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27 de outubro de 2016

(In)fidelidade


Que há casais fiéis e outros não, é uma verdade de fato, que não parece, ou já não parece, atingir o essencial. Pelo menos se entendermos por fidelidade, nesse sentido restrito, o uso exclusivo, e mutuamente exclusivo, do corpo do outro. Por que só amaríamos uma pessoa? Por que só desejaríamos uma pessoa? Ser fiel a suas ideias não é (felizmente!) ter uma só ideia; nem ser fiel em amizade supõe que tenhamos um só amigo. Fidelidade, nesses domínios, não é exclusividade. Por que deveria ser diferente no amor? Em nome do que poderíamos pretender o desfrute exclusivo do outro? É possível que isso seja mais cômodo ou mais seguro, mais fácil de viver, talvez, no fim das contas, mais feliz, e, enquanto houver amor, até acredito que seja. Mas nem a moral nem o amor parecem-me estar presos a isso por princípio. Cabe a cada um escolher, de acordo com sua força ou com suas fraquezas. A cada um, ou antes a cada casal: a verdade é valor mais elevado do que a exclusividade, e o amor me parece menos traído pelo amor (pelo “outro” amor) do que pela mentira. Outros pensarão o contrário, talvez eu também, em outro momento. Não é isso o essencial, parece-me. Há casais livres que são fiéis, à sua maneira (fiéis ao seu amor, fiéis à sua palavra, fiéis à sua liberdade comum...). E tantos outros, estritamente fiéis, tristemente fiéis, em que cada um dos dois preferiria não o ser... O problema, aqui, é menos a fidelidade do que o ciúme, menos o amor do que o sofrimento.
O essencial é saber o que faz com que um casal seja um casal. O simples encontro sexual, por mais repetido que seja, não bastaria evidentemente para tanto. Mas também não a simples coabitação, por mais duradoura que seja. O casal, no sentido em que uso a palavra, supõe tanto o amor como a duração. Supõe, portanto, a fidelidade, pois o amor só dura sob a condição de prolongar a paixão (breve demais para fazer um casal, suficiente para desfazê-lo!) por memória e vontade. É o que significa o casamento, sem dúvida, e que o divórcio vem interromper. Se bem que... Uma amiga minha, divorciada, depois recasada, dizia-me que permanecia fiel, em alguma coisa, a seu primeiro marido. “Quero dizer”, explicou-me, “ao que vivemos juntos, a nossa história, a nosso amor... Não quero renegar tudo isso”. Nenhum casal, com maior razão, poderia durar sem essa fidelidade, em cada um, à sua história comum, sem esse misto de confiança e de gratidão pelo qual os casais felizes (há alguns) se tornam tão comoventes, ao envelhecer, mais até que os namorados que começam, que, na maioria dos casos, ainda não fazem mais que sonhar seu amor. Essa fidelidade me parece preciosa, mais que a outra, e mais essencial ao casal. Que o amor se aplaque ou decline, é sempre o mais provável, e é bobagem afligir-se com isso. Mas quer se separe, quer continue a viver junto, o casal só continuará sendo casal por essa fidelidade ao amor recebido e dado, ao amor partilhado e à lembrança voluntária e reconhecida desse amor. Fidelidade é amor fiel, dizia eu, e assim também é o casal, mesmo o casal “moderno”, mesmo o casal “livre”. A fidelidade é o amor conservado ao que aconteceu, o amor ao amor, no caso, amor presente (voluntário, e voluntariamente conservado) ao amor passado. Fidelidade é amor fiel, e fiel antes de mais nada ao amor.
Como eu poderia jurar que sempre te amarei ou que não amarei outra pessoa? Quem pode jurar seus sentimentos? E para que, quando não há mais amor, manter a ficção, os encargos ou as exigências do amor? Mas isso não é motivo para renegar ou não reconhecer o que houve. Por que precisaríamos, para amar o presente, trair o passado? Eu juro não que sempre te amarei, mas que sempre permanecerei fiel a esse amor que vivemos.
O amor infiel não é o amor livre: é o amor esquecidiço, o amor renegado, o amor que esquece ou detesta o que amou e que, portanto, se esquece ou se detesta. Mas será isso ainda amor?
Ama-me enquanto desejares, meu amor; mas não nos esqueça.

