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22 de abril de 2020

Palmas para Stalin!


Eis um pequeno quadro daqueles anos: está decorrendo (na região de Moscou) a conferência do Partido da zona. É dirigida por um novo secretário, em substituição ao recentemente detido. No fim da conferência é aprovada uma mensagem de fidelidade ao Camarada Stalin. Como se compreende, todos se põem de pé (do mesmo modo que no decorrer da conferência todos saltavam da cadeira cada vez que era mencionado o seu nome). Na pequena sala ressoam “tempestuosos aplausos que se transformam em ovação”. Passam três, quatro, cinco minutos e são cada vez mais tempestuosos os aplausos, redundando numa ovação. Mas afinal começam a doer as mãos. Fatigam-se os braços levantados, já vão sufocando as pessoas idosas. Aquilo passa a ser estúpido até para aqueles que sinceramente admiram Stalin. Entretanto, quem é o primeiro que se atreve a parar? Poderia fazê-lo o secretário da zona, que se encontra de pé na tribuna e acaba de ler essa mesma mensagem? Mas ele está ali há pouco tempo e encontra-se no lugar do recentemente detido, tendo ele próprio medo! Na verdade, na sala estão também de pé, aplaudindo, os membros da polícia política e eles observam quem é o primeiro que se atreve a parar!… E os aplausos na pequena e desconhecida sala, ignorada pelo Grande Líder, prolongam-se por seis minutos! sete minutos! oito minutos!… eles sucumbem! Estão todos perdidos. Não podem parar, enquanto não tombarem com os corações despedaçados? Ainda no fundo da sala, no meio do aperto, pode-se ludibriar um pouco, aplaudir mais devagar, não tão forte, não tão furiosamente, mas que fazer no Presidium, à vista de todos? O diretor da fábrica local de papel, uma personalidade forte, independente, faz parte do Presidium e compreende toda a falsidade, todo o beco sem saída da situação, mas aplaude! Decorre o nono minuto! O décimo! Ele olha aborrecido para o secretário do partido da zona, mas este não se atreve a parar. É uma loucura! Uma loucura geral! Olhando-se uns aos outros, com uma débil esperança, mas fingindo êxtase nos rostos, os dirigentes da zona aplaudiram até cair. Até que fossem levados em macas! E, até esse momento, os restantes não vacilaram!… O diretor da fábrica de papel, no décimo primeiro minuto, fingindo-se atarefado, deixa-se cair no seu lugar, no Presidium. E, oh! maravilha! Esvaiu-se então o incontível, indescritível entusiasmo geral? De repente pararam no meio do mesmo aplauso e se sentaram todos de uma vez. Estão salvos! O esquilo teve a ideia de sair da roda!…
Entretanto, é dessa forma que se conhecem as pessoas independentes. E é dessa forma que são postas de lado. Nessa mesma noite, o diretor da fábrica é preso. Dez anos.
 
 Alexander Soljenitsin

24 de outubro de 2016

2000 tomates caindo do céu


Meu vizinho de cela foi levado para outro presídio. Seu lugar foi ocupado por um homenzinho de pele tostada, cabelo negro e olhos escuros, infantilmente redondos, como os de uma boneca; o nariz, todavia, desmedidamente grande e largo, transformava o conjunto numa caricatura.
Sou o Tenente Vladimirescu! Do serviço de informação do Estado-Maior romeno!
De acordo com seu relato, o homem era de família aristocrática. Desde os três anos estava destinado ao serviço do Estado-Maior. Aos seis, ingressou como aluno na seção de informação. Uma vez adulto, escolheu como campo de operações a União Soviética, segundo ele um país com um serviço de contra-espionagem inexorável e, por isso mesmo, o mais difícil em que trabalhar, onde todos suspeitavam de todos. Agora, chegara à conclusão de que não havia se saído mal. Após adotar o nome de Ponomariov, dirigiu-se a Podolsk, onde deveria dedicar-se à sua especialidade. Pelas explicações de Vladimirescu, os agentes treinados para manobras diversionistas recebem uma instrução bem genérica e, não obstante, cada qual se consagra a uma especialidade estrita. Essa missão especial de Vladimirescu consistiu em cortar imperceptivelmente as cordas de suspensão dos paraquedas. Em Podolsk, o tenente foi recebido pelo chefe do depósito de paraquedas e ficou trancado por uma noite - oito horas - dentro do lugar. Empregando uma pequena escada, Vladimirescu alcançou a estante dos paraquedas, apalpou-os cautelosamente sem desarrumá-los, procurou as múltiplas amarras da suspensão principal e com uma tesoura cortou quatro quintos de sua espessura, para que a parte restante se rompesse sozinha no ar. Aplicou muitos anos de estudo e treinamento para poder agir assim naquela noite. Por fim, trabalhando febrilmente por oito horas, sabotou até dois mil paraquedas (um a cada quinze segundos!). "Apenas aniquilei uma divisão aerotransportada soviética", dizia com os olhos brilhando de satisfação.
Alexander Soljenitsin
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