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22 de abril de 2020

Vida e paixão


Nem sempre estar apaixonado é bom. A maior parte das paixões tomam conta da vontade e assumem o controle do sentir e do pensar. Prometem a maior das libertações, mas escravizam quem desiste de si mesmo e a elas se submete. A paixão é sofrimento, um furor que é o oposto da paz e do contentamento. Um vazio fulminante capaz das maiores acrobacias para se satisfazer. Mas que, como nunca se sacia, acaba por se consumir, por se destruir a si mesmo. Para ter paz precisamos de fazer esta guerra, na conquista do mais exigente de todos os equilíbrios: entre a monotonia de nada arriscar e a imprudência de entregar tudo sem uma vontade própria profunda. É essencial que saibamos desafiarmo-nos, por vezes, a um profundo desequilíbrio momentâneo. Afinal, quem nunca ousa está perdido, para sempre. Há boas paixões. São as que trabalham como um fermento. De forma pacata, pacífica e paciente. Animam, mas não dominam. Orientam, mas não decidem. Iluminam, mas não cegam. Quase ninguém faz ideia da capacidade que cada um de nós tem para suportar e vencer grandes sofrimentos… Por paixões comuns, há quem perca a cabeça, o coração e a alma. Uma paixão forte que se consente pode fazer com que a mais digna das pessoas se destrua… se consuma, não ficando senão as cinzas em que ardeu. É preciso que saibamos cuidar do que queremos ser, mais do que do prazer que julgamos merecer. O nosso caminho deve ser decidido por nós, não por um qualquer impulso estranho à nossa vontade. Ser feliz passa por ser firme face às tentações do fácil e do imediato. A verdadeira chama, aquela que nos ilumina, aquece e orienta, não é a das paixões, é a chama da vida. A vida ela própria, assim, simples e pobre na aparência. Aquela vida que tem consciência de que é, em si mesma, um dom. Uma luz. Um presente do divino. Uma presença divina. Não se trata de uma alegria de cumprir fantasias, antes sim da virtude suprema de saber apreciar os momentos da vida sem necessidade de ser sob a séria ameaça de a perder. Este é o único fogo que não consome. O frio que por vezes sentimos na alma não é sinal de estarmos no caminho errado, apenas de que é hora de por à prova a nossa determinação. A paixão aumenta a sua força à medida que crescem os obstáculos que se lhe opõem. Combate-se com a luz da razão e o calor do coração. Sem excessos nem violências. Apenas firmeza, sofrimento e paz. Posso sofrer, mas não quero desistir de mim mesmo… assim eu me saiba fazer maior do que as minhas dores. Mais forte do que as minhas paixões. 
 