André Comte-Sponville

Gratidão


Quem não prefere receber um presente a um tapa? Agradecer a perdoar? A gratidão é um segundo prazer, que prolonga um primeiro, como um eco de alegria à alegria sentida, como uma felicidade a mais para um mais de felicidade. O que há de mais simples? Prazer de receber, alegria de ser alegre: gratidão.
Se a gratidão nos falta com tanta frequência, não será, de novo, mais por incapacidade de dar do que de receber, mais por egoísmo do que por insensibilidade? Agradecer é dar; ser grato é dividir. Esse prazer que devo a você não é apenas para mim. Essa alegria é a nossa. Essa felicidade é a nossa. O egoísta pode regozijar-se em receber. Mas seu regozijo é seu bem, que ele guarda só para si. Ou, se o mostra, é mais para fazer invejosos do que felizes: ele exibe seu prazer, mas é o prazer "dele". Já esqueceu que os outros têm algo a ver com isso. Que importância têm os outros? Por isso o egoísta é ingrato: não porque não goste de receber, mas porque não gosta de reconhecer o que deve a outrem, e a gratidão é esse reconhecimento, porque não gosta de retribuir, e a gratidão, de fato, retribui com o agradecimento, porque não gosta de partilhar, porque não gosta de dar. O que a gratidão dá? Ela dá a si mesma: como um eco de alegria, dizia eu, pelo que ela é amor, pelo que ela é partilha, pelo que ela é dom. É prazer somado ao prazer, felicidade somada à felicidade, gratidão somada à generosidade... O egoísta é incapaz disso, pois só conhece suas próprias satisfações, sua própria felicidade, pelas quais zela como um avaro por seu cofre. A ingratidão não é incapacidade de receber, mas incapacidade de retribuir - sob a forma de alegria, sob a forma de amor - um pouco da alegria recebida ou sentida. É por isso que a ingratidão é tão frequente. Nós absorvemos a alegria como outros absorvem a luz: buraco negro do egoísmo.
Podemos nos indagar se toda alegria recebida, qualquer que seja a sua causa, não pode ser objeto dessa alegria retribuída que é a gratidão. Como não agradecer ao sol por existir? À vida, às flores, aos passarinhos? Nenhuma alegria seria possível para mim sem o resto do universo (pois, sem o resto do universo, eu não existiria). É nisso que toda alegria, mesmo puramente interior ou reflexiva, tem uma causa externa, que é o universo, Deus ou a natureza: que é tudo. Ninguém é causa de si, nem portanto (em última instância) de sua alegria. Toda série de causas, e há uma infinidade delas, é infinita: tudo se amarra, e nos amarra, e nos atravessa. Todo amor, levado a seu limite, deveria pois tudo amar.: todo amor deveria ser amor a tudo (quanto mais amamos as coisas singulares, poderia dizer Spinoza, mais amamos a Deus), o que produziria como que uma gratidão universal, não indiferenciada, é claro (como poderíamos ter a mesma gratidão pelos passarinhos e pelas cobras, por Mozart e por Hitler?), mas global pelo menos no fato de que seria gratidão pelo todo, de que não excluiria nada, de que não recusaria nada, mesmo o pior (gratidão trágica, logo, no sentido de Nietzsche), pois o real é para pegar ou largar, pois o todo do real é a única realidade.
Cada um, do amor recebido, prefere tirar glória, que é amor a si, em vez de reconhecimento, que é amor ao outro. "O orgulho não quer dever", escreve La Rochefoucauld, "e o amor-próprio não quer pagar." Como não seria ele ingrato, se só sabe amar a si, admirar a si, celebrar a si? Há humildade na gratidão, e a humildade é difícil. O que a gratidão ensina, porém, é que existe também uma humildade alegre, ou uma alegria humilde, porque ela sabe que não é sua própria causa, nem seu próprio princípio - e se regozija ainda mais (que prazer dizer obrigado!) com isso -, porque ela é amor, e não amor a si antes de tudo ou sobretudo, porque se sabe devedora, se quisermos, ou antes (pois nada tem a reembolsar), porque se sabe plenamente satisfeita, além de qualquer expectativa e anteriormente a qualquer expectativa, pela própria existência do que a suscita, e que pode ser Deus, quando se crê nele, que pode ser o mundo, que pode ser um amigo, um desconhecido, que pode ser qualquer um, porque ela se sabe objeto de uma graça - aí está! - que é a existência, talvez, ou a vida, ou tudo, e que ela agradece, sem saber a quem nem como, porque é bom agradecer, regozijar-se com seu regozijo e com seu amor, cujas causas sempre nos excedem, nos contém, nos fazem viver, nos arrebatam.
A gratidão se regozija com o que aconteceu, ou com o que é; ela é, portanto, o inverso do arrependimento ou da nostalgia (que sofrem com um passado que foi, ou que não é mais), como também da esperança e da angústia, que desejam ou temem (desejam e temem!) um futuro que ainda não é, que talvez nunca seja, mas que as tortura com sua ausência... Gratidão ou inquietude. A alegria do que é ou foi, contra a angústia do que poderia vir a ser. "A vida do insensato", dizia Epicuro, "é ingrata e inquieta: ela se volta toda para o futuro." Por isso eles vivem em vão, incapazes de se saciarem, de se satisfazerem, de serem felizes: eles não vivem, dispõe-se a viver, como dizia Sêneca, esperam viver, como dizia Pascal, depois lamentam o que viveram ou, mais frequentemente, o que não viveram... O passado como o futuro lhes falta. Já o sábio regozija-se com viver, claro, mas também com ter vivido. A gratidão é essa alegria da memória, esse amor do passado - não o sofrimento do que não é mais, nem o pesar pelo que não foi, mas a lembrança alegre do que foi. É o tempo reencontrado, se quisermos ("a gratidão do que foi", diz Epicuro). Compreendemos que esse tempo torna a ideia da morte indiferente, como dirá Proust, pois aquilo que vivemos, a própria morte, que nos levará, não poderia tomar de nós: são bens imortais, diz Epicuro, não porque não morremos, mas porque a morte não poderia anular o que vivemos, o que fugidia e definitivamente vivemos. A morte só nos privará do futuro, que não é. A gratidão liberta-nos dele, pelo saber alegre do que foi. O reconhecimento é um conhecimento (ao passo que a esperança nada mais é do que uma imaginação).
Alegria somada a alegria: amor somado a amor. A gratidão é nisso o segredo da amizade, não pelo sentimento de uma dívida, pois nada se deve aos amigos, mas por superabundância de alegria comum, de alegria recíproca, de alegria partilhada. "A amizade conduz sua dança ao redor do mundo", dizia Epicuro, "convidando todos nós a despertar para dar graças." "Obrigado por existir", dizem um ao outro, e ao mundo, e ao universo. Essa gratidão é de fato uma virtude, pois é a felicidade de amar, e a única.
 
