Mostrando postagens com marcador Luis Fernando Verissimo. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Luis Fernando Verissimo. Mostrar todas as postagens

3 de janeiro de 2025

Inquilinos


Ninguém é responsável pelo funcionamento do mundo. Nenhum de nós precisa acordar cedo para acender as caldeiras e checar se a Terra está girando em torno do seu próprio eixo na velocidade apropriada, e em torno do Sol de modo a garantir a correta sucessão das estações. Como num prédio bem administrado, os serviços básicos do planeta são providenciados sem que se enxergue o síndico – e sem taxa de administração.

Imagine se coubesse à humanidade, com sua conhecida tendência ao desleixo e à improvisação, manter a Terra na sua órbita e nos seus horários, ou se – coroando o mais delirante dos sonhos liberais – sua gerência fosse entregue a uma empresa privada, com poderes para remanejar os ventos e suprimir correntes marítimas, encurtar ou alongar dias e noites e até mudar de galáxia, conforme as conveniências de mercado, e ainda por cima sujeita a decisões catastróficas, fraudes e falência.

É verdade que, mesmo sob o atual regime impessoal, o mundo apresenta falhas na distribuição dos seus benefícios, favorecendo alguns andares do prédio metafórico e martirizando outros, tudo devido ao que só pode ser chamado de incompetência administrativa. Mas a responsabilidade não é nossa. A infraestrutura já estava pronta quando nós chegamos. Apesar de tentativas como a construção de grandes obras que afetam o clima e redistribuem as águas, há pouco que podemos fazer para alterar as regras do seu funcionamento.

Podemos, isto sim, é colaborar na manutenção da Terra. Todos os argumentos conservacionistas e ambientalistas teriam mais força se conseguissem nos convencer de que somos inquilinos no mundo. E que temos as mesmas obrigações de qualquer inquilino, inclusive a de prestar contas por cada arranhão no fim do contrato. A escatologia cristã deveria substituir o Salvador que virá pela segunda vez para nos julgar por um Proprietário que chegará para retomar seu imóvel. E o Juízo Final, por um cuidadoso inventário em que todos os estragos que fizemos no mundo seriam contabilizados e cobrados.

– Cadê a floresta que estava aqui? – perguntaria o Proprietário.

– Valia uma fortuna.

E:

– Este rio não está como eu deixei…

E, depois de uma contagem minuciosa:

– Estão faltando cento e dezessete espécies.

A Humanidade poderia tentar negociar. Apontar as benfeitorias – monumentos, parques, áreas férteis onde outrora existiam desertos – para compensar a devastação. O Proprietário não se impressionaria.

– Para o que eu quero o Taj Mahal? Sete Quedas era muito mais bonita.

– E a catedral de Chartres? Fomos nós que construímos. Aumentou o valor do terreno em…

– Fiquem com todas as suas catedrais, represas, cidades e shoppings. Quero o mundo como eu o entreguei.

Não precisamos de uma mentalidade ecológica. Precisamos de uma mentalidade de locadores. E do terror da indenização.


Luis Fernando Verissimo

18 de maio de 2024

Os resistentes

Não sucumbi ao telefone celular. Não tenho e nunca terei um telefone celular. Quando preciso usar um, uso o da minha mulher. Mas segurando-o como se fosse um grande inseto, possivelmente venenoso, desconhecido da minha tribo.

Sei que alguns celulares ronronam e vibram discretamente, em vez de desandarem a chamar seus donos com música. Infelizmente, os donos nem sempre mostram a mesma discrição. Não é raro você ser obrigado a ouvir alguém tratando de detalhes da sua intimidade ou dos furúnculos da tia Djalmira a céu aberto, por assim dizer.

Não dá para negar que o celular é útil, mas no caso a própria utilidade é angustiante. O celular reduziu as pessoas a apenas extremos opostos de uma conexão, pontos soltos no ar, sem contato com o chão. Onde você se encontra se tornou irrelevante, o que significa que, em breve, ninguém mais vai se encontrar.

Não tenho a menor ideia de como funciona o besouro maldito. E chega um momento em que cada nova perplexidade com ele se torna uma ofensa pessoal, ainda mais para quem ainda não entendeu bem como funciona uma torneira.

