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29 de abril de 2018

Milagre!


Os jesuítas, para expandir e valorizar os milagres da religião cristã, reuniam diversas famílias de índios católicos e as induziam a enterrar em pequenas covas todo o ouro que pudessem conseguir durante um dia ou dois; coberto o depósito, recebiam elas ordem de não voltar mais ao lugar antes de quarenta e oito horas. No dia indicado, os índios voltavam e, após uma curta invocação cristã, tornavam a abrir as covas onde encontravam apenas pequenos crucifixos de cobre (supostos de ouro), que levavam entusiasmados, admirando a transformação milagrosa.

Jean Baptiste Debret

Superstições de São João


Mencionemos agora a influência do tiro de fuzil dado à meia-noite em uma mangueira. A ingenuidade supersticiosa do fazendeiro, para conseguir uma colheita feliz durante o ano, implora a proteção de São João dando um tiro de fuzil numa mangueira, à meia-noite em ponto, na véspera do dia do santo protetor. Para justificar essa superstição, parece que existe apenas a vantagem de fazer cair certa quantidade de frutos, beneficiando assim os que tiverem escapado ao chumbo da espingarda; talvez essa vantagem seja a de afugentar, pelo estampido, os malandros que se dedicam ao roubo noturno.
E termino com a moedinha jogada no braseiro, na véspera de São João.
A cena se passa sempre à meia-noite, mas, desta feita, na rua, diante de uma dessas pequenas fogueiras acesas na frente das casas particulares habitadas por pessoas que tenham o nome do santo. À devoção das moças, que no mundo inteiro se reduz a pedir aos céus a conservação dos pais, a posse de um namorado fiel e um casamento vantajoso, se ajunta, no Brasil, a inapreciável prerrogativa de uma correspondência direta com São João, cuja resposta é dada por meio de certa prática supersticiosa. Esta consiste em jogar um vintém no braseiro ardente, à meia-noite em ponto, retirar em seguida a moeda, depois de apagado o fogo, e conservá-la cuidadosamente até o ano seguinte, para dá-la ao primeiro pobre que se apresente na mesma época à meia-noite. Pergunta-se a esse homem o seu nome, o qual, por analogia, deve indicar infalivelmente o do futuro marido que o céu destina à jovem crente.
Para julgar das probabilidades desse cálculo supersticioso, é preciso ter em vista que o nome do brasileiro se acompanha sempre de vários prenomes, que começam, entretanto, naturalmente, por João, José, Antônio ou Pedro; a vulgaridade desses nomes abre vasta perspectiva para as moças em relação à assiduidade dos rapazes de sua sociedade.

Jean Baptiste Debret

13 de abril de 2018

Vende-se aluá (também)


Como é fácil de compreender, faz-se no Rio de Janeiro, durante o excessivo calor do verão, grande consumo de bebidas refrescantes, principalmente do econômico aluá, com arroz macerado e açucarado, néctar da classe baixa. Vêm em seguida a lima, o limão doce e a cana de açúcar, vegetais bem aclimados e que nessa época se encontram em plena maturação. Essas substâncias refrescantes, indispensáveis durante os meses de setembro, janeiro e fevereiro, são vendidas nas ruas da capital por uma multidão de vendedoras, em sua maioria escravas de pequenos capitalistas, ou por negras livres.
Essas vendedoras de aluá são notáveis pela elegância ou, ao menos, pela limpeza de seus trajes, naturalmente proporcionais à fortuna dos senhores, sempre interessados em conseguir, assim, alguma vantagem na concorrência momentânea. Dessa preocupação se aproveita duplamente a negra, de natural faceira e interesseira, para travar novos conhecimentos lucrativos que ela cultiva durante o resto do ano mediante visitas furtivas que lhe dão algum dinheiro, a título de esmola ou de recompensa por pequenos obséquios prestados com condescendência.

