23 de outubro de 2016

O ano começou


As pessoas podem ser divididas em duas categorias: aquelas que adoram o calor e aquelas que, como eu, são normais.
Piadinha infame à parte, a primeira frente fria chegou, avisando que o inverno de fato não tarda. Ainda bem. Embora adore uma piscina e até uma praia de vez em quando, o fato é que o calor exerce um efeito danoso sobre meu humor e minha disposição física e mental. É como se eu, no calor, fosse uma máquina que funcionasse com apenas metade da sua capacidade produtiva. Qualquer refeição, mesmo as pequenas, me deixa sonolento quando a temperatura é alta. É por isso que gosto de comer feijoada em dias quentes: obrigado a dormir muitas horas logo após a refeição, subtraio ao verão, vingativamente, algumas horas da minha vida consciente. As roupas suadas e grudentas causam-me um desconforto enorme. Tenho a impressão de que num dia bem quente até meus pensamentos não conseguem ser terminados e espatifam-se no mormaço. Agora é diferente: se para a maioria dos brasileiros o ano só começa pra valer depois do Carnaval, pra mim o ano só começa agora.
O reveillon do meu calendário oficial foi ontem. Após uma sequência de dias irritantemente calorentos, uma chuva daquelas caiu. Chuva daquelas é chuva com direito a vento forte, trovoada e que demora horas para terminar e, quando essa terminou, já era noite. Ou seja, o sol inclemente não iria transformar a água caída em mormaço sufocante. O vento continuou soprando, menos forte é verdade, mas soprou sem parar, obrigando muitos a tirar dos seus armários cobertores grossos guardados muitos meses antes. E constatei, satisfeito, que essa é a época dos capucinos, dos filmes para se assistir embaixo de um bom edredom, das receitas gordurosas (colesterol é vida!) e dos dias em que o suor dá umas férias pra gente.
Hoje o dia amanheceu friozinho, mas à tarde o sol começou seu bombardeio e esquentou novamente. "Ele não vai parar, o maldito!", pensei comigo mesmo, desanimando. Entretanto, apesar do frio ter ido embora, o calor não chegou. Quando anoiteceu, o frio voltou sem chuva e com muito vento. Há pouco saí na rua para uma curta caminhada. O bairro onde moro é excessivamente tranquilo e mal iluminado, o que me obriga a imaginar crimes incríveis que poderiam ocorrer por aqui, pra chacoalhar a monotonia. Mas esse silêncio e escuridão foram abençoados hoje, pois o vento balançando a folhagem das árvores produziu um efeito sonoro que não é daqui: o de ondas suaves arrebentando contra rochas. Parei minha caminhada um instante, senti o frio na pele e fechei os olhos por alguns segundos. E sorri. Seja bem-vindo, Sr. Frio.

André Faustino

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