27 de outubro de 2016

Alma do mundo


Cada ser particular, no seu interior, está guardado e assimilado a todos os outros; esse coração comum, do qual toda conversação sincera é culto, ao qual toda ação justa é submissão; essa realidade subjugadora que repele nossos artifícios e talentos e obriga cada um a mostrar-se como é, a falar segundo o caráter e não segundo a língua, e que acima de tudo tende a incorporar-se a nosso pensamento e mãos, tornando-se sabedoria, virtude, poder e beleza. Todos nós vivemos em sucessão, em divisão, em partes, partículas. Porém no âmago do homem está a alma da totalidade; o silêncio sábio; a beleza universal, a que toda parte e partícula igualmente se relacionam; o eterno UM. E esse poder profundo, dentro do qual existimos, e cuja beatitude nos é inteiramente acessível, não apenas é autossuficiente e perfeito em todo aspecto, mas também o ato de ver e a coisa vista, aquele que vê e o espetáculo, o sujeito e o objeto são um. Enxergamos o mundo pedaço a pedaço, como o sol, a lua, o animal, a árvore; mas a totalidade, do qual essas são partes luminosas, é a alma.
No homem, tudo contribui para mostrar que a alma não é um órgão: ela, sim, anima e movimenta todos os órgãos; não é uma função, como o poder da memória, do cálculo, da comparação: ela usa a esses como usamos mãos e pés; não é uma capacidade, mas sim uma luz; não é o intelecto ou a vontade, mas a senhora do intelecto e da vontade; é o fundo de nosso ser, sobre o qual aqueles repousam - uma imensidão não possuída - que nunca pode ser possuída. Interior ou posteriormente, brilha uma luz através de nós e se derrama sobre as coisas, e nos faz conscientes de não sermos nada, sendo tudo a luz.
Quando, por meio de seu intelecto, a alma respira, trata-se de gênio; quando ela respira por meio de sua vontade, trata-se de virtude; quando flui por meio de suas afeições, trata-se de amor. E quando o intelecto quer ser algo por si próprio, inicia-se a sua cegueira. A fraqueza da vontade, quando o indivíduo quer ser algo por si próprio.
A encarnação do espírito em uma forma é um modo de ensinamento divino - em formas como a minha. Com pessoas que respondem a pensamentos de minha própria mente ou expressam determinada obediência aos grandes instintos segundo os quais vivo, encontro-me em sociedade. Vejo a presença desses naquelas pessoas. Sou certificado de uma natureza comum; e aquelas outras almas, aqueles indivíduos separados, atraem-me como nada mais me atrai. Agitam em mim novas emoções, que chamamos paixão, amor, ódio, medo, admiração, piedade; desses nasce a conversação, a competição, a persuasão, as cidades, a guerra. Pessoas são suplementos ao ensinamento primário da alma. Apaixonamo-nos pelas pessoas na juventude. A infância e a juventude veem o mundo inteiro nelas. Mas a experiência mais ampla do homem descobre a natureza idêntica que em todos se revela. As próprias pessoas nos acostumam ao impessoal. Entre duas pessoas, toda conversa é feita por referência tácita, como que a um terceiro membro, a uma natureza comum. Aquele terceiro membro ou natureza comum não é social; é impessoal; é Deus. Nesse sentido, em grupos nos quais é honesto o debate, especialmente sobre questões importantes, os participantes notam que o pensamento se eleva a uma altura uniforme em todos os peitos, que todos, assim como aquele que fala, têm um direito espiritual sobre o que é dito.
Todos se tornam mais sábios do que eram. Acima deles se ergue, como um templo, a unidade de pensamento em que todo coração palpita com um sentido mais nobre de poder e dever, e pensa e age com unusual solenidade. Todos se tornam conscientes de ter atingido um maior autocontrole. Ela brilha para todos.
Frequentemente, a ação da alma está mais naquilo que é sentido e permanece inexpresso do que naquilo que é dito em qualquer conversação. Ela paira sobre todas as sociedades, e cada uma inconscientemente as procura nas outras. Sabemos mais do que fazemos. Ainda não nos possuímos, e ao mesmo tempo temos consciência de que somos muito mais. Quantas vezes sinto idêntica verdade no contato trivial com meus vizinhos - que algo de mais alto em cada um observa esse passatempo, e Deus acena para Deus às costas de cada um de nós.
Os homens são percorridos por um calafrio no momento de recepção de uma nova verdade, ou no momento de exercício de uma grande ação, que venha do coração da natureza. Nessas manifestações o poder de enxergar não está dissociado da vontade de fazer, mas a intuição provém da obediência, e a obediência de uma percepção jubilosa. Memorável é todo momento em que a pessoa se sente invadida por ela. Por necessidade de nossa constituição, um determinado entusiasmo acompanha a consciência que o indivíduo tem daquela presença divina. O caráter e a duração desse entusiasmo variam com o estado do indivíduo, de um êxtase, enlevo ou inspiração profética - que são sua mais rara aparição - a um levíssimo brilho de emoção virtuosa, em cuja forma ele aquece, como nossas lareiras domésticas, todas as famílias e associações humanas, e torna possível a sociedade. Uma determinada tendência à insanidade sempre esteve presente ao surgimento do sentido religioso nos homens, como se eles "explodissem com o excesso de luz".
A alma nunca responde por palavras, mas pela própria coisa buscada.

Ralph Emerson

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