22 de outubro de 2016

Um prato que se come frio


Veio-me à memória uma ocasião. Eu tinha uns oito ou nove anos. Um dos meninos da minha idade que morava no mesmo edifício que eu furtou, certa vez, um brinquedo de um menino menor e com justificada fama de chorão e depois escondeu-o em lugar seguro. Aparentemente o filho da puta fez isso só pra me sacanear e não para se apossar do brinquedo. Ele não era realmente um desafeto, apenas não estávamos nos entendendo temporariamente. Tudo se passou enquanto o playground estava cheio de crianças brincando, umas na roda, outras com elásticos, bambolês ou pogobols.
Quando o pequerrucho, de uns três ou quatro anos, deu pela falta do brinquedo, abriu um berreiro que logo atraiu a atenção de todas as crianças circundantes. Após a explicação do caso, entrecortada a todo instante por rompantes de choro e ranho escorrente que precisava ser limpo, logo começou aquela troca de olhares acusadores de todos com todo mundo ("Quem foi? Quem foi?").
O ladrãozinho acusou a mim, e colocou tanto ímpeto nos olhos e força nas palavras que as demais crianças não se demoraram a se convencer de que eu é que era o criminoso. Ele embaraçava-me com a falsa acusação e ao mesmo tempo livrava-se da atenção dos olhares. Eu, mais tímido do que extrovertido, e ainda não dominando a retórica, me senti acuado e sem palavras, literalmente paralisado. Embaraçado, olhei para baixo, querendo chorar, ato esse que me marcou com o estigma de ladrão. Os dedos em riste me apontaram, as acusações retumbaram mais altas, pequenos xingamentos começaram a enfeitar as frases ditas em altas vozes. Aterrorizado, fugi, com lágrimas que não brotavam só porque minha vontade era bater, bater, bater, até ver um dente caído no chão. O caso permaneceu insolúvel: o brinquedo furtado nunca foi encontrado. Agastado e recalcitrante, eu não esperava me desculpar com ninguém: afinal de contas eu não havia feito nada de errado. Mas todos, crianças e adultos, começaram a me observar desde então com olhos que esperavam que eu me confessasse e me desculpasse (eu ainda nunca tinha ouvido falar de Inquisição). Alguns pólos funcionam invertidos durante a infância. Como adulto sei que todo acusado é inocente até que se prove o contrário. Porém, quando se é criança, ser acusado de roubo, mesmo sem provas, pode torná-lo um ladrão aos olhos dos outros. Fica ao acusado o trabalho de provar que é inocente.
Furei o pneu da bicicleta do ladrãozinho (na época não havia câmeras espalhadas por todos os lados). Com uma faca de cozinha, que peguei da cozinha da minha mãe, e que devolvi após lavá-la bem. A vingança é um prato que se come frio.

André Faustino

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