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30 de maio de 2017

Busque Amor novas artes


Busque Amor novas artes, novo engenho
Para matar-me, e novas esquivanças,
Que não pode tirar-me as esperanças,
Que mal me tirará o que eu não tenho.

Olhai de que esperanças me mantenho!
Vede que perigosas seguranças!
Que não temo contrastes nem mudanças,
Andando em bravo mar, perdido o lenho.

Mas, enquanto não pode haver desgosto
Onde esperança falta, lá me esconde
Amor um mal, que mata e não se vê,

Que dias há que na alma tem posto
Um não sei quê, que nasce não sei onde,
Vem não sei como e dói não sei porquê.
 
Luís Vaz de Camões

12 de março de 2017

Ai, quão devagar passa a triste vida!


A vida já passei assaz contente;
livre tinha a vontade e o pensamento,
sem receios de Amor nem da Ventura.
Mas isto foi um bem de um só momento,
e à minha custa vejo claramente
que a vida não dá algum de muita dura.
No tempo em que eu vivia mais segura
de Amor e seu cuidado,
por me ver num estado
em que eu cuidei que Amor não tinha parte;
não sinto por qual arte
me vejo entregue a ele de tal sorte
que enquanto tarda a morte,
a esperança do bem tenho perdida.
Ai, quão devagar passa a triste vida!

Quantas vezes eu triste aqui ouvia
o meu Felício, e outros mil pastores,
queixar-se em vão de minha crueldade!
E mais surda então eu a seus clamores
que áspide surda, ou surda penedia,
julgava os seus amores por vaidade.
Agora, em pago disto, a liberdade,
a vontade e o desejo
de todo entregue vejo
a quem, inda que brade, não responde
pois vejo que se esconde
já debaixo da terra este que eu chamo,
que é aquele a quem amo;
aquele a quem agora estou rendida.
Ai, quão devagar passa a triste vida!

Que glória, Amor cruel, com meu tormento,
que louvor a teu nome acrescentaste?
Ou que te constrangeu a tal crueza,
que com tal pressa esta alma sujeitasse
a um mal, onde não basta o sofrimento?
Mas se, Amor, és cruel de natureza,
bastava usar comigo da aspereza
que usas com outra gente.
Mas tu, como semente
de ver-me estar morrendo te contentas,
quando mais me atormentas,
então desejas mais de atormentar-me;
e não queres matar-me
por que este mal de mi se não despida.
Ai, quão devagar passa a triste vida!

Onde cousa acharei que alegre veja?
A quem chamarei já que me responda?
Quem me dará remédio à dor presente?
Não há bem, que de mi já não se esconda;
nem algum verei já, que a mi o seja,
porque está quem o foi da vida ausente.
Eu alguma não vi tão descontente,
que Amor tão mal tratasse,
que inda não esperasse
a seus males remédio achar vivendo.
Eu só vivo sofrendo
um mal tão grave e tão desesperado,
que tanto é mais pesado
quanto a vida com ele é mais comprida.
Ai, quão devagar passa a triste vida!

Suaves águas, pura penedia,
arvoredo sombrio, verde prado,
donde eu já tive livre o pensamento;
frescas flores, e vós, meu manso gado,
que já me acompanhastes na alegria,
não me deixeis agora no tormento.
Se do mal meu vos toca sentimento,
dai-me para ele ajuda,
que eu tenho a língua muda,
o alento me vai já desamparando.
Mas quando – ai triste! – quando
de um dia uma hora me virá contente,
que eu te veja presente,
pastor meu, e contigo esta alma unida?
Ai, quão devagar passa a triste vida!

Mas não sei se é sobrado atrevimento
querer-se esta alma minha unir contigo,
pois dela foste já tão desprezado.
Amor me livrará deste perigo;
que, depois que lá vires meu tormento,
creio que te haverás por bem vingado.
E se inda em ti durar o amor passado
e aquela fé tão pura,
eu estou bem segura
que hás lá de receber-me brandamente.
Aprenda em mi a gente
quão cara uma isenção com Amor custa.
A pena dá bem justa
a uma alma que lhe é pouco agradecida.
Ai, quão devagar passa a triste vida!

Luís Vaz de Camões

30 de janeiro de 2017

Só porque vos vi


Tanto de meu estado me acho incerto
Que em vivo ardor tremendo estou de frio;
Sem causa, justamente choro e rio;
O mundo todo abarco e nada aperto.

