O sentimento de urgência não tem nada a ver com as urgências propriamente ditas que, vez por outra, colocam-se em nosso caminho e desviam-nos de nossos propósitos originais que foram calma e previamente ponderados. Quando seu carro choca-se com outro, quando sua mãe erra o remédio e começa a cantar canções do Nirvana em húngaro ou quando você percebe que seu cartão do banco sumiu... nada há a fazer a não ser render-se à urgência e tomar as devidas providências. Mas nada impede que tais providências sejam tomadas com os estados de espírito os mais diversos. A tranquilidade pode ter lugar após um acidente, a preocupação ou a descontração andam de mãos dadas com os remédios e a presteza e o sangue frio são essenciais para frustrar os planos de um ladrão. Sempre é possível rir no fim, mesmo que seja de si mesmo ou da vida.
O sentimento de urgência, porém, nem sempre depende de uma urgência para se manifestar: ele pode imiscuir-se para dentro de você e, qual sombra de toneladas, em pouco tempo começar a guiar-lhe os gestos, a orientar-lhe as decisões e a temperar-lhe o humor. Ele pode martelar incansavelmente sobre sua cabeça pelo simples prazer de martelar e causar-lhe taquicardia até quando você desempenha funções banais, como picar cebola numa noite que passa arrastada. Esse sentimento de urgência não é só um sentimento, é um ente, um colosso, um inseto imortal e tenaz que pica e uma coceira que não passa. Até um instante atrás ele podia não passar de um assunto, algo que afetasse apenas a vida dos outros, uma mera abstração considerada cientificamente. Num piscar de olhos lá está ele, dentro de você, roubando-lhe o corpo, a vida, a energia e o tempo. E você, como um desencarnado, expulso de si mesmo, nada pode fazer a não ser gritar com todas as forças numa língua que seus ouvidos roubados não compreendem.
Apesar de considerar impossível evitar o aparecimento e a manifestação desse sentimento de urgência, de ser difícil administrá-lo e de sentir-me exausto quando ele finalmente me abandona, não creio, sinceramente, que ele seja de todo mau. Nossos ancestrais precisaram dele durante milênios para encontrar alimentos ocultos, enfrentar feras que surgiam da escuridão das matas, frustrar o ataque surpresa de outros humanos. Tudo bem, sei que não sou caçador, nem soldado e que tem comida na geladeira. Ao contrário do que gostaria de me fazer supor a tranquilidade da rotina doméstica de um cidadão dito civilizado, tudo isso é provisório e pode mudar. O instinto ancestral permanece, só que vestido com outras roupas. Parece que meu organismo tem melhor consciência disso do que meu cérebro de homo sapiens sapiens que se acha o maioral do reino animal só porque pensa. Não, melhor é estar de prontidão, pronto para fugir ou lutar. Deixando de lado essas considerações meio antropológicas, o fato é que apesar de ter sua utilidade o sentimento de urgência geralmente me esgota e me atrapalha. Eu simplesmente não consigo relaxar (porra!).
Máscaras não faltam. Há dias em que o sentimento de urgência pede para que eu lhe chame de ansiedade, de tristeza, de adrenalina, de tédio, de cafeína, de angústia, de insônia, de inquietação e de outros nomes mais. Eu lhe satisfaço esse desejo, senão por mais nada, só porque assim posso não pensar nele. Rotulo-o e, pensando que engano-o, engano-me primeiro. Entrego-me então a uma atividade qualquer na qual seus vestígios estarão presentes em cada grão, em cada timbre, em cada movimento e em cada tonalidade. Penso que assim ganho tempo e que, ganhando tempo, ganho vida. Ganhando vida, iludo a morte, torno-me o senhor do meu destino e preencho cada segundo da minha vida finita com sentimentos, pensamentos e atos infinitamente profundos e multifacetados. Mesmo que eu fosse imortal, repetiria a sina de Sísifo tentando compreendê-los.
O sentimento de urgência não se confunde com o impulso vital: esse é tão somente o instinto de sobrevivência, a vontade de não morrer. Mas não basta estar vivo, é preciso dar à vida um significado, um sentido e uma direção. Cada um faz suas escolhas à sua maneira, e ninguém pode julgar-se melhor do que os outros. Mas, independente das escolhas que cada um faz ou refaz a cada ato, é necessário honrá-las colocando a mão na massa. Cada segundo de vida que é desperdiçado é um segundo dado de presente para a morte que fatalmente virá. É necessário encarar a morte nos olhos se quisermos não esquecer nossa condição de mortais. Não creio que valha a pena viver irresponsavelmente como se a vida fosse durar para sempre. Melhor é roubar vida da morte, vivendo-a, sentindo-a, urgentemente.
