23 de outubro de 2016

Não ser


Sinto um cansaço incomum, diferente da fadiga física que se segue a um trabalho penoso e prolongado e diferente do cansaço mental que via de regra acompanha quem pensa continuamente sobre uma questão de importância superlativa ou tem que lidar com várias situações-problema simultaneamente. Trata-se, mais exatamente, de um cansaço existencial. Hoje, queria simplesmente poder não existir. Ou ser um animal bruto, que tudo sofre e tudo sente, mas que de nada guarda memória nem se remói pensando sobre o sentido das coisas, as aflições que se afiguram no futuro próximo, as feridas não cicatrizadas que gotejam sangue. Queria estar deitado sobre um pequeno bote sem velas perdido na imensidão do oceano, balançando ao sabor das ondas, sentindo, talvez, gotas de chuva chorando sobre meu corpo, ou aceitando calmamente uma onda mais forte me arrojar ao escuro abismo. Queria ser o som salgado da onda que se esparrama sobre a praia ou a dureza teimosa e cristalina de um insignificante grão de areia. Queria ser um guizo chocando-se contra o tornozelo de uma dançarina, uma pedrinha dentro de um chocalho, uma pluma esvoaçando sobre um pasto deserto. Queria colo de mãe, ou o odor latejante de peitos fartos. Queria a paciência da feminina mão ancestral num cafuné rítmico e constante que me fizesse adormecer e acordar apenas uma semana depois, com amnésia. Queria um sonho bom e infinito ou uma canção de ninar com cheiro de sopa de legumes. Queria o abraço forte e lacrimoso que só um amigo saberia dar, quando se aflige por minha causa. Queria deitar na terra num feriado de cem séculos. Queria ser terra. Queria passar mais nove meses na barriga de qualquer mãe (e nascer morto), ou doze luas ao relento. Queria não mais querer e simplesmente sentir-me em paz.

André Faustino

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