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26 de julho de 2022

Os dons das fadas


Era um grande encontro de fadas para proceder à distribuição de dons entre todos os recém-nascidos, chegados à vida, nas últimas vinte e quatro horas.
Todas essas antigas e caprichosas Irmãs do Destino, todas essas mães bizarras da alegria e da dor eram bem diferentes: umas tinham o ar sombrio e ranzinza, outras um ar caçoador e malicioso; umas jovens que sempre foram jovens e outras velhas que sempre foram velhas.
Todos os pais que tinham fé nas fadas vieram, trazendo, cada um deles, seu recém-nascido nos braços.
Os Dons, as Faculdades, as Boas Sortes, as Circunstâncias invencíveis estavam acumuladas ao lado do tribunal, sobre o estrado, para uma distribuição de prêmios. O que havia ali de particular é que os Dons não eram a recompensa de um esforço mas, pelo contrário, uma graça concedida àquele que ainda não vivera e que poderia determinar seu destino e tornar-se tanto a fonte de sua infelicidade quanto a de sua felicidade.
As pobres Fadas estavam muito ocupadas, pois a multidão de solicitantes era grande, e o mundo intermediário, colocado entre o homem e Deus, é tão submetido quanto nós à terrível lei do Tempo e de sua infinita posteridade: os Dias, as Horas, os Minutos e os Segundos.
Na verdade, elas encontravam-se tão atordoadas quanto os ministros em dias de audiência ou os empregados do Montepio, quando um feriado nacional autorizava os resgates gratuitos de empenhos. Creio, mesmo, que elas olhavam de tempo em tempo os ponteiros do relógio com tanta impaciência quanto os juízes humanos que, trabalhando desde manhã cedo, não podem se impedir de sonhar com o jantar junto à família, e com seus caros chinelos. Se, na justiça sobrenatural, há um pouco de precipitação e de acaso, não nos espantemos que assim seja, também, na justiça humana, algumas vezes. Nós seríamos, nós mesmos, nesses casos, injustos juízes.
Também foram cometidos alguns enganos nesse dia, que poderiam ser considerados bizarros, se a prudência, mais do que o capricho, fosse um caráter distintivo, eterno das Fadas.
Assim, o poder de atrair magneticamente uma fortuna foi concedido ao herdeiro único de uma família muito rica que, não sendo dotado de qualquer senso de caridade, nem de qualquer cobiça por todos os bens visíveis da vida, deveria se achar, mais tarde, prodigiosamente embaraçado com seus milhões.
Assim foram dados o Amor ao Belo e o Poder Poético ao filho de um pobre sombrio, pedreiro de profissão, que não podia, de nenhum modo, ajudar as capacidades nem suavizar as necessidades de sua deplorável progenitura.
Esqueci de lhes dizer que a distribuição, nesses casos solenes, não tem apelação, e que nenhum dom pode ser recusado.
Todas as Fadas se levantaram, crendo concluídas suas cansativas obrigações porque não havia mais qualquer presente, nem generosidade a distribuir para toda aquela massa humana ignara, quando um homem de bem, um pobre pequeno comerciante, eu creio, levantou-se, e, agarrando a roupa de vapores multicores da Fada que estava mais próxima e a seu alcance, gritou:
“Ei! Minha senhora, esqueceu-se de nós?! Há ainda o meu pequeno. Não aceito ter vindo aqui por nada!”
A Fada poderia ter ficado embaraçada, porque nada havia restado. Entretanto, ela se lembrou, a tempo, de uma lei bem conhecida conquanto raramente aplicada no mundo sobrenatural, habitado por deidades impalpáveis, amigas dos homens e frequentemente constrangidas em se adaptar às paixões deles, na qualidade de Fadas, Gnomos, Salamandras, Sílfides, Silfos, Nixos, Ondins e Ondinas: desejo falar sobre a lei que concede às Fadas, em casos semelhantes a este, quer dizer, o esgotamento dos lotes de presentes, o poder de dar, conceder ainda mais um, suplementar e extraordinário, desde que ela tenha suficiente imaginação para criá-lo imediatamente.
Então a boa Fada respondeu com arrogância, digna de seu cargo: “Eu dou ao teu filho... eu lhe dou... o dom de agradar!”
“Mas agradar como? Agradar?... Agradar por quê?”, perguntou obstinadamente o comerciante, que era, sem dúvida, um desses questionadores tão comuns, incapazes de se elevarem e alcançarem a lógica do Absurdo!
“Por quê? Porque sim!”, replicou a Fada furiosa, virando-lhe as costas; e, juntando-se ao cortejo de suas companheiras, lhes dizia: “O que acham vocês desse pequeno francês vaidoso que quer saber tudo e que tendo obtido para o filho o melhor dos prêmios ousa ainda questionar e discutir o indiscutível?” 
 
