A compreensão dos padrões vitais, que se desdobram em variados graus de intensidade, desde o primordial, uno e único, o mais íntimo Eu e Âmago de todas as existências, o "Poder sagrado" - Brahman-Atman - não pode ser alcançada por meio da lógica pois esta rejeita como absurdo e, portanto, impossível, tudo quanto vai contra as regras da razão. Por exemplo, 1 + 1 é logicamente 2, nunca 3 ou 5, e jamais pode recuar para 1. Mas as coisas não ocorrem desta maneira no campo dos processos vitais da natureza, onde os mais ilógicos desenvolvimentos acontecem a cada dia por todas as partes, como algo muito normal. As regras da vida não obedecem à lógica mas sim à dialética; os raciocínios da natureza não são como os da mente, mas como os do nosso ventre ilógico, nossa faculdade de procriar, o aspecto vegetativo e animal de nosso microcosmo. Nesta esfera, a esfera da dialética biológica, a esfera ilógica das forças naturais e vitais, 1 + 1 geralmente está muito longe de continuar sendo 2 por muito tempo.
Suponhamos, por exemplo, que um 1 é macho e o outro 1 é fêmea. Quando do primeiro encontro, não são mais que 1 + 1 que é 2; quando se enamoram e unem seus destinos, convertem-se em 1 + 1 que é 1 "para melhor ou pior". O santo sacramento - pelo menos em sua forma mais solene, antiga e mágica, como preservada no ritual católico romano - insiste com ênfase na ideia de que agora os dois "se fizeram uma só carne" (una caro facta est). Na verdade, é exatamente esta união que retira a mácula, a suspeita ou o quê de pecado que acompanha toda forma de relacionamento carnal entre os sexos, segundo a ascética crença cristã. O fato de que os dois tenham se transformado em um através da realização do sacramento torna o casal isento de concupiscentia, de pecaminosidade, consagrando sua união sexual. Assim, por uma transmutação mágica, 1 + 1 significativamente torna-se 1; a fórmula sacramental expressa apenas o que, de fato, é a experiência básica de todos os verdadeiros amantes quando se encontram e se unem com laços que prenunciam a felicidade de uma única perspectiva para suas duas vidas.
A alquimia da natureza, fundindo os dois corações num fogo mútuo, reduz o 1 + 1 a 1 feito de 2. Mas a alquimia da natureza não para aqui. Ao invés da usual tábua da multiplicação que aprendemos na escola e utilizamos nos negócios e em cálculos práticos, a natureza aplica a tábua de multiplicação das bruxas ou feiticeiros. Após uma breve espera, quando 1 + 1 tenham se convertido em 1, a dupla casada normalmente expande-se numa tríade: nasce a primeira criança. E, se a evolução não for controlada por planos prudentes, desenvolve-se uma irrefreável série. O 1 que foi feito de 1 + 1 cresce para 4, 5, 6 e, de fato, pode chegar a uma sequência virtualmente indefinida; além do mais, o curioso é que cada unidade adicional contém potencialmente e transmite ao futuro a plenitude da herança biológica da primeira unidade fértil, porque mostra os traços que estavam latentes nos dois termos da equação original 1 = 1 + 1.
O pensamento mítico, quando desenvolve um complexo de forças e figuras divinas a partir de uma fonte ou essência única e primordial, procede conforme este método dialético. E o pensamento bramânico, em suas brilhantes fórmulas de auto-análise psicológica, traça o mesmo tipo de evolução dialética na consciência do homem, da seguinte maneira: o sono profundo, quando considerado do ponto de vista da consciência vigílica ou da consciência na rede dos sonhos, pode parecer que é um estado de puro não-ser; no entanto, é deste vazio absoluto que os sonhos emergem, como nuvens que se condensam e surgem a partir do vazio do firmamento. Ademais, desta mesma inconsciência irrompe, de súbito, o estado de vigília. Por outro lado, é voltando a este vazio que o pequeno cosmo da consciência humana vigílica se dissolve e desaparece no sono. Assim, pode-se dizer que a emanação dos sonhos e a passagem da consciência do estado onírico ao vigílico são dois estágios, ou duas variantes de uma pequena cosmogonia que se repete diariamente, como um processo de criação do mundo dentro do microcosmo. Do mesmo modo que o universo colossal evolui a partir de alguma transcendental fonte secreta - a essência que está além dos nomes e das formas e que permanece incólume ante o processo do fluxo torrencial -, assim também o misterioso ego onírico que desenvolve nos sonhos suas próprias paisagens e aventuras, bem como o indivíduo visível, tangível, que se torna consciente de si mesmo quando desperta, emergem temporariamente da mais íntima essência secreta, chamada Eu, fundamento de toda vida e experiência humana. Em outras palavras, o Eu macrocósmico (Brahman) e o microcósmico (atman) produzem efeitos paralelos. Ambos são um e o mesmo, apenas vistos sob dois aspectos diferentes. De forma que, quando o indivíduo contata o Eu que traz em seu interior, toma posse do divino poder cósmico e permanece centrado além de toda ansiedade, luta e mudança. Alcançar esta meta é o propósito único do pensamento védico e vedantino.