Ouvi dizer que o celular destrói o cérebro aos poucos. Vejo a nós – os que não sucumbiram, os últimos resistentes – como os únicos sãos num mundo imbecilizado pelo micro-ondas de ouvido, com o qual as pessoas trocarão grunhidos pré-históricos, incapazes de um raciocínio ou de uma frase completa, mas ainda conectadas. Seremos poucos, mas nos manteremos unidos, e trocaremos informações. Usando sinais de fumaça.


Luis Fernando Verissimo

5 de setembro de 2023

Inquilinos

 

Ninguém é responsável pelo funcionamento do mundo. Nenhum de nós precisa acordar cedo para acender as caldeiras e checar se a Terra está girando em torno do seu próprio eixo na velocidade apropriada, e em torno do Sol de modo a garantir a correta sucessão das estações. Como num prédio bem administrado, os serviços básicos do planeta são providenciados sem que se enxergue o síndico - e sem taxa de administração. Imagine se coubesse à humanidade, com sua conhecida tendência ao desleixo e à improvisação, manter a Terra na sua órbita e nos seus horários, ou se - coroando o mais delirante dos sonhos liberais - sua gerência fosse entregue a uma empresa privada, com poderes para remanejar os ventos e suprimir correntes marítimas, encurtar ou alongar dias e noites e até mudar de galáxia, conforme as conveniências de mercado, e ainda por cima sujeita a decisões catastróficas, fraudes e falência.
É verdade que, mesmo sob o atual regime impessoal, o mundo apresenta falhas na distribuição dos seus benefícios, favorecendo alguns andares do prédio metafórico e martirizando outros, tudo devido ao que só pode ser chamado de incompetência administrativa. Mas a responsabilidade não é nossa. A infraestrutura já estava pronta quando nós chegamos. Apesar de tentativas como a construção de grandes obras que afetam o clima e redistribuem as águas, há pouco que podemos fazer para alterar as regras do seu funcionamento.
Podemos, isto sim, é colaborar na manutenção da Terra. Todos os argumentos conservacionistas e ambientalistas teriam mais força se conseguissem nos convencer de que somos inquilinos no mundo. E que temos as mesmas obrigações de qualquer inquilino, inclusive a de prestar contas por cada arranhão no fim do contrato. A escatologia cristã deveria substituir o Salvador que virá pela segunda vez para nos julgar por um Proprietário que chegará para retomar seu imóvel. E o Juízo Final, por um cuidadoso inventário em que todos os estragos que fizemos no mundo seriam contabilizados e cobrados.
– Cadê a floresta que estava aqui? - perguntaria o Proprietário. - Valia uma fortuna.
– Este rio não está como eu deixei… E, depois de uma contagem minuciosa:
– Estão faltando cento e dezessete espécies.
A Humanidade poderia tentar negociar. Apontar as benfeitorias - monumentos, parques, áreas férteis onde outrora existiam desertos - para compensar a devastação. O Proprietário não se impressionaria.
– Para o que eu quero o Taj Mahal? Sete Quedas era muito mais bonita.
– E a catedral de Chartres? Fomos nós que construímos. Aumentou o valor do terreno em…
– Fiquem com todas as suas catedrais, represas, cidades e shoppings. Quero o mundo como eu o entreguei.
Não precisamos de uma mentalidade ecológica. Precisamos de uma mentalidade de inquilinos. E do terror da indenização.

Luis Fernando Verissimo


21 de julho de 2018

Preparativos finais


- Valeu, mermão? Tu traz o berro que nóis vamos rendê o caixa bonitinho. Engrossou, enche o cara de chumbo. Pra arejá.
- Podes crê. Servicinho manero. É só entrá e pegá.
- Tá com o berro aí?
- Tá na mão.
Aparece o guarda.
- Ih, sujou... Disfarça, disfarça...
O guarda passa por eles.
- Discordo terminantemente. O imperativo categórico de Hegel chega a Marx diluído pela fenomenologia de Feuerbach.
- Pelo amor de Deus! Isso é o mesmo que dizer que Kierkegaard não passa de um Kant com algumas sílabas a mais. Ou que os iluministas do século 18...
O guarda se afasta.
- O berro, tá cheio?
- Tá.
- Então vamlá.
 
