23 de outubro de 2016

À beira da morte


Johnny adormeceu antes mesmo de conseguir terminar de se despir. Suas calças ficaram amarfanhadas na altura dos joelhos, impedindo o livre movimento das pernas. O velho cinto de couro serpenteava sobre seu peito nu. No pulso esquerdo, o relógio enorme, metálico e de preço módico, que rebolava toda vez que o braço se mexia. Só o pé esquerdo continuava com meia. A posição em que deitara-se era nada menos que espantosa e faria muitos contorcionistas ferverem de inveja. Com os olhos cerrados por plácidas e pesadas pálpebras, Johnny alheara-se num estalo de toda e qualquer ligação com o mundo e com a realidade: encontrava-se em outra dimensão, para muito além do sétimo sono. Da sua boca ligeiramente aberta, por onde expirava um ronco baixinho, escorria um pequeno filete de baba.
Sobre o criado mudo estavam pousados os indícios das últimas atividades de Johnny. O objeto mais próximo da cama era o cinzeiro: por sobre muitas bitucas entortadas esparramava-se o corpo incinerado de um cigarro acendido e imediatamente depois esquecido. Ao lado do cinzeiro encontrava-se um maço de cigarros vazio e bastante amassado, um isqueiro e um outro maço, com uns poucos cigarros tortos e notas de pouco valor dobradas sem cuidado e colocadas entre o papel e o plástico. Da carteira mal fechada despontava um mal encaixado comprovante de débito em conta corrente no valor de setenta e dois reais e trinta e sete centavos. No próprio comprovante um número de telefone havia sido anotado por mão feminina de bela caligrafia. A luminária permanecia acesa. O rádio relógio havia sido propositalmente confundido com um descanso para copo: uma latinha de cerveja suava e ameaçava fazer terrorismo com seus circuitos eletrônicos.
Das profundezas siderais do sono de Johnny fracos raios de sol começaram a aquecer sua pele e a incomodar seus olhos. Um objeto duro e pontudo incomodava as costas de Johnny, na região lombar: "As chaves?", perguntou-se, despertando preguiçosamente de sua inconsciência. Esse despertar foi também um suplício crescente, pois a claridade que atravessava as pálpebras era cada vez mais intensa e isso lembrava-lhe que era hora de levantar e ir trabalhar. Deslizou o braço que estava sob a cabeça em direção ao objeto duro e pontudo que estava incomodando suas costas. Levou ao todo quase três minutos nesse movimento. Quando sua mão alcançou o objeto, não reconheceu uma chave, mas o que parecia ser a protuberância de uma grande rocha.
Intrigado, Johnny afastou os torpores do sono e abriu os olhos. Viu um pedaço de céu emoldurado por copas de altas árvores com muitas folhas que farfalhavam levemente ao gosto de uma fresca brisa matinal. Espantado, tentou inutilmente recordar a sequência de acontecimentos que o haviam conduzido a um local tão ermo quanto aquele. Em busca de indícios, sentou-se, e dessa vez não foi lento. Olhou à sua volta e viu que estava deitado sobre uma pequena plataforma de pedra cinzenta que emergia do subsolo e era cercada por densa vegetação. As sombras criadas pelas copas das árvores deixavam poucos raios de sol iluminar o local ao redor e a vista de Johnny não conseguia distinguir nada do que se encontrava a mais de vinte metros de distância, mata adentro. Era possível escutar o canto de pássaros de variadas espécies, e diversos insetos exóticos podiam ser vistos em voos rasantes, correndo agilmente por sobre folhas caídas ou arrastando-se umidamente por debaixo delas. Nada humano estava ao alcance da vista, nenhuma construção, nenhum objeto, nenhuma pegada ou trilha na mata.
Johnny estava com o relógio, suas calças e uma meia no que parecia ser uma floresta virgem. Após liberar uma longa sequência de xingamentos e andar de um lado para o outro sem saber o que fazer, decidiu subir numa das árvores com o intuito de ter uma visão ampla do local em que se encontrava e identificar uma saída, uma estrada, uma trilha, um orelhão que funcionasse, qualquer coisa! Quando chegou ao galho mais alto da árvore mais alta que encontrou, Johnny quase desfaleceu: um tapete verde estendia-se em todas as direções por vários quilômetros e por todo o horizonte havia altas montanhas escuras com picos nevados que cercavam aquele grande círculo verde. O desespero tomou conta de Johnny. Como ele havia ido parar ali, seminu e num local aparentemente ignorado pela civilização? Sentindo a desorientação se somar ao desespero, entregou-se a um estado de profundo entorpecimento, como quem espera impassivelmente que a morte chegue. Um estalo despertou-o do torpor. O galho em que se encontrava rangia cada vez mais e ameaçava ceder. A altura do tombo, descontados os golpes dos galhos que se encontravam abaixo, já era por si só fatal. Animado pelo instinto de sobrevivência, distribuiu melhor o peso do seu corpo pelo galho, enquanto ensaiava os primeiros movimentos para descer da árvore. Todos que já subiram numa árvore sabem que a pior parte é descer dela: um galho podre ou um erro de cálculo podem ser fatais. Mas Johnny, apesar de urbano, conseguiu chegar ao solo sem muitos arranhões.