André Comte-Sponville

Humildade


A humildade é uma virtude humilde: ela até duvida que seja uma virtude! Quem se gabasse da sua mostraria simplesmente que ela lhe falta. Isso todavia não prova nada: não nos devemos gabar, nem nos orgulhar, de nenhuma virtude, e é isso que a humildade ensina. Ela torna as virtudes discretas, como que despercebidas de si mesmas, quase negadas. Inconsciência? É antes uma consciência extrema dos limites de qualquer virtude, e de si. Essa discrição é o sinal - ele mesmo discreto - de uma lucidez sem falha e de uma exigência sem fraquezas. A humildade não é a depreciação de si, ou é uma depreciação sem falsa apreciação. Não é ignorância do que somos, mas, ao contrário, conhecimento, ou reconhecimento, de tudo o que não somos. É seu limite, pois refere-se a um nada. Mas é nisso, também, que ela é humana, segundo Montaigne: "Tão sábio quanto quiser, mas enfim é um homem: o que é mais caduco, mais miserável e mais nada?" Ser humilde é amar a verdade mais que a si mesmo. É nisso também que todo pensamento digno desse nome supõe a humildade: o pensamento humilde, isto é, o pensamento, opõe-se nisso à vaidade, que não pensa mas crê em si. Dirão que essa humildade não dura muito... Mas o pensamento também não. Daí os orgulhosos sistemas.
A humildade, como virtude, é essa tristeza verdadeira de sermos apenas nós. E como poderíamos ser outra coisa? A misericórdia também vale para nós mesmos, temperando a humildade com um pouco de doçura. Que é necessário contentar-se consigo, é o que ensina a misericórdia. Mas sentir-se contente consigo, quem poderia, sem vaidade? Misericórdia e humildade vão de par e se completam. Aceitar-se - mas não se iludir.
Quem pode contestar que há na humildade, tantas vezes, uma boa parte de niilismo ou de ressentimento? Quantos só se acusam para melhor acusar o mundo ou a vida - e com isso se desculparem? Quantos só se negam por incapacidade de afirmar - e fazer! - o que quer que seja? Sim. "Aqueles que imaginamos mais cheios de desestima por si mesmos e de humildade são geralmente os mais cheios de ambição e de inveja", já dizia Spinoza. Mais uma vez sim. No entanto, será o caso de todos?
Também não se poderia ver na humildade apenas o inverso de não sei que ódio a si. Não confundamos humildade e consciência pesada, humildade e remorso, humildade e vergonha. Trata-se de julgar não o que se fez, mas o que se é. E somos tão pouco... Haverá mesmo o que julgar? O remorso, a consciência pesada ou a vergonha supõem que poderíamos ter agido de outro modo, e melhor. A humildade constataria, antes, que não poderíamos ser melhores. Mesmo triste, o homem humilde é entretanto mais perfeito do que o impudente pretensioso. É o que todos sabem (mais vale a humildade do homem de bem do que a arrogância satisfeita do canalha), e que faz Nietzsche estar errado. A humildade é virtude de escravo, diz ele; os amos, "altaneiros e orgulhosos", nada têm a ver com ela: toda humildade lhes é desprezível. Admitamos. Mas o desprezo não é mais desprezível do que a humildade?
O que é mais ridículo do que bancar o super-homem? Para que deixar de crer em Deus, se é para se enganar a este ponto sobre si mesmo? A humildade é o ateísmo na primeira pessoa: o homem humilde é ateu de si, como o não-crente o é de Deus. Por que pretender quebrar todos os ídolos, se é para glorificar o último (o eu!), se é para celebrar seu próprio culto? Sinceridade e humildade são irmãs: "A implacável e lúcida sinceridade, a sinceridade sem ilusões é, para o sincero, uma lição contínua de modéstia; e, vice-versa, a modéstia favorece o exercício da autoscopia sincera". É esse também o espírito da psicanálise ("sua majestade, o eu", como diz Freud, nela perde seu trono), pelo qual, sobretudo, ela é estimável. Deve-se amar a verdade ou amar a si. Todo conhecimento é uma ferida narcísica. Sem a humildade, o eu ocupa todo o espaço disponível, e só vê o outro como objeto (de concupiscência, não de amor!) ou como inimigo. A humildade é esse esforço, pelo qual o eu tenta se libertar das ilusões que tem sobre si mesmo e - porque essas ilusões o constituem - pelo qual ele se dissolve. Grandeza dos humildes. Eles vão ao fundo de sua pequenez, de sua miséria, de seu nada: onde não há mais nada, onde não há mais que tudo. Ei-los sós e nus, com qualquer um: expostos sem máscaras ao amor e à luz.
A humildade é nisso, talvez, a mais religiosa das virtudes. Como gostaríamos de nos ajoelhar nas igrejas! Por que recusá-lo? Estou falando apenas por mim: é que eu precisaria imaginar que um Deus me criou - e dessa pretensão ao menos estou libertado. Somos tão pouca coisa, tão fracos, tão miseráveis... A humildade constitui uma criação tão irrisória: como imaginar que um Deus tenha querido "isso". É assim que a humildade, nascida da religião, pode conduzir ao ateísmo. Crer em Deus seria pecado de orgulho.