Luis Fernando Verissimo

27 de outubro de 2016

Prazer e dor


Eu sou masoquista e minha mulher é sádica, mas o que estraga o nosso relacionamento é o ciúme. Quando eu chego em casa com uma mancha vermelha na camisa, preciso jurar que não é sangue, é batom, senão ela tem um ataque histérico e, como castigo, não me bate.

Luis Fernando Verissimo

18 de setembro de 2016

Exercícios para o verão


Ninguém deve descuidar de sua forma física só porque é verão. Para aqueles que negligenciam o seu cooper porque com este calor, definitivamente, não dá, surge agora um novo método de condicionamento físico desenvolvido pelo Dr. Beer Belly e caracterizado por um mínimo de movimentação com um máximo de aproveitamento. Qualquer pessoa pode usar o método Beer Belly, mesmo que jamais tenha feito um exercício na vida, e com alguns movimentos básicos, repetidos várias vezes ao dia, conservar o tônus muscular, a boa disposição e a alegria de viver. E - importante - tudo isto longe do sol, sem correrias ou suadouros.
De acordo com o método Beer Belly, você deve sentar firmemente diante de uma mesa de bar, respirar fundo, erguer o braço sobre a cabeça e, agitando o dedo indicador, dizer claramente: "Ei, garçom!" Na maioria dos casos você sentirá os benefícios desta flexão imediatamente, com a aproximação do garçom. Caso contrário, repita o movimento até obter o resultado desejado. Então, peça um chope bem gelado. Com o chope na sua frente, você está pronto para a segunda fase do exercício.
O movimento horizontal da mão em direção ao copo põe em ação 17 músculos essenciais, do pouco conhecido Tendão de Ágape (que tem íntimas ligações com o músculo cardíaco e alguma influência no baço e até meio aparentado com um dos pulmões) até o popular bíceps. Muito importante, neste movimento, é a posição do polegar (ou, no grego, Dedão) que deve formar um perfeito ângulo reto com a palma da mão até esta envolver a parte externa do copo. Para melhor aproveitamento, o copo deve estar gelado — e ao contrário de você —, suando muito. É desnecessário realçar a importância do Dedão na vida moderna. Nesta era tecnológica, onde tudo depende de apertar o botão certo, um Dedão desenvolvido pode significar até a sobrevivência do Ocidente como nós o conhecemos.
Este movimento deve ser repetido muitas vezes. Erga o copo na vertical até o braço e o antebraço formarem um V de Valium, ou um V bem largadão. Todo o controle nesta delicada operação, a mais importante do método Beer Belly, depende do pulso. O Dr. Beer Belly recomenda que, para evitar surpresas e o desperdício do precioso líquido, você treine antes com copos menores, como os de caipirinha, até firmar o pulso. O tríceps, os 32 músculos do cotovelo e (não me pergunte como) o adutor da perna direita são os principais beneficiados nesta fase.
À medida que o copo se aproxima dos músculos faciais (que devem ser descontraídos proporcionalmente à aproximação do copo, passando de um meio sorriso de antecipação para um semibico de expectativa), vá girando o pulso lentamente, de maneira que o encontro da borda do copo com o músculo labial inferior se dê num ângulo nunca inferior a 82 graus, para evitar o fenômeno cientificamente chamado de espuma no nariz. Esta fase serve para desenvolver a sincronização motora, o quadríceps e os importantíssimos músculos da deglutição, sem os quais você e eu não conseguiríamos engolir nada e teríamos que nos submeter à alimentação intravenosa, com todos os riscos da agulha rombuda e da hepatite. Uma vez reposto o copo sobre a mesa, depois de repetidos os movimentos A, B e C, só que ao contrário, levante o outro braço e passe as costas da mão na boca para limpá-la. Desta maneira você exercita os músculos do outro lado. A seguir estale os lábios. Dizer "Aaahhh..." é opcional, segundo o Dr. Beer Belly.
E aguardemos o lançamento no Brasil do segundo livro do Dr. Beer Belly, Colesterol é Vida!, publicado pouco antes da sua morte prematura no verão passado.

Luis Fernando Verissimo
Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...