Há quatro décadas, Miguel Asín y Palacios, padre católico e professor de árabe da Universidade de Madri, chocou o mundo erudito europeu ao demonstrar uma influência de origem muçulmana na Divina Comédia de Dante. Revendo detalhadamente a literatura a respeito da lenda sobre a visita noturna de Maomé ao purgatório, inferno e céu, ele demonstrou haver paralelos suficientes para provar definitivamente essa relação, que também se estende à tradição da Pérsia zoroastriana e, além disso, ao julgamento da alma ante Osíris, tal como figura no Livro dos Mortos egípcio. E de particular interesse para nosso propósito é a nota, em sua obra, sobre a origem persa da tortura pelo frio no círculo inferior de Dante. "Nem seria preciso notar", afirma o padre Asín, "que a escatologia bíblica não faz menção a nenhuma tortura pelo frio no inferno. A doutrina muçulmana, entretanto, coloca essa tortura no mesmo nível da tortura pelo fogo. (...) Sua introdução no sistema muçulmano do inferno deveu-se (...) à assimilação pelo islamismo de uma crença zoroastriana. (...) É provável que ela tenha sido introduzida por zoroastrianos convertidos ao islamismo". "Tortura pelo frio", ele acrescenta, "também ocorre no inferno budista." E, como sabemos, no jainista.
Tanto no Ocidente quanto no Oriente, a fonte mais remota do céu com andares e de infernos abissais com a montanha do mundo no meio, é o conceito mesopotâmico da arquitetura do universo. Nele há uma montanha cósmica axial simbolizada pelo zigurate com os lados orientados para os pontos cardeais e acima dele, no céu mais alto, está sentado um deus supremo, An, entre um ilustre séquito de divindades. A Planta do Nascimento e o Pão e a Água da Imortalidade situam-se nessa esfera elevada. Abaixo dela, no céu intermediário, está o arquétipo divino e senhor do poder real, cujo papel, no longo curso da história mesopotâmica com sua instabilidade imperial, foi exercido por uma série de beneficiados: primeiro, aparentemente, Enlil (divindade padroeira da cidade suméria Nipur), em seguida, Bel Marduk (da Babilônia de Hamurabi), Assur (da Assíria) e, entre numerosos outros, Javé (dos antigos hebreus). Em sua corte de muitos deuses (ou anjos) luminosos eram escritas anualmente as Tábuas do Destino. E os sete céus dos planetas girando abaixo, em andares, eram representados no período da Assíria (c. 1100-630 a.C.) pelos sete terraços na encosta da montanha do zigurate, enquanto debaixo da terra, no abismo, a terrível deusa Ereshkigal, da Terra-sem-Retorno, era alcançada depois de atravessados sete portões. No reino de trevas desta deusa, chamado Arallu, uma horda de monstros e almas penadas, privados ao morrer dos últimos ritos de sepultamento, vagavam deploravelmente em forma de pássaros horrendos.
Assim, na iconografia dos primeiros focos de civilização, as cidades sumérias da Mesopotâmia ribeirinha, que floresceram mais ou menos entre 3500 e 2000 a.C. e criaram a ordem simbólica da cidade-estado hierática, vê-se a fonte comum das visões mitológicas do universo tanto orientais quanto ocidentais. Entretanto, um processo diferenciador separou claramente e transformou as duas ao longo do tempo. Pois nota-se no Ocidente, de acordo com nossa ênfase característica na dignidade da vida individual - para cada alma um nascimento, uma morte, um destino, uma maturação da personalidade - que, seja no céu, no purgatório ou no inferno, o visitante visionário logo reconhece os falecidos. Maomé, no céu, falou com seus leais e valentes amigos, da mesma forma que Dante em sua jornada o fez, tanto com os condenados quanto com os salvos. E também nas visitas gregas e romanas ao mundo ínfero, tanto Ulisses quanto Enéas falaram com seus amigos falecidos. No Oriente não há tal continuidade da personalidade. O centro de atenção não é o indivíduo, mas a mônada (o jiva reencarnado) à qual não pertence intrinsecamente nenhuma individualidade, mas que passa adiante, como um navio através das ondas, de uma personalidade para outra: ora larva, ora deus, demônio, rei ou alfaiate.
Encontramos, portanto, como observou Heinrich Zimmer, que nos céus e infernos orientais, embora multidões de seres sejam representados em suas agonias e regozijos, nenhum conserva as características de sua personalidade terrena. Alguns conseguem lembrar-se de ter estado em outro lugar e saber qual foi o ato que precipitou o atual castigo; contudo, em geral estão todos imersos e perdidos em seu estado. Da mesma forma como qualquer cão está absorvido na condição de ser exatamente o cão que ele é, fascinado pelos detalhes de sua vida atual - como nós mesmos, em geral, estamos fascinados pelas nossas atuais existências pessoais -, assim estão os seres nos outros mundos hinduístas, jainistas e budistas. Eles são incapazes de recordar qualquer condição anterior, qualquer traje usado durante uma existência anterior; eles se identificam só com o que são agora. E isso, do ponto de vista indiano, é justamente o que eles não são.
