23 de outubro de 2016

Desertos




A palavra deserto não é muito amigável. Alguma coisa dentro de mim se incomoda com sua aparição em uma leitura ou diálogo. A razão disso é bastante simples: um deserto, por definição, é um lugar com pouca ou nenhuma vida, é um lugar que para o homem é inóspito, é mais um local de passagem obrigatória entre duas terras férteis do que um lar. Local em que céu e terra se encontram e se abraçam, feito de contrastes entre o frio e o calor, a claridade e a escuridão absolutas, entre a imensidão do próprio deserto e a sensação de pequenez que acomete todo aquele que por ele passa, de tempestades violentas contra as quais pouco ou nada se pode fazer, símbolo inequívoco da morte: o deserto é uma terra maldita.
Entretanto, é curioso que pessoas mais ou menos famosas como Abraão, Jesus e Maomé tenham procurado o deserto, de livre e espontânea vontade. Ei-los, os fundadores das três grandes religiões monoteístas indo ao deserto não para atravessá-lo, mas para ali permanecer por certo tempo, em busca de algo que o convívio entre os homens não podia lhes oferecer. Para nós, que somos seres que se consideram modernos e racionais e, geralmente, vivemos em cidades apinhadas de gente, uma temporada sozinho no deserto soaria no mínimo como uma aventura inusitada e, em última instância, razão mais do que suficiente para internação em algum hospital psiquiátrico.
O deserto... O deserto não é grande. O deserto é imenso! Ou seja, é de uma grandeza até mensurável, em termos geográficos, mas incomensurável, em termos de vivência. Uma coisa é arquear os dedos polegar e indicador sobre um mapa e dizer, com a fria certeza científica, que o deserto tal tem trocentos quilômetros quadrados. Outra coisa é se despedir dos seus entes queridos e, apesar da incompreensão e protestos deles, ir de corpo e alma ao deserto. Só quem atravessa um deserto pode dizer de quantas e de quais grandezas ele é feito. E que tal ali permanecer sozinho por um tempo? Você já passou por uma experiência pelo menos similar a essa? Julga-se capaz de avaliá-la sem tê-la vivido? O que os três grandes profetas foram fazer ali? Eu, que não sou profeta, nem religioso e nem atravessei um deserto de verdade, arrisco um palpite, pretensioso que sou.
No entanto, antes de chegar aos profetas, preciso estar entre nós. Em nossas vidas cotidianas, o que menos falta é a presença de outras pessoas, nos metrôs lotados, nos ônibus lotados, nas linhas de produção, nos estádios, nos supermercados e até (que ironia...) nas igrejas. O tempo todo estamos na companhia de outras pessoas, independente de estas pessoas serem completamente desconhecidas ou pessoas que conhecemos e em relação às quais dependemos, psicologicamente, em maior ou menor grau. Aqueles que não moram sozinhos sabem disso mais do que aqueles que moram sozinhos, mas todos, sem exceção, não moram em desertos. Mesmo o mais isolado habitante da cidade grande é atingido, ativa ou passivamente, pela presença da coletividade, seja pela televisão, pela publicidade, pelos elevadores lotados e silenciosos ou até mesmo por sentir-se bastante solitário em meio à multidão.
Há um enorme deserto nas grandes cidades. A modernidade, que é calcada na individualidade que geralmente se metamorfoseia em individualismo, se a analisarmos não em termos tecnológicos, mas em termos humanos, é um grande deserto. Atualmente, graças à internet, eu posso ter um "amigo" na Tailândia, mas a malícia necessária para se sobreviver impede-me de sequer saber qual é o nome daquele meu vizinho que cultiva um ou dois hábitos que desaprovo em meu íntimo, ou com quem simplesmente não fui com a cara. Sim, o tempo todo buscamos subterfúgios para tentar resgatar uma certa ideia de comunidade ancestral que a própria modernidade com o seu "ter" e o seu "comprar" e o seu "competir" fez questão de destruir, ou quase. Estamos tão ocupados em juntar dinheiro, atingir metas materiais ou nos diferenciarmos daqueles que nos cercam (garantindo assim o culto ao nossos deuses chamados Liberdade e Independência) que