Charles Baudelaire

26 de julho de 2021

Brinquedo de pobre


Eu quero dar a ideia de um divertimento inocente. Há tão poucos divertimentos que não tenham algo de culpável!
Quando você sair de manhã com a intenção decidida de vadiar pelas estradas, encha sua bolsa de invenções baratas — tais como, um polichinelo movido à corda, os ferreiros que batem na bigorna, um cavaleiro com seu cavalo cuja cauda é um apito — e, ao longo dos cabarés, ao pé das árvores, faça uma homenagem às crianças desconhecidas e pobres que você encontrar. Você verá os olhos delas se arregalarem desmesuradamente. De início, não ousarão pegar os presentes, duvidarão da própria felicidade. Depois suas mãos agarrarão, rapidamente, o presente e fugirão como fazem os gatos que vão comer longe de você o pedaço que você lhes deu, tendo aprendido a desconfiar dos homens.
Em uma estrada, atrás da cerca de um vasto jardim, ao fim do qual aparecia a brancura de um lindo castelo ensolarado, havia um menino lindo e sadio, vestido com essas roupas do campo e cheio de elegância.
O luxo, o descuido e o espetáculo habitual da riqueza tornam essas crianças tão bonitas que a gente crê que sejam feitas de outra matéria que os filhos da mediocridade e da pobreza.
Ao lado dele, jazia, sobre a relva, um brinquedo esplêndido, tão novo quanto seu dono, envernizado, dourado, vestido com uma roupagem purpurina e coberto de plumas e de vidrilhos. Mas o menino não se ocupava de seu brinquedo preferido e vejam para o que ele olhava: do outro lado da cerca, na estrada, entre os espinhos e as urtigas, havia outro menino, sujo, magro, fuliginoso, uma dessas párias mirins, em quem um olho imparcial descobriria beleza, sim, como o olho de um conhecedor adivinha uma pintura ideal sob o verniz de carroceiro e o limpa da repugnante pátina da miséria.
Através dessas barras simbólicas separando os dois mundos, a estrada e o castelo, a criança pobre mostrava à criança rica o seu próprio brinquedo, que esta examinava avidamente como um objeto raro e desconhecido. Ora, tal brinquedo, que o pequeno sujinho irritava, agitava e sacudia dentro de uma gaiola, era um rato vivo! Os pais, por economia, sem dúvida, tinham tirado o brinquedo do dia a dia da vida.
E os dois meninos riam, um para o outro, fraternalmente, mostrando os dentes de igual brancura. 

Charles Baudelaire

23 de julho de 2020

Um hemisfério numa cabeleira


Deixe-me respirar muito, muito o cheiro dos seus cabelos, mergulhar nele o rosto inteiro, como um homem sedento na água de uma fonte, e agitá-los em minha mão como um lenço perfumado, para sacudir lembranças no ar.
Se pudesse saber tudo o que vejo! tudo o que sinto! tudo o que ouço nos seus cabelos! Minha alma viaja no perfume como na música a alma dos outros homens.
Seus cabelos encerram todo um sonho, cheio de veleiros e de mastros; encerram grandes mares cujas monções me levam para climas encantadores, em que o espaço é mais belo e mais profundo, em que a atmosfera é perfumada pelas frutas, pelas folhas e pela pele humana.
No oceano da sua cabeleira vislumbro um porto fervilhante de cantos melancólicos, de homens vigorosos de todas as nações, de navios de todas as formas, que recortam suas arquiteturas finas e complicadas contra um céu imenso onde se espreguiça o eterno calor.
Nas carícias de sua cabeleira reencontro o langor das longas horas passadas sobre um divã, no quarto de um belo navio, acalentado pelo balanço imperceptível do porto, entre jarros de flores e refrescos.
No fogo ardente da sua cabeleira respiro o cheiro do tabaco misturado ao ópio e ao açúcar; na noite da sua cabeleira vejo resplandecer o infinito do azul tropical; nas praias acolchoadas de sua cabeleira embriago-me com os odores combinados do almíscar e do óleo de coco.
Deixe-me morder muito suas negras e pesadas tranças. Quando mordo seus cabelos elásticos e rebeldes parece-me que estou comendo recordações.
 
