29 de fevereiro de 2020

A saúde dos médicos


As atitudes e os hábitos típicos dos médicos de hoje são muito pouco saudáveis e levam a consideráveis doenças. Hoje, a expectativa de vida entre os médicos é de dez a quinze anos menos que a da média da população, e eles apresentam elevadas taxas de doença física, além de altos índices de alcoolismo, abuso de drogas, suicídio e outras patologias sociais.
A maioria dos médicos adota essas atitudes não saudáveis logo no início do curso de medicina, onde seu treinamento foi planejado para ser uma experiência extremamente estressante. O mórbido sistema de valores que domina nossa sociedade encontrou algumas de suas expressões extremas na educação médica. As escolas de medicina, especialmente nos Estados Unidos, são as mais competitivas de todas. À semelhança do mundo dos negócios, elas apresentam a alta competitividade como uma virtude e realçam uma "abordagem agressiva" da assistência ao paciente. De fato, a postura agressiva da assistência médica é, com frequência, tão extrema que as metáforas usadas para descrever doença e terapia são extraídas da linguagem bélica. Por exemplo, diz-se que um tumor maligno "invade" o corpo, a terapia de radiação "bombardeia" os tecidos para "matar" as células cancerígenas, sendo a quimioterapia frequentemente compara a uma guerra química. Assim, a educação e a prática médicas perpetuam as atitudes e os padrões de comportamento de um sistema de valores que desempenha um importante papel na causa de muitas das enfermidades que a medicina pretende curar.
Embora provoquem o estresse, as escolas de medicina não se preocupam em ensinar a seus estudantes como enfrentá-lo. A essência do atual treinamento médico consiste em inculcar a noção de que as preocupações do paciente estão em primeiro lugar e o bem-estar do médico é secundário. Pensa-se que isso é necessário a fim de suscitar a noção de compromisso e responsabilidade; e, para promover tal atitude, o treinamento médico consiste em horários extremamente longos com muito poucas pausas. Muitos médicos dão prosseguimento a essa prática em sua vida profissional. Não é incomum um médico trabalhar o ano inteiro sem tirar férias. Essa carga de estresse é agravada pelo fato de que os médicos têm que lidar continuamente com pessoas em estado de grande ansiedade ou profunda depressão, o que aumenta a intensidade de seu trabalho cotidiano. Como eles são treinados para usar um modelo de saúde e de doença em que as forças emocionais não desempenham papel algum, são propensas a ignorá-las em sua própria vida.

Fritjof Capra

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