É tudo quanto sinto um desconcerto;
Da alma um fogo me sai, da vista um rio;
Agora espero, agora desconfio,
Agora desvario, agora acerto.

Estando em terra, chego ao Céu voando;
Numa hora acho mil anos, e é de jeito
Que em mil anos não posso achar uma hora.

Se me pergunta alguém porque assim ando,
Respondo que não sei; porém suspeito
Que só porque vos vi, minha Senhora.

Luís Vaz de Camões

24 de janeiro de 2017

Fogo que arde sem se ver


Amor é fogo que arde sem se ver;
É ferida que dói e não se sente;
É um contentamento descontente;
É dor que desatina sem doer;

É um não querer mais que bem querer;
É solitário andar por entre a gente;
É nunca contentar-se de contente;
É cuidar que se ganha em se perder;

É querer estar preso por vontade;
É servir a quem vence, o vencedor;
É ter com quem nos mata lealdade. 
Mas como causar pode seu favor
Nos corações humanos amizade,
Se tão contrário a si é o mesmo amor?

Luís Vaz de Camões

9 de janeiro de 2017

Mudam-se os tempos


Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades,
Muda-se o ser, muda-se a confiança;
Todo o mundo é composto de mudança,
Tomando sempre novas qualidades.

Continuamente vemos novidades,
Diferentes em tudo da esperança;
Do mal ficam as mágoas na lembrança,
E do bem, se algum houve, as saudades.

O tempo cobre o chão de verde manto,
Que já coberto foi de neve fria,
E em mim converte em choro o doce canto.

E, afora este mudar-se cada dia,
Outra mudança faz de mor espanto,
Que não se muda já como soía.
 
Luís Vaz de Camões

26 de novembro de 2016

Alma minha gentil que te partiste


Alma minha gentil, que te partiste
Tão cedo desta vida, descontente,
Repousa lá no Céu eternamente
E viva eu cá na terra sempre triste.

Se lá no assento etéreo, onde subiste,
Memória desta vida se consente,
Não te esqueças daquele amor ardente
Que já nos olhos meus tão puro viste.

E se vires que pode merecer-te
Alguma cousa a dor que me ficou
Da mágoa, sem remédio, de perder-te,

Roga a Deus, que teus anos encurtou,
Que tão cedo de cá me leve a ver-te,
Quão cedo de meus olhos te levou.
 
Luís Vaz de Camões

25 de novembro de 2016

Aos desconcertos do mundo


Os bons vi sempre passar
No Mundo graves tormentos;
E para mais me espantar,
Os maus vi sempre nadar
Em mar de contentamentos.
Cuidando alcançar assim
O bem tão mal ordenado,
Fui mau, mas fui castigado.
Assim que, só para mim,
Anda o Mundo concertado.
 
Luís Vaz de Camões

22 de outubro de 2016

(Des)engano


Mundo, se te conhecemos,
porque tanto desejamos
teus enganos?
E, se assim te queremos,
muito sem causa nos queixamos
de teus danos.

Tu não enganas ninguém,
pois a quem te desejar
vemos que danas;
se te querem qual te vem,
se se querem enganar,
ninguém enganas.

Vejam-se os bens que tiveram
os que mais em alcançar-te
se esmeraram;
que uns, vivendo, não viveram,
e os outros, só com deixar-te,
descansaram.

E se esta tão clara fé
te aclara teus enganos,
desengana;
sobejamente mal vê
quem, com tantos desenganos,
se engana.

Mas como tu sempre morres
no engano em que andamos e que vemos,
não cremos o que tu podes,
senão o que desejamos
e queremos.

Nada te pode estimar
quem bem quiser estimar-te
e conhecer-te;
que em te perder ou ganhar,
o mais seguro ganhar-te
é perder-te.

E quem em ti determina
descanso poder achar,
saiba que erra;
que sendo a alma divina,
não a pode descansar
nada da terra.

Nascemos para morrer,
morremos para ter vida,
em ti morrendo.
O mais certo é merecer
nós a vida conhecida,
cá vivendo.

Enfim, mundo, és estalagem
em que pousam nossas vidas
de corrida;
de ti levam de passagem
ser bem ou mal recebidas
na outra vida.

Luís Vaz de Camões
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