Charles Baudelaire

1 de novembro de 2019

Espanquemos os pobres!


Durante quinze dias confinei-me em meu quarto e me cerquei de livros que estavam na moda naqueles tempos (há dezesseis ou dezessete anos), isto é, de livros em que se trata da arte de tornar os povos felizes, sábios e ricos em vinte e quatro horas. Tinha eu digerido – engolido, quero dizer – todas as elucubrações de todos os empresários da felicidade pública – dos que aconselham a todos os pobres a se fazerem escravos e dos que persuadiam que eles são reis destronados. Ninguém acharia surpreendente que eu entrasse então em um estado de espírito vizinho da vertigem ou da estupidez.
Pareceu-me, somente, que eu sentisse, confinado, no fundo do meu intelecto, o germe obscuro de uma ideia superior a todas as fórmulas de curandeiras que eu, recentemente, vira, folheando no dicionário. Mas isso só era a ideia de uma ideia, algo de infinitamente vago.
E saí com uma grande sede. Porque o gosto apaixonado por más leituras engendra uma necessidade proporcional de grandes ares e de muitas bebidas refrescantes.
Quando ia entrar num bar, um mendigo estendeu-me o chapéu com um desses inesquecíveis olhares que derrubariam tronos, se o espírito comovesse a matéria e se o olho de um hipnotizador fizesse as uvas amadurecerem.
Ouvi, ao mesmo tempo, uma voz que me cochichava ao ouvido, uma voz que logo reconheci; era a voz de um bom Anjo ou um bom Demônio, que me acompanha por todos os lugares. Se Sócrates tinha seu bom Demônio, por que eu não havia de ter o meu bom Anjo, e por que não teria eu a honra, como Sócrates, de obter um alvará de loucura, assinado pelo sutil Lélut e pelo bem informado Baillarger?
Existe uma diferença entre o Demônio de Sócrates e o meu, pois o de Sócrates só se manifestava a ele para proibir, advertir, impedir, e o meu dignava-se a aconselhar, sugerir, persuadir; o meu é um grande afirmador, o meu é um Demônio de ação, um Demônio de combate.
Ora, sua voz cochichava isso: “Quem for igual ao outro que o prove e só é digno de liberdade quem a sabe conquistar.”
Imediatamente saltei sobre meu mendigo. Com um único soco fechei-lhe um olho, que, em um segundo, tornou-se inchado como uma bola. Quebrei uma unha ao partir-lhe dois dentes, e como eu não me sentisse bastante forte, tendo nascido de compleição delicada e tivesse pouca prática de boxe, para desancar aquele velho, peguei-o com uma das mãos pela gola de seu casaco e com a outra lhe agarrei a garganta e me pus a sacudi-lo, vigorosamente, batendo sua cabeça contra a parede. Devo confessar que já havia previamente inspecionado os arredores com uma olhada e havia verificado que naquele subúrbio deserto eu me achava, por algum tempo, fora do alcance de qualquer policial.
Tendo, em seguida, – com um pontapé, dado em suas costas, bastante enérgico para lhe quebrar as omoplatas - abatido aquele sexagenário enfraquecido, empunhei um grosso galho de árvore, que estava jogado no chão, e bati nele com a energia obstinada dos cozinheiros que querem amolecer um bife.
De repetente – ó milagre! Ó alegria do filósofo que verifica a excelência de sua teoria – vi esta antiga carcaça se virar, se levantar com uma energia que eu jamais suspeitaria que houvesse numa máquina de tal modo danificada, e, com um olhar de raiva que me pareceu de bom augúrio, o malandro decrépito jogou-se sobre mim, socou-me os dois olhos, quebrou-me quatro dentes e, com o mesmo galho de árvore, espancou-me como um padeiro socaria a massa do pão. Pela minha enérgica medicação, eu lhe havia restituído o orgulho e a vida.
Então, eu lhe fiz sinais enérgicos para que compreendesse que eu considerava nossa discussão terminada e, levantando-me com a satisfação de um sofista do Pórtico, lhe disse: “Meu senhor, o senhor é meu igual! Queira dar-me a honra de aceitar que eu divida minha bolsa consigo, e lembre-se de que, sendo um filantropo de verdade, é preciso aplicar, em todos os seus confrades, quando eles lhe pedirem esmolas, a mesma teoria que eu tive a dor de experimentar sobre suas costas”.
Ele me jurou que havia compreendido a minha teoria e que obedeceria aos meus conselhos.
 
