Era meu aniversário de seis anos. Ansiosíssimo, não parava de imaginar, quando acordei de um sono profundo e tranquilo daqueles que só as crianças podem ter, quais seriam os presentes que ganharia à noite, quando se daria uma festa em minha homenagem. Os convidados começaram a chegar, uns após os outros, aumentando gradativamente o rebuliço e fazendo o pequeno apartamento se encher de gargalhadas, frases de efeito ditas em voz alta, ruídos de copos tilintando nos brindes e, como não podia deixar de ser, obrigando todos os presentes a se entrechocarem quando iam de um lugar a outro. Foi uma das festas de aniversário mais faustosas da minha vida: havia mais doces do que eu poderia comer em sonhos e quase toda minha parentela compareceu, além de muitos colegas de escola e vizinhos que brincavam comigo na rua quase todos os dias. Recebi muito mais presentes do que imaginava, e fui amontoando-os sobre minha cama, sorriso de orelha a orelha, indeciso a respeito de com qual deles começaria a brincar no dia seguinte, quando acordasse. Essa indecisão findou quando ganhei, nem me lembro de quem, uma enorme e vistosa metralhadora, toda branca e com a ponta vermelha, que funcionava à pilha e que, quando apertado o gatilho, iluminava-se na ponta e emitia um som que, na minha imaginação, correspondia à de uma arma futurista, que disparava mortais raios laser.
Para desespero do zelador do edifício, o bom Cido, que vivia a nos ameaçar e a nos perseguir, nas semanas seguintes eu e meus vizinhos nos dividíamos em dois grupos de quatro ou cinco e brincávamos de “guerrinha” em áreas proibidas, como o estacionamento, as escadas, o jardim bem cuidado que ficava defronte à rua e o longo corredor de acesso aos elevadores, cheio de pilares que eram ao mesmo tempo ótimos esconderijos para um bravo e destemido soldado em ação