José Luís Nunes Martins

10 de outubro de 2017

O vento que você decide ser


Uma das mais importantes escolhas que cada um de nós deve fazer é a de escolhermos qual o foco principal da nossa atenção e cuidado. Se o mundo à nossa volta, a fim de o mudar, ou se o interior de nós mesmos. 
Quase todos os bens e males da nossa existência partem do nosso interior, pelo que será aí que importa aperfeiçoar, de forma profunda, tudo o que existe no nosso íntimo. 
Um dos trabalhos mais importantes de cada um de nós será o de saber bem o que queremos. O segredo da felicidade pode estar aí: alterar em nós o que nos possa estar a causar desnecessárias ansiedades. Quantas vezes desejamos algo que está fora da nosso controle?
Existem três tipos de coisas: as que dependem apenas de nós; as que escapam por completo à nossa decisão; e, aquelas sobre as quais temos algum controle, mas não total. 
Se fizermos a nossa alegria depender de algo que não está na nossa mão, então será fácil que nos sintamos roubados de algo que, na verdade, nunca foi nosso. Mesmo nos casos em que o conseguimos obter, a ansiedade associada à posse, até pela iminência de o perder da mesma forma que o ganhamos, é algo que perturba de forma séria a nossa liberdade e a nossa tranquilidade. 
Não faz muito sentido que percamos o nosso tempo todo a tentar conquistar o que não depende de nós. Será uma futilidade e uma perda de energia e tempo que podia e devia ser utilizado naquilo que é essencial e está ao alcance da nossa mão. 
Se eu for capaz de moderar os meus desejos, procurando valorizar mais o que tenho em vez de buscar o que não tenho, se eu for capaz de fazer tudo o que está ao meu alcance a fim de melhorar a minha vida, mais do que esperar por um milagre qualquer que me coloque nas mãos aquilo pelo qual não lutei, então estarei no caminho certo e serei bem mais feliz, ainda que não chegue aos patamares que sonho. Porque, ainda assim, terei chegado mais alto do que aqueles, que em vez de se levantarem, preferem ficar deitados à espera que as suas fantasias se realizem sozinhas.
Algo que está nas nossas mãos é a possibilidade, e o dever, de estabelecermos os nossos objetivos. O que pretendemos alcançar e o que estamos dispostos a fazer a fim de os conseguir. Outra dimensão essencial e que depende apenas de nós, é o conjunto dos nossos valores, bem como a determinação de viver de acordo com eles. Os nossos objetivos e valores deviam ser um ponto central da nossa preocupação diária. Atribuir o devido valor a cada coisa pode poupar-nos a muito sofrimento…
A importância para nós de tudo o que há no mundo, interior e exterior a nós, é definida por cada um. Sou eu que valorizo ou desvalorizo um objeto, uma atitude, ação ou mesmo uma pessoa. A forma como olho para o mundo altera-o e altera-me a mim. Podemos aprender a escutar e a compreender de uma forma diferente e, com isso, mudarmos boa parte do mundo em que vivemos. 
Se amanhã fará sol ou chuva não deve ser uma preocupação minha. O que posso, quero e devo fazer… sim, devia preocupar-me hoje e ocupar-me amanhã! Para ser feliz, devo fazer o que está hoje ao meu alcance… quanto ao resto, ainda que não cumpra a minha expectativa, não tem que ser alguma coisa que me frustra por completo… serei feliz, pois tê-lo-ei merecido. Apesar de tudo, mais vale merecer o que se não tem do que ter o que se não merece… afinal, é melhor ser cego do que ter olhos e não querer ver…
Há que estabelecer metas, interiores e exteriores. Procurando levar ao limite as nossas forças e talentos. 
Já há muita gente infeliz, os que se preocupam mais em ser amados do que em amar, não fazendo nada para sequer se tornarem amáveis…
A felicidade depende do que eu decidir ser no meu íntimo, assim como também depende do mal que eu posso impedir-me de escolher. Sermos bons, humildes e diligentes depende apenas de nós. Só de nós. Se não o chegarmos a ser, a responsabilidade é nossa. Nenhum de nós será feliz por circunstância, mas sempre devido a um conjunto de escolhas profundas… que nos definem… tal como queremos ser. 
Rumo ao melhor de mim, não é o vento que me leva, mas a minha vontade de ir. 
 
José Luís Nunes Martins

8 de outubro de 2017

Oração do guerreiro


Hoje, como sempre, são necessários homens e mulheres capazes de lutar até ao fim pelo bem em que acreditam. O mundo está cheio de conselhos, teorias e promessas, mas quase vazio de obras de valor. Obras completas. Não primeiras pedras. 
A maldade nunca é falta de doutrina ou moral, pelo contrário, encontra sempre razões que apresenta como muito justas e boas. Muitos são os que desistem de se fazerem bons. Ora porque julgam já sê-lo, ora por se reconhecerem maus… e não estão para mais trabalhos. Outros ainda, desistem porque não são capazes de viver com a incompreensão de agir bem e, depois, serem acusados de o ter feito por outros motivos... a verdade é que é preciso mesmo estar disposto a sofrer bastante para ser nobre. 
A vida é uma dura e intensa guerra. São muitas batalhas que envolvem inúmeros combates que têm de se travar com mil e um adversários… alguns mais brutos, outros mais sutis. Alguns vivem longe, outros habitam-nos dentro.
Por vezes, valorizam-se os que, apesar de terem ideias erradas, lutam por elas até ao fim… mas, na realidade o que lhes pode sobrar em coragem (que neste caso será uma grande teimosia) lhes faltará em discernimento (que neste caso será pouco mais do que senso comum). 
Um coração nobre supõe não só uma inteligência para compreender o que deve fazer, mas também, e essencial, a capacidade de o concretizar até ao fim. 
A obra só é perfeita se for até ao fim... e se o fim for bom. 
Pode-se errar, parar e até descansar um pouco. Mas cuidando sempre de manter atentas as defesas, pois que é no cinzento dos dias com nuvens e frio que mais vezes a tentação de desistirmos do melhor de nós aparece disfarçada de sol radioso e amigo. Nunca é tempo de dormir de forma absoluta e tranquila. O ardor das feridas dos combates antigos deve mantermo-nos vivos e despertos às investidas do inimigo que a todo o momento podem surgir. 
A mais importante coragem de um guerreiro não é a tenacidade com que ataca, mas a fortaleza com que resiste a tudo o que se lhe opõe, a tudo quanto o tenta afastar da construção do seu caminho, destino e missão. Só a inteireza combate a cobiça, o orgulho e o egoísmo. 
Resistir, firmes, mas não inflexíveis, pois que as adversidades moldam os espíritos assim como as mãos amassam o pão… até ficarem maleáveis para que possam melhor construir o seu caminho, sem quebrar nem desistir. Porque o mal pode bater, mas não pode abater. 
Na guerra da nossa vida, importa sempre continuar para diante, mas nunca por hábito; insistir, mas nunca por teima; persistir, mas nunca por apego... Perseverar, mas sempre pelo bem e até ao fim.
Uma pessoa valorosa nunca luta só. Tem consigo a herança que lhe deixaram os que lutaram antes de si com os mesmos inimigos; legado este que deve enriquecer com a sua vida, a fim de que deixe mais do que lhe foi entregue. Que dê mais do que recebeu. 
Que o fogo que nos mantém vivos aqueça o nosso coração e nos ensine, sempre, a distinguir as luzes da verdade dos brilhos da falsidade. 
Pode o mundo estalar e ruir, por todos os lados, que não poderá nunca manchar a nobreza de um homem bom. Cada um de nós luta contra adversidades durante toda a vida, e, no fim dela, ainda terá de lutar contra a morte... mas a verdade é que quem luta inteiro... vence! 
Porque não se pode ser maior do que aquilo que é inteiro. 
 