Charles Baudelaire

5 de agosto de 2019

Embriaguem-se!


É preciso estar sempre embriagado. Aí está: eis a única questão. Para não sentirem o fardo horrível do Tempo que verga e inclina para a terra, é preciso que se embriaguem sem descanso. 
Com quê? Com vinho, poesia ou virtude, a escolher. Mas embriaguem-se.
E se, porventura, nos degraus de um palácio, sobre a relva verde de um fosso, na solidão morna do quarto, a embriaguez diminuir ou desaparecer quando você acordar, pergunte ao vento, à vaga, à estrela, ao pássaro, ao relógio, a tudo que flui, a tudo que geme, a tudo que gira, a tudo que canta, a tudo que fala, pergunte que horas são; e o vento, a vaga, a estrela, o pássaro, o relógio responderão: “É hora de embriagar-se! Para não serem os escravos martirizados do Tempo, embriaguem-se; embriaguem-se sem descanso! Com vinho, poesia ou virtude, a escolher."
 
Charles Baudelaire

23 de julho de 2019

As viúvas


Vauvenargues disse que nos jardins públicos existem aleias frequentadas, principalmente, pela ambição frustrada, pelos inventores infelizes, pelas glórias abortadas, pelos corações partidos, por rodas as almas tumultuadas e fechadas nas quais ressoam ainda os últimos suspiros de uma tempestade e que recuam para longe do olhar insolente dos felizes e ociosos. Esses recantos sombrios são o ponto de encontro dos estropiados da vida.
É a esses lugares que o poeta e o filósofo gostam de dirigir suas ávidas conjecturas. Há lá um alimento garantido. Se há um lugar que eles desdenham visitar, como insinuei há pouco, é, sobretudo, a alegria dos ricos. Essa turbulência no vazio não tem nada que os atraia. Ao contrário, eles se sentem, irresistivelmente, impelidos para tudo que seja frágil, arruinado, entristecido, órfão.
Um olho experiente não se engana jamais. Em seus traços rígidos ou abatidos, nesses olhos escavados e ternos ou brilhantes, fruto dos últimos relâmpagos da luta, nas rugas profundas e numerosas, em suas marchas lentas ou tão frequentemente tropeçadas, ele decifra logo as inumeráveis lendas de amor enganado, do devotamento desconhecido, dos esforços não recompensados, da fome e do frio, humildemente, silenciosamente suportados.
Alguma vez você já observou as viúvas nesses bancos solitários — as viúvas pobres? Estejam elas de luto ou não, é fácil reconhecê-las. Aliás, há sempre no luto do pobre algo que falta, uma ausência de harmonia que o faz mais desolador. Ele é constrangido a poupar a mostra de sua dor. O rico mostra a sua integralmente.
Qual é a viúva mais triste e mais entristecedora: a que traz um menino pela mão com quem não pode repartir seus devaneios ou a que está totalmente só? Não sei... Aconteceu-me, certa vez, seguir durante longas horas uma velhinha aflita, dessa espécie; era rija, desempenada sob um xalezinho usado, levava em todo o seu ser um orgulho estoico.
Ela estava, evidentemente, condenada, por uma absoluta solidão, aos hábitos de um velho celibatário. E ao caráter masculino de seus costumes juntava-se um picante toque misterioso à sua austeridade. Não sei em que miserável café e de que modo ela almoçara. Eu a segui até o gabinete de leitura, e fiquei espiando, longamente, enquanto ela procurava nos jornais, com os olhos ávidos, antes queimados pelas lágrimas, as novas notícias com interesse possante e pessoal.
Enfim, no começo da tarde — sob um céu charmoso de outono, um desses céus de onde descem, em massa, os arrependimentos e as lembranças —, ela se sentou, à parte, em um jardim para ouvir, longe da multidão, um desses concertos com os quais a música dos regimentos gratifica o povo parisiense.
É, sem dúvida, a pequena orgia dessa velhinha inocente (ou esta velha purificada), o consolo merecido de uma dessas pesadas jornadas sem amigos, sem conversas, sem alegria, sem confidentes, que Deus deixa cair sobre ela, depois de, talvez, muitos anos! Trezentas e sessenta e cinco vezes por ano.
Uma outra ainda:
No pude jamais me impedir de dar uma olhada, se não universalmente simpática mas, ao menos, curiosa, sobre a multidão de párias que se comprime em torno do círculo de um concerto público. A orquestra lança pela noite os cantos de festa, de triunfo ou de volúpia. As roupas exibem-se brilhantes, os olhares se cruzam; os ociosos, fatigados por nada terem feito, rebolam-se fingindo estar saboreando, indolentemente, a música. Aqui nada mais há que ricos, felizes, nada que não respire e inspire desocupação e o prazer de se deixar viver; nada exceto o aspecto dessa turba que se apoia lá, sobre a cerca exterior, recebendo, de graça, ao sabor do vento, um farrapo da música e olhando sua cintilante fornalha interior.
E sempre uma coisa interessante que se reflete na alegria dos ricos, no fundo do olho do pobre. Mas nesse dia, no meio desse povo vestido de blusas e camisas coloridas, percebi um ser cuja nobreza contrastava gritantemente com toda a trivialidade do ambiente.
Era uma mulher grande, majestosa e de ar tão nobre que não me lembro ter visto igual nem mesmo nas coleções de belezas aristocráticas do passado. Um perfume sublime emanava de toda a sua pessoa. Seu rosto triste e emagrecido estava em perfeita sintonia com o pesado luto que ela usava. Ela, também, como a plebe, com que estava misturada e à qual não percebia, olhava o mundo luminoso com um olhar profundo e ouvia, balanceando levemente a cabeça.
Visão singular! “Com certeza,” dizia-me eu, “esse tipo de pobreza, se é que há pobreza, não pode admitir uma economia sórdida; um semblante tão nobre me garante. Por que então permanece, voluntariamente, em um ambiente onde ela constitui uma mancha tão gritante?”
Mas ao passar com curiosidade por perto dela acreditei ter adivinhado a razão. A grande viúva levava pela mão uma criança vestida de preto, como ela; por mais módico que fosse o preço da entrada, era suficiente para satisfazer os desejos do pequeno ser, melhor ainda, comprar algo supérfluo, um brinquedo.
E ela se retirou a pé, meditando e sonhando; sozinha, sempre sozinha; porque a criança é turbulenta, egoísta, sem doçura, sem paciência e não pode mesmo, como um puro animal, como um cão ou um gato, servir de confidente às dores solitárias. 
 