André Comte-Sponville

26 de outubro de 2016

Polidez


A polidez faz pouco caso da moral, e a moral da polidez. Um nazista polido em que altera o nazismo? Em que altera o horror? Em nada, é claro, e a polidez está bem caracterizada por esse nada. Virtude meramente formal, virtude de etiqueta, virtude de aparato! A polidez é a aparência, pois, de uma virtude, e somente a aparência.
Se a polidez é um valor, o que não se pode negar, é um valor ambíguo, em si insuficiente - pode encobrir tanto o melhor, como o pior - e, como tal, quase suspeito. Esse trabalho sobre a forma deve ocultar alguma coisa, mas o quê? É um artifício, e desconfiamos dos artifícios. Diderot evoca em algum lugar a "polidez insultante" dos grandes, e também deveríamos evocar aquela, obsequiosa ou servil, de muitos pequenos. Seriam preferíveis o desprezo sem frases e a obediência sem mesuras.
A polidez torna o homem mau mais odiável porque denota nele uma educação sem a qual sua maldade, de certa forma, seria desculpável. O canalha polido é o contrário de uma fera, e ninguém quer mal às feras. É o contrário de um selvagem, e os selvagens são desculpados. É o contrário de um bruto crasso, grosseiro, inculto, que decerto é assustador, mas cuja violência nativa e bitolada pelo menos poderia ser explicada pela incultura. O canalha polido não é uma fera, não é um selvagem, não é um bruto; ao contrário, é civilizado, educado, bem criado e, com isso, dir-se-ia, não tem desculpa. Quem pode saber se o grosseirão agressivo é mau ou simplesmente mal-educado? No caso do torturador seleto, ao contrário, não há dúvida. Como o sangue se vê melhor nas luvas brancas, o horror se mostra melhor quando é cortês. Num ser grosseiro, podemos acusar seu lado animal, a ignorância, a incultura, pôr a culpa numa infância devastada ou no fracasso de uma sociedade. Num ser polido, não. A polidez é, nesse sentido, como que uma circunstância agravante, que acusa diretamente o homem, o povo ou o indivíduo, e a sociedade, não em seus fracassos, que poderiam servir de desculpa, mas em seus sucessos.
O recém-nascido não tem moral, nem pode ter. Tampouco o bebê e, por um bom tempo, a criança. O que esta descobre, em compensação, e bem cedo, são as proibições. "Não faça isso: é sujo, é ruim, é feio, é maldade..." Ou: "É perigoso", e a criança logo saberá diferenciar entre o que é mau (o erro) e o que faz mal (o perigo). O erro é o mal propriamente humano, o mal que não faz mal (pelo menos a quem o faz), o mal sem perigo imediato ou intrínseco. Mas então por que proibi-lo? Porque é assim, porque é sujo, feio, maldade... O fato precede o direito, para a criança, ou antes, o direito é apenas um fato como outro qualquer. Há o que é permitido e o que é proibido, o que se faz e o que não se faz. Bem? Mal? A regra basta, ela precede o julgamento e o funda.
Não se poderia, diz Kant, deduzir o que se deve fazer do que se faz. No entanto, é a isso que a criança é obrigada, durante seus primeiros anos, e é unicamente por isso que ela se torna humana. "O homem só pode tornar-se homem pela educação", reconhece por sinal Kant, "ele é apenas o que a educação faz dele", e é a disciplina que primeiro "transforma a animalidade em humanidade". Não poderíamos dizer melhor. O uso é anterior ao valor, a obediência ao respeito, e a imitação ao dever. A polidez, por conseguinte ("isso não se faz"), é anterior à moral ("isso não se deve fazer"), a qual só se constituirá pouco a pouco, como uma polidez interiorizada, livre de aparências e de interesses, toda concentrada na intenção (com a qual a polidez nada tem a ver).
Todos os pais sabem disso, e é o que chamam educar seus filhos. Sei muito bem que a polidez não é tudo, nem o essencial. No entanto, o fato é que ser bem-educado, na linguagem corrente, é antes de tudo ser polido, o que já diz muito sobre a polidez. Repreender os filhos mil vezes (o que estou dizendo, mil vezes!: muito mais...) para que digam “por favor”, “obrigado”, “desculpe” é coisa que nenhum de nós faria – salvo algum maníaco ou esnobe -, se se tratasse apenas de polidez. Mas o respeito se aprende assim, com esse treinamento. A palavra é desagradável, sei bem, mas quem poderia dispensar a coisa? O amor não basta para educar os filhos, nem mesmo para torná-los amáveis.
Inclusive, há pessoas em que a polidez incomoda, por causa de uma perfeição inquieta. “Polido demais para ser honesto”, diz-se então, pois a honestidade às vezes impõe ser desagradável, chocar, trombar. Mesmo honestos, aliás, muitos ficarão a vida toda como que prisioneiros de suas boas maneiras, só se mostrando aos outros através da vidraça – nunca totalmente transparente – da polidez, como se tivessem confundido de uma vez por todas a verdade e o decoro. No estilo certinho, como se diz hoje em dia, há muito disso. A polidez, se levada por demais a sério, é o contrário da autenticidade. Os certinhos são como crianças grandes bem-comportadas demais, prisioneiras das regras, enganadas quanto aos usos e às conveniências. Faltou-lhes a adolescência, graças à qual nos tornamos homem ou mulher – a adolescência que remete a polidez ao irrisório que lhe é próprio, a adolescência que está pouco ligando para os usos, a adolescência que só ama o amor, a verdade e a virtude, a bela, a maravilhosa, a incivil adolescência! Adultos, eles serão mais indulgentes e mais sensatos. Mas, enfim, se é absolutamente necessário escolher, e imaturidade por imaturidade, é melhor, moralmente falando, um adolescente prolongado do que uma criança obediente demais para crescer – é melhor ser honesto demais para ser polido do que polido demais para ser honesto!
A polidez não é tudo, é quase nada. Mas o homem, também, é quase um animal.