Todo esse esforço inútil havia-o deixado sedento. Adentrou-se na mata em busca de uma lagoa ou nascente. O terreno era acidentado, cheio de raízes entrelaçadas com suas vizinhas vivas ou mortas. Não foram poucos os tropeços e as quedas, o que deixou até seu rosto cheio de lama. Espinhos que se encontravam em galhos e até nas folhas de algumas plantas arranhavam seu peito nu, listrando-o de vermelho.
Após caminhar tropegamente por quase duas horas, tropeçando, caindo e levantando-se, Johnny sentiu que não estava só. À sua frente, uma enorme moita de folhas largas chacoalhava. "Um animal dos grandes!" – pensou. Instintivamente, pensou em correr na direção contrária, mas o pavor tomou conta de suas pernas que, portanto, permaneceram imóveis. "Melhor assim!", pensou no momento seguinte, "pois na natureza ficar imóvel é a melhor maneira de garantir que nada de mal aconteça". Minutos depois, Johnny poderia deslocar-se lentamente, dar um passo, respirar três vezes e depois dar outro passo, evitando os estalidos dos galhos secos e tentando não provocar ruído algum.
Johnny preparou-se para começar a recuar. E respirou bem fundo. Nesse exato instante, um pequeno inseto voador, decerto cego ou seriamente avariado em combate, entrou com toda a velocidade na narina direita de Johnny.
"Atchim!"
Silêncio na moita. As folhas pararam de chacoalhar. O silêncio estarrecedor foi quebrado quinze segundos depois quando, deslocando algumas folhas, um enorme rosto apareceu e pôs seus olhos sobre Johnny. Os olhos castanhos e próximos um do outro não continham nenhuma docilidade, o nariz escuro e úmido encimava maxilares alongados que escondiam duas longas fileiras de dentes. Uma auréola de pêlos longos, negros e luzidios circundava o rosto. O mesmo rosto que avançou na direção Johnny, fazendo a moita toda chacoalhar e descortinando o corpo robusto de um gorila adulto.
O gorila avançou em poucos segundos por metade do caminho que o separava de nosso pobre herói, como que dando a entender que qualquer plano de fuga seria inútil. Quando chegou mais perto, seu passo tornou-se mais lento e, num suave zigue-zague hipnotizante, o gorila estava com seu rosto a trinta centímetros do rosto de Johnny. Enquanto sentia gotas de suor deslizando lentamente por suas têmporas, Johnny sentia também a respiração do gorila atingindo-lhe o peito nu e listrado de sangue. Trêmulo, controlou-se o máximo que pôde, não se mexeu e nem esboçou qualquer movimento. Não emitiu som algum. Mas cometeu um erro fatal: seus olhos procuraram os olhos do gorila e, quando os olhares se cruzaram, o gorila (sentindo-se desafiado) deu o passo final, o último que o separava de Johnny. Este olhou para baixo, mas era tarde demais: o gorila tinha o rosto quase colado ao seu e abriu a boca mostrando todos os dentes enquanto soltava um urro ensurdecedor.
Johnny ainda teve tempo de pensar que era lastimável morrer assim, atacado por um gorila desses que só se encontram no planalto central africano, como dona Célia havia lhe ensinado, na sétima série. "Melhor seria morrer velho e...". Johnny interrompeu seu último pensamento: "Eu não sou africano, sou de Guaratinguetá e moro em São Paulo há mais de dez anos. Nunca fui à África e o único país estrangeiro que conheço é o Paraguai, onde ajudava tia Neli a carregar sacolas...".
Considerando essas afirmações, Johnny encarou novamente o gorila. Dessa vez, sentia-se menos tenso a cada segundo, seus músculos começaram a se descontrair... Em seu olhar era possível vislumbrar um brilho que afetava superioridade, seus lábios esboçaram o que parecia ser um sorriso. O gorila afastava, num movimento rápido, sua pata dianteira direita, preparando-se para o golpe mortal, enquanto Johnny, calmo e iluminado pelos raios do esclarecimento, deixou aparecer seus dentes num sorriso franco e bonachão, transbordante de alívio e satisfação...
O rádio relógio anunciou, eufórico: "Só nos supermercados Xavier você encontra picanha embalada a vácuo por apenas vinte reais o quilo..." Johnny tinha os olhos imóveis, e a única coisa que eles viam era o teto outrora branco do seu quarto, com a familiar mancha verde-escura de bolor que ficava bem em cima da sua cabeça. Seu sorriso era sereno como o de um monge. Deslocando a cabeça para o lado, identificou a latinha de cerveja sobre o rádio relógio que agora anunciava o horóscopo do signo de Escorpião. Baixando ligeiramente os olhos, notou o maço com os poucos cigarros. Com um movimento rápido conseguiu pescá-lo, tirou um cigarro, devolveu o maço ao criado mudo e pegou o isqueiro. Depois de acender o cigarro, Johnny sentou-se e deixou-se ficar num estado de paz nirvânica.
Afinal, dona Célia livrara-o da morte.
 
André Faustino

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