Charles Baudelaire

17 de julho de 2019

O cão e o frasco


"Meu lindo cão, meu bom cão, meu caro totó, vem cá apreciar um excelente perfume comprado na melhor perfumaria da cidade." E o cão, agitando o rabinho - o que, creio eu, corresponde, nesses pobres seres, ao riso e ao sorriso -, aproxima-se e mete curiosamente seu nariz úmido no frasco destapado; depois recua, de repente, com medo e late para mim de modo acusador.
"Ah, miserável cão, se tivesse te oferecido um pacote de excrementos, tê-lo-ias cheirado com deleite e, quiçá, devorado. Assim tu mesmo, indigno companheiro da minha triste vida, pareces-te com o público, ao qual jamais devemos apresentar os perfumes delicados que o exasperam, mas sim o lixo cuidadosamente escolhido."

Charles Baudelaire

16 de julho de 2019

Vive, maldito!


Esta toca, esta morada do eterno tédio, é minha. Eis os móveis tolos, poeirentos, escoriados; a lareira sem chamas nem brasas, suja de escarros; as tristes janelas, onde a chuva traçou uns sulcos na poeira; os manuscritos riscados ou incompletos; o almanaque em que o lápis marcou umas datas sinistras!
E esse perfume do outro mundo, de que me inebriava com uma sensibilidade requintada, foi substituído - ai de mim! - pelo fedor de tabaco mesclado com não sei que nauseabundo mofo. Agora se respira aqui o ranço da desolação.
Neste mundo estreito, mas tão cheio de desgosto, apenas um objeto conhecido me sorri: a garrafinha de láudano, minha velha e terrível amiga, fecunda - como todas as amigas, infelizmente! - em afagos e traições.
Oh, sim! O Tempo reapareceu; agora o Tempo reina soberanamente; e, com o repugnante ancião, retornou todo o seu demoníaco cortejo de Recordações, Pesares, Espasmos, Medos, Angústias, Pesadelos, Cóleras e Neuroses.
Asseguro-lhes que os segundos agora vêm forte e solenemente acentuados, e cada um deles, saltando do pêndulo, diz: "Eu sou a Vida, a insuportável, a implacável Vida!"
Há um só Segundo na vida humana que tem por missão anunciar uma boa notícia, a boa notícia que causa a qualquer pessoa um medo inexplicável.
Sim, o Tempo reina; ele retomou sua brutal ditadura. E está-me empurrando, como se eu fosse um boi, com seu duro aguilhão: "Vai, anda, burrico! Vai, sua, escravo! Vai, vive, maldito!"