André Comte-Sponville

24 de outubro de 2016

Misericórdia e perdão


Perdoar é cessar de odiar, é renunciar à vingança, e é por isso que o amor nem precisa perdoar, pois sempre já o fez, sempre o fará, ele só existe com essa condição. Como cessar de odiar, quando não se odeia? Como perdoar, quando não se tem em si nenhum rancor a vencer? O amor é misericordioso, mas tal como respira e sem que isso seja nele uma virtude específica. "Perdoamos enquanto amamos", dizia La Rochefoucauld. Mas enquanto amamos não é misericórdia, é amor. Os pais sabem disso, e os filhos às vezes também. Amor infinito? Não, pois não é possível. Mas incondicional, e superior parece, a qualquer falta possível, a qualquer ofensa possível. "O que você não me perdoaria?", pergunta o garotinho a seu pai. E o pai não encontra nada. Não, nem mesmo o pior. Os pais não têm o que perdoar aos filhos: o amor toma neles o lugar da misericórdia. Cabe aos filhos perdoar aos pais, se puderem, ou quando puderem. Perdoar o quê? Amor e egoísmo demais, amor e tolice demais, angústia e infelicidade demais... Ou então pouco amor demais, e o perdão não será menos necessário. Que outra coisa é tornar-se adulto? Aprecio muito a fórmula de Oscar Wilde, em "O retrato de Dorian Gray": "Os filhos começam por amar os pais; quando crescem, julgam-nos; às vezes, perdoam-nos." Felizes os filhos que podem perdoar seus pais, felizes os misericordiosos!
Quanto ao resto, quero dizer fora da família, somos tão pouco capazes de amor, sobretudo para com os maus, que é improvável que a misericórdia possa nascer dele. Como poderíamos amar nossos inimigos, ou mesmo suportá-los, sem perdoá-los primeiro? Como o amor poderia resolver um problema que só se coloca por causa da sua ausência? Porque amar nós não sabemos, e amar os maus ainda menos. E como dizia Epiteto: "Homem, se for absolutamente necessário que o mal em outrem te faça experimentar um sentimento contrário à natureza, que seja antes a piedade que o ódio." Ou então, como dizia Marco Aurélio: "Instrui-os ou suporta-os." Ou ainda, como dizia Cristo: "Pai, perdoa-lhes: eles não sabem o que fazem."
O mal está na vontade, não na ignorância. No coração, não na inteligência ou no espírito. No ódio, não na tolice. O mal não é um erro, que não é nada; o mal é egoísmo, maldade, crueldade... É por isso, aliás, que ele reclama o perdão, com o qual o ego nada tem a ver. "Desculpa-se o ignorante, mas perdoa-se o mau." Apenas a vontade é culpada, apenas ela pode sê-lo: ela é o único objeto legítimo do rancor, e portanto da misericórdia. Não queremos mal à chuva que cai, nem ao raio que fulmina, e por conseguinte nada temos que lhes perdoar. Ninguém é mau involuntariamente, e apenas os maus podem depender do perdão. O perdão só se dirige à liberdade, como só pode nascer de uma liberdade: livre graça, por uma livre falta.
Sim, mas que liberdade? Liberdade de agir, claro: é a vontade que é culpada, e uma ação só o é se voluntária. Um dançarino pisa no seu pé, sem querer: não é maldade, é mau jeito. Ele lhe pede desculpas, que você aceita de bom grado: não é perdão, é polidez. Só se tem motivo de perdoar quem agiu de propósito, como se diz, portanto quem fez o que queria, em outras palavras quem agiu livremente. Liberdade de ação: ser livre, nesse sentido, é fazer o que se quer.
Quer o mau tenha escolhido livremente sê-lo, quer tenha se tornado mau necessariamente (devido ao seu corpo, à sua infância, à sua educação, à sua história...), não é menos mau por isso, em todo caso é responsável por seus atos, pois agiu voluntariamente. Por isso pode ser punido, se for preciso, odiado até, se se quiser. Todavia são duas coisas diferentes. O castigo pode ser justificado por sua utilidade, social ou individual, e até por certa ideia que se tem de justiça ("Ele matou, é justo matá-lo..."). Mas e o ódio? É apenas uma tristeza a mais, e não no culpado, mas em quem a sente. Para quê? Principalmente, se o mau é o que é, e quer o seja livremente, quer não, sua própria maldade é uma espécie de desculpa: seja pelas causas que a provocam, se é uma maldade determinada, seja por esse amor ao mal, por essa vontade intrinsecamente má, em suma, por si mesma, se é maldade livre. É culpa dele ser mau? Sim, dir-se-á, pois ele escolheu o ser! Mas será que o teria escolhido, se já não fosse mau? Pois supor que ele tenha escolhido o mal quando preferia o bem é supô-lo louco e, com isso, mais uma vez inocentá-lo. Em suma, cada um é culpado por seus atos, e ainda que fosse culpado também por si (tendo escolhido livremente ser o que é), isso só confirma sua maldade, se ele faz o mal pelo mal, ou seu mau coração, como diz Kant, se faz o mal apenas por egoísmo (para seu próprio bem). A misericórdia não anula essa vontade má, nem renuncia a combatê-la: ela se recusa a compartilhá-la, a somar ódio a seu ódio, egoísmo a seu egoísmo, cólera a sua violência. A misericórdia deixa o ódio ao odiento, a maldade aos maus, o rancor aos ruins. Não porque estes não sejam verdadeiramente odientos, maus ou ruins (ainda que fossem por causa deste ou daquele determinismo, como creio, nenhum determinismo poderia anular aquilo que produz), mas porque o são. Foi o que Jankélévitch percebeu muito bem: "Eles são maus, mas precisamente por esse motivo devemos perdoá-los - pois são ainda mais infelizes do que maus. Ou melhor, é sua própria maldade que é uma infelicidade; a infinita infelicidade de ser mau!"
No entanto, permanece um problema, como uma chaga aberta: pode-se, ou deve-se, perdoar os que nunca pediram perdão? Não, responde Jankélévitch: "Apenas o arrependimento do criminoso e, principalmente, seu remorso dão um sentido ao perdão, assim como apenas o desespero dá um sentido à graça. O perdão não se destina às consciências tranquilas satisfeitas de si, nem aos culpados não arrependidos. O perdão não é feito para os porcos ou para suas porcas. Antes que se possa falar em perdão, seria necessário que o culpado, em vez de contestar, se reconhecesse culpado, sem arrazoados nem circunstâncias atenuantes, e sobretudo sem acusar suas próprias vítimas - é o mínimo! Para que perdoássemos seria necessário que primeiro nos viessem pedir perdão, não é? Por que perdoaríamos os que lamentam tão pouco e tão raramente seus monstruosos delitos? Porque se os crimes não expiados são precisamente os que precisam ser perdoados, os criminosos não arrependidos são precisamente os que não precisam de perdão."
Eles não, sem dúvida. Mas e nós? O ódio é uma tristeza, sempre, a alegria é que é boa. Não, decerto, que devamos reconciliar-nos com os brutos, nem tolerar seus abusos. Mas será que precisamos odiá-los para combatê-los? Não, tampouco, que se deva esquecer o passado. Mas será que precisamos do ódio para nos lembrar dele? Notar-se-á que a misericórdia pode ter por objeto tanto as faltas como as ofensas. Tal hesitação é bem reveladora de nossa pequenez, que sempre condena o que nos condena, para a qual toda ofensa é uma falta, para a qual toda afronta é condenável. Assim é, e é preciso que se saiba. Misericórdia para todos, e para nós mesmos. Podemos perdoar a nós mesmos? Claro, pois podemos nos odiar e cessar de nos odiar. Senão, que sabedoria? Que felicidade? Que paz? Temos de nos perdoar por sermos apenas nós... E nos perdoar também, quando pudermos, sem injustiça, por ser o ódio às vezes forte demais, ou o sofrimento, ou a cólera, para que possamos perdoar a este ou aquele de nossos inimigos...
 
