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29 de outubro de 2016

Klésa e guna


Klésa, palavra de uso cotidiano na Índia, deriva da raiz klis-, "estar atormentado ou aflito, sofrer, sentir dor ou angústia". O particípio klista é usado como adjetivo e significa "angustiado; sofrendo dor ou miséria; enfraquecido, fatigado, injuriado, ferido; gasto, em más condições, estragado, deteriorado, desordenado, obscurecido ou desvanecido". Uma grinalda, quando suas flores estão murchas, está klista; o brilho da lua está klista quando um véu de nuvens a obscurece; uma veste gasta ou danificada por manchas está klista; e um ser humano, quando o inato esplendor de sua natureza foi subjugado por negócios fatigantes e pesadas obrigações, está klista. Nos Yoga-sutra, klésa denota tudo o que, aderindo à natureza do homem, restringe ou debilita a manifestação de sua verdadeira essência. O yoga prescrito por Patañjali é uma técnica para livrar-se de tais impedimentos e assim reconstituir a perfeição inerente à pessoa essencial.
Quais são estes impedimentos?
A resposta a esta questão confunde a mente ocidental, porque revela o abismo que existe entre nossa concepção usual dos valores inerentes à personalidade humana e a dos indianos. Estes impedimentos são cinco, a saber:
1. Avidyá: nescidade, ignorância, falta de melhor conhecimento, falta de consciência da verdade que transcende as percepções da mente e dos sentidos em seu funcionamento normal. Em decorrência deste impedimento, somo escravizados pelos preconceitos e hábitos da consciência simplória. Avidyá é a raiz de tudo o que chamamos nosso pensar consciente.
2. Asmitá (asmi = "eu sou"): a sensação, a noção grosseira de que "eu sou eu; este ego evidente, base da minha experiência, é a verdadeira essência e fundamento do meu ser".
3. Rága: apego, simpatia, interesse; afeição de todo tipo.
4. Dvesa: sentimento contrário a rága; aversão, fastio, desagrado, repugnância e ódio.
Rága e dvesa, simpatia e antipatia, constituem a base de todos os pares de opostos na esfera das emoções, reações e opiniões humanas. Incessantemente torturam a mente, deste e daquele modo, perturbando seu equilíbrio e agitando sua superfície, semelhante à de um lago ou de um espelho que, assim, não pode refletir sem distorção a perfeita imagem da mônada vital.
5. Abhinivesa: apegar-se à vida como se fosse um processo que continuará infinitamente; ou seja, a vontade de viver.
Estes cinco obstáculos ou impedimentos devem ser considerados como tantas outras perversões que agitam a consciência e ocultam o estado essencial de serenidade de nossa verdadeira natureza. Surgem involuntária e sucessivamente, brotando sem interrupção da fonte oculta de nossa existência fenomênica. Dão força à substância do ego e constroem, sem cessar, sua estrutura ilusória.
A fonte de toda esta confusão é o jogo natural dos guna, os três "poderes, elementos ou qualidades":
1. Sattva é um substantivo formado do particípio sat, que deriva de as-, o verbo "ser". Sat significa "ser; como deve ser; bom, bem, perfeito", e sattva, em consequência, "o estado ideal de ser; bondade, perfeição, pureza cristalina, brilho imaculado e completa quietude". A qualidade de sattva predomina nos deuses e seres celestiais, nas pessoas altruístas, nos homens dedicados a buscas puramente espirituais. Este é o guna que facilita a iluminação. Por isso, o primeiro objetivo ensinado nos Yoga-sutra de Patañjali é aumentar o caudal de sattva, a fim de purgar gradualmente a natureza humana do rajas e do tamas.
2. O substantivo rajas significa, literalmente, "impureza"; com referência à fisiologia do corpo feminino, significa "menstruação"; e num sentido mais geral, "pó". A palavra está relacionada com rañj, rakta, "vermelhidão, cor", e com rága, "paixão". O pó citado é aquele que o vento continuamente agita numa terra onde não chove pelo menos dez meses por ano, visto que na Índia, excetuando a estação chuvosa, há somente o orvalho noturno para acalmar a sede da terra. O pó redemoinha com o vento, embaçando a serenidade do céu e cobrindo tudo. Por outro lado, no período das chuvas, o pó se assenta, e, durante a maravilhosa estação outonal que segue às chuvas - quando o sol dispersa as pesadas nuvens -, o céu fica imaculadamente claro. Por causa disso a palavra sânscrita para "outonal", sárada, tem a conotação de "fresco, jovem, novo, recente" e vi-sárada ("caracterizado por uma grandeza ou abundância de sárada) significa "esperto, hábil, proficiente, experimentado, versado ou instruído em algo, douto, sábio". Isto é, o intelecto do sábio se caracteriza pela grande visibilidade do firmamento outonal, que é transparente, límpido e completamente claro, ao passo que o intelecto do néscio está repleto de rajas, o pó vermelho da paixão.
O rajas embaça o aspecto de todas as coisas, obscurecendo a visão não apenas do universo mas também de si mesmo. Logo, produz confusão intelectual e moral. Entre os seres mitológicos, o rajas predomina nos titãs, aqueles antideuses ou demônios que representam a vontade do poder em toda sua força, imprudentes em sua busca de supremacia e esplendor, cheios de ambição, vaidade e jactancioso egoísmo. O rajas é evidente em qualquer lugar entre os homens, como força motivadora de nossa luta pela existência. É o que inspira nossos desejos, preferências e desagrados, rivalidades, e a vontade de usufruir as coisas do mundo. Compele homens e animais a lutar pelos bens da vida, negligenciando as necessidades e sofrimentos dos demais.
3. Tamas, literalmente: "escuridão, negro, azul escuro"; espiritualmente: "cegueira", conota a inconsciência que predomina nos reinos mineral, vegetal e animal. Tamas é a base de toda falta de sentimento, de toda estupidez, crueldade, insensibilidade e inércia. É causa de melancolia, ignorância, erro e ilusão. A rudeza da matéria aparentemente inanimada; a muda e cruel luta entre as plantas pelo solo, a umidade e o ar; a impassível gula dos animais em busca de alimentos e seu desapiedado modo de devorar suas presas são algumas das manifestações deste princípio universal. No plano humano, o tamas se manifesta na embotada estupidez dos que se encontram mais centrados em seus egos, mais auto-satisfeitos - os que consentem com qualquer coisa desde que não interfira em seu descanso, segurança e interesse pessoal. Tamas é o poder que mantém unida toda a estrutura do universo, a estrutura de cada sociedade e o caráter de cada indivíduo, contrabalançando o perigo de explosão que persegue sem trégua o incansável dinamismo do princípio de rajas.
O primeiro dos cinco impedimentos, avidyá, a falta do verdadeiro discernimento, é o principal sustentáculo do interminável jogo e interação dos três guna. A avidyá permite que a cega marcha da vida continue atraída e torturada, ao mesmo tempo, por seus próprios princípios. Os outros quatro impedimentos (asmitá, a noção grosseira de que "eu sou eu"; rága, o apego; dvesa, a repugnância, e abhinivesa, a vontade de viver) são apenas transformações ou inflexões desta causa primordial, desta persistente ilusão de que os perecíveis e transitórios valores da existência terrena e celestial podem chegar, de algum modo, a tornar-se fonte de felicidade pura e permanente. A avidyá é a ruína comum a todos os seres viventes. Entre os homens, lança seu feitiço sobre a faculdade de raciocínio, provocando falsas predições e deduções errôneas. Apesar de os bens da vida serem intrinsecamente impuros e causarem sofrimentos de modo inevitável, pela sua própria condição de transitórios, insistimos em considerá-los como se fossem absolutamente reais. As pessoas acreditam que a terra é eterna, que o firmamento com as estrelas e a lua é imperecível, que os deuses que habitam as mansões celestes são imortais - quando nada disto é verdadeiro. De fato, a verdade é precisamente o contrário destas crenças populares.
(...) O fluxo constante do errôneo pensamento afetivo é o que alimenta a força motivadora da existência, produzindo uma vigorosa multiplicidade de falsas crenças que sustentam a vida. Cada entidade fenomênica - querendo prosseguir indefinidamente - evita pensar em seu próprio caráter transitório e se nega a observar os muitos sintomas ao seu redor que mostram a sujeição de todas as coisas à morte. Assim sendo, os Yoga-sutra dirigem a atenção para a instabilidade das coisas em que se assenta a vida: o universo; os corpos celestes que, com suas rotações, medem a marcam a passagem do tempo; e até os próprios seres divinos, "aqueles que ocupam as altas posições", que são os regentes do ciclo. O fato inegável de que, por natureza, inclusive estas grandes e aparentemente duradouras presenças têm que passar, garante o caráter transitório, fugaz e ilusório de todo o resto.
Os cinco impedimentos, juntos, distorcem todos os objetos da percepção, provocando assim novos equívocos a cada momento. (...) Do ponto de vista ocidental, toda a categoria dos "impedimentos" (klésa) poderia resumir-se no termo "personalidade". Eles são o feixe de forças vitais que constituem o indivíduo e que o engajam no mundo circundante. Nossa adesão ao ego, nossa ideia usual e concreta do que é o ego, nossa entrega espontânea às simpatias e antipatias que no cotidiano guiam a nossa conduta e que mais ou menos inconscientemente, são os elementos mais queridos de nossa natureza - tudo isto constitui os impedimentos. Através deles encontramos o primitivo anseio da criatura vivente, comum tanto aos homens quanto aos vermes, o abhinivesa: o impulso instintivo que nos obriga a continuar existindo. Do âmago da natureza de cada ser fenomênico surge um grito universal: "Que eu exista para sempre! Que eu possa seguir crescendo!" Face a face com a morte, este é o último desejo "até mesmo nos sábios". E, conforme a teoria indiana do renascimento, esta vontade de viver é forte o bastante para levar o indivíduo a cruzar o abismo da morte até uma nova encarnação, obrigando-o a tomar outra vez um novo corpo, nova máscara, nova veste, com os quais possa seguir vivendo.