Jean Baptiste Debret

Cala a boca, negro


Chama-se feitor, na roça, o encarregado pelo proprietário de fiscalizar o cultivo das terras, a alimentação dos escravos e a disciplina que deve reinar entre estes; essas funções dão-lhe o direito de castigá-los.
Os vícios punidos são: a embriaguez, o roubo e a fuga; a preguiça é castigada a qualquer momento com chicotadas ou bofetões distribuídos de passagem.
À nossa chegada ao Brasil, os feitores eram, em sua maioria, portugueses. Geralmente irascíveis e rancorosos, acontecia muitas vezes corrigirem eles próprios os escravos; nessas circunstâncias, a vítima sofria com resignação, à espera da tortura que a aguardava.
O infeliz representado no primeiro plano, depois de amarradas as mãos sentou-se sobre os calcanhares, passando as pernas entre os braços de modo a permitir ao feitor que enfiasse uma vara entre os joelhos para servir de entrave; em seguida, facilmente derrubada com um pontapé, a vítima conserva uma posição de imobilidade que permite ao feitor saciar a sua cólera. Ousando apenas articular uns gritos de misericórdia, o escravo só ouve como resposta "cala a boca, negro".
Um segundo exemplo de castigo se encontra no último plano; aí, é um dos mais antigos escravos que se encarrega de aplicar as chicotadas.
Quando um feitor desconfia do carrasco, faz colocar atrás dele um segundo escravo, igualmente armado de chicote, para agir quando necessário, e, levando mais longe ainda suas precauções tirânicas, coloca-se ele próprio em terceiro lugar, para castigar o fiscal no caso em que este não cumpra seu dever com bastante severidade.
As duas tiras de couro da ponta do chicote arrancam, no primeiro golpe, a epiderme, tornando o castigo mais doloroso; este é, em geral, de doze a trinta chicotadas, depois das quais se torna necessário lavar a chaga com pimenta do reino e vinagre, para cauterizar as carnes e evitar a putrefação, tão rápida num clima quente.

Jean Baptiste Debret

Tráfico de escravos


Em 1816, a cupidez dos traficantes fazia embarcarem cerca de mil e quinhentos negros a bordo de um pequeno navio. Por isso, poucos dias depois da partida, a falta de ar, a tristeza, a insuficiência de uma alimentação sadia, provocavam febres e disenterias; um contágio maligno dizimava  diariamente essas infelizes vítimas, acorrentadas no fundo do porão, arquejantes de sede e respirando um ar pervertido pelas dejeções infectas que emporcalhavam mortos e vivos; e o navio negreiro, que embarcava mil e quinhentos escravos na costa da África, após uma travessia de dois meses desembarcava apenas trezentos a quatrocentos indivíduos, escapados dessa horrível mortandade.
Impressionados com essa perda de homens, que encarecia demais o preço dos escravos, os traficantes sentiram a necessidade de embarcar menos negros de cada vez e de tratá-los mais humanamente; desde então, com efeito, permite-se-lhes a consolante distração de subir diariamente ao tombadilho, cujo ar puro os predispõe a dançar de vez em quando ao som de uma música, que, apesar de sua mediocridade, os encanta ainda, principalmente quando existem negras dançarinas. Noutros dias, essa distração é substituída por exercícios violentos, que os estimulam de um modo geral; entretanto, se alguns se mostram exageradamente tristes, forçam-nos a chicotes, a participar da alegria geral; tristes ou alegres, continuam acorrentados uns aos outros, a fim de evitar revoltas ou suicídios pelo mergulho no mar.
Quando os negros novos chegam, são visitados, apreçados, selecionados como animais; examinam-lhes a cor da tez, a consistência das gengivas, etc., para ter uma ideia do seu estado de saúde; em seguida fazem-nos saltar, gritar, levantar pesos, a fim de apreciar o valor de suas forças e sua habilidade. As negras são avaliadas de acordo com a idade e os encantos.
Esses infelizes escravos, na sua maioria prisioneiros de guerra em seus países e vendidos pelos vencedores, desembarcam persuadidos de que vão ser devorados pelos brancos e se resignam em silêncio a acompanhar o novo dono.