André Faustino

23 de outubro de 2016

Temperança


A temperança, que é a moderação nos desejos sensuais, é também a garantia de um desfrutar mais puro ou mais pleno. A temperança é essa moderação pela qual permanecemos senhores de nossos prazeres, em vez de seus escravos. É o desfrutar livre, e que, por isso, desfruta melhor ainda, pois desfruta também sua própria liberdade. Que prazer é fumar, quando podemos prescindir de fumar! Beber, quando não somos prisioneiros do álcool! Fazer amor, quando não somos prisioneiros do desejo! Prazeres mais puros, porque mais livres. Mais alegres, porque mais bem controlados. Mais serenos, porque menos dependentes. É fácil? Claro que não. É possível? Nem sempre, sei do que estou falando, nem para qualquer um. É nisso que a temperança é uma virtude, isto é, uma excelência: ela é aquela cumeada, dizia Aristóteles, entre os dois abismos opostos da intemperança e da insensibilidade, entre a tristeza do desregrado e a do incapaz de gozar, entre o fastio do glutão e o do anoréxico. Que infelicidade suportar seu corpo! Que felicidade desfrutá-lo e exercê-lo!
O intemperante é um escravo, mais subjugado ainda por transportar em toda parte seu amo consigo. Prisioneiro de seu corpo, prisioneiro de seus desejos ou de seus hábitos, prisioneiro de sua força ou de sua fraqueza. A temperança é a prudência aplicada aos prazeres; trata-se de desfrutar o mais possível, o melhor possível, mas por uma intensificação da sensação ou da consciência que se tem desse desfrutar, e não pela multiplicação indefinida de seus objetos. Pobre Don Juan, que necessita de tantas mulheres! Pobre alcoólatra, que precisa beber tanto! Pobre glutão, que precisa comer tanto! Epicuro ensinava a sentir, antes, os prazeres conforme eles aparecem, tão fáceis de satisfazer, quando são naturais, quanto o corpo de aplacar. Há coisa mais simples do que matar a sede? Mais fácil de satisfazer - salvo miséria extrema - do que um estômago ou um sexo? Mais limitada, e mais felizmente limitada, do que nossos desejos naturais e necessários? Não é o corpo que é insaciável. A limitação dos desejos, que nos condena à falta, à insatisfação ou à infelicidade, nada mais é que uma doença da imaginação. Temos sonhos maiores que a barriga, e censuramos absurdamente nossa barriga por sua pequenez! Já o sábio "estabelece limites para o desejo, como para o temor": são os limites do corpo, e são os da temperança. Mas os intemperantes os desprezam ou querem livrar-se deles. Não têm mais fome? Provocam o próprio vômito. Não têm mais sede? Alguns amendoins bem salgados - ou o próprio álcool - resolvem. Não têm mais vontade de fazer amor? Alguma revista pornográfica dará um jeito de pôr a máquina para funcionar de novo... Sem dúvida, mas para quê? E a que preço? Ei-los prisioneiros do prazer, em vez de serem liberados dele (pelo próprio prazer)! Prisioneiros da falta, a tal ponto que, na saciedade, acaba por lhes faltar! Que tristeza, dizem então, não ter mais fome nem sede de nenhum tipo... É que eles querem mais, sempre mais, e não sabem se contentar, nem mesmo com o excesso! É por isso que os desregrados são tristes.
A temperança tem por objeto os desejos mais necessários à vida do indivíduo (beber, comer) e da espécie (fazer amor), que são também os mais fortes e, portanto, os mais difíceis de dominar. Isso quer dizer que não se trata de suprimi-los - a insensibilidade é um defeito -, mas no máximo, e tanto quanto possível, controlá-los (no sentido em que se fala em inglês de self-control), de regrá-los (como se acerta um balé ou se regula um motor), de mantê-los em equilíbrio, em harmonia ou em paz. A temperança é uma regulação voluntária da pulsão de vida, uma afirmação sadia de nosso poder de existir, como diria Spinoza, em especial do poder de nossa alma sobre os impulsos irracionais de nossos afetos ou de nossos apetites. A temperança não é um sentimento, é um poder, isto é, uma virtude, Ela é "a virtude que supera todos os gêneros de embriaguez", diria Alain, e deve, portanto, superar também a embriaguez da virtude, e de si mesma - e é aí que ela se aproxima da humildade.