Charles Baudelaire

16 de abril de 2019

As metamorfoses do vampiro


E no entanto a mulher, com lábios de framboesa,
Coleando qual serpente ao pé da lenha acesa,
E o seio a comprimir sob o aço do espartilho,
Dizia, a voz imersa em bálsamo e tomilho:
- "A boca úmida eu tenho e trago em minha ciência
De no fundo de um leito afogar a consciência.
Sou como, a quem vê sem véus a imagem nua,
As estrelas, o sol, o firmamento e a lua!
Tão douta na volúpia eu sou, queridos sábios,
Quando um homem sufoco à borda dos meus lábios,
Ou quando o seio oferto ao dente que mordisca,
Ingênua ou libertina, apática ou arisca,
Que sobre tais coxins macios e envolventes
Perder-se-iam por mim os anjos impotentes!"

Quando após me sugar dos ossos a medula,
Para ela me voltei já lânguido e sem gula
À procura de um beijo, uma outra eu vi então
Em cujo ventre o pus se unia à podridão!

Os dois olhos fechei em trêmula agonia,
E ao reabri-los depois, à plena luz do dia,
A meu lado, em lugar do manequim altivo,
No qual julguei ter visto a cor do sangue vivo,
Pendiam do esqueleto uns farrapos poeirentos,
Cujo grito lembrava a voz dos cata-ventos
Ou de uma tabuleta à ponta de uma lança,
Que nas noites de inverno ao vento se balança.

Charles Baudelaire

O gosto do nada


Morno espírito, outrora afeito à luta,
A esperança que um instigou teu ardor,
Não quer mais cavalgar-te! E dorme sem pudor,
Velho cavalo a quem mesmo a planície é abrupta.

Dorme, meu coração! E em sonolência bruta!

Espírito vencido! ao velho salteador
Não tem mais gosto o amor, nem tampouco a disputa;
Voz da flauta ou clarim ora ninguém escuta!
Prazeres, não tenteis quem é tédio e torpor!

A adorável Primavera já perdeu seu odor!

Engole o tempo enfim a vida diminuta,
Tal como a um corpo rijo a neve só brancor.
Eu vejo do alto o globo curvo a se compor,
E não procuro mais o abrigo de uma gruta!

Leva-me contigo, avalanche que enluta!

Charles Baudelaire
 

25 de outubro de 2018

Vaidade vã


Que aqui na vida nada é certo,
E que sempre por mais que a si próprio se iluda,
O egoísmo humano é descoberto;

Que é um duro ofício ser uma mulher bonita,
E é duro o trabalho banal,
Da dançarina fria e fútil que se agita,
Ao seu sorriso maquinal;

Semear nos corações é um tolo intento;
Beleza e amor a ruína invade,
Até que em seu alforje os joga o Esquecimento,
E atira-os à eternidade!

Charles Baudelaire

28 de maio de 2018

Reversibilidade


Anjo todo alegria, conheceis a desgraça,
A vergonha, o remorso, os soluços, o tédio,
E nas noites de pasmo, o terror sem remédio,
Que comprimem o coração como um papel que se amassa?
Anjo todo alegria, conheceis a desgraça?

Anjo todo bondade, conheceis o rancor,
Punho cerrado à sombra e lágrimas de fel,
Quando a vingança bate e o seu chamado cruel
De nosso pensamento é o único senhor?
Anjo todo bondade, conheceis o rancor?

Anjo todo saúde, conheceis os Delírios
Que, pelo corredor do hospital descorado,
Como exilados vão, com seu passo arrastado,
Os lábios a mover, buscando a luz dos círios?
Anjo todo saúde, conheceis os Delírios?

Anjo todo beleza, conheceis estas rugas
Do horror de envelhecer como tormento infausto
De ler o obscuro horror de penoso holocausto
Nestes olhos que sempre subjugas?
Anjo todo beleza, conheceis estas rugas?