 Jean Baptiste Debret

6 de abril de 2018

O jantar no Brasil


Subordinada às exigências da vida, a hora do jantar variava, no Rio da Janeiro, de acordo com a profissão do dono da casa. O empregado jantava às duas horas, depois da saída do escritório; o negociante inglês deixava a sua loja na cidade ali pelas cinco horas da tarde, para não mais voltar; montava a cavalo e, chegando à sua residência num dos arrabaldes mais arejados da cidade, jantava às seis horas da tarde. O brasileiro de outrora sempre jantou ao meio-dia e o negociante à uma hora.
Era muito importante, principalmente para o estrangeiro que desejasse comprar alguma coisa numa loja, evitar perturbar o jantar do negociante pois este, à mesa, sempre mandava responder que não tinha o que o cliente queria. Em geral não era costume apresentar-se numa casa brasileira na hora do jantar, mesmo porque não se era recebido durante o jantar dos donos. Muitas razões se opunham; em primeiro lugar o hábito de ficar tranquilamente à vontade sob uma temperatura que leva, naturalmente, ao abandono de toda etiqueta; em seguida a negligência do traje, tolerada durante a refeição; e, finalmente, uma disposição para o sossego que para alguns precede e para todos segue imediatamente ao jantar. Esse repouso necessário ao brasileiro termina por um sono prolongado, de duas ou três horas, a que se dá o nome de sesta
No Rio, como em todas as outras cidades do Brasil, é costume, durante o tête-à-tête de um jantar conjugal, que o marido se ocupe silenciosamente com seus negócios e a mulher se distraia com os negrinhos que substituem os doguezinhos, hoje quase completamente desaparecidos na Europa. Esses moleques mimados até a idade de cinco ou seis anos são em seguida entregues à tirania dos outros escravos, que os domam a chicotadas e os habituam assim a compartilhar com eles das fadigas e dissabores do trabalho. Essas pobres crianças, revoltadas por não mais receber das mãos carinhosas de suas donas manjares suculentos e doces, procuram compensar a falta roubando as frutas do jardim ou disputando aos animais domésticos os restos de comida que sua gulodice, repentinamente contrariada, leva a saborear com verdadeira sofreguidão. 
Quanto ao jantar em si, compõe-se, para um homem abastado, de uma sopa de pão e caldo gordo, chamado caldo de sustância, porque é feita com um enorme pedaço de carne de vaca, salsichas, tomates, toucinho, couves, imensos rabanetes brancos com suas folhas, chamados impropriamente nabos etc., tudo isso bem cozido. No momento de pôr a sopa à mesa, acrescentam-se algumas folhas de hortelã e mais comumente outras de uma erva cujo cheiro muito forte dá-lhe um gosto marcado bastante desagradável para quem não está acostumado. Serve-se ao mesmo tempo o cozido, ou melhor, um monte de diversas espécies de carnes e legumes de gostos muito variados embora cozidos juntos; ao lado coloca-se sempre o indispensável escaldado (flor de farinha de mandioca) que se mistura com caldo de carne ou de tomates ou ainda com camarões; uma colher dessa substância farinhosa semilíquida, colocada no prato cada vez que se come um novo alimento, substitui o pão, que nessa época não era usado ao jantar. Ao lado do escaldado, e no centro da mesa, vê-se a insossa galinha com arroz, escoltada porém por um prato de verduras cozidas extremamente apimentado. Perto dela brilha uma resplendente pirâmide de laranjas perfumadas, logo cortadas em quartos e distribuídas a todos os convivas para acalmar a irritação da boca já cauterizada pela pimenta. Felizmente esse suco balsâmico, acrescido a cada novo alimento, refresca a mucosa, provoca a salivação e permite apreciar-se em seu devido valor a natural suculência do assado. Os paladares estragados, para os quais um quarto de laranja não passa de um luxo habitual, acrescentam sem escrúpulo ao assado o molho, preparação feita a frio com a malagueta esmagada simplesmente no vinagre, prato permanente e de rigor para o brasileiro de todas as classes. Finalmente o jantar se completa com uma salada inteiramente recoberta de enormes fatias de cebola crua e de azeitonas escuras e rançosas (tão apreciadas em Portugal de onde vêm, assim como o azeite de tempero que tem o mesmo gosto detestável). A esses pratos, sucedem, como sobremesa, o doce de arroz frio, excessivamente salpicado de canela, o queijo de Minas, e, mais recentemente, diversas espécies de queijos holandeses e ingleses; as laranjas tornam a aparecer com as outras frutas do país: ananases, maracujás, pitangas, melancias, jambos, jabuticabas, mangas, cajás, frutas-do-conde etc.
Os vinhos de Madeira e do Porto são servidos em cálices, com os quais se saúdam cada vez que bebem; além disso um enorme copo, que os criados têm o cuidado de manter sempre cheio de água pura e fresca, serve a todos os convivas para beberem à vontade. A refeição termina com o café.
Passando-se ao humilde jantar do pequeno negociante e sua família, vê-se, com espanto, que se compõe apenas de um miserável pedaço de carne-seca, de três a quatro polegadas quadradas e somente meio dedo de espessura; cozinham-no a grande água com um punhado de feijões pretos, cuja farinha cinzenta, muito substancial, tem a vantagem de não fermentar no estômago. Cheio o prato com esse caldo, no qual nadam alguns feijões, joga-se nele uma grande pitada de farinha de mandioca, a qual, misturada com os feijões esmagados, forma uma pasta consistente que se come com a ponta da faca arredondada, de lâmina larga. Essa refeição simples, repetida invariavelmente todos os dias e cuidadosamente escondida dos transeuntes, é feita nos fundos da loja, numa sala que serve igualmente de quarto de dormir. O dono da casa come com os cotovelos fincados na mesa; a mulher com o prato sobre os joelhos, sentada à moda asiática na sua marquesa, e as crianças, deitadas ou de cócoras nas esteiras, se enlambuzam à vontade com a pasta comida nas mãos. Mais abastado, o negociante acrescenta à refeição o lombo de porco assado ou o peixe cozido na água com um raminho de salsa, um quarto de cebola e três ou quatro tomates. Mas, para torná-lo mais apetitoso, mergulha cada bocado no molho picante; completam a refeição bananas e laranjas. Bebe-se água unicamente. As mulheres e crianças não usam colheres nem garfos; comem todos com os dedos.
Os mais indigentes e os escravos nas fazendas alimentam-se com dois punhados de farinha-seca, umedecidos na boca pelo sumo de algumas bananas ou laranjas. Finalmente, o mendigo quase nu e repugnante de sujeira, sentado do meio-dia às três à porta de um convento, engorda sossegadamente, alimentado pelos restos que a caridade lhe prodigaliza. Tal é a série de jantares da cidade, após os quais toda a população repousa.