Enquanto o típico herói ocidental é uma personalidade e, por isso, necessariamente trágico, condenado a ver-se enredado seriamente na agonia e mistério da temporalidade, o herói oriental é a mônada: sem caráter em essência, uma imagem de eternidade, intocada pelos envolvimentos ilusórios da esfera mortal ou liberta deles. E da mesma forma que no Ocidente a orientação para a personalidade se reflete no conceito e experiência até de Deus como uma personalidade, no Oriente, em total oposição, a compreensão dominante de uma lei absolutamente impessoal permeando e harmonizando todas as coisas reduz o acidente de uma vida individual a um mero borrão.
Tanto no Ocidente quanto no Oriente, a fonte mais remota do céu com andares e de infernos abissais com a montanha do mundo no meio, é o conceito mesopotâmico da arquitetura do universo. Nele há uma montanha cósmica axial simbolizada pelo zigurate com os lados orientados para os pontos cardeais e acima dele, no céu mais alto, está sentado um deus supremo, An, entre um ilustre séquito de divindades. A Planta do Nascimento e o Pão e a Água da Imortalidade situam-se nessa esfera elevada. Abaixo dela, no céu intermediário, está o arquétipo divino e senhor do poder real, cujo papel, no longo curso da história mesopotâmica com sua instabilidade imperial, foi exercido por uma série de beneficiados: primeiro, aparentemente, Enlil (divindade padroeira da cidade suméria Nipur), em seguida, Bel Marduk (da Babilônia de Hamurabi), Assur (da Assíria) e, entre numerosos outros, Javé (dos antigos hebreus). Em sua corte de muitos deuses (ou anjos) luminosos eram escritas anualmente as Tábuas do Destino. E os sete céus dos planetas girando abaixo, em andares, eram representados no período da Assíria (c. 1100-630 a.C.) pelos sete terraços na encosta da montanha do zigurate, enquanto debaixo da terra, no abismo, a terrível deusa Ereshkigal, da Terra-sem-Retorno, era alcançada depois de atravessados sete portões. No reino de trevas desta deusa, chamado Arallu, uma horda de monstros e almas penadas, privados ao morrer dos últimos ritos de sepultamento, vagavam deploravelmente em forma de pássaros horrendos.
Assim, na iconografia dos primeiros focos de civilização, as cidades sumérias da Mesopotâmia ribeirinha, que floresceram mais ou menos entre 3500 e 2000 a.C. e criaram a ordem simbólica da cidade-estado hierática, vê-se a fonte comum das visões mitológicas do universo tanto orientais quanto ocidentais. Entretanto, um processo diferenciador separou claramente e transformou as duas ao longo do tempo. Pois nota-se no Ocidente, de acordo com nossa ênfase característica na dignidade da vida individual - para cada alma um nascimento, uma morte, um destino, uma maturação da personalidade - que, seja no céu, no purgatório ou no inferno, o visitante visionário logo reconhece os falecidos. Maomé, no céu, falou com seus leais e valentes amigos, da mesma forma que Dante em sua jornada o fez, tanto com os condenados quanto com os salvos. E também nas visitas gregas e romanas ao mundo ínfero, tanto Ulisses quanto Enéas falaram com seus amigos falecidos. No Oriente não há tal continuidade da personalidade. O centro de atenção não é o indivíduo, mas a mônada (o jiva reencarnado) à qual não pertence intrinsecamente nenhuma individualidade, mas que passa adiante, como um navio através das ondas, de uma personalidade para outra: ora larva, ora deus, demônio, rei ou alfaiate.
Encontramos, portanto, como observou Heinrich Zimmer, que nos céus e infernos orientais, embora multidões de seres sejam representados em suas agonias e regozijos, nenhum conserva as características de sua personalidade terrena. Alguns conseguem lembrar-se de ter estado em outro lugar e saber qual foi o ato que precipitou o atual castigo; contudo, em geral estão todos imersos e perdidos em seu estado. Da mesma forma como qualquer cão está absorvido na condição de ser exatamente o cão que ele é, fascinado pelos detalhes de sua vida atual - como nós mesmos, em geral, estamos fascinados pelas nossas atuais existências pessoais -, assim estão os seres nos outros mundos hinduístas, jainistas e budistas. Eles são incapazes de recordar qualquer condição anterior, qualquer traje usado durante uma existência anterior; eles se identificam só com o que são agora. E isso, do ponto de vista indiano, é justamente o que eles não são.
Enquanto o típico herói ocidental é uma personalidade e, por isso, necessariamente trágico, condenado a ver-se enredado seriamente na agonia e mistério da temporalidade, o herói oriental é a mônada: sem caráter em essência, uma imagem de eternidade, intocada pelos envolvimentos ilusórios da esfera mortal ou liberta deles. E da mesma forma que no Ocidente a orientação para a personalidade se reflete no conceito e experiência até de Deus como uma personalidade, no Oriente, em total oposição, a compreensão dominante de uma lei absolutamente impessoal permeando e harmonizando todas as coisas reduz o acidente de uma vida individual a um mero borrão.
Joseph Campbell

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