Anjo todo ventura, alegria e clarões,
Davi a agonizar teria retornado
Só às emanações de seu corpo retornado.
Mas de ti só imploro as tuas orações,
Anjo todo ventura, alegria e clarões!

Charles Baudelaire

Sempre a mesma


De onde vem este ar que desanima,
Subindo como o mar ao rochedo despido?
Se o nosso coração já fez sua vindima,
Viver é um mal. É um segredo de todos conhecido.

Uma dor muito simples, nada misteriosa,
Como tua alegria a todos transparece,
Pára de procurar, ó bela curiosa!
E embora a tua voz seja doce, emudece!

Emudece, ignorante! Alma sempre aturdida,
Boca a rir infantil! Muito mais do que a Vida,
A Morte nos retém por sutis idílios.

Deixa meu coração embriagar-se de um mito,
Perder-se em teu olhar este sonho infinito,
E dormir para sempre à sombra dos teus cílios!

Charles Baudelaire

19 de março de 2018

As joias


A amada estava nua e, por ser eu seu amante, 
Das joias só guardara as que o bulício inquieta, 
 Cujo rico esplendor lhe dava esse ar triunfante 
 Que em seus dias de glória a escrava moura afeta. 
 
Quando ela dança e entorna um timbre acre e sonoro, 
 Este universo mineral que à luz figura 
 Ao êxtase me leva, e é com furor que adoro 
 As coisas em que o som ao fogo se mistura. 
 
Ela estava deitada e se deixava amar, 
 E do alto do divã, imersa em paz, sorria 
 A meu amor profundo e doce como o mar, 
 Que ao corpo, como à escarpa, em ondas lhe subia. 
 
O olhar cravado em mim, como um tigre abatido, 
 Com ar vago e distante ela ensaiava poses, 
 E o lúbrico fervor à candidez unido 
 Punha-lhe um novo encanto às cruéis metamorfoses. 
 
E sua perna e o braço, a coxa e os rins, untados 
 Como de óleo, imitar de um cisne a fluida linha,
 Passavam diante de meus olhos sossegados; 
 E o ventre e os seios, como cachos de uma vinha, 
 
Se aproximavam, mais sutis que Anjos do Mal, 
 Para agitar minha alma enfim posta em repouso, 
 Ou arrancá-la então a rocha de cristal 
 Onde, calma e sozinha, ela encontra pouso. 
 
Como se a luz de um novo esboço, unidade eu via 
 De Antíope a cintura a um busto adolescente, 
 De tal modo que os quadris moldavam-lhe a bacia. 
 E a maquilagem lhe era esplêndida e luzente! 
 
- E estando a lamparina agora agonizante, 
 Como na alcova houvesse a luz só da lareira 
 Toda vez que emitia um suspiro faiscante,
Inundava de sangue essa pele trigueira.
 
Charles Baudelaire

O homem e o mar


Homem livre, hás de sempre estremecer o mar!
O mar é teu espelho, e assim tu’alma sondas
Nesse desenrolar das infinitas ondas,
Pois também és um golfo amargo e singular.

Apraz-te mergulhar ao fundo de tua imagem!
Nos braços e no olhar a tens; teu coração
Às vezes se distrai da interna agitação
Ouvindo a sua queixa indômita e selvagem.

Sempre fostes os dois reservados e discretos:
Homem – ninguém sondou as tuas profundezas;
Mar – ninguém te conhece as íntimas riquezas;
Tão zelosos que sois de guardar tais segredos.

Já séculos se vão, contudo, inumeráveis
Em que lutais sem dó um combate de fortes;
E como vós amais os massacres e as mortes,
Ó eternos rivais, ó irmãos implacáveis!
 
Charles Baudelaire

Correspondências


Amo a recordação daqueles tempos nus
Quando Febo esculpia as estátuas na luz.
Ligeiros, Macho e fêmea, fiéis ao som da lira,
Ali brincavam sem angústia e sem mentira,
E, sob o meigo céu que lhes dourava a espinha,
Exibiam a origem de uma nobre linha.
Cibele , então fecunda em frutos generosos,
Nos filhos seus não via encargos onerosos:
Qual loba fértil em anônimas ternuras,
Aleitava o universo com as tetas duras.
Robusto e esbelto, tinha o homem por sua lei
Gabar-se das belezas que o sagravam rei,
Sementes puras e ainda virgens de feridas,
Cuja macia tez convidava às mordidas!