mal nos importamos com o sofrimento daqueles que, julgamos nós, "amamos". Passamos boa parte do nosso tempo criando ou aumentando desertos, e nisso somos especialistas de primeira grandeza. Sobre as pessoas que conhecemos, é mais fácil e tentador fazer fofocas maliciosas com a intenção de denegri-las do que tecer-lhes elogios e seguir-lhes os bons exemplos. As críticas avultam, a admiração mingua. É a auto-afirmação em tempo integral, e essa auto-afirmação em tempo integral é o deserto particular de cada um de nós, pois é ele que nos mantêm sozinhos e apartados. Sou capaz de me emocionar com a perseverança de um povo indígena cujos sobreviventes são apenas quinze membros, que apesar de poucos possuem laços humanos suficientemente fortes entre si para se considerarem um povo (quinze membros!). Mas quando me debruçava sobre o passadiço na estação Sé do metrô, em São Paulo, e via centenas de desconhecidos entre si acotovelando-se freneticamente, uma parte de mim morria com esse acotovelamento, uma parte de mim sentia-se... um deserto... Deserto imenso, tão mais imenso quanto maior era o número de pessoas e maior a indiferença entre elas, e entre eu e elas, e entre elas e eu.
Os três profetas pregaram, cada um em sua época, a seu próprio povo. Mas antes disso os três fizeram um "estágio" no deserto. Sozinhos. Completamente sozinhos. E apesar de estarem completamente sozinhos, ali eles pregaram. Encheram seus pulmões e falaram como se multidões atentas e sedentas ali estivessem, ajoelhadas, prontas para beber da fonte da sabedoria. Mas não havia ninguém... Ninguém? Claro que havia, havia eles mesmos. É engraçado isso, quando estamos sós e falamos algo, costumamos dizer que ninguém nos escutou. Mas nós escutamos o que dizemos, e dizer algo é muito mais do que pensar em algo. O isolamento silencioso, no qual os pensamentos sucedem-se ininterruptamente é radicalmente diferente de uma conversa em voz alta consigo mesmo a poucos centímetros do espelho do banheiro. Se eu digo ou penso constantemente que eu sou um merda, então é fatal: serei um merda. Se eu digo ou penso constantemente que eu sou um deus, então fatalmente serei um deus (mesmo que você não acredite em mim, não é esse o ponto). É fato: costumamos subestimar o poder da palavra. Há muitas pessoas que falam sem parar, e geralmente a substância de suas palavras é quebradiça, pois quem fala muito não raro nada diz. Avaliamos o tempo todo o quanto os outros escutam do que dizemos, ou quanto entendemos daquilo que os outros nos dizem. Aquilo que dizemos a nós mesmos, no entanto, normalmente é tido como verdade pura e simples. E assim será, enquanto quisermos.
Desconfio que os três profetas sabiam disso, senão racionalmente, pelo menos intuitivamente. Disse anteriormente que eles viviam em cidades apinhadas de gente e que procuravam algo que o convívio entre os homens não podia suprir. Disse que o deserto é um símbolo inequívoco da morte. E eles morreram, os três: morreram quando pregaram no deserto. Quando seus ouvidos escutaram o que suas bocas tinham a dizer, três homens morreram e três profetas nasceram. Foram ao fundo de si mesmos e dali retornaram transformados. A imensidão do deserto físico fez eco à imensidão do deserto interior deles, deserto formado nas cidades pela impessoalidade das pessoas. E creio eu que eles entenderam que o deserto verdadeiro começa onde há duas ou mais pessoas (amai ao próximo...). Todos os três voltaram do deserto pregando amor, bondade, união... o fim dos desertos. Um disse que só havia um deus verdadeiro (isso é discutível), outro disse que era a encarnação de deus e que carregaria nossos pecados em suas costas (isso também é discutível) e o terceiro disse que o fim está próximo e que os últimos não crentes devem se submeter à vontade divina (isso é discutível também). Mas o que me parece indiscutível é que desertos existem, que nós existimos e que o mundo já teve profetas demais para continuarmos desmatando nossas almas.
 
André Faustino

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