Heinrich Zimmer

Desejos


Assim como o fogo é envolvido pela fumaça, um espelho pela poeira, e o feto no ventre materno pelos tegumentos que rodeiam um embrião, assim também a compreensão é envolvida pelo desejo. A inteligência superior do homem - que intrinsecamente é dotado de perfeito discernimento - está cercada por este eterno inimigo, o desejo, que possui todas as formas possíveis e que é um fogo insaciável. As forças sensoriais, a mente e a faculdade de compreensão intuitiva, são todas consideradas sua morada. Por meio delas, o desejo atordoa e confunde o Possuidor do corpo, velando sua compreensão superior. Portanto, começa por sujeitar os órgãos dos sentidos e mata este maligno, o destruidor da sabedoria e da realização. As forças sensoriais são superiores ao corpo físico; a mente é superior aos sentidos; a compreensão intuitiva, por sua vez, é superior à mente; e, superior à compreensão intuitiva é Ele, o Possuidor do corpo, o Eu. Por isso, tendo despertado para o fato de que Ele é superior e está além da esfera da compreensão intuitiva, aquieta firmemente o eu por meio do Eu, e mata o inimigo que tem a forma do desejo (ou que assume qualquer forma que lhe agrade) e que é difícil vencer.
Ao contemplarmos os objetos dos sentidos interiormente, visualizando-os e ponderando-os, criamos apego a eles; do apego nasce o desejo; do desejo surgem a cólera e as paixões violentas; da paixão violenta, o atordoamento e a confusão; do atordoamento, a perda da memória e do autodomínio consciente; desta perturbação, ou ruína do autocontrole, advém o desaparecimento da compreensão intuitiva; e da ruína da compreensão intuitiva vem a ruína do próprio homem.