Suponhamos, por exemplo, que um 1 é macho e o outro 1 é fêmea. Quando do primeiro encontro, não são mais que 1 + 1 que é 2; quando se enamoram e unem seus destinos, convertem-se em 1 + 1 que é 1 "para melhor ou pior". O santo sacramento - pelo menos em sua forma mais solene, antiga e mágica, como preservada no ritual católico romano - insiste com ênfase na ideia de que agora os dois "se fizeram uma só carne" (una caro facta est). Na verdade, é exatamente esta união que retira a mácula, a suspeita ou o quê de pecado que acompanha toda forma de relacionamento carnal entre os sexos, segundo a ascética crença cristã. O fato de que os dois tenham se transformado em um através da realização do sacramento torna o casal isento de concupiscentia, de pecaminosidade, consagrando sua união sexual. Assim, por uma transmutação mágica, 1 + 1 significativamente torna-se 1; a fórmula sacramental expressa apenas o que, de fato, é a experiência básica de todos os verdadeiros amantes quando se encontram e se unem com laços que prenunciam a felicidade de uma única perspectiva para suas duas vidas.
A alquimia da natureza, fundindo os dois corações num fogo mútuo, reduz o 1 + 1 a 1 feito de 2. Mas a alquimia da natureza não para aqui. Ao invés da usual tábua da multiplicação que aprendemos na escola e utilizamos nos negócios e em cálculos práticos, a natureza aplica a tábua de multiplicação das bruxas ou feiticeiros. Após uma breve espera, quando 1 + 1 tenham se convertido em 1, a dupla casada normalmente expande-se numa tríade: nasce a primeira criança. E, se a evolução não for controlada por planos prudentes, desenvolve-se uma irrefreável série. O 1 que foi feito de 1 + 1 cresce para 4, 5, 6 e, de fato, pode chegar a uma sequência virtualmente indefinida; além do mais, o curioso é que cada unidade adicional contém potencialmente e transmite ao futuro a plenitude da herança biológica da primeira unidade fértil, porque mostra os traços que estavam latentes nos dois termos da equação original 1 = 1 + 1.
O pensamento mítico, quando desenvolve um complexo de forças e figuras divinas a partir de uma fonte ou essência única e primordial, procede conforme este método dialético. E o pensamento bramânico, em suas brilhantes fórmulas de auto-análise psicológica, traça o mesmo tipo de evolução dialética na consciência do homem, da seguinte maneira: o sono profundo, quando considerado do ponto de vista da consciência vigílica ou da consciência na rede dos sonhos, pode parecer que é um estado de puro não-ser; no entanto, é deste vazio absoluto que os sonhos emergem, como nuvens que se condensam e surgem a partir do vazio do firmamento. Ademais, desta mesma inconsciência irrompe, de súbito, o estado de vigília. Por outro lado, é voltando a este vazio que o pequeno cosmo da consciência humana vigílica se dissolve e desaparece no sono. Assim, pode-se dizer que a emanação dos sonhos e a passagem da consciência do estado onírico ao vigílico são dois estágios, ou duas variantes de uma pequena cosmogonia que se repete diariamente, como um processo de criação do mundo dentro do microcosmo. Do mesmo modo que o universo colossal evolui a partir de alguma transcendental fonte secreta - a essência que está além dos nomes e das formas e que permanece incólume ante o processo do fluxo torrencial -, assim também o misterioso ego onírico que desenvolve nos sonhos suas próprias paisagens e aventuras, bem como o indivíduo visível, tangível, que se torna consciente de si mesmo quando desperta, emergem temporariamente da mais íntima essência secreta, chamada Eu, fundamento de toda vida e experiência humana. Em outras palavras, o Eu macrocósmico (Brahman) e o microcósmico (atman) produzem efeitos paralelos. Ambos são um e o mesmo, apenas vistos sob dois aspectos diferentes. De forma que, quando o indivíduo contata o Eu que traz em seu interior, toma posse do divino poder cósmico e permanece centrado além de toda ansiedade, luta e mudança. Alcançar esta meta é o propósito único do pensamento védico e vedantino.
Heinrich Zimmer

Nenhum comentário:
Postar um comentário