Desculpa: oito letras que pesavam menos que uma pluma.
Quando criança, inúmeras vezes fui constrangido pelos adultos a pedir perdão. Contra um gol roubado, desfiava meu rico repertório de xingamentos. Contra uma agressão verbal retrucava com outra agressão verbal, mais afiada, ou com uma agressão física mesmo. Diante do que considerava uma injustiça revidava com uma vingança bem planejada e executada, com frieza e cálculo. Havia também, claro, situações em que o gênio da maldade me levava a dar o primeiro passo. Os gatinhos da minha rua sabiam disso. Mas nem por isso gostava de pedir desculpas e, menos ainda, de recebê-las. A razão era simples: embora sabidas, essas palavras careciam de sentido, pois toda criança é um animalzinho pagão posteriormente castrado e castrador.
Não, eu não era um canalha da pior estirpe, era simplesmente uma criança normal. Muitas vezes minhas palavras mais pontiagudas atingiam familiares e amigos a quem eu amava profundamente. Não era por ódio a eles que eu as dizia, e sim porque sentia raiva contra uma contrariedade qualquer, coisa passageira e insignificante. Minhas pancadas recaíam sobre os corpos de colegas que horas depois estavam me espancando: nem por isso as amizades ficavam seriamente agastadas (amigo pode bater em qualquer lugar, menos na cabeça: pelo menos na minha época esse era o código de ética não escrito dos confrontos). E que menino, espumando de raiva, nunca se lançou numa briga feroz contra um desafeto que, logo em seguida, tornou-se seu grande amigo? Bagatelas, tudo isso. Os erros e faltas infantis são importantes para a avaliação de pais, professores e guias espirituais, sem dúvida alguma, mas não devem ser superestimados. Servem mais como oportunidades para que os pais inculquem as noções mais elementares de moral e de conduta social do que de diagnóstico sobre o caráter.
Na prática, quando eu era obrigado a me desculpar, fazia-o da boca pra fora, sem ponderar o significado das palavras, desejando safar-me o mais rápido possível do desconforto da situação. Afinal, minha raiva não era legítima? Se me bateram, não devia eu também bater? Se foram injustos comigo, então na guerra não vale tudo? Crianças, seres belamente pagãos. Crianças não gostam de se desculpar, e raramente fazem-no com sinceridade e profundidade. E por uma única razão: elas não sabem o que significa culpa.
Culpa: cinco letras que têm o peso de uma cruz castradora importada de outro milênio e de outro continente, que nunca me senti obrigado a carregar, pois nasci tal como sou: avesso a qualquer moral estranha.
Quando criança, inúmeras vezes fui constrangido pelos adultos a pedir perdão. Contra um gol roubado, desfiava meu rico repertório de xingamentos. Contra uma agressão verbal retrucava com outra agressão verbal, mais afiada, ou com uma agressão física mesmo. Diante do que considerava uma injustiça revidava com uma vingança bem planejada e executada, com frieza e cálculo. Havia também, claro, situações em que o gênio da maldade me levava a dar o primeiro passo. Os gatinhos da minha rua sabiam disso. Mas nem por isso gostava de pedir desculpas e, menos ainda, de recebê-las. A razão era simples: embora sabidas, essas palavras careciam de sentido, pois toda criança é um animalzinho pagão posteriormente castrado e castrador.
Não, eu não era um canalha da pior estirpe, era simplesmente uma criança normal. Muitas vezes minhas palavras mais pontiagudas atingiam familiares e amigos a quem eu amava profundamente. Não era por ódio a eles que eu as dizia, e sim porque sentia raiva contra uma contrariedade qualquer, coisa passageira e insignificante. Minhas pancadas recaíam sobre os corpos de colegas que horas depois estavam me espancando: nem por isso as amizades ficavam seriamente agastadas (amigo pode bater em qualquer lugar, menos na cabeça: pelo menos na minha época esse era o código de ética não escrito dos confrontos). E que menino, espumando de raiva, nunca se lançou numa briga feroz contra um desafeto que, logo em seguida, tornou-se seu grande amigo? Bagatelas, tudo isso. Os erros e faltas infantis são importantes para a avaliação de pais, professores e guias espirituais, sem dúvida alguma, mas não devem ser superestimados. Servem mais como oportunidades para que os pais inculquem as noções mais elementares de moral e de conduta social do que de diagnóstico sobre o caráter.
Na prática, quando eu era obrigado a me desculpar, fazia-o da boca pra fora, sem ponderar o significado das palavras, desejando safar-me o mais rápido possível do desconforto da situação. Afinal, minha raiva não era legítima? Se me bateram, não devia eu também bater? Se foram injustos comigo, então na guerra não vale tudo? Crianças, seres belamente pagãos. Crianças não gostam de se desculpar, e raramente fazem-no com sinceridade e profundidade. E por uma única razão: elas não sabem o que significa culpa.
Culpa: cinco letras que têm o peso de uma cruz castradora importada de outro milênio e de outro continente, que nunca me senti obrigado a carregar, pois nasci tal como sou: avesso a qualquer moral estranha.
André Faustino

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