivelmente diabólico. Digo "assassinos", porque em última análise esses homens não são outra coisa. A sangue-frio, anos antes de estalar qualquer conflito, preparam-se para obrigar os outros a obedecer-lhes; enumeram mentalmente todas as formas concebíveis de horror e destruição, e dedicam-se à tarefa calmamente, deliberadamente, implacavelmente, esperando apenas pelo momento certo para levarem à prática os seus planos.
(...) Confrontados com uma nova guerra - porque uma guerra engendra sempre outras - não poderemos esperar que estas "vítimas" se mostrem caridosas e magnânimas. Tendo sofrido contra a vontade, exigirão inevitavelmente que os seus filhos e filhas paguem o mesmo tributo... Portanto, o que eu digo é que, se esta escravidão de sacrifício e vingança não é imoral, se não é a forma mais absoluta da imoralidade, então esta palavra não tem sentido. Não estamos a ser destruídos e corrompidos pelos escritos pornográficos ou obscenos; estamos a ser destruídos e condenados, em todos os sentidos, pela guerra e pelo planeamento da guerra. 
 
Henry Miller

29 de junho de 2017

Vencer o medo


Parecemos estar hoje animados quase exclusivamente pelo medo. Receamos até aquilo que é bom, aquilo que é saudável, aquilo que é alegre. E o que é o herói? Antes de mais, alguém que venceu os seus medos. É possível ser-se herói em qualquer campo; nunca deixamos de reconhecer um herói quando este aparece. A sua virtude singular é o fato de ele ser um só com a vida, um só consigo próprio. Tendo deixado de duvidar e de interrogar, acelera o curso e o ritmo da vida. O covarde, par contre, procura deter o fluxo da vida. E claro que não detém nada, a menos que se detenha a si próprio. A vida continua sempre a avançar, quer nos portemos como covardes, quer nos portemos como heróis. A vida não impõe outra disciplina - se ao menos o soubéssemos compreender! - para além de a aceitarmos tal como é. Tudo aquilo a que fechamos os olhos, tudo aquilo de que fugimos, tudo aquilo que negamos, denegrimos ou desprezamos, acaba por contribuir para nos derrotar. O que nos parece sórdido, doloroso, mau, poderá tornar-se numa fonte de beleza, alegria e força, se o enfrentarmos com largueza de espírito. Todos os momentos são momentos de ouro para os que têm a capacidade de os ver como tais. A vida é agora, são todos os momentos, mesmo que o mundo esteja cheio de morte. A morte só triunfa ao serviço da vida. 
 
Henry Miller

25 de outubro de 2016

Desejo


Quanto ao fato de saber se o sexual e o religioso são antagônicos e opostos, eu responderia do seguinte modo: todos os elementos ou aspectos da vida, por muito pobres, por muito duvidosos que sejam (para nós), são suscetíveis de conversão, e na verdade devem ser transpostos para outro nível, de acordo com a nossa maturidade e inteligência. O esforço visando eliminar os aspectos "repugnantes" da existência, que é a obsessão dos moralistas, não só é absurdo, como fútil. É possível ser-se bem sucedido na repressão dos pensamentos e desejos, dos impulsos e tendências "feios" e "pecaminosos". Mas os resultados são manifestamente desastrosos (é estreita a margem que separa um santo e um criminoso). Viver plenamente os seus desejos e, ao fazê-lo, modificar sutilmente a natureza destes, é o objetivo de todo o indivíduo que aspira a desenvolver-se. Mas o desejo é soberano e inextirpável, mesmo quando, como dizem os budistas, se converte no seu contrário. Para alguém se poder libertar do desejo, tem que desejar fazê-lo.
 
Henry Miller

24 de setembro de 2016

Uma ou duas gotas de amor


Assim como se protegem contra a invasão de sua vida privada, com seus altos muros, seus ferrolhos e venezianas, seus porteiros resmungões, xingadores e desleixados, as pessoas também aprenderam a proteger-se contra o frio e o calor de um clima estimulante e vigoroso. Fortificaram-se. Proteção é a palavra-chave. Proteção e segurança. Para poderem apodrecer confortavelmente.
É possível que numa extensão de oito ou dez quarteirões haja uma aparência de alegria, mas depois volta a noite, a noite lúgubre, sórdida e preta como gordura gelada numa terrina de sopa. Quarteirões e quarteirões de prédios de apartamentos irregulares, com toda janela hermeticamente fechada, toda frente de loja fechada e trancada. Quilômetros e quilômetros de prisões de pedra sem o mais débil brilho de calor; os cães e os gatos estão todos dentro com os canários. As baratas e os percevejos também estão seguramente encarcerados. Se você não tem um centavo, por que não apanha simplesmente alguns jornais velhos e não faz uma cama na escadaria de uma catedral? As portas estão bem trancadas e não há correntes de vento para incomodá-lo. Melhor ainda é dormir diante das portas do metrô; lá terá companhia. Observe-os em uma noite chuvosa, lá deitados imóveis como colchões - homens, mulheres, piolhos, todos amontoados juntos e protegidos pelos jornais contra cuspidas e contra os vermes que caminham sem pernas. Observe-os sob as pontes ou sob os alpendres do mercado. Como parecem nojentos em comparação com as hortaliças limpas e brilhantes empilhadas como joias. Até mesmo as carcaças de cavalos, vacas e carneiros penduradas nos gordurosos ganchos parecem mais convidativas. Pelo menos, essas nós vamos comer amanhã e seus próprios intestinos servirão a um propósito. Mas esses imundos mendigos deitados na chuva, a que propósito servem? Que bem nos podem fazer? Eles nos fazem sangrar durante cinco minutos, mais nada.
Oh, sim, estes são pensamentos noturnos produzidos pela caminhada sob a chuva depois de dois mil anos de Cristianismo. Agora pelo menos os pássaros estão bem sustentados, assim como os gatos e cães. Toda vez que passo pela janela de um porteiro e recebo o pleno e gelado impacto de seu olhar, tenho desejo insano de esganar todos os pássaros de criação. No fundo de todo coração gelado há uma ou duas gotas de amor - apenas o suficiente para alimentar os pássaros.
 
Henry Miller
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