Eu ainda era criança quando minha mãe me contou um episódio da infância dela.
Nascida no tempo em que era comum cada criança ter uma penca de irmãos, minha mãe dividia seu tempo entre as brincadeiras e os afazeres domésticos, e tinha mais ferramentas do que brinquedos. Carne era um luxo reservado para os domingos. Não havia geladeira, só um móvel de madeira, hoje extinto, chamado de guarda-comida, de onde minha bisavó tirava pães velhos recobertos de bolor que eram raspados com faca até ficarem apresentáveis: então fatiava-os, distribuindo cada quinhão aos filhos e netos cansados que rodeavam a mesa. Pobres a ponto de poder manter a dignidade e nada mais, meus bisavós tinham uma pequena propriedade rural nas cercanias de Araraquara. Irmã mais velha, logo minha mãe foi incumbida por minha avó de ajudar nos serviços domésticos. Com nove anos, cozinhava para todos em pé sobre um banquinho, para poder alcançar a pia da cozinha. Chorosa, enterrou a morta Teresa, boneca de papelão decorada com as cores da imaginação, que por esquecimento tomou chuva e se desfez qual bolacha mabel no leite quente. Curiosa, lia livros e gibis escondida, pois segundo minha avó instrução era coisa de homem: às mulheres bastava ser boa dona de casa e preparar-se para o celibato emocional do casamento. Quando flagrava minha mãe lendo, minha avó atirava os gibis em direção ao forro, posto que a casa não tinha teto de concreto. Aos domingos, enquanto os homens carrancudos e silenciosos permaneciam na sala de estar fumando e escutando no rádio as últimas notícias, ela e as outras mulheres ficavam entregues a si mesmas, na cozinha ou no quintal, completamente alheias ao que acontecia fora de Araraquara. Não foi fácil a infância dela.
O episódio que ela me contou foi o seguinte. Certa noite, munida apenas de uma caixa de fósforos vazia, ela saiu sozinha de casa e dirigiu-se pelo quintal em direção ao mato mais próximo. Sua intenção era aprisionar vaga-lumes. Vale lembrar que na época as cidades eram menores, e por isso era fácil encontrar vaga-lumes: hoje, para cada vaga-lume visto você terá visto antes 487 pombas, 5 yorkshires, 16 poodles, 2 psicopedagogas sexualmente frustradas e uma marcha evangélica. Minha mãe conseguiu aprisionar uma quantidade razoável de vaga-lumes dentro da caixinha de fósforos. Afoita, correu para dentro de casa. Entrou num quarto vazio e totalmente escuro e então abriu a caixinha de fósforos, libertando ao mesmo tempo todos os vaga-lumes aprisionados.
Quando ela me contou essa história, parecia que pingava açúcar da boca dela, como se a visão dos vaga-lumes iluminando o quarto fosse mais bela que a visão do Paraíso por Dante. Um lampejo daquela felicidade recordada brilhou em seus olhos, e me iluminou também. Como disse antes, eu era criança quando ouvi essa história.
Muitos anos se passaram até que minha mãe me fizesse uma revelação que desde então fica dando cambalhotas dentro de mim: toda vez que ela sonha comigo, eu tenho cinco anos de idade, e sou daquelas crianças meigas e bochechudas com olhar de cachorro abandonado que fazem qualquer ser humano recobrar a fé na humanidade. Será que é por que eu sou o caçula de uma mãe italiana ("Come senão eu me mato!")? Será que é por que eu não era tão problemático quando era criança? Será que é por que algo daquela criança ainda vive em mim, algo que eu não vejo e ela sempre viu? Não consigo abstrair, só invejar, o edenismo desse sentimento.
Poucos meses atrás, numa noite de domingo, saindo da casa da minha ex-noiva, dei quarenta passos até um matagal próximo com o intuito de praticar um dos meus esportes favoritos: dissolver-me nas sombras e no silêncio. O interessante é que há um córrego que passa no meio desse mato encravado entre bairros aqui de Marília. Isso significa que além do mato, havia uma profusão de sons de grilos e rãs inspiradas que compunham um cenário paradisíaco com a noite fresca, o céu estrelado e a lua cheia. Silencioso, comecei a respirar mais devagar, deixando que essa orquestra da natureza usasse meu coração como caixa de som. Então, inesperadamente, uma luz brilhou a poucos centímetros do meu rosto: era um vaga-lume! Como que vítima de uma avalanche, lembrei-me ao mesmo tempo da infância da minha mãe, de que ela sempre lembrava de mim criança, de que estamos em cidades diferentes e... senti uma saudade ancestral dentro de mim. Não sei se toda vez que lembrar de minha mãe lembrarei dos vaga-lumes, mas sei que toda vez que um vaga-lume piscar pra mim, me lembrarei dela.
Minha mãe, minha heroína, minha criança que mal teve infância, que casou com um homem que não amava e que o álcool tornou insuportável, que criou três filhos na raça e que foi tão maltratada por todos os três, que sofre em silêncio no silêncio de sua própria voz, que está sempre atenta e preocupada com os filhotes como uma ursa, que cozinha moela pra mim toda vez que vou pra Araraquara: eu te amo! eu te admiro! eu te agradeço! No fundo da minha alma, você é o reflexo da luz do vaga-lume nos seus olhos extasiados de criança, com o sorriso plácido que há tempos não vejo arqueando seus lábios.