Jean Baptiste Debret

Barril de esgoto


O velho barril de água termina também sua carreira com funções vergonhosas, com maiores inconvenientes, porém, no transporte, inconvenientes que escandalizam as modistas e as negociantes francesas da Rua do Ouvidor. Acontece, com efeito, que o peso enorme suportado pelo fundo velho do barril, o qual recebe em cada passo do carregador uma ligeira sacudidela, acaba desconjuntando as três ou quatro tábuas, já podres e sem elasticidade, que cedem, enfim, deixando escapar o conteúdo infecto, que espirra por todos os lados. Mas não é tudo: nessa desagradável ocorrência, as paredes do barril, ainda ligadas com aros de ferro, escorregam e encaixam o negro desde os ombros até os punhos. Assim, repentinamente couraçado, descobrem-se somente a cabeça e as pernas do pobre escravo abobado com as novas cores de que se vê de repente coberto. Essa desventura constitui uma alegria para os companheiros e é assinalada por mil assobios agudos, gritos e palmas de todos que o cercam. Acordado de sua estupefação por esse barulho generalizado, o negro toma as disposições necessárias para sair de seu barril e recolher os pedaços esparsos. Após a manifestação de alegria, os outros partem correndo, e o desgraçado, assim isolado, torna-se o ponto de mira dos vizinhos, que, fechando o nariz, lançam contra ele seus próprios negros armados de utensílios, que lhe são emprestados para recolher pouco a pouco os restos imundos disseminados pela calçada. Obrigam-no ainda, após esse trabalho penoso e longo, a jogar vários barris de água, a varrer e, não raro, a limpar com esponja as vitrinas da loja que seu fardo sujou. Com todas essas precauções, quase não basta a noite para que se evaporem completamente os miasmas, circunstância desagradável, que priva as moças da loja atingida das amáveis visitas que lhes encantam as noitadas; e a circunstância é tanto mais aflitiva quanto dá origem a chacotas e zombarias que circulam durante, pelo menos, oito dias em todas as outras lojas do Rio de Janeiro.
Terminado esse penoso trabalho, entre imprecações de todos, o infeliz carregador vai lavar-se na praia, bem como limpar as tábuas desconjuntadas de seu barril. Finalmente, após três horas de ausência, volta para a casa do amo, onde, por cúmulo de infelicidade, é submetido ao castigo reservado aos desastrados, castigo pelo qual o proprietário do barril velho pensa mascarar a sua sordidez.

