- Não sei, Liza. Veja uma coisa: conheci um pai que era um homem severo, rigoroso. Diante da filha, porém, punha-se de joelhos, beijava-lhe as mãos e os pés, não se cansava de admirá-la. É verdade. Se ela dançava num baile, ele passava cinco horas no mesmo lugar, não tirando dela os olhos. Era doido por ela. E eu compreendo isto. De noite, cansada, ela adormecia. E ele acordava e ia beijá-la durante o sono, e fazer sobre ela o sinal da cruz. Era avarento para com os outros, e ele próprio usava um redingotezinho sebento. Para ela, porém, gastava até o último níquel; fazia-lhe presentes ricos, e ficava contente quando o presente agradava. O pai sempre ama as filhas mais do que a mãe. Para muitas moças, viver em casa é uma alegria! Eu, se tivesse uma filha, creio que nem a casaria.
- Como assim? - perguntou ela, com um ligeiro sorriso.
- Teria ciúme, juro por Deus. Ora, poderia ela beijar um estranho? Como poderia amar um outro mais do que o próprio pai? É penoso até imaginar isto. Está claro que tudo isto é um absurdo; está claro que, por fim, cada um acaba sendo razoável. Mas eu, creio, antes de entregá-la, ia torturar-me com esta preocupação: rejeitaria os noivos um a um. Mas, apesar de tudo, acabaria casando-a com aquele que ela própria amasse. Na realidade, porém, aquele que a filha ama sempre parece ao pai o pior de todos. É sempre assim. Muito mal acontece nas famílias por causa disso.
- Há gente que se sente mais feliz vendendo a filha do que casando-a honestamente - disse ela, de repente.
- Isto acontece, Liza, entre famílias malditas, onde não há Deus nem amor - repliquei exaltado. - E, onde não existe amor, também não há razão. É verdade que há famílias assim, mas não é delas que eu falo. Você, provavelmente, não viu coisas boas em sua família e, por isto, fala assim. Realmente, você é uma infeliz. Hum... Tudo isso acontece, principalmente, devido à pobreza.
- E entre os ricos será acaso melhor? As pessoas honestas são felizes até mesmo na pobreza.
- Hum... sim. Pode ser. Mas acontece também o seguinte, Liza: o homem gosta de levar em conta unicamente a sua aflição; não pensa na sua felicidade. Se considerasse isto, veria que lhe está reservado também um bom lote. Ora, pode acontecer que tudo dê certo numa família: com a graça de Deus, o marido é bom, cuida de você, ama-a, não a deixa um pouco sequer! É bom viver numa família assim! Por vezes, mesmo que haja aflição, é bom; e onde é que não existe aflição? Você talvez ainda se case, e saberá então. Tomemos para exemplo ao menos os primeiros tempos de casamento com aquele que se ama: quanta felicidade pode advir disso! E é algo contínuo. Nos primeiros tempos, até as brigas com os maridos acabam bem. Algumas, quanto mais amam, mais brigas com o marido arranjam. É verdade; conheci uma que dizia: "Amo-te muito, é por amor que te atormento, e para que sintas isto". Sabe que, por amor, pode-se atormentar uma pessoa? Sobretudo as mulheres. E elas pensam, no íntimo: "Em compensação, vou depois amar tanto, hei de acarinhar tanto, que não é pecado atormentá-lo agora um pouco". E, em casa, todos se alegram com vocês, tudo é bom, agradável, pacífico, honesto... Algumas existem que são ciumentas. Se ele vai a alguma parte (conheci uma assim), a mulher não se contém e sai correndo no meio da noite, para espiar às escondidas: não é ali que ele está, naquela casa, com aquela? Isto já é ruim. E ela mesma sabe que é ruim, e o seu coração se congela e se atormenta, mas ela ama; é tudo por amor. E como é bom, depois de uma briga, fazer as pazes, ela mesma se culpar perante ele, ou perdoar! E ambos se sentirão tão bem, tão bem! É como se tivessem acabado de se encontrar, de se casar, como se o amor tivesse começado de novo. E ninguém, ninguém deve saber o que acontece entre marido e mulher, se eles se amam. E, seja qual for a briga, não devem chamar nem a própria mãe para juiz, nem contar nada um do outro. Eles mesmos são seus próprios juízes. O amor é um mistério de Deus e deve ser oculto de todos os olhares estranhos, aconteça o que acontecer. Deste modo, tudo é mais santo, tudo é melhor. Eles se respeitarão mais um ao outro, e muita coisa baseia-se no respeito mútuo. E se já houve amor, se se casaram por amor, por que há de este amor acabar?! Não se pode acaso mantê-lo? É difícil que não se consiga isto. Bem, e se o marido se revela uma pessoa boa e honesta, neste caso como é que o amor vai acabar? Passará o primeiro amor conjugal, é verdade, mas então chegará um amor ainda melhor. Ambas as almas se unirão, todos os seus interesses serão comuns, e um não terá qualquer segredo para com o outro. E, quando os filhos vierem, mesmo os tempos mais difíceis vão parecer uma felicidade; é só amar e ser corajoso. Então, até o trabalho dá alegria, e é com alegria também que às vezes se recusa o próprio pão para dá-lo aos filhos. E eles, depois, vão amar-nos por isto, mais tarde. É, pois, para nós próprios que amealhamos. As crianças crescem, e nós sentimos que somos para elas um exemplo, um apoio; e, mesmo que a gente morra, elas hão de trazer consigo, pela vida toda, os nossos sentimentos e as nossas ideias, do modo como os receberam de nós, e serão feitos à nossa imagem e semelhança. Quer dizer que isto é um alto dever. Como é possível, no caso, um pai não se unir mais intimamente à mãe? Dizem alguns que é coisa árdua criar filhos. Mas quem é que o diz? É uma felicidade dos céus! Você gosta de crianças pequenas, Liza? Eu gosto delas terrivelmente. Você sabe... um menino assim, todo rosadinho, a sugar-lhe o seio... E qual o marido que não sente o coração voltar-se para a esposa, vendo-a sentada com o filho dele?! A criança rosadinha, rechonchudinha, revira-se, dengosa, pezinhos e mãozinhas gorduchinhos, unhinhas bem limpas, pequenas, tão pequenas que se tornam até engraçadas, e olhinhos que já parecem compreender tudo. E, quando mama, fica repuxando o seio da mãe, brincando. Se o pai se aproxima, ela se desprende do peito, inclina-se toda para trás, olha o pai, dá uma risada, como se o caso fosse - sabe Deus por que - engraçado, e de novo, de novo se põe a mamar. Ou então, de repente, dá uma mordida no peito da mãe, se é que os dentinhos já lhe estão surgindo, e lhe dirige os olhinhos de viés: "Está vendo, dei uma mordida!". Mas não estará nisso toda a felicidade, quando ficam juntos os três - o marido, a mulher e o filho? Em troca de momentos como este, muita coisa se pode perdoar. Não, Liza, antes de acusar os outros, é preciso que cada um aprenda por si mesmo a viver!
Fiodor Dostoievski

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