Quando a ambição, o sucesso e o jogo da vida, da mesma forma que o sexo e os prazeres sensuais, já não nos oferecem novas e interessantes expectativas nem reservam mais surpresas, e quando começamos a nos fartar também do virtuoso cumprimento das tarefas próprias a uma vida decente e normal - porque se tem convertido numa monótona rotina -, ainda permanece o atrativo da aventura espiritual, a busca de algo que exista dentro (sob a máscara da personalidade consciente) e fora (por trás do panorama visível do mundo exterior). Qual é o segredo deste ego, deste "eu" com quem temos estado em tão íntimas relações durante todos estes anos já vividos e que, apesar disso, é um estranho, cheio de curiosas artimanhas, caprichos frívolos e desconcertantes impulsos de agressão e teimosia? E o que se tem estado ocultando, nesse meio tempo, por trás dos fenômenos externos que não mais nos intrigam, produzindo todas estas surpresas que já não nos surpreendem? A possibilidade de descobrir o segredo do funcionamento do próprio teatro cósmico - quando seus efeitos chegaram a ser de um fastio intolerável -, permanece como a última fascinação, desafio e aventura da mente humana.
No início dos Yoga-sutra temos:
"Yogas cittavrtti-nirodhah".
"O Yoga consiste na detenção intencional das atividades espontâneas da substância mental."
A mente, por natureza, está em constante agitação. De acordo com a teoria hindu, transfigura-se continuamente nas formas dos objetos que percebe. Sua sutil substância toma as formas e as cores de tudo que lhe oferecem os sentidos, a imaginação, a memória e as emoções. Em outras palavras, está dotada de um poder de transformação ou metamorfose ilimitado e incessante.
Assim, a mente é uma onda contínua, como a superfície de um lago submetida à brisa, tremulando com reflexos entrecortados, variáveis e dispersos. Por si mesma jamais ficaria parada como um espelho perfeito e cristalino, em seu "estado próprio", refletindo tranquilamente o homem interior porque, para que isso aconteça, será necessário deter as impressões sensorias vindas do exterior (que são como as águas afluentes, turbulentas e perturbadoras da substância translúcida), bem como os impulsos internos: recordações, pressões emocionais e as incitações da imaginação (que são como fontes internas). Contudo, o yoga aquieta a mente; e, no momento em que esta quietude é consumada, o homem interior, a mônada vital, revela-se, como uma joia no fundo de um manso lago.
Conforme o Yoga, a mônada vital é a entidade viva oculta por trás e no interior de todas as metamorfoses de nossa vida de escravidão. Do mesmo modo que no jainismo, aqui também se supõe que o número de mônadas vitais do universo é infinito e que sua "natureza própria" é totalmente diversa da matéria inanimada, na qual tais mônadas estão imersas. São chamadas "espirituais", e se diz que são "da natureza da pura luz, que brilha por si mesma". No interior de cada indivíduo, a autoluminosa mônada vital ilumina todos os processos da matéria densa e sutil - ou seja, os processos da vida e da consciência - ao tempo que vão se desenvolvendo dentro do organismo; porém esta mônada vital, em si mesma, é sem forma ou conteúdo. Está destituída de qualidades e peculiaridades, já que tais especificações nada mais são que propriedades e máscaras do reino da matéria. Não tem princípio nem fim, é eterna e imperecível, não tem partes nem divisões, porque o composto está sujeito à destruição. Inicialmente foi imaginada como do tamanho de um átomo, mas depois foi concebida como toda-penetrante e infinita, sem atividade, imutável, além da esfera dos movimentos, "no topo, no ápice" (kutastha). A mônada está desapegada e ilibada, absolutamente indiferente, sem inquietações e desprendida, portanto jamais está realmente cativa nem é, em verdade, libertada, senão eternamente livre. De fato, a liberação implicaria um estado prévio de encarceramento e não se pode dizer que tal prisão seja capaz de tocar o homem interior. O problema do homem consiste, simplesmente, em que não compreende sua permanente e sempre presente liberdade, devido ao estado turbulento, ignorante e dispersivo de sua mente.
(...) Segundo a concepção do Sankhya e do Yoga, a mônada é uma entidade imaterial que - ao contrário do atman do Vedanta - não está em beatitude nem tem o poder de agir como causa eficiente ou material de nada. É um conhecimento do nada. Não cria, não se expande, não se transforma nem produz transformação em nada. Não participa de maneira alguma nos sentimentos, posses ou sofrimentos humanos, senão que, por natureza, é "absolutamente isolada" (kevala), mesmo quando parece estar comprometida com a vida por causa de sua aparente associação com os "atributos condicionadores e limitativos" (upadhi) - que são os constituintes, não da mônada vital, mas dos corpos materiais densos e sutis através dos quais ela é refletida na esfera espaço-tempo. A mônada vital, devido a estes upadhi, aparece como jiva, o "vivente", e parece estar dotado de receptividade e espontaneidade, de respiração e de todos os demais processos do organismo, mas, em si e por si, "não é capaz de dobrar uma folha de relva".