Jean Baptiste Debret  

5 de abril de 2018

As modas e as vaidades


A cena aqui desenhada representa a partida, para o passeio, de uma família de fortuna média, cujo chefe é funcionário. Segundo o antigo hábito observado nessa classe, o chefe de família abre a marcha, seguido, imediatamente, por seus filhos, colocados em fila por ordem de idade, indo o mais moço sempre na frente.; vem a seguir a mãe, ainda grávida; atrás dela, sua criada de quarto, escrava mulata, muito mais apreciada no serviço do que as negras; seguem-se a ama negra, a escrava da ama, o criado negro do senhor, um jovem negro em fase de aprendizado, o novo negro recém-comprado, escravo de todos os outros e cuja inteligência natural mais ou menos viva vai desenvolver-se a chicotadas. O cozinheiro é o guarda da casa.
De alguns anos para cá, a imitação da moda francesa tornou elegante darem os homens, no passeio, o braço às senhoras casadas ou viúvas. As moças, caminhando duas a duas, dão-se o braço reciprocamente, maneira infinitamente muito mais cômoda de manter uma conversação antes feita sem se olharem, dissimulação exigida ou inútil garantia de um silêncio que se compraziam em denominar decência. 
Essa prerrogativa de abrir a marcha, concedida à mais moça, tornara-se o pomo de discórdia de duas irmãs quase gêmeas e solteironas, que eu tinha a honra de ver passar todos os dias diante de minha janela. Embora conservassem, na sua vestimenta, todo o frescor de um extremo asseio, percebia-se, mesmo de longe, que essas senhoritas eram mais do que sexagenárias. A mais velha, cujo desejo de enganar os passantes, ao menos na aparência, assim se evidenciava, aproveitava todos os obstáculos para passar na frente da mais moça, e esta não demorava em reconquistar sua vantagem, com toda a energia que lhe inspirava a usurpação ofensiva. Finalmente, um ano antes de minha partida, a morte de uma das duas pôs fim a essa guerra de setenta anos pelo menos, deixando à sobrevivente a tristeza de não mais poder passar por mais moça, no caso de ser a mais velha, ou, no caso inverso, a privação de não poder mais defender seus direitos naturais de uma maneira ostensiva aos olhos dos passantes, cuja atenção procurava ainda atrair com sua voz desagradável e rouca. Funesta mas inevitável consequência de uma existência por demais prolongada.

