O que acontece após a morte com a vítima voluntária que se permite, por amor, ser condenada em nome de Deus? Poderia ela, por exemplo, ser condenada à danação eterna por amor segundo a lei de Deus?
O caso de Satanás é examinado como um exemplo da possibilidade, cuja conclusão causará ao leitor, ouso dizer, certo espanto. Porque, como vimos no início do Alcorão, ele foi condenado por se recusar a se curvar com os outros diante de Adão - o que, obviamente, estava certo, já que ninguém, a não ser Deus, é para ser adorado. Satanás deve então ser considerado como um verdadeiro muçulmano. Amando e adorando apenas a Deus, ele não conseguiu curvar-se diante do homem, mesmo mandado, contraditoriamente, por seu Deus que, antes, tinha-o mandado adorar apenas a Deus. Deus - conforme consta no Livro de Jó - está acima da justiça, acima da coerência, acima da lei e da ordem, quaisquer que sejam. A lição do Livro de Jó, aplicada devidamente, da maneira que começou, teria acabado com essa ideia sufi do exílio de Satanás, o perfeito devoto, sofrendo eternamente no inferno. E como o grande al-Hallaj, em sua consideração desse tema complexo, propôs para aprofundamento do mistério: Satanás nas profundezas do inferno manteve intacto o seu amor; porque, na verdade, era precisamente esse amor que o retinha ali, afastado de seu objeto de amor - sendo a própria dor pela perda de Deus o maior tormento de todos. Se perguntarmos o que o sustenta ali, na dor da perda, por todo o tempo, é o êxtase de seu coração na lembrança do som da voz amada de Deus quando pronunciou sua condenação: "Parta!"
Mas Satanás (ou Jó, neste caso) não foi, afinal, condenado injustamente. Porque ele próprio já havia abandonado o seu amado pela ideia que formara de seu amado, e esta ideia era um ídolo no sentido mais elevado. O que quer dizer: o monoteísmo rígido de Satanás (de Jó, de Muhammad, de Abraão) era apenas uma outra forma de ateísmo, e a adoração de Adão pelos anjos era correta. Já que mais uma vez, conforme lemos lemos no Alcorão: "Deus levará os celerados ao erro."
O caso de Satanás é examinado como um exemplo da possibilidade, cuja conclusão causará ao leitor, ouso dizer, certo espanto. Porque, como vimos no início do Alcorão, ele foi condenado por se recusar a se curvar com os outros diante de Adão - o que, obviamente, estava certo, já que ninguém, a não ser Deus, é para ser adorado. Satanás deve então ser considerado como um verdadeiro muçulmano. Amando e adorando apenas a Deus, ele não conseguiu curvar-se diante do homem, mesmo mandado, contraditoriamente, por seu Deus que, antes, tinha-o mandado adorar apenas a Deus. Deus - conforme consta no Livro de Jó - está acima da justiça, acima da coerência, acima da lei e da ordem, quaisquer que sejam. A lição do Livro de Jó, aplicada devidamente, da maneira que começou, teria acabado com essa ideia sufi do exílio de Satanás, o perfeito devoto, sofrendo eternamente no inferno. E como o grande al-Hallaj, em sua consideração desse tema complexo, propôs para aprofundamento do mistério: Satanás nas profundezas do inferno manteve intacto o seu amor; porque, na verdade, era precisamente esse amor que o retinha ali, afastado de seu objeto de amor - sendo a própria dor pela perda de Deus o maior tormento de todos. Se perguntarmos o que o sustenta ali, na dor da perda, por todo o tempo, é o êxtase de seu coração na lembrança do som da voz amada de Deus quando pronunciou sua condenação: "Parta!"
Mas Satanás (ou Jó, neste caso) não foi, afinal, condenado injustamente. Porque ele próprio já havia abandonado o seu amado pela ideia que formara de seu amado, e esta ideia era um ídolo no sentido mais elevado. O que quer dizer: o monoteísmo rígido de Satanás (de Jó, de Muhammad, de Abraão) era apenas uma outra forma de ateísmo, e a adoração de Adão pelos anjos era correta. Já que mais uma vez, conforme lemos lemos no Alcorão: "Deus levará os celerados ao erro."
Joseph Campbell

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