André Comte-Sponville

Simplicidade


Julgar-se é levar-se a sério demais. O simples não se questiona tanto assim sobre si mesmo. Por que se aceita como é? Já seria dizer demais. Ele não se aceita nem se recusa. Não se interroga, não se contempla, não se considera. Não se louva nem se despreza. Ele é o que é, simplesmente, sem desvios, sem afetação, ou antes - pois "ser" lhe parece uma palavra grandiosa demais para tão pequena existência -, faz o que faz, como todos nós, mas não vê nisso matéria para discursos, para comentários, nem mesmo para reflexão. Ele é como os passarinhos de nossas florestas, leve e silencioso sempre, mesmo quando canta, mesmo quando pousa. O real basta ao real, e essa simplicidade é o próprio real. Assim é o simples: um indivíduo real reduzido à sua expressão mais simples. O canto? O canto, às vezes; o silêncio, mais frequentemente; a vida, sempre. O simples vive como respira, sem maiores esforços nem glória, sem maiores efeitos nem vergonha. A simplicidade não é uma virtude que se some à existência. É a própria existência, enquanto nada a ela se soma. Por isso é a mais leve das virtudes, a mais transparente e a mais rara. É o contrário da literatura: é a vida sem frases e sem mentiras, sem exagero, sem grandiloquência. É a vida insignificante, a verdadeira vida.
Que o real é complexo, não há dúvida, e de uma complexidade infinita, por certo. Poderá ser infindável descrever ou explicar uma árvore, uma flor, uma estrela, uma pedra... Isso não as impede de serem simplesmente o que são (sim: muito simplesmente e muito exatamente o que são, sem nenhuma falta, sem nenhuma duplicidade, sem nenhuma pretensão!), nem obriga ninguém a se perder nesse infinito da descrição ou do conhecimento. Complexidade de tudo: simplicidade de tudo.
"O contrário do ser não é o nada", escreve Clément Rosset, "mas o duplo." O contrário do simples não é o complexo, mas o falso. A simplicidade no homem - a simplicidade como virtude - tampouco tem por que negar a consciência ou o pensamento. Ao contrário, ela se reconhece por essa sua capacidade de, sem anular uma e outro, ir além de ambos, libertar-se de ambos, não se deixar enganar por eles, nem ser sua prisioneira. Que toda consciência seja dupla, pois é consciência de um objeto (intencionalidade) e da consciência que toma dele (reflexividade) , está bem. Mas isso nada prova contra a simplicidade do real, nem da vida, nem mesmo da consciência pura, pré-reflexiva e antepredicativa, sem a qual nenhuma predicação e nenhuma reflexão seriam possíveis. Simplicidade não é inconsciência, simplicidade não é tolice; o espírito simples não é um simples de espírito! A simplicidade constitui, ao contrário, o "antídoto da reflexividade" e da inteligência, que evita que estas se envaideçam, se percam em si e com isso percam o real, se dêem demasiada importância, dissimulem, façam enfim obstáculo àquilo mesmo que pretendem revelar ou desvelar. A simplicidade aprende a se desprender, ou antes, ela é esse desprendimento de tudo e de si mesmo: "Largar de mão", como diz Bobin, "acolher o que vem, sem nada guardar como coisa sua..."
A inteligência é a arte de reduzir o mais complexo ao mais simples, não o inverso. Por que complicar quando se pode simplificar, demorar quando se pode abreviar, obscurecer quando se pode esclarecer? E que vale um pensamento que não o pode? Descartes contra os de seu tempo, soube dizer o essencial, que também vale contra os do nosso: 'Sua maneira de filosofar é muito cômoda, para aqueles que só têm espíritos muito medíocres; pois a obscuridade das distinções e dos princípios de que se servem permite-lhes que falem de todas as coisas tão ousadamente como se delas soubessem e que sustentem tudo o que dizem contra os mais sutis e mais hábeis, sem que se tenha meio de convencê-los.' A obscuridade protege. A complexidade protege. A isso Descartes opõe os princípios "muito simples e muito evidentes" que utiliza, os quais tornam sua filosofia compreensível para todos e discutível por todos. Não pensamos para nos proteger. A simplicidade também é uma virtude intelectual.
Nota Fénelon: "veem-se muitas pessoas que são sinceras sem serem simples: nada dizem que não creiam ser verdadeiro, querem passar apenas pelo que são, mas temem o tempo todo passar pelo que não são; estão sempre se estudando, sempre compassando (medindo-se como com um compasso) todas as suas palavras e todos os seus pensamentos e rememorando tudo o que fizeram por temerem ter feito ou dito demais". "Essas pessoas são sinceras", prossegue Fénelon, "mas não sã simples; não se sentem à vontade com os outros, e os outros não se sentem à vontade com elas; não encontramos nelas nada de desembaraçado, nada de livre, nada de ingênuo, nada de natural; preferiríamos pessoas menos regulares e mais imperfeitas, que fossem menos compostas. Eis o gosto dos homens, e o de Deus é o mesmo: ele quer almas que não se ocupem de si mesmas, como que sempre ao espelho para se comporem. A simplicidade é uma retidão de alma que corta qualquer volta inútil sobre si mesma e sobre suas ações. Ela é livre em seu trajeto, porque não para para se compor com arte. Como somos interiormente desprendidos de nós mesmos pelo corte de todos os retornos voluntários, agimos mais naturalmente. Essa verdadeira simplicidade parece às vezes um pouco negligente e menos regular, mas tem um sabor de candura e verdade que se faz sentir, um quê de ingênuo, de doce, de inocente, de alegre, de tranquilo, que encanta quando olhamos de perto e imediatamente com olhos puros." A simplicidade é esquecimento de si, é nisso que ela é uma virtude: não o contrário do egoísmo, como a generosidade, mas o contrário do narcisismo. É que o eu nada mais é do que o conjunto das ilusões que tem acerca de si mesmo: o narcisismo não é o efeito do ego, mas seu princípio. A generosidade o supera; a simplicidade o dissolve. A generosidade é um esforço; a simplicidade, um repouso. A generosidade é uma vitória; a simplicidade, uma paz. A generosidade é uma força; a simplicidade, uma graça.
 
André Comte-Sponville

22 de outubro de 2016

Fidelidade à verdade


Fidelidade à verdade, antes de mais nada! É nisso que a fidelidade se distingue da fé e, a fortiori, do fanatismo. Ser fiel, para o pensamento, não é recusar-se a mudar de ideia (dogmatismo), nem submeter suas ideias a outra coisa que não a elas mesmas (fé), nem considerá-las como absolutos (fanatismo); é recusar-se a mudar de ideia sem boas e fortes razões e – já que não se pode examinar sempre – é dar por verdadeiro, até novo exame, o que uma vez foi clara e solidamente julgado. Nem dogmatismo, pois, nem inconstância. Tem-se o direito de mudar de ideia, mas apenas quando é um dever.
 
André Comte-Sponville

Justiça


Seria justo dar a todos as mesmas coisas, quando eles não têm as mesmas necessidades nem os mesmos méritos? Exigir de todos as mesmas coisas, quando eles não têm as mesmas capacidades nem os mesmos encargos? Mas como manter então a igualdade, entre homens desiguais? Ou a liberdade, entre iguais? Discutia-se isso na Grécia; continua-se a discuti-lo. O mais forte prevalece, é o que se chama política, segundo Pascal: "A justiça está sujeita à discussão. A força é reconhecível e indiscutível. Por isso não se pôde dar força à justiça, porque a força contradisse a justiça e disse que ela era injusta, e disse que era ela que era justa. Assim, não se podendo fazer que o justo fosse forte, fez-se que o forte fosse justo." É um abismo que a própria democracia seria incapaz de superar.
A igualdade que é essencial à justiça é, portanto, menos a igualdade entre os objetos trocados, a qual é sempre discutível e quase sempre admissível (de outro modo não haveria troca), do que entre os sujeitos que trocam - igualdade não de fato, é claro, mas de direito, o que supõe, no entanto, que sejam todos igualmente informados e livres, pelo menos no que diz respeito a seus interesses e às condições da troca. Dir-se-á que tal igualdade nunca se realizou completamente. Decerto, mas os justos são aqueles que tendem a ela; os injustos, os que a ela se opõem. Você vende uma casa, depois de ter morado nela durante anos; você a conhece necessariamente melhor do que qualquer comprador possível. Mas a justiça é, então, informar o eventual comprador acerca de qualquer defeito, aparente ou não, que possa existir nela, e mesmo, embora a lei não obrigue a tanto, acerca de algum problema com a vizinhança. E, sem dúvida, nem todos nós fazemos isso, nem sempre, nem completamente. Mas quem não vê que seria justo fazê-lo e que somos injustos não o fazendo? Um comprador se apresenta, você lhe mostra a casa. Deverá dizer-lhe que o vizinho é um bêbado que berra depois da meia-noite? Que as paredes são úmidas no inverno? Que o madeiramento está comido pelo cupim? A lei pode ordenar essa informação ou ignorar o problema, conforme os casos; mas a justiça sempre manda fazê-lo.
Dir-se-á que seria difícil, com tais exigências, ou pouco vantajoso, vender casas... Pode ser. Mas onde se viu a justiça ser fácil e vantajosa? Só o é para quem a recebe ou dela beneficia, e melhor para ele; mas só é uma virtude em quem a pratica ou a faz.
Devemos então renunciar a nosso próprio interesse? Claro que não. Mas devemos submetê-lo à justiça, e não o contrário. Senão? Senão, contente-se com ser rico, responde Alain, e não tente ainda por cima ser justo.

André Comte-Sponville
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