Jean Baptiste Debret

13 de março de 2018

Charruas


Em uma das províncias meridionais do Brasil, situada à margem do rio Uruguai, poucas léguas abaixo de São João, existe uma nação de índios completamente selvagens chamados charruas, que acampam num espaço de terra cheio de pântanos e bosques. Vivem cercados de manadas de cavalos selvagens, cuja carne preferem a qualquer outro alimento. É no meio dos caniços, quase deitados dentro da lama, que realizam seus repugnantes festins. Sua extrema sujeira criou em torno deles mil anedotas exageradas que me absterei de contar, embora andem em todas as bocas da região. Sua única vestimenta é o bicuis (espécie de pequeno calção extremamente curto) e seu principal ornamento consiste numa pasta de barro vermelho (thoia) misturada à banha de cavalo e com a qual pintam o rosto.
É somente nas províncias de São Paulo e Santa Catarina que se encontra um grande número de charruas civilizados, em sua maioria originários do Paraguai; andam quase sempre a cavalo, envolvidos em ponchos. O resto de sua vestimenta é copiado dos hispano-americanos; como estes, andam sempre armados de um grande facão preso à cinta ou simplesmente enfiado numa das botas. O comércio de animais constitui sua principal ocupação; muitas vezes, também, com o nome de peões, servem de guia aos viajantes que percorrem essas províncias.
Tão intrépidos a pé quanto a cavalo, não hesitam em atacar a onça, o braço esquerdo envolvido no poncho e recoberto de um pedaço de couro que, como uma espécie de avental, faz parte de sua indumentária. Assim preparados para o combate, marcham ao encontro do animal e o desafiam com seu grande facão na mão direita. O caçador, confiando na sua admirável experiência, ao atacar o perigoso adversário corpo a corpo, apresenta o braço esquerdo e, no momento que a onça pula para abocanhá-lo, mergulha-lhe o facão no peito e mata-a no primeiro golpe.
Esse gênero de combate é-lhes tão familiar que estão sempre dispostos a arranjar uma soberba pele de onça por apenas cinco francos (um patacão); é um "extraordinário" de que se valem para seus divertimentos, pouco variados, em verdade, e que consistem em frequentar as tabernas, onde fumam, bebem cachaça e jogam cartas, prazer este que sempre termina em facadas.
Embora dados à embriaguez, ao roubo e ao assassínio, são suscetíveis de uma fidelidade inalterável quando contratados para uma escolta de proteção.
Ao viajante que se expõe, nessas regiões, aos perigos de uma longa caminhada através dos desertos, o peão aguerrido é indispensável. Por isso, logo à primeira requisição do estrangeiro, procuram trazer-lhe um e lhe apresentam um indivíduo cujo aspecto não deixa dúvidas quanto à força e à audácia. Os amigos que o cercam acrescentam uma recomendação tranquilizadora: "É um homem para dez". Sendo a caravana numerosa e precisando de dois guias, o primeiro contratado tem o direito de escolher o companheiro. Cabe à generosidade do viajante determinar a recompensa pecuniária que lhes deve ser concedida. Mas já se conhecem os hábitos e sabe-se que para uma longa travessia o preço habitual é de oitenta francos para cada um (um dobrão), o que os satisfaz; nada exigem adiantado.
No caminho, o peão marcha à frente do patrão, sonda o terreno e, ante qualquer obstáculo que se apresente, ou qualquer animal perigoso, se expõe generosamente em primeiro lugar. Não é preciso preocupar-se com a alimentação desse fiel companheiro de viagem, sempre munido de uma pequena provisão de aguardente e de fumo suficiente para a jornada; ao cair da noite, atravessando os campos cheios de rebanhos pastando em liberdade, ele pega um boi a laço e, depois de matá-lo, corta um pedaço do filé, que envolve num naco de pele ainda quente, abandonando o resto do animal às feras. Chegando-se ao lugar escolhido para o acampamento da noite, o guia trata de arranjar a cozinha; para isso, principia por cavar a terra e fazer um pequeno buraco de mais ou menos um pé e meio de profundidade; enche-o, a seguir, de galhos a que põe fogo; quando essa madeira se transforma em carvão, ele coloca sobre o braseiro ardente o pedaço de carne envolvido na pele; esconde tudo sob outros ramos, e ateia novamente fogo. Essa carne cozida assim entre duas brasas conserva todo o sabor de seu suco e nada tem a invejar aos melhores assados da Europa. Todos os viajantes repartem entre si esse jantar suculento, que os naturais do país comem sem pão.
Chegado a seu destino, o viajante paga o guia e ambos se tornam estranhos um ao outro. Em qualquer outra posição é geralmente perigoso para um viajante isolado encontrar um charrua, pois este, sempre ávido de patacões, não tem nenhum escrúpulo em assassinar o estrangeiro para apropriar-se de dinheiro ou mesmo de um simples colete que ambicione.

Jean Baptiste Debret
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