Com sua mera presença inativa mas luminosa, a mônada parece ser o agente, e neste papel ilusório é conhecida como o "Senhor" ou "Supervisor". Na verdade, não governa nem controla. Os atributos condicionantes (upadhi) atuam por si mesmos, automaticamente e às cegas; o verdadeiro centro governante, o controlador e dirigente dos processos vitais é o chamado "órgão interno" (antah-karana). Todavia, a mônada vital ilumina e parece estar refletida no processo. Além disso, esta é uma associação que nunca teve princípio, existe desde toda a eternidade. (...) E, ainda, se parece à relação que guarda o Sol com respeito à Terra e sua vegetação. O Sol não sofre alterações pelo fato de seu calor penetrar a Terra e as formas vivas do planeta. A auto-refulgência da desprendida mônada vital, ao banhar o material inconsciente do reino da matéria inanimada e de seus processos, cria, por assim dizer, a vida e a consciência do indivíduo: o que parece ser a atividade do Sol, pertence na verdade à esfera da matéria. Melhor ainda, é como se uma personagem imóvel, refletida num espelho que se move, parecesse estar em movimento.
Em resumo: de acordo com a filosofia Sankhya, a mônada vital está associada a um tipo especial de "compromisso aparente" com o indivíduo vivente, como consequência natural do reflexo de sua luminosidade na matéria sutil da mente, multiforme e em movimento constante. O verdadeiro discernimento, o "conhecimento discriminador" pode ser obtido tão só quando a mente for levada à sua condição de repouso. Então, percebe-se que a mônada vital sem o obscurecimento causado pelas qualidades da matéria agitada, e neste estado, repentina e simplesmente, se revela sua natureza secreta. É vista em repouso, tal qual é na realidade, sempre: isolada dos processos naturais que têm lugar continuamente a seu redor, na substância mental, nos sentidos, nos órgãos de ação e no mundo exterior animado.
A verdade pode ser alcançada apenas por meio da conscientização do fato de que, não importa o que aconteça, nada afeta ou macula a mônada vital. Permanece totalmente desapegada, mesmo quando parece estar sustentando um processo vital individual através da roda de renascimentos e na vida presente. Nossa concepção superficial atribui todos os estados e transformações da vida à mônada vital, onde tais estados e transformações parecem estar acontecendo em seu interior, colorindo-a e mudando-a para o bem ou para o mal. Entretanto, esta ilusão é mero efeito da ignorância. A mônada vital jamais é afetada. Em nosso ardente e verdadeiro Eu continuamos, sempre, serenos.
No início dos Yoga-sutra temos:
"Yogas cittavrtti-nirodhah".
"O Yoga consiste na detenção intencional das atividades espontâneas da substância mental."
A mente, por natureza, está em constante agitação. De acordo com a teoria hindu, transfigura-se continuamente nas formas dos objetos que percebe. Sua sutil substância toma as formas e as cores de tudo que lhe oferecem os sentidos, a imaginação, a memória e as emoções. Em outras palavras, está dotada de um poder de transformação ou metamorfose ilimitado e incessante.
Assim, a mente é uma onda contínua, como a superfície de um lago submetida à brisa, tremulando com reflexos entrecortados, variáveis e dispersos. Por si mesma jamais ficaria parada como um espelho perfeito e cristalino, em seu "estado próprio", refletindo tranquilamente o homem interior porque, para que isso aconteça, será necessário deter as impressões sensorias vindas do exterior (que são como as águas afluentes, turbulentas e perturbadoras da substância translúcida), bem como os impulsos internos: recordações, pressões emocionais e as incitações da imaginação (que são como fontes internas). Contudo, o yoga aquieta a mente; e, no momento em que esta quietude é consumada, o homem interior, a mônada vital, revela-se, como uma joia no fundo de um manso lago.