O sentimento de urgência, porém, nem sempre depende de uma urgência para se manifestar: ele pode imiscuir-se para dentro de você e, qual sombra de toneladas, em pouco tempo começar a guiar-lhe os gestos, a orientar-lhe as decisões e a temperar-lhe o humor. Ele pode martelar incansavelmente sobre sua cabeça pelo simples prazer de martelar e causar-lhe taquicardia até quando você desempenha funções banais, como picar cebola numa noite que passa arrastada. Esse sentimento de urgência não é só um sentimento, é um ente, um colosso, um inseto imortal e tenaz que pica e uma coceira que não passa. Até um instante atrás ele podia não passar de um assunto, algo que afetasse apenas a vida dos outros, uma mera abstração considerada cientificamente. Num piscar de olhos lá está ele, dentro de você, roubando-lhe o corpo, a vida, a energia e o tempo. E você, como um desencarnado, expulso de si mesmo, nada pode fazer a não ser gritar com todas as forças numa língua que seus ouvidos roubados não compreendem.
Apesar de considerar impossível evitar o aparecimento e a manifestação desse sentimento de urgência, de ser difícil administrá-lo e de sentir-me exausto quando ele finalmente me abandona, não creio, sinceramente, que ele seja de todo mau. Nossos ancestrais precisaram dele durante milênios para encontrar alimentos ocultos, enfrentar feras que surgiam da escuridão das matas, frustrar o ataque surpresa de outros humanos. Tudo bem, sei que não sou caçador, nem soldado e que tem comida na geladeira. Ao contrário do que gostaria de me fazer supor a tranquilidade da rotina doméstica de um cidadão dito civilizado, tudo isso é provisório e pode mudar. O instinto ancestral permanece, só que vestido com outras roupas. Parece que meu organismo tem melhor consciência disso do que meu cérebro de homo sapiens sapiens que se acha o maioral do reino animal só porque pensa. Não, melhor é estar de prontidão, pronto para fugir ou lutar. Deixando de lado essas considerações meio antropológicas, o fato é que apesar de ter sua utilidade o sentimento de urgência geralmente me esgota e me atrapalha. Eu simplesmente não consigo relaxar (porra!).
Máscaras não faltam. Há dias em que o sentimento de urgência pede para que eu lhe chame de ansiedade, de tristeza, de adrenalina, de tédio, de cafeína, de angústia, de insônia, de inquietação e de outros nomes mais. Eu lhe satisfaço esse desejo, senão por mais nada, só porque assim posso não pensar nele. Rotulo-o e, pensando que engano-o, engano-me primeiro. Entrego-me então a uma atividade qualquer na qual seus vestígios estarão presentes em cada grão, em cada timbre, em cada movimento e em cada tonalidade. Penso que assim ganho tempo e que, ganhando tempo, ganho vida. Ganhando vida, iludo a morte, torno-me o senhor do meu destino e preencho cada segundo da minha vida finita com sentimentos, pensamentos e atos infinitamente profundos e multifacetados. Mesmo que eu fosse imortal, repetiria a sina de Sísifo tentando compreendê-los.
O sentimento de urgência não se confunde com o impulso vital: esse é tão somente o instinto de sobrevivência, a vontade de não morrer. Mas não basta estar vivo, é preciso dar à vida um significado, um sentido e uma direção. Cada um faz suas escolhas à sua maneira, e ninguém pode julgar-se melhor do que os outros. Mas, independente das escolhas que cada um faz ou refaz a cada ato, é necessário honrá-las colocando a mão na massa. Cada segundo de vida que é desperdiçado é um segundo dado de presente para a morte que fatalmente virá. É necessário encarar a morte nos olhos se quisermos não esquecer nossa condição de mortais. Não creio que valha a pena viver irresponsavelmente como se a vida fosse durar para sempre. Melhor é roubar vida da morte, vivendo-a, sentindo-a, urgentemente.
André Faustino

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