Nascida no tempo em que era comum cada criança ter uma penca de irmãos, minha mãe dividia seu tempo entre as brincadeiras e os afazeres domésticos, e tinha mais ferramentas do que brinquedos. Carne era um luxo reservado para os domingos. Não havia geladeira, só um móvel de madeira, hoje extinto, chamado de guarda-comida, de onde minha bisavó tirava pães velhos recobertos de bolor que eram raspados com faca até ficarem apresentáveis: então fatiava-os, distribuindo cada quinhão aos filhos e netos cansados que rodeavam a mesa. Pobres a ponto de poder manter a dignidade e nada mais, meus bisavós tinham uma pequena propriedade rural nas cercanias de Araraquara. Irmã mais velha, logo minha mãe foi incumbida por minha avó de ajudar nos serviços domésticos. Com nove anos, cozinhava para todos em pé sobre um banquinho, para poder alcançar a pia da cozinha. Chorosa, enterrou a morta Teresa, boneca de papelão decorada com as cores da imaginação, que por esquecimento tomou chuva e se desfez qual bolacha mabel no leite quente. Curiosa, lia livros e gibis escondida, pois segundo minha avó instrução era coisa de homem: às mulheres bastava ser boa dona de casa e preparar-se para o celibato emocional do casamento. Quando flagrava minha mãe lendo, minha avó atirava os gibis em direção ao forro, posto que a casa não tinha teto de concreto. Aos domingos, enquanto os homens carrancudos e silenciosos permaneciam na sala de estar fumando e escutando no rádio as últimas notícias, ela e as outras mulheres ficavam entregues a si mesmas, na cozinha ou no quintal, completamente alheias ao que acontecia fora de Araraquara. Não foi fácil a infância dela.
O episódio que ela me contou foi o seguinte. Certa noite, munida apenas de uma caixa de fósforos vazia, ela saiu sozinha de casa e dirigiu-se pelo quintal em direção ao mato mais próximo. Sua intenção era aprisionar vaga-lumes. Vale lembrar que na época as cidades eram menores, e por isso era fácil encontrar vaga-lumes: hoje, para cada vaga-lume visto você terá visto antes 487 pombas, 5 yorkshires, 16 poodles, 2 psicopedagogas sexualmente frustradas e uma marcha evangélica. Minha mãe conseguiu aprisionar uma quantidade razoável de vaga-lumes dentro da caixinha de fósforos. Afoita, correu para dentro de casa. Entrou num quarto vazio e totalmente escuro e então abriu a caixinha de fósforos, libertando ao mesmo tempo todos os vaga-lumes aprisionados.
Quando ela me contou essa história, parecia que pingava açúcar da boca dela, como se a visão dos vaga-lumes iluminando o quarto fosse mais bela que a visão do Paraíso por Dante. Um lampejo daquela felicidade recordada brilhou em seus olhos, e me iluminou também. Como disse antes, eu era criança quando ouvi essa história.
Muitos anos se passaram até que minha mãe me fizesse uma revelação que desde então fica dando cambalhotas dentro de mim: toda vez que ela sonha comigo, eu tenho cinco anos de idade, e sou daquelas crianças meigas e bochechudas com olhar de cachorro abandonado que fazem qualquer ser humano recobrar a fé na humanidade. Será que é por que eu sou o caçula de uma mãe italiana ("Come senão eu me mato!")? Será que é por que eu não era tão problemático quando era criança? Será que é por que algo daquela criança ainda vive em mim, algo que eu não vejo e ela sempre viu? Não consigo abstrair, só invejar, o edenismo desse sentimento.
Poucos meses atrás, numa noite de domingo, saindo da casa da minha ex-noiva, dei quarenta passos até um matagal próximo com o intuito de praticar um dos meus esportes favoritos: dissolver-me nas sombras e no silêncio. O interessante é que há um córrego que passa no meio desse mato encravado entre bairros aqui de Marília. Isso significa que além do mato, havia uma profusão de sons de grilos e rãs inspiradas que compunham um cenário paradisíaco com a noite fresca, o céu estrelado e a lua cheia. Silencioso, comecei a respirar mais devagar, deixando que essa orquestra da natureza usasse meu coração como caixa de som. Então, inesperadamente, uma luz brilhou a poucos centímetros do meu rosto: era um vaga-lume! Como que vítima de uma avalanche, lembrei-me ao mesmo tempo da infância da minha mãe, de que ela sempre lembrava de mim criança, de que estamos em cidades diferentes e... senti uma saudade ancestral dentro de mim. Não sei se toda vez que lembrar de minha mãe lembrarei dos vaga-lumes, mas sei que toda vez que um vaga-lume piscar pra mim, me lembrarei dela.
Minha mãe, minha heroína, minha criança que mal teve infância, que casou com um homem que não amava e que o álcool tornou insuportável, que criou três filhos na raça e que foi tão maltratada por todos os três, que sofre em silêncio no silêncio de sua própria voz, que está sempre atenta e preocupada com os filhotes como uma ursa, que cozinha moela pra mim toda vez que vou pra Araraquara: eu te amo! eu te admiro! eu te agradeço! No fundo da minha alma, você é o reflexo da luz do vaga-lume nos seus olhos extasiados de criança, com o sorriso plácido que há tempos não vejo arqueando seus lábios.
André Faustino

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