Conforme o Yoga, a mônada vital é a entidade viva oculta por trás e no interior de todas as metamorfoses de nossa vida de escravidão. Do mesmo modo que no jainismo, aqui também se supõe que o número de mônadas vitais do universo é infinito e que sua "natureza própria" é totalmente diversa da matéria inanimada, na qual tais mônadas estão imersas. São chamadas "espirituais", e se diz que são "da natureza da pura luz, que brilha por si mesma". No interior de cada indivíduo, a autoluminosa mônada vital ilumina todos os processos da matéria densa e sutil - ou seja, os processos da vida e da consciência - ao tempo que vão se desenvolvendo dentro do organismo; porém esta mônada vital, em si mesma, é sem forma ou conteúdo. Está destituída de qualidades e peculiaridades, já que tais especificações nada mais são que propriedades e máscaras do reino da matéria. Não tem princípio nem fim, é eterna e imperecível, não tem partes nem divisões, porque o composto está sujeito à destruição. Inicialmente foi imaginada como do tamanho de um átomo, mas depois foi concebida como toda-penetrante e infinita, sem atividade, imutável, além da esfera dos movimentos, "no topo, no ápice" (kutastha). A mônada está desapegada e ilibada, absolutamente indiferente, sem inquietações e desprendida, portanto jamais está realmente cativa nem é, em verdade, libertada, senão eternamente livre. De fato, a liberação implicaria um estado prévio de encarceramento e não se pode dizer que tal prisão seja capaz de tocar o homem interior. O problema do homem consiste, simplesmente, em que não compreende sua permanente e sempre presente liberdade, devido ao estado turbulento, ignorante e dispersivo de sua mente.
(...) Segundo a concepção do Sankhya e do Yoga, a mônada é uma entidade imaterial que - ao contrário do atman do Vedanta - não está em beatitude nem tem o poder de agir como causa eficiente ou material de nada. É um conhecimento do nada. Não cria, não se expande, não se transforma nem produz transformação em nada. Não participa de maneira alguma nos sentimentos, posses ou sofrimentos humanos, senão que, por natureza, é "absolutamente isolada" (kevala), mesmo quando parece estar comprometida com a vida por causa de sua aparente associação com os "atributos condicionadores e limitativos" (upadhi) - que são os constituintes, não da mônada vital, mas dos corpos materiais densos e sutis através dos quais ela é refletida na esfera espaço-tempo. A mônada vital, devido a estes upadhi, aparece como jiva, o "vivente", e parece estar dotado de receptividade e espontaneidade, de respiração e de todos os demais processos do organismo, mas, em si e por si, "não é capaz de dobrar uma folha de relva".
Com sua mera presença inativa mas luminosa, a mônada parece ser o agente, e neste papel ilusório é conhecida como o "Senhor" ou "Supervisor". Na verdade, não governa nem controla. Os atributos condicionantes (upadhi) atuam por si mesmos, automaticamente e às cegas; o verdadeiro centro governante, o controlador e dirigente dos processos vitais é o chamado "órgão interno" (antah-karana). Todavia, a mônada vital ilumina e parece estar refletida no processo. Além disso, esta é uma associação que nunca teve princípio, existe desde toda a eternidade. (...) E, ainda, se parece à relação que guarda o Sol com respeito à Terra e sua vegetação. O Sol não sofre alterações pelo fato de seu calor penetrar a Terra e as formas vivas do planeta. A auto-refulgência da desprendida mônada vital, ao banhar o material inconsciente do reino da matéria inanimada e de seus processos, cria, por assim dizer, a vida e a consciência do indivíduo: o que parece ser a atividade do Sol, pertence na verdade à esfera da matéria. Melhor ainda, é como se uma personagem imóvel, refletida num espelho que se move, parecesse estar em movimento.
Em resumo: de acordo com a filosofia Sankhya, a mônada vital está associada a um tipo especial de "compromisso aparente" com o indivíduo vivente, como consequência natural do reflexo de sua luminosidade na matéria sutil da mente, multiforme e em movimento constante. O verdadeiro discernimento, o "conhecimento discriminador" pode ser obtido tão só quando a mente for levada à sua condição de repouso. Então, percebe-se que a mônada vital sem o obscurecimento causado pelas qualidades da matéria agitada, e neste estado, repentina e simplesmente, se revela sua natureza secreta. É vista em repouso, tal qual é na realidade, sempre: isolada dos processos naturais que têm lugar continuamente a seu redor, na substância mental, nos sentidos, nos órgãos de ação e no mundo exterior animado.
A verdade pode ser alcançada apenas por meio da conscientização do fato de que, não importa o que aconteça, nada afeta ou macula a mônada vital. Permanece totalmente desapegada, mesmo quando parece estar sustentando um processo vital individual através da roda de renascimentos e na vida presente. Nossa concepção superficial atribui todos os estados e transformações da vida à mônada vital, onde tais estados e transformações parecem estar acontecendo em seu interior, colorindo-a e mudando-a para o bem ou para o mal. Entretanto, esta ilusão é mero efeito da ignorância. A mônada vital jamais é afetada. Em nosso ardente e verdadeiro Eu continuamos, sempre, serenos.
Heinrich Zimmer

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