17 de setembro de 2017

Que Deus lhe ajude


Parei para ver o tocador de realejo. Arrastavam-se-me à cabeça uns pensamentos - então eu parei, para dissipá-los. Estávamos ali eu, uns cocheiros, uma jovenzinha e havia ainda uma garota pequena, toda suja. O tocador de realejo se instalou debaixo de uma janela. Noto a presença de um garotinho, um menino de uns dez anos; era para ser bonitinho, se não fosse seu aspecto tão enfermiço e mirrado, estava só com uma camisinha e alguma outra coisa mais, praticamente descalço, ouve a música boquiaberto - o que é a infância! As mãos e os pés estão congelados, mas mordisca a pontinha da manga tiritando. Reparo que tem nas mãos um papelzinho. Passou um senhor e atirou uma moedinha pequena ao tocador de realejo. Mal a moedinha tilintou, o meu menino estremeceu, olhou timidamente em redor e, pelo visto, pensou que fora eu a dar o dinheiro. Correu para mim, com as mãozinhas tremendo, a vozinha tremendo, estendeu-me o papelzinho e diz: é um bilhete! Desdobrei o papel - o que já era de se esperar: dizia, meus benfeitores, uma mãe de três filhos está morrendo, as crianças estão passando fome, então ajude-nos agora e assim, quando morrer, não os esquecerei no outro mundo, meus benfeitores, por não terem agora se esquecido de meus pequeninos. E daí, nada demais; a situação é clara, isso é uma coisa corriqueira, mas o que podia eu lhe dar? E não lhe dei nada. Mas que pensa me deu! Um menino palidozinho, azulado de frio, talvez também faminto, e não está mentindo, realmente, não está mentindo. (...) E o que há de aprender o pobre menino com uns bilhetes desses? Só hão de endurecer-lhe o coração; fica só andando, correndo, pedindo. As pessoas passam, mas não têm tempo para ele. Elas têm coração de pedra; suas palavras são cruéis. "Dá o fora! desaparece! malandro!" É isso o que ele ouve de todos, seu coração de criança vai endurecendo, e o menino assustado e palidozinho, como se fosse um passarinho que caiu do ninhozinho destruído, treme de frio em vão. Tem as mãos e os pés gelados, sua respiração é ofegante. Você olha, ei-lo já tossindo; nem há muito o que esperar para que a doença, qual um réptil imundo, se ponha a rastejar para o seu peito, e quando você olha, a morte já paira sobre ele em algum canto fedorento, sem saída, sem socorro - e aí está toda sua vida! Há vidas que são assim mesmo! Oh, Várienka, que martírio é ouvir um pelo amor de Deus e fazer de conta que não percebeu, não dar nada, e dizer: "Que Deus lhe ajude".

Fiodor Dostoievski

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