Heinrich Zimmer

28 de outubro de 2016

O teatro da personalidade


Na epopeia homérica, Ulisses desceu ao mundo subterrâneo para se aconselhar com os mortos, e lá, umbria terra de Plutão e Perséfone, encontrou as sombras de seus antigos companheiros e amigos que haviam sido mortos no cerco de Troia, ou falecido durante os anos que se seguiram à conquista da cidade. Eles eram apenas sombras naquele reino de penumbras; não obstante, cada um podia ser reconhecido de imediato porque guardava as mesmas feições que havia tido na terra. Aquiles declarou haver preferido a vida dura e triste de um obscuro camponês à plena luz do dia entre os vivos, à melancólica monotonia de sua atual semi-existência como o maior dos heróis entre os mortos; apesar disso, ele era exatamente o mesmo. A fisionomia, a máscara da personalidade, havia sobrevivido à separação do corpo e ao longo exílio da esfera humana sobre a face da terra.
Em parte alguma da epopeia grega encontramos a ideia de que um herói morto tenha sido privado da identidade de sua anterior existência temporal. Os gregos da época homérica não consideravam a possibilidade de que alguém pudesse perder a personalidade através da morte - a lenta dissolução, evaporação e o desaparecimento final da individualidade histórica. Isto tampouco ocorreu à mentalidade cristã medieval. Dante, como Ulisses, foi um peregrino do além. Conduzido por Virgílio entre os círculos do inferno e do purgatório, subiu às esferas e por todo lugar, em todo o percurso de sua viagem, viu e conversou com amigos e inimigos pessoais, heróis míticos e grandes figuras da história. Todos, sem dificuldade, foram reconhecidos por ele, e todos satisfizeram sua insaciável curiosidade voltando a contar suas biografias, revivendo, mediante demorados relatos e argumentos, os minuciosos detalhes de suas frívolas e curtas existências. Suas antigas personalidades pareciam haver-se conservado muito bem através de suas longas perambulações pela vastidão do infinito.
Embora definitiva e eternamente separados dos breves momentos de suas vidas terrenas, eles ainda estavam preocupados com as vicissitudes e aborrecimentos de suas biografias, perseguidos por suas culpas que, como sombras, aderiam a eles nas formas simbólicas das respectivas punições. A personalidade mantinha todos em suas garras, tanto os santos do céu na sua glória, quanto os torturados e sofridos habitantes do inferno; porque a personalidade, segundo os cristãos medievais, não se perdia com a morte nem haveria de desaparecer uma vez purgada pelas experiências do além. Ao invés disso, a vida além túmulo seria, antes, uma segunda manifestação e experiência da essência da própria personalidade, realizada em uma escala mais ampla, num estilo mais livre, e com um desdobramento evidente da natureza e implicações das virtudes e dos vícios.
Para a mentalidade ocidental, a personalidade é eterna, indestrutível e indissolúvel. Esta é a ideia básica na doutrina cristã da ressurreição do corpo, sendo que tal ressurreição significa a reconquista de nossa estimada personalidade, agora em uma forma purificada, digna de se apresentar ante a majestade do Todo-poderoso. E supõe-se que esta personalidade continuará a existir para sempre - muito embora, por uma curiosa falta de lógica, não se acredite que haja existido em algum lugar, em qualquer estado ou forma, antes do nascimento carnal do indivíduo mortal. A personalidade não existia nas esferas extra-humanas, desde toda a eternidade, antes de sua manifestação temporal na terra. Afirma-se que passa a existir com o ato mortal da procriação; no entanto, também se afirma que prosseguirá depois de abandonar a estrutura mortal procriada: temporal em seu início, imortal em seu fim.
O termo "personalidade" deriva da palavra latina persona. Literalmente, persona significa máscara - que o ator do teatro grego ou romano usava sobre a face; a máscara "através" (per) da qual ele "recita" (sonat) sua parte. A máscara é o que porta as feições ou caracterizações do papel, os traços de herói ou heroína, de serviçal ou mensageiro, enquanto o ator, por trás dela, permanece anônimo, como um ser desconhecido, intrinsecamente separado do drama, onde sofrimentos e paixões representados não o atingem de maneira direta. Originalmente o termo persona, no sentido de "personalidade", deve ter significado que os indivíduos só estão personificando aquilo que parecem ser. A palavra indica que a personalidade é apenas a máscara do papel que cada um tem de representar na comédia ou na tragédia da vida, e que não deve ser identificada com o ator. Não é uma manifestação de sua verdadeira natureza, mas um véu. Todavia, a concepção ocidental - que se originou com os próprios gregos e, a seguir, foi desenvolvida pela filosofia cristã - anulou a distinção, implícita no termo, entre a máscara e o ator cuja face oculta. Ambos, por assim dizer, tornaram-se idênticos. Terminado o drama não se pode tirar a "persona"; esta fica colada quando da morte e na vida do além. O ator ocidental, tendo se identificado de maneira absoluta com a personalidade que representou durante sua existência no teatro do mundo, é incapaz de retirá-la quando chega o instante de partir, e assim a conserva indefinidamente, por milênios, e até por eternidades, ainda que a peça já tenha acabado. Perder sua "persona" significaria para ele perder toda esperança de um futuro além da morte. Para ele, a máscara se fundiu e se confundiu com sua essência.
Por outro lado, a filosofia indiana insiste na diferença e acentua a distinção entre o ator e seu papel. Enfatiza continuamente o contraste entre a existência do indivíduo que se manifesta e o ser real do ator anônimo, oculto, velado e encoberto pelas vestes do drama. Na verdade, desenvolver uma técnica segura para manter clara a linha que separa ambos (ator e papel) tem sido um dos esforços dominantes do pensamento indiano através dos tempos. Durante séculos foram se sucedendo as meticulosas definições de suas relações e formas de ajuda mútua; igualmente perduraram os esforços - práticos, sistemáticos e corajosos - para ultrapassar os limites de uma e penetrar nos insondáveis domínios da outra, fazendo uso, acima de tudo, dos numerosos processos introspectivos do yoga. Penetrando e dissolvendo as camadas da personalidade manifesta, a consciência inexoravelmente introvertida perfura a máscara e, por fim, descartando-a em todos os seus estratos, chega ao anônimo e curiosamente indiferente ator de nossa vida.
Embora sejam encontradas, nos textos hindus e budistas, vívidas descrições dos tradicionais infernos e purgatórios, onde espantosos detalhes são minuciosamente apresentados, a situação nunca é a mesma que vemos nos mundos do além criados por Dante e Homero, repletos de celebridades mortas há muito tempo e que, não obstante, ainda conservam todas as características de suas máscaras pessoais. Nos infernos orientais, as multidões de seres que agonizam em meio a tormentos não guardam os traços de suas individualidades terrenas. Alguns podem recordar haverem estado numa certa parte e até saber qual foi a ação que provocou a punição atual; contudo, geralmente, todos estão perdidos e afundados em suas presentes misérias. Assim como qualquer cachorro está absorvido no estado de ser precisamente o cachorro que é, fascinado pelos detalhes de sua vida atual - e como nós mesmos estamos em geral enfeitiçados por nossas presentes existências - assim também estão os seres nos infernos hindus, jainas e budistas. São incapazes de lembrar qualquer estado anterior, qualquer veste usada numa existência prévia, identificam-se exclusivamente com o que são agora. E esta é, desde já, a razão porque estão no inferno.
Uma vez que esta ideia indiana se apresenta à consciência, imediatamente surge a questão: "Por que estou obrigado a ser o que sou? Por que tenho que usar a máscara desta personalidade que penso e sinto ser eu mesmo? Por que tenho que suportar este destino, as limitações, ilusões e ambições deste papel peculiar que estou sendo impelido a representar? Ou, por que, se já deixei uma máscara atrás de mim, estou novamente com outra frente à ribalta, representando outro papel em um cenário diferente? O que me compele a continuar deste modo, sendo sempre algo exclusivo, um indivíduo, com todos estes defeitos e experiências? Onde e como poderei alcançar outro estado, aquele de não ser algo particular, assediado por limitações e qualidades que obstruem meu ser puro e sem limites? Pode alguém se converter em algo livre de todo matiz e cor específicos, não definido por uma forma, não limitado por qualidades, algo que não seja específico e, portanto, não sujeito a nenhuma vida específica?"
Estas são as perguntas que conduzem ao ascetismo e à prática do yoga. Brotam de um melancólico cansaço da vontade de viver - a vontade fatigou-se, por assim dizer, das perspectivas deste interminável "antes e depois", como se um ator repentinamente se enfastiasse de sua carreira. Uma carreira condenada ao curso intemporal de transmigrações: um passado sem lembranças e um futuro sem projetos! "Por que me preocupo em ser o que sou: homem, mulher, camponês, artista, pobre ou rico? Se já personifiquei, sem me recordar, todos os papéis e atitudes possíveis - uma e outra vez num passado irrecuperável e em mundos que se dissolveram - por que continuo?"
Sem dúvida, seríamos levados a detestar a comédia da vida se não estivéssemos cegos, fascinados e iludidos com os detalhes do próprio papel que representamos. Se não estivéssemos enfeitiçados pelo argumento do drama que nos mantém prisioneiros, sem dúvida desistiríamos, abandonaríamos a máscara, a veste, as partes, a operação toda. Não é difícil imaginar por que, para alguns, poderia tornar-se simplesmente enfadonho prosseguir com este compromisso permanente, representando uma personagem após outra nesta interminável trupe da vida.
Quando se sente a sensação de fastio ou náusea (como aconteceu repetidas vezes na longa história da Índia), então a vida se revolta, se rebela contra sua mais elementar tarefa, ou dever, de seguir automaticamente para a frente. Ao passar do individual para o coletivo, este impulso provoca a fundação de ordens ascéticas, como aquelas das comunidades jainas e budistas de monges sem lar: exércitos de atores renegados, heroicos desertores, andarilhos e auto-exilados da farsa universal que é a força da vida.
Se estes renegados estivessem preocupados em se justificar, argumentariam assim:
"Por que teria que nos importar o que somos? Que verdadeiro interesse temos no que diz respeito a todos aqueles papéis que as pessoas estão continuamente obrigadas a representar? É realmente lamentável o estado daquele que ignora já ter representado toda sorte de personagens, muitas vezes - como mendigo, rei, animal, deus -, e que a vida do ator não é melhor num papel do que em outro. Porque o fato mais óbvio acerca do compromisso infindável é que todos os objetos e situações da trama já foram propostos e perduram em repetição interminável através dos milênios. As pessoas devem estar completamente cegas para se submeterem sem descanso ao feitiço das mesmas fascinações de outrora; cativas das tentações aliciantes que têm seduzido todas as criaturas que já viveram; saudando com expectativa - como a uma nova e emocionante aventura - os mesmos fatos banais que decepcionaram indefinidamente seus desejos e esperanças, apegando-se a esta ou àquela ilusão. Tudo isto é apenas o resultado do fato de que o ator segue representando papéis, cada um deles aparentemente novo, mas que já foi desempenhado muitas vezes, embora com roupagens ligeiramente diferentes e com outros elencos. É óbvio, trata-se de um impasse ridículo. A mente foi enfeitiçada, apanhada ardilosamente pelas pressões de uma cega força vital que redemoinha as criaturas numa incessante corrente cíclica. E por quê? Quem ou o que produz isto? Quem é o tolo que mantém esta absurda comédia no palco?"
A resposta que deveria ser dada a quem não fosse capaz de encontrá-la por si mesmo seria simplesmente esta: o homem, o próprio homem, cada indivíduo. E a resposta é evidente porque cada um segue fazendo o que sempre tem feito, imaginando que faz algo diferente. Seu cérebro, sua língua, seus órgãos de ação estão incorrigivelmente possuídos pelo impulso de fazer algo novo - e o indivíduo o faz. É assim que ele constrói novas tarefas para ele próprio, contaminando-se a cada instante com novas partículas de matéria cármica, que penetram em sua natureza, afluem a sua mônada vital, mancham sua essência e obscurecem sua luz. Estes envolvimentos o acorrentam a uma patética existência de desejos e ignorâncias, na qual guarda com veneração sua personalidade transitória como se fosse algo substancial - aderindo ao breve feitiço da confusa vida, única coisa que conhece, e protegendo com zelo a momentânea passagem da existência individual entre o nascimento e a pira funerária -, deste modo prolonga inconscientemente o período de sua escravidão pelas estradas indefinidas do futuro. Em incessante busca do que concebe ser seu próprio bem-estar e felicidade, ou os de algum outro, apenas consegue estreitar seus próprios grilhões e os dos demais.

Heinrich Zimmer

27 de outubro de 2016

Mônada vital


Quando a ambição, o sucesso e o jogo da vida, da mesma forma que o sexo e os prazeres sensuais, já não nos oferecem novas e interessantes expectativas nem reservam mais surpresas, e quando começamos a nos fartar também do virtuoso cumprimento das tarefas próprias a uma vida decente e normal - porque se tem convertido numa monótona rotina -, ainda permanece o atrativo da aventura espiritual, a busca de algo que exista dentro (sob a máscara da personalidade consciente) e fora (por trás do panorama visível do mundo exterior). Qual é o segredo deste ego, deste "eu" com quem temos estado em tão íntimas relações durante todos estes anos já vividos e que, apesar disso, é um estranho, cheio de curiosas artimanhas, caprichos frívolos e desconcertantes impulsos de agressão e teimosia? E o que se tem estado ocultando, nesse meio tempo, por trás dos fenômenos externos que não mais nos intrigam, produzindo todas estas surpresas que já não nos surpreendem? A possibilidade de descobrir o segredo do funcionamento do próprio teatro cósmico - quando seus efeitos chegaram a ser de um fastio intolerável -, permanece como a última fascinação, desafio e aventura da mente humana.
No início dos Yoga-sutra temos:
"Yogas cittavrtti-nirodhah".
"O Yoga consiste na detenção intencional das atividades espontâneas da substância mental."
A mente, por natureza, está em constante agitação. De acordo com a teoria hindu, transfigura-se continuamente nas formas dos objetos que percebe. Sua sutil substância toma as formas e as cores de tudo que lhe oferecem os sentidos, a imaginação, a memória e as emoções. Em outras palavras, está dotada de um poder de transformação ou metamorfose ilimitado e incessante.
Assim, a mente é uma onda contínua, como a superfície de um lago submetida à brisa, tremulando com reflexos entrecortados, variáveis e dispersos. Por si mesma jamais ficaria parada como um espelho perfeito e cristalino, em seu "estado próprio", refletindo tranquilamente o homem interior porque, para que isso aconteça, será necessário deter as impressões sensorias vindas do exterior (que são como as águas afluentes, turbulentas e perturbadoras da substância translúcida), bem como os impulsos internos: recordações, pressões emocionais e as incitações da imaginação (que são como fontes internas). Contudo, o yoga aquieta a mente; e, no momento em que esta quietude é consumada, o homem interior, a mônada vital, revela-se, como uma joia no fundo de um manso lago.
Conforme o Yoga, a mônada vital é a entidade viva oculta por trás e no interior de todas as metamorfoses de nossa vida de escravidão. Do mesmo modo que no jainismo, aqui também se supõe que o número de mônadas vitais do universo é infinito e que sua "natureza própria" é totalmente diversa da matéria inanimada, na qual tais mônadas estão imersas. São chamadas "espirituais", e se diz que são "da natureza da pura luz, que brilha por si mesma". No interior de cada indivíduo, a autoluminosa mônada vital ilumina todos os processos da matéria densa e sutil - ou seja, os processos da vida e da consciência - ao tempo que vão se desenvolvendo dentro do organismo; porém esta mônada vital, em si mesma, é sem forma ou conteúdo. Está destituída de qualidades e peculiaridades, já que tais especificações nada mais são que propriedades e máscaras do reino da matéria. Não tem princípio nem fim, é eterna e imperecível, não tem partes nem divisões, porque o composto está sujeito à destruição. Inicialmente foi imaginada como do tamanho de um átomo, mas depois foi concebida como toda-penetrante e infinita, sem atividade, imutável, além da esfera dos movimentos, "no topo, no ápice" (kutastha). A mônada está desapegada e ilibada, absolutamente indiferente, sem inquietações e desprendida, portanto jamais está realmente cativa nem é, em verdade, libertada, senão eternamente livre. De fato, a liberação implicaria um estado prévio de encarceramento e não se pode dizer que tal prisão seja capaz de tocar o homem interior. O problema do homem consiste, simplesmente, em que não compreende sua permanente e sempre presente liberdade, devido ao estado turbulento, ignorante e dispersivo de sua mente.
(...) Segundo a concepção do Sankhya e do Yoga, a mônada é uma entidade imaterial que - ao contrário do atman do Vedanta - não está em beatitude nem tem o poder de agir como causa eficiente ou material de nada. É um conhecimento do nada. Não cria, não se expande, não se transforma nem produz transformação em nada. Não participa de maneira alguma nos sentimentos, posses ou sofrimentos humanos, senão que, por natureza, é "absolutamente isolada" (kevala), mesmo quando parece estar comprometida com a vida por causa de sua aparente associação com os "atributos condicionadores e limitativos" (upadhi) - que são os constituintes, não da mônada vital, mas dos corpos materiais densos e sutis através dos quais ela é refletida na esfera espaço-tempo. A mônada vital, devido a estes upadhi, aparece como jiva, o "vivente", e parece estar dotado de receptividade e espontaneidade, de respiração e de todos os demais processos do organismo, mas, em si e por si, "não é capaz de dobrar uma folha de relva".
Com sua mera presença inativa mas luminosa, a mônada parece ser o agente, e neste papel ilusório é conhecida como o "Senhor" ou "Supervisor". Na verdade, não governa nem controla. Os atributos condicionantes (upadhi) atuam por si mesmos, automaticamente e às cegas; o verdadeiro centro governante, o controlador e dirigente dos processos vitais é o chamado "órgão interno" (antah-karana). Todavia, a mônada vital ilumina e parece estar refletida no processo. Além disso, esta é uma associação que nunca teve princípio, existe desde toda a eternidade. (...) E, ainda, se parece à relação que guarda o Sol com respeito à Terra e sua vegetação. O Sol não sofre alterações pelo fato de seu calor penetrar a Terra e as formas vivas do planeta. A auto-refulgência da desprendida mônada vital, ao banhar o material inconsciente do reino da matéria inanimada e de seus processos, cria, por assim dizer, a vida e a consciência do indivíduo: o que parece ser a atividade do Sol, pertence na verdade à esfera da matéria. Melhor ainda, é como se uma personagem imóvel, refletida num espelho que se move, parecesse estar em movimento.
Em resumo: de acordo com a filosofia Sankhya, a mônada vital está associada a um tipo especial de "compromisso aparente" com o indivíduo vivente, como consequência natural do reflexo de sua luminosidade na matéria sutil da mente, multiforme e em movimento constante. O verdadeiro discernimento, o "conhecimento discriminador" pode ser obtido tão só quando a mente for levada à sua condição de repouso. Então, percebe-se que a mônada vital sem o obscurecimento causado pelas qualidades da matéria agitada, e neste estado, repentina e simplesmente, se revela sua natureza secreta. É vista em repouso, tal qual é na realidade, sempre: isolada dos processos naturais que têm lugar continuamente a seu redor, na substância mental, nos sentidos, nos órgãos de ação e no mundo exterior animado.
A verdade pode ser alcançada apenas por meio da conscientização do fato de que, não importa o que aconteça, nada afeta ou macula a mônada vital. Permanece totalmente desapegada, mesmo quando parece estar sustentando um processo vital individual através da roda de renascimentos e na vida presente. Nossa concepção superficial atribui todos os estados e transformações da vida à mônada vital, onde tais estados e transformações parecem estar acontecendo em seu interior, colorindo-a e mudando-a para o bem ou para o mal. Entretanto, esta ilusão é mero efeito da ignorância. A mônada vital jamais é afetada. Em nosso ardente e verdadeiro Eu continuamos, sempre, serenos.

Heinrich Zimmer

26 de outubro de 2016

Kamasutra


Kama é o prazer e o amor. Na mitologia indiana, Kama é equivalente a Cupido. É o deus hindu do amor que, com seu flóreo arco e as cinco flores por flechas, envia desejos que fazem o coração estremecer. Kama é o desejo encarnado e, como tal, mestre e senhor da Terra, bem como das esferas celestiais inferiores.
O principal texto clássico dos ensinamentos sobre kama que chegou até nós é o célebre Kamasutra, de Vatsyayana. Esta obra deu à Índia uma ambígua reputação de sensualidade, bastante enganadora, pois o tema erótico é apresentado num plano totalmente técnico e secularizado, algo assim como um manual para amantes e cortesãs. A atitude dominante dos indianos, na verdade, é austera, casta e extremamente recatada, marcada por uma ênfase nas atividades puramente espirituais e por uma absorção nas experiências místicas e religiosas. O ensinamento de kama surgiu para corrigir e evitar a frustração na vida conjugal, que deve ter sido muito frequente quando os casamentos por conveniência eram uma regra e os enlaces por amor constituíam uma exceção. Através dos séculos, o casamento tornara-se mais e mais um assunto de família. Os jovens noivos tinham seu destino determinado por horóscopos levantados por astrólogos, conforme os quais se realizariam as negociações de natureza econômica e social entre os chefes de família. Sem dúvida havia muitos lares onde imperava a tristeza e o tédio, e onde um pouco de estudo da ciência das cortesãs poderia ser de grande utilidade. Este compêndio das técnicas de ajustamento e de estimulação foi coligido para uma sociedade de emoções frias, não para homens libertinos.
 
Heinrich Zimmer

"Deus"


O superego divino, comumente chamado "Deus", é exatamente o intencional centro dos pios exercícios devocionais de auto-entrega. Tendo a este "Deus" como foco de atenção e centro de consciência, o devoto consegue livrar-se do seu ego individual. Isto lhe possibilita elevar-se acima da posição do indivíduo que vê muitas árvores mas não a floresta, e imagina ser uma árvore. Reconhece o caráter abrangente da floresta, ou seja, a identidade coletiva de todos os seres em "Deus". Este é um passo em direção à superação do dualismo do "eu" e do "tu", do conflito entre criaturas essencialmente semelhantes. Tudo é experimentado como uma só coisa, subsumido na única personalidade divina. Todas as criaturas, de todos os lugares e tempos, são "suas" manifestações continuamente mutáveis.
(...) O ego de Deus, a última entidade pessoal, é fundamentalmente tão irreal quanto o ego humano, tão ilusório como o universo, não menos insubstancial do que todos os outros nomes e formas do mundo manifestado; porque "Deus" é somente a mais sutil, a mais magnífica, a mais agradável impressão falsa de todas, neste espetáculo geral de errôneas auto-ilusões. Como as demais formas desta realidade flutuante e transitória, "Deus" existe apenas quando associado ao poder da falsa representação de si. Daí "Deus" não ser real. Além disso, está associado a seu próprio auto-engano tão só em aparência, ou seja, no que concerne a nós.
(...) Logo, só para as mentes não iluminadas Deus parece ser real, dotado de atributos como a onisciência, a onipotência, a autoridade universal, e disposto a atitudes de benevolência ou de cólera. As piedosas preocupações centradas ao redor de Deus, os ritos das várias comunidades religiosas e as reflexões dos seus teólogos, pertencem e sustentam a atmosfera do mais sutil e respeitável auto-engano. Logicamente, têm um valor inestimável como meios preliminares. Proporcionam uma espécie de escada pela qual o indivíduo totalmente egoísta pode subir a partir da escura prisão de seu próprio ego. Mas, quando alcança o último degrau e, por fim, está capacitado para transcender a conveniente verdade do monoteísmo pessoal, a escada deve ser abandonada. (...) O Ser supremo não está ávido por atrair imediatamente cada ser humano à sua esfera supramundana através da iluminação, nem mesmo difundir noções idênticas e corretas a respeito da natureza e função de sua divindade. Ele não é um Deus ciumento. Pelo contrário, permite e até se deleita com todas as ilusões diferenciadoras que acossam e obscurecem a mente dos homens. Dá boas-vindas e compreende todo tipo de fé e de culto. Embora seja Ele próprio o amor perfeito e se incline a todos os seus devotos não importando quais sejam seus níveis de entendimento, também é, ao mesmo tempo, soberanamente indiferente e absolutamente despreocupado, pois Ele mesmo não possui ego.
O Ser supremo, como "Deus", é fenomênico; é uma face nobre e majestosa pintada sobre o sublime vazio do Brahman, o verdadeiro Ser que carece de fisionomia e de todos os demais atributos e definições. O Brahman não está de fato envolvido na ignorância, apenas aparentemente o está; e só no estado de ignorância menos escuro, menos ativo e mais sereno, que é brilhante claridade. Não se pode dizer que "Deus" é enganado por sua própria atitude ilusória de soberano Super-Egoísmo, grande em sua onisciência, onipotência e senhoril autoridade. Quando o Senhor parece estar representando seu papel cósmico, não está envolvido na rede de ilusão que ele cria; a pantomima do papel divino não ilude o ator. Por isso, se "Deus" há de ser concebido desdobrando, conservando e penetrando o universo todo, dirigindo as propensões mentais dos seres finitos através de seu poder universal que a tudo controla, deve-se entender que está representando uma espécie de peça teatral para a qual não há espectador - como o faria uma criança. "Deus" é o solitário dançarino cósmico cujos gestos são todos os seres e todos os mundos, que surgem continuamente de seu infatigável e incessante fluxo de energia cósmica enquanto ele executa os gestos rítmicos, indefinidamente repetidos. Shiva, o deus que dança, não está enfeitiçado por sua dança.
(...) Nós, pequenos seres, estamos presos na armadilha da ilusão de todas estas formas fantasmagóricas. Na verdade, pensamos que somos seres humanos, que nosso ego individual é uma realidade, e, assim, nos agarramos a nós mesmos e à falsa realidade dos outros fenômenos atrativos e repulsivos que pululam ao nosso redor. Ao passo que "Deus" sabe que sua divina personalidade é uma máscara, uma falsa impressão que Ele sempre pode remover simplesmente voltando a sua substância indiferenciada; para nós, nossas próprias personalidades são tão densas e duráveis quanto nossa própria ignorância, e Deus, em sua personalidade, é o grande desconhecido. Sua natureza, para nós, imersos que estamos no estado de ignorância, é insondável. E não obstante o chamamos, com toda propriedade, de "Guia interior", pois pode tornar-se a luz que afastará as trevas da nossa ignorância. Assim como o sol ilumina o mundo e dissipa a escuridão, assim também o Ser divino, uma vez conhecido, ilumina a ignorância e dissipa seu produto: esta esfera fenomênica e todos os seus indivíduos fenomênicos. O sol jamais é contaminado pela escuridão.

Heinrich Zimmer

Matemática brâmane


A compreensão dos padrões vitais, que se desdobram em variados graus de intensidade, desde o primordial, uno e único, o mais íntimo Eu e Âmago de todas as existências, o "Poder sagrado" - Brahman-Atman - não pode ser alcançada por meio da lógica pois esta rejeita como absurdo e, portanto, impossível, tudo quanto vai contra as regras da razão. Por exemplo, 1 + 1 é logicamente 2, nunca 3 ou 5, e jamais pode recuar para 1. Mas as coisas não ocorrem desta maneira no campo dos processos vitais da natureza, onde os mais ilógicos desenvolvimentos acontecem a cada dia por todas as partes, como algo muito normal. As regras da vida não obedecem à lógica mas sim à dialética; os raciocínios da natureza não são como os da mente, mas como os do nosso ventre ilógico, nossa faculdade de procriar, o aspecto vegetativo e animal de nosso microcosmo. Nesta esfera, a esfera da dialética biológica, a esfera ilógica das forças naturais e vitais, 1 + 1 geralmente está muito longe de continuar sendo 2 por muito tempo.
Suponhamos, por exemplo, que um 1 é macho e o outro 1 é fêmea. Quando do primeiro encontro, não são mais que 1 + 1 que é 2; quando se enamoram e unem seus destinos, convertem-se em 1 + 1 que é 1 "para melhor ou pior". O santo sacramento - pelo menos em sua forma mais solene, antiga e mágica, como preservada no ritual católico romano - insiste com ênfase na ideia de que agora os dois "se fizeram uma só carne" (una caro facta est). Na verdade, é exatamente esta união que retira a mácula, a suspeita ou o quê de pecado que acompanha toda forma de relacionamento carnal entre os sexos, segundo a ascética crença cristã. O fato de que os dois tenham se transformado em um através da realização do sacramento torna o casal isento de concupiscentia, de pecaminosidade, consagrando sua união sexual. Assim, por uma transmutação mágica, 1 + 1 significativamente torna-se 1; a fórmula sacramental expressa apenas o que, de fato, é a experiência básica de todos os verdadeiros amantes quando se encontram e se unem com laços que prenunciam a felicidade de uma única perspectiva para suas duas vidas.
A alquimia da natureza, fundindo os dois corações num fogo mútuo, reduz o 1 + 1 a 1 feito de 2. Mas a alquimia da natureza não para aqui. Ao invés da usual tábua da multiplicação que aprendemos na escola e utilizamos nos negócios e em cálculos práticos, a natureza aplica a tábua de multiplicação das bruxas ou feiticeiros. Após uma breve espera, quando 1 + 1 tenham se convertido em 1, a dupla casada normalmente expande-se numa tríade: nasce a primeira criança. E, se a evolução não for controlada por planos prudentes, desenvolve-se uma irrefreável série. O 1 que foi feito de 1 + 1 cresce para 4, 5, 6 e, de fato, pode chegar a uma sequência virtualmente indefinida; além do mais, o curioso é que cada unidade adicional contém potencialmente e transmite ao futuro a plenitude da herança biológica da primeira unidade fértil, porque mostra os traços que estavam latentes nos dois termos da equação original 1 = 1 + 1.
O pensamento mítico, quando desenvolve um complexo de forças e figuras divinas a partir de uma fonte ou essência única e primordial, procede conforme este método dialético. E o pensamento bramânico, em suas brilhantes fórmulas de auto-análise psicológica, traça o mesmo tipo de evolução dialética na consciência do homem, da seguinte maneira: o sono profundo, quando considerado do ponto de vista da consciência vigílica ou da consciência na rede dos sonhos, pode parecer que é um estado de puro não-ser; no entanto, é deste vazio absoluto que os sonhos emergem, como nuvens que se condensam e surgem a partir do vazio do firmamento. Ademais, desta mesma inconsciência irrompe, de súbito, o estado de vigília. Por outro lado, é voltando a este vazio que o pequeno cosmo da consciência humana vigílica se dissolve e desaparece no sono. Assim, pode-se dizer que a emanação dos sonhos e a passagem da consciência do estado onírico ao vigílico são dois estágios, ou duas variantes de uma pequena cosmogonia que se repete diariamente, como um processo de criação do mundo dentro do microcosmo. Do mesmo modo que o universo colossal evolui a partir de alguma transcendental fonte secreta - a essência que está além dos nomes e das formas e que permanece incólume ante o processo do fluxo torrencial -, assim também o misterioso ego onírico que desenvolve nos sonhos suas próprias paisagens e aventuras, bem como o indivíduo visível, tangível, que se torna consciente de si mesmo quando desperta, emergem temporariamente da mais íntima essência secreta, chamada Eu, fundamento de toda vida e experiência humana. Em outras palavras, o Eu macrocósmico (Brahman) e o microcósmico (atman) produzem efeitos paralelos. Ambos são um e o mesmo, apenas vistos sob dois aspectos diferentes. De forma que, quando o indivíduo contata o Eu que traz em seu interior, toma posse do divino poder cósmico e permanece centrado além de toda ansiedade, luta e mudança. Alcançar esta meta é o propósito único do pensamento védico e vedantino.
 
Heinrich Zimmer

23 de outubro de 2016

Quem alimentará os percevejos?


Todo o cosmo está animado e as leis fundamentais de sua vida são constantes por toda sua extensão. Portanto, deveríamos praticar a não-violência até mesmo com os pequenos e mudos seres vivos, que tão pouca consciência possuem. O monge jaina, por exemplo, evita tocar ou espremer os átomos dos elementos. Ele não pode deixar de respirar, mas para impedir um possível dano, ele tem de usar um véu diante da boca: isto diminui o impacto do ar no interior da garganta. Não deve estalar os dedos nem abanar o ar, pois isso perturba e causa prejuízos. Num barco, se pessoas más, por alguma razão, decidem atirar um monge jaina na água, ele não deve chegar até a margem com braçadas fortes e violentas, como um valente nadador, mas tem que deslizar suavemente, como uma tora, deixando que a corrente o aproxime da terra firme: não deve alterar ou ferir os átomos de água. Deixará também que a água evapore de sua pele, não deverá enxugar-se ou balançar os membros com violência.
Desta forma, a não-violência é levada a suas últimas consequências. A seita jaina sobrevive como uma espécie de vestígio bem fundamentalista numa civilização que sofreu muitas transformações desde aquela remota época, quando esta ciência e ordem religiosa piedosa veio a existir, mostrando o mundo da natureza e os meios para escapar dele. Mesmo os jainistas laicos precisam estar atentos para não causar inconvenientes desnecessários a seus semelhantes. Por exemplo, não podem beber água depois que o dia escureceu, pois algum inseto pode ser engolido. Não devem comer carne de espécie alguma, nem matar os insetos voadores que tanto incomodam. Na verdade, obtêm-se méritos ao permitir que estes bichinhos pousem e piquem. Tudo isto levou aos mais bizarros costumes populares que, ainda hoje, podemos presenciar nas ruas de Bombaim.
Um par de homens caminha levando entre eles uma espécie de colchão cheio de percevejos. Param frente a uma casa de família jaina e perguntam em alta voz: "Quem alimentará os percevejos? Quem alimentará os percevejos?" Se alguma senhora devota atira uma moeda da janela, um deles se deita cuidadosamente no colchão e oferece a si próprio como pasto para seus pequenos amigos. Assim, enquanto a dona de casa obtém seus méritos, o herói do colchão ganha sua moeda.
 
Heinrich Zimmer
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