22 de outubro de 2016

Mondo cane


Às vezes acontece de, no meio de uma conversa qualquer sobre um assunto qualquer, alguém dizer, sem ter consciência disso, uma frase curta e recheada de sabedoria: uma pérola. Frases assim possuem a força capaz de mudar o rumo de uma conversa, obrigando os interlocutores a abandonar a sequência de fatos e argumentos mantida até então e mergulhar a mente num estado mais profundo e introspectivo, num esforço de compreender apropriadamente todos os aspectos e toda a sabedoria que a frase-pérola encerra. Ao debate vivo segue-se o silêncio denso. Algumas dessas frases mereciam ser escritas em pergaminhos que depois receberiam molduras e vidros protetores para exibição na sala de visitas. Ou então poderiam ser esculpidas em mármore e colocadas em espaços públicos, como na Antiguidade, para que todos pudessem apreciá-las e opinar à vontade sobre elas.
Um desses casos ocorreu numa daquelas noites de sábado, que se arrastam lentamente, quando um amigo e eu conversávamos sobre as condições de trabalho em nossas profissões, salários, (pouco) dinheiro, empregos, concursos, o nosso Brasil varonil etc. Tudo bem, não é exatamente um programa divertido para um sábado à noite. Mas o mundo não é divertido mesmo, pensando bem. Aproveitando-se de uma pausa na conversa, ele deixou escapar a seguinte pérola:
- É... Sobreviver, no Brasil, é um ato revolucionário.
A frase me acertou em cheio, não porque o que ela revela me fosse desconhecido mas porque ela condensa muita verdade em poucas palavras. Caí prisioneiro dela. E fiquei completamente absorto durante alguns segundos, mastigando-a em minha cabeça. E não é que é verdade?, pensei comigo mesmo. Pois viver é uma coisa e sobreviver é outra, isso sempre se soube. No que diz respeito aos aspectos materiais da vida, quando se trabalha e tudo o que se consegue fazer é meramente cobrir as despesas de uma vida sem luxo, então isso não é vivência, é sobrevivência.
Estou cansado de ver tantos seres humanos esfalfando-se e sobrevivendo e tantos poodles vivendo de verdade e muito à vontade. É claro que viver nessa condição é desanimador, mas não porque seja impossível viver assim, e sim porque seria possível viver melhor. Quando vemos alguém que não come há dois dias, aquela coceirinha no estômago a que denominamos "fome" desaparece instantaneamente. Vontade de comer não é fome. Quando vemos alguém desperdiçando comida ficamos revoltados, não só porque aquela comida poderia matar a fome do faminto, mas porque toda a humanidade é insultada quando o alimento é desperdiçado. Não é o corpo que reclama da falta de alimento, é a dignidade de ser humano que se vê aviltada diária e metodicamente. Prestar atenção a essas coisas é perigoso e necessário, embora o resultado dessa percepção seja esmagador: desacredita-se do ser humano, essa besta racional.
E no nosso querido Brasil do futebol e do Carnaval, a fome que grassa nas favelas e bairros pobres que cercam os condomínios de luxo meticulosamente murados (versão moderna dos castelos medievais com suas aldeias servis adjacentes) não há só a fome de alimentos, remédios e moradias de verdade, é também a fome de respeito, respeito pela dignidade enquanto espécie, olhos nos olhos envolvendo dois seres humanos, um que só pode comer lixo e outro que não come se não houver luxo. Respeito esse que quem não exige, ou seja, os poodles, têm de sobra. É revoltante ver como duas madames conversam entre si, cheias de cuidados e gentilezas uma para com a outra, e como uma delas dirige-se com ares de nobreza burguesa à sua empregada (vestígio de escrava, não raro negra como tal): a diferença é brutal! A empregada é tratada como algo quase humano, sendo esse quase perceptível na mudança do tom de voz e na costumeira rispidez das palavras. Não quero generalizar, há madames simpáticas e há empregadas decepcionantes. Refiro-me, aqui, a essa barreira social (auto)imposta pela riqueza e alheia a qualquer sentimento de humanidade que envolve a todos, ricos e pobres.
Exemplo: numa tarde de 2003 ou 2004 assisti a uma cena curta que me causou profundo impacto. Eu voltava a pé do trabalho para casa e ao passar em frente a um posto de gasolina quase fui atropelado por um carro de luxo que cortou meu caminho, em alta velocidade, para abastecer. Estava cansado e nem um pouco desejoso de discutir: dei-me apenas ao trabalho de amaldiçoar o motorista e toda a sua descendência por cinquenta e sete gerações. A motorista (vi depois que era uma mulher) estava acompanhada de um... poodle e, dirigindo-se a ele como a um ser humano, disse-lhe gracinhas com voz meiga e infantilóide. Consegui distinguir um fim de frase: "... da mamãe". Sim, o poodle havia sido promovido de cachorro para "filho" dela e, pelo jeito, entendia muito bem o português. Quando um frentista de aspecto humilde se aproximou para saber o que ela desejava, a mulher dirigiu-se a ele como a um cão, dizendo-lhe em tom militaresco que colocasse gasolina e verificasse o óleo: "e rápido!". O frentista reagiu como se fosse um cão: silencioso e obediente.
Esse é o outro lado da questão, o lado do trabalhador brasileiro do povão. Povo manso e trabaiadô, que tira o chapéu quando se encontra diante do patrão e fala baixo e olhando para o chão, como quem pede desculpas por existir. A tudo responde sim sinhô ou não sinhô. Esse povo sente na carne todo o peso da exploração a que é submetido mas só fala mal dos chefes pelas costas. Mais importante é pagar a próxima prestação dos eletrodomésticos adquiridos em várias prestações e descontar a raiva nos vícios. E logo esquece, volta a sorrir, pensando no próximo jogo de futebol, na trama da novela, no paredão do Big Brother. A TV é o ópio do povo, não a religião, pois é a mídia que fornece a esse povo ovino aquilo o que ele deve acreditar como sendo "a realidade das coisas". Povo cão, porque acostumado a ser tratado como cão, que apanha bastante e balança o rabo diante de qualquer migalha, de qualquer sinal incerto de benevolência do patrãozinho. Ou como dizia o Zé Ramalho: povo marcado, povo feliz. Pode chover pão para os pobres, não importa: dignidade é coisa de gente. Mas gente é quem se comporta como gente. E nessa história toda os únicos inocentes são os poodles.
 
André Faustino

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