23 de outubro de 2016

Estupra mas não mata


Senhores, senhoras, cristãos revoltados dos quatro cantos da Terra. Eu, simples mortal, venho prestar minha humilde, porém contundente homenagem ao arcebispo de Olinda e Recife: Dom José Cardoso Sobrinho, bastião e orgulho da Santa Madre Igreja Católica Apostólica Romana, amém. Posso certamente imaginar o leitor com o cenho franzido, apreensivo, imaginando por que estou aqui a defender essa nobre pessoa, vítima nos últimos dias dos vilipêndios proferidos pelas ovelhas desgarradas da milenar sabedoria teológica da instituição mais antiga do mundo em funcionamento. Como argumentarei nas próximas linhas, os dizeres do arcebispo a respeito do aborto realizado em uma menina de nove anos só têm a contribuir para a construção de um mundo mais humano e esclarecido. Passemos aos fatos sem mais delongas.
Em entrevista a diversos jornalistas, o arcebispo defendeu a excomunhão de uma menina que foi estuprada por seu padrasto. Sobre o estupro, o arcebispo disse: "Esse padrasto cometeu um pecado gravíssimo. Agora, mais grave do que isso, sabe o que é? O aborto, eliminar uma vida inocente". Que fique claro: o estupro, apesar de não apoiado pela Igreja, não é um ato indigno o suficiente para sequer aventar-se a hipótese de se excomungar o estuprador. Séculos de estudos teológicos e zelo eclesiástico sustentam essa posição. O padrasto, que inclusive admitiu o crime perante as autoridades civis, precisará sem dúvida alguma submeter-se às penitências impostas pela Igreja, ou seja, regenerar-se através da oração e da fé: Deus misericordioso o perdoará, embora não haja certeza alguma quanto a isso. Para a Igreja, porém, isso é o quanto basta. Além disso, ele poderá receber todos os sacramentos da Igreja, até o último, que é a extrema-unção, ou seja, a última confissão dos pecados antes de o corpo ser abandonado pela alma. Dito de outra maneira: o padrasto pode acalentar a esperança de ir para o céu após o julgamento de sua alma no Juízo Final.
O mesmo não se pode dizer da menina, da mãe dela e da equipe médica que participou do aborto. Estes, excluídos pela excomunhão dos sacramentos da Igreja, estão automaticamente com o acesso vedado aos portões do paraíso. São, aos olhos das ímpias autoridades civis, inocentes. Porém, aos olhos da Santa Igreja, são pecadores da pior estirpe: "A Igreja nunca pode trair o seu anúncio, que é defender a vida desde a concepção até a morte natural, mesmo em face de um drama humano tão forte como o da violência contra uma criança" - disse Gianfranco Grieco, chefe do Conselho Pontifício para a Família do Vaticano em nota de apoio ao arcebispo Sobrinho. Se eu fosse a menina de nove anos, a mãe dela, ou um dos médicos que participou do aborto, começaria a me acostumar com a ideia de sentir o cheiro de enxofre por toda a eternidade. Nada mais merecido aos que atentam contra a vida, diz a Igreja.
Isso dito, não cabe aqui o argumento demasiado frágil de que a menina, caso prosseguisse com sua gestação, correria o risco de morrer antes de o feto desenvolver-se completamente. Não, meus senhores, como o digníssimo arcebispo não nos deixou esquecer: "a lei de Deus está acima de qualquer lei humana". Em outros termos, se a criança de nove anos morresse isso seria a vontade de Deus, que só Sua Santidade, o papa Bento XVI, pode apropriadamente interpretar. Não esqueçamos que todos os papas são amparados pelo dogma da infalibilidade papal, ou seja, de acordo com a Igreja, qualquer pessoa eventualmente erra, menos o papa. A menina devia correr o risco de morte, apesar de todos os indícios apontarem para o fato de que o feto iria morrer de qualquer maneira, com ou sem aborto. A excomunhão estendeu-se da menina à sua mãe e à equipe médica porque estes, desatentos aos desígnios de Deus e da Santa Igreja, cometeram a enorme crueldade (esses inimigos da fé!) de preocupar-se em salvar a vida da menina. Aos olhos da Santa Igreja, todos se colocaram acima das leis de Deus.
Senhores! Senhoras! A Santa Igreja já sofreu os mais variados revezes: no século XVI, milhões de almas foram arrancadas do seio da verdadeira Igreja pelas mãos dos hereges protestantes. E esse foi o mal menor. Depois, veio primeiro Darwin, a contestar o Gênesis, e depois Marx, a duvidar da própria existência do Altíssimo. No século passado, esse longo século de mundanidade babilônica, a educação laica se impôs e os templos esvaziaram-se num ritmo crescente. Aqueles que se declaram católicos são, como se sabe, cada vez mais não praticantes, e distanciam-se por negligência dos ensinamentos da Santa Igreja.
Um caso como esse, envolvendo um estupro seguido da excomunhão da vítima, gerou infelizmente um sentimento de revolta no coração da maioria dos cristãos (é realmente triste quando uma ovelha se põe a raciocinar...). O que virá depois? Será que as pessoas, gozando do sabor da liberdade de viés iluminista, começarão a desconsiderar as determinações da Santa Igreja ao conduzirem suas vidas? Continuarão, por exemplo, a utilizar os métodos anticoncepcionais que só atentam contra o milagre e a dádiva da vida, só porque criar filhos com dignidade custa muito tempo e dinheiro? Prestarão mais atenção às leis civis do que aos dogmas da religião, só porque a realidade é mutante e as leis da Igreja não? Continuarão, como alguns fazem, a questionar o pressuposto da infalibilidade papal ou, ainda, a buscar o contato com o divino sem o intermédio da Igreja?
Meu Deus, onde vamos parar? Não seria o caso de o Senhor destruir essa nova Gomorra ou, nós, honrados cristãos que seguimos o ensinamento máximo de amar ao próximo como a nós mesmos, lançarmos uma cruzada purificadora que elimine todos os pecadores dos quatro cantos da terra (que como todos sabem é plana)?

André Faustino

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