Quando se empenha o Poeta em conceber agora
Essas grandezas raras que ardiam outrora,
No palco em que a nudez humana luz sem brio
Sente ele n'alma um tenebroso calafrio
Ante esse horrendo quadro de bestiais ultrajes.
Ó quanto monstro a deplorar os próprios trajes!
Ó troncos cômicos, figuras de espantalhos!
Ó corpos magros, flácidos, inflados, falhos,
Que o deus utilitário, frio e sem cansaço,
Desde a infância cingiu em suas gases de aço!
E vós, mulheres, mais seráficas que os círios,
Que a orgia ceva e rói, vós, virgens como lírios,
Que herdaram de Eva o vício da perpetuidade
E todos os horrores da fecundidade! 
 
Possuímos, é verdade, impérios corrompidos,
Com velhos povos de esplendores esquecidos:
Semblantes roídos pelos cancros da emoção,
E por assim dizer belezas de evasão;
Tais inventos, porém, das musas mais tardias
Jamais impedirão que as gerações doentias
Rendam à juventude uma homenagem grave
– À juventude, de ar singelo e fronte suave,
De olhar translúcido como água de corrente,
E que se entorna sobre tudo, negligente,
Tal qual o azul do céu, os pássaros e as flores,
Seus perfumes, seus cantos, seus doces calores.
 
Charles Baudelaire

Elevação


Por sobre os pantanais, os vales orvalhados,
As montanhas, os bosques, as nuvens, os mares,
Para além do ígneo sol e do éter que há nos ares,
Para além dos confins dos tetos estrelados,

Flutuas, meu espírito, ágil peregrino,
E, como um nadador que nas águas afunda,
Sulcas alegremente a imensidão profunda
Com um lascivo e fluido gozo masculino.

Vai mais, vai mais além do lodo repelente,
Vai te purificar onde o ar se faz mais fino,
E bebe, qual licor translúcido e divino,
O puro fogo que enche o espaço transparente.

Depois do tédio e dos desgostos e das penas
Que gravam com seu peso a vida dolorosa,
Feliz daquele a quem uma asa vigorosa
Pode lançar às várzeas claras e serenas;

Aquele que, ao pensar, qual pássaro veloz,
De manhã rumo aos céus liberto se distende,
Que paira sobre a vida e sem esforço entende
A linguagem da flor e das coisas sem voz!
 
Charles Baudelaire

Ao leitor


A tolice, o pecado, a usura, o desatino,
Corroem nossos corpos, nosso pensamento
E a remorsos amáveis damos alimento,
Como mendigos nutrem vermes no intestino.

Pecados insistentes, perdão nem falar;
As nossas confissões liberamos a custo,
E retornamos pelos pântanos sem susto,
Crendo com pranto vil nossas manchas lavar.

Na almofada do mal é Satã Trimegisto
Que longamente embala o nosso coração,
E o valioso metal da vontade de ação
Dissolvido se vê pelo sábio alquimista.

É o Diabo que nos sustém, por fios seguros!
A tudo que repugna achamos natural;
Cada dia para o Inferno vamos um degrau,
Sem horror, através de pútridos escuros.

Como um devasso pobre que beija e come
Da velha prostituta o seio denegrido,
Subtraímos esquivos prazer escondido
Como velha laranja espremida com fome.

Denso, e a pulular como um milhão de helmintos,
Um povo de Demônios assalta a razão,
E quando respiramos, a Morte no pulmão
Desce, invisível rio, em lamentos furtivos.

Se o estupro, o veneno, o incêndio, a punhalada,
Ainda não bordaram com traços ditosos
O tecido de nossos destinos piedosos,
É que nossa alma, ai ai! Não é bastante ousada.

Mas em meio às panteras, aos chacais e aos linces,
Macacos, escorpiões, abutres e serpentes,
Os monstros guinchadores, urrantes, frementes,
No infamante estábulo de nossos crimes,

Há bicho ainda mais feio, e bem mais imundo!
Que mesmo sem causar excessivo alvoroço,
Faria de bom grado da terra um destroço
E num bocejo só devastaria o mundo.

É o Tédio! – No olho brota uma lágrima então,
Sonha com cadafalsos fumando cachimbo.
Tu conheces, leitor, esse monstro grã-fino,
– Hipócrita leitor, – meu igual, meu irmão!
 
Charles Baudelaire
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