22 de outubro de 2016

Loucura


Seria a loucura apenas um foco diferente da assim chamada realidade que nós, que nos consideramos normais, também experienciamos?
A loucura talvez seja somente uma forma alternativa de normalidade, assim como a normalidade talvez seja uma forma alternativa de loucura. Trato, aqui, loucura e normalidade como conceitos teóricos e absolutos: particularmente, não creio na existência de alguém completamente louco ou completamente normal. Afinal, quem julgaria a aplicação desses conceitos: uma pessoa mais ou menos louca ou uma pessoa mais ou menos normal? Em si mesma, a loucura é intrinsecamente melhor ou pior do que aquilo a que chamamos de normalidade? Se você responder que é, é porque já foi louco ou nutre o preconceito contra os loucos. Se você responder que não... bem, ou você é louco ou não nutre preconceito algum. Seja como for, não podemos dar valor de verdade àquilo que, à luz da razão, constitui-se apenas como hipótese. Assim sendo, aquela pergunta é a elaboração formal de uma hipótese, então vou repeti-la:
Seria a loucura apenas um foco diferente da assim chamada realidade que nós, que nos consideramos normais, também experienciamos?
Pessoalmente, inclino-me a pensar que a suposição contida na hipótese é verdadeira.
Pode-se argumentar que os loucos, aqueles que de alguma forma não se adequam ao padrão cultural de comportamento estabelecido - seja o louco completamente aprisionado em seu universo particular, seja aquele seu colega normal na maior parte do tempo, mas que ocasionalmente faz das suas atrocidades irracionais - são todos inaptos (uns mais, outros menos) para o convívio sadio e harmonioso com a sociedade.
De alguma forma os loucos despertam em nós um senso de superioridade: ninguém, ao conhecer um louco, lhe inveja a condição de louco. "Louco é ele, eu sou é normal!" - dizemos a nós mesmos, com certo tremor medroso na voz. Há quem, ao se deparar com loucos que babam, resmungam palavras repetidas ou se contorcem em posições doloridas, se questionam se os loucos são humanos de fato. Pois parece que sempre lhes falta algo, como ao chimpanzé para torná-lo um homem... Algo que, se não faltasse... tornaria o louco um normal!
Pessoas como essas não raro convencem-se de que a única "solução" (mais alguém aí se lembrou da expressão "solução final", usada pelos nazistas?) para os loucos seria interná-los até a morte em enormes depósitos de loucura, que a linguagem "politicamente correta" chama de hospício ou sanatório (sanatório, de "saúde"). E, na verdade, isso é o que geralmente acontece.
Essa é a forma mais fácil de apreciar a loucura: negando-lhe a existência. A mais fácil e a mais superficial: negar a existência aparente da loucura, escondendo os loucos nesses depósitos, não elimina a loucura, apenas lhe prescreve um endereço fixo e pouco acessado por parentes envergonhados e normais, mas sem elimina-la, seja como fato ou como ameaça. Sim, como ameaça, pois é normal alguém que se julga normal analisar a si mesmo em busca de sinais de loucura. Pergunto-me se os loucos analisam a si mesmos, caso sejam capazes de analisar, em busca de sinais de normalidade. Esse auto-questionamento serve para nos assegurarmos de que somos normais, de que nos encaixamos sem grandes atritos no padrão de normalidade aceito pela maioria daqueles que nos rodeiam. Fazemos isso, ou seja, revalidamos nosso comportamento, como que para dizer a nós mesmos: "Relaxa, você é normal... Curta a vida!"
Não vejo os loucos como quase humanos a quem falta algo: não lhes falta um corpo, não lhes falta impulso vital, não lhes falta uma mente. Os loucos possuem uma mente que, sem dúvida alguma, funciona de forma diferente da nossa. Mas o fato de ela funcionar segundo outro padrão - um padrão que é o do louco e que não se confunde com aquilo a que chamamos de normalidade - não significa que ela funcione sem padrão algum. Há padrões nas loucuras ou ser louco é simplesmente não ter padrões? E por que a padronização de um comportamento é signo de normalidade? Quem decidiu isso, um normal? Normal sob qual ponto de vista? De alguma forma, cada louco tem os seus próprios padrões, padrões esses que funcionam tão naturalmente para eles quanto o nosso padrão funciona bem para nós (aceitando por enquanto o mito de que todos os “normais” são iguais). Mas dizer que seu padrão é inferior ou doentio poderia ser arrogância, talvez. Acaso posso eu, um "normal", julgar no louco a loucura que, por não ser louco, não posso eu avaliar senão apenas sob a minha perspectiva e não pela perspectiva do louco? Invertamos a situação: poderia um louco avaliar a normalidade que existe em mim sem, por ser louco, poder analisar a normalidade sob a perspectiva de um normal? Creio que em ambos os casos a resposta é um não.
Apesar disso, e como é sabido, "nós", os normais, frequentemente nos gabamos de nossa normalidade e isolamos "eles", os loucos, nos sanatórios. Pune-se a loucura e os loucos não pelo que a loucura é, já que podemos conhecê-la apenas exteriormente (observando a casca sem experimentar o fruto), mas por aquilo que ela tem de distante dos padrões da normalidade. Punimos o que não conhecemos e, normalmente, fazemos isso o tempo todo.
Aceitar que a loucura é uma forma alternativa de focar a realidade que experienciamos não significa que devemos julgar a(s) loucura(s) como piores ou melhores, mas sugere que talvez seja mais sensato considerar a(s) loucura(s) como formas diferentes e inqualificáveis (porque não somos loucos) de ver e viver (n)o mundo. E agora chegamos onde eu queria chegar. Se os loucos estão presos à sua loucura, não estamos nós presos à nossa normalidade? Não compartilhamos com os loucos, na verdade, alas diferentes da mesma prisão?
Creio que não necessariamente. Aceitamos os padrões impostos pela sociedade dita normal, mas o tempo todo nosso instinto, nosso lado animal não domesticável, questiona-se sobre a validade desses padrões, impulsionando-nos à obediência ou à revolta. Não existe um normal padrão, ou seja, alguém 100% normal. Todos nós, de uma forma ou de outra, transgredimos alguma regra de conduta, ocasionalmente pelo menos. Isso é bom ou é ruim? É bom, mas apenas quando essa transgressão contribui para a liberação do íntimo do ser, quando ela, de alguma forma, contribui para a felicidade da pessoa que transgride. Caso contrário, a transgressão traria infelicidade, seria mais um sinal de pedido de socorro do que um sinal de amadurecimento. Por medo, muitos optam por não transgredir, ou pelo menos por transgredir o menos e o menos profundamente possível. Isso, não raras vezes, produz infelicidade. Privilegia-se, nesse caso, a aceitação social, que se sobrepõe esmagadoramente ao instinto vital e natural. Alguém já ouviu falar que isso pode originar um câncer? Pessoas assim não raro me parecem mais infelizes que doidos varridos.
O que nos iguala aos loucos, ou pelo menos nos une na mesma humanidade, é que o nível de transgressão do louco parece-nos doentio (e aqui ressuscito a imagem do louco, que baba, repete sem parar a mesma palavra, contorce-se doloridamente). Ou não (é o caso do seu colega que de vez em quando surpreende a todos com comportamentos inesperados e constrangedores para a sua moral). Seja como for, o normal não pode julgar a loucura, assim como o louco não pode julgar a normalidade (para o louco, loucos somos nós). Essas são duas ópticas diferentes e autoexcludentes. Mas o louco mesmo, é que elas existem e convivem em graus diferentes ao longo do tempo dentro de cada um de nós.

André Faustino

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...