José Luís Nunes Martins

5 de outubro de 2017

O valor de tudo e a importância de nada


Uma das melhores formas de avaliar as pessoas e as coisas é esperar que com o passar do tempo a sua importância se relativize e revele. Demasiado perto, tudo tende a parecer absoluto e definitivo. Para compreender cada momento da vida, é preciso que ele passe, e que se junte a outros até que chegue o momento certo de ver, com toda a clareza, o que se passou. 
O segredo do discernimento é afinal uma coisa tão simples quanto exigente e dolorosa: paciência. 
Se só se compreende a vida quando olhamos para trás, a verdade é que, para a viver, o sentido é o oposto. Para diante. Assim, uma escolha determinante das nossas vidas passa por saber onde colocamos os nossos olhos e o nosso coração: no passado em busca de compreensão e aceitação; ou, no futuro em busca de mais vida. 
O nosso caminho passa por terras desconhecidas e mares longínquos. A nossa vida é um acabar que nunca acaba. Como não há um fim definitivo, renascemos de forma constante em muitos lugares e tempos, e é sempre assim, por mais cansados e angustiados que estejamos... porque a nossa vida quer viver mais do que nós mesmos! 
O vencedor sai muitas vezes derrotado. Uma das alturas em que o coração não deve fraquejar é quando está rodeado de inimigos. A solidão essencial de cada um de nós é tão profunda que assusta os que nunca se dão conta da imensidão do mundo dentro de si. 
Eu sou alguém que busca um outro para ser com ele, a partir dele e... para ele. 
Nos tempos de abandono há que ter a coragem da esperança. Aquela certeza de que o nosso caminho passa por vales de trevas, frio e dor... mas a nossa missão não é nem ficar por ali, nem perder a nossa fé no amor. As nossas obras devem ser a resposta ao sofrimento, porque são as obras que confirmam a missão. 
 azer o que devo, estando inteiro no que faço! 
Quem não quer mesmo vencer, não pode esperar vitórias. 
Não. A nossa existência não é só isto. É mais do que isto. É muito mais do que nós. 
Nos sucessos é bom lembrar os falhanços... tudo se torna mais claro. Os sucessos e os fracassos. 
Há uma vida imensa e intensa dentro de mim. A mesma vida que anima as árvores, que florescem e frutificam nas primaveras... e que, soprando no vento, as despe e livra dos seus ramos mortos... a mesma força que levanta as ondas do mar e que, das rochas, faz areia. A mesma coragem que nasce e ilumina o coração invencível de quem aprende a amar. 
Devemos ousar ser mais. Desenhar uma cruz no infinito e rumar para lá... 
Enquanto não chegar o tempo de sermos nós a folha que cai... 
Eu sou também a minha herança. O ser daqueles que me amaram e que aceitei.
Cada um de nós não é apenas uma folha, um ramo ou uma árvore... mas uma floresta, um mundo e um universo. 
Como não querer dar tudo pela verdadeira felicidade? Buscar no passado o sentido da vida é como buscar nos sonhos razões de saudade. 
À noite, as luzes são mais suaves e verdadeiras. O céu é mais belo quando se podem ver todas as estrelas cintilantes que a nossa curta vista alcança. O luar pode ser ainda mais puro do que a própria luz do sol. 
O amor chama. Ao longe, alguém canta. Ao longe. Há que esperar. Lutar. Com fé. Aquela certeza de que não sou eu. Somos nós. 
 
José Luís Nunes Martins

23 de outubro de 2016

Desejos e felicidade


Um desejo é sempre uma falta, carência ou necessidade. Um estado negativo que implica um impulso para a sua satisfação, um vazio com vontade de ser preenchido.
Toda a vida é, em si mesma, um constante fluxo de desejos. Gerir esta torrente é essencial a uma vida com sentido. Cada homem deve ser senhor de si mesmo e ordenar os seus desejos, interesses e valores, sob pena de levar uma vida vazia, imoderada e infeliz. Os desejos são inimigos sem valentia ou inteligência, dominam a partir da sua capacidade de nos cegar e atrair para o seu abismo.
A felicidade é, por essência, algo que se sente quando a realidade extravasa o que se espera. A superação das expectativas. Ser feliz é exceder os limites preestabelecidos, assim se conclui que quanto mais e maiores forem os desejos de alguém, menores serão as suas possibilidades de felicidade, pois ainda que a vida lhe traga muito... esse muito é sempre pouco para lhe preencher os vazios que criou em si próprio.
Na sociedade de consumo em que vivemos há cada vez mais necessidades. As naturais e todas as que são produzidas artificialmente. Hoje, criam-se carências para que se possa vender o que as preenche e anula. Valorizar mais o ter que o ser é uma decisão tão inconsciente quanto maléfica, porque arrasta, quem assim se torna, para vazios maiores que o mundo. Os escravos dos seus apetites condenam-se ao inferno da eterna insatisfação... abdicam da paz, trocando-a por um nada maior que tudo. Quanto ao paraíso... isso é o que sente quem ama.
O caminho para a felicidade passa por aprender a esperar, permitir que o tempo ajude a filtrar os desejos, garantindo que a nossa liberdade não se deixa encantar pelo que é passageiro.
Os desejos determinam a felicidade. Quanto menos alguém desejar, mais feliz pode ser.
Como se os homens fossem taças; uns, através dos desejos, fazem-se enormes e exigem quantidades; outros, com sabedoria, limitam-se ao essencial; a estes últimos, a vida, ainda que pobre, conseguirá facilmente fazer transbordar; mas aos que têm desejos maiores, ainda que tudo lhes seja favorável, é pouco possível que consigam sequer preencher-se, menos ainda fazer-se transbordar...
A pobreza é o supremo teste à felicidade autêntica.
Se a tristeza e a privação não atentam contra o que somos e queremos ser, então, estaremos no caminho certo, onde a vontade de fazer o outro feliz nos conduzirá (por entre incontáveis cenários frios e sombrios) à fonte da luz que tudo ilumina, aquece e anima... Sempre no silêncio da fé de quem sabe esperar.
Todo o homem deseja naturalmente ser feliz, mas o que é necessário para atingir esse ponto não é mais que um desprendimento dos desejos do que é exterior e superficial, para nos concentrarmos no que somos e sentir gratidão pela gratuitidade disso.
Quantas vezes as nossas palavras, gestos e decisões não refletem os nossos valores mais fundos? É fundamental descobrir em nós o lugar da nossa quietude. Dar valor ao que se tem, em vez de procurar ter o que se deseja... afinal, o que conta verdadeiramente não é a enormidade do que se sonha mas a qualidade do que se é.
Para se ser feliz é preciso mudar o olhar, o pensar e o sentir. Aprender a desejar menos, desejar bem, desejar o Bem.
Perante o mistério de tudo, há que compreender que a vida é em si mesma uma dádiva, e, o tempo que nos é dado, as nossas horas, o maior de todos os dons...
A vida mais que uma procura é um encontro.
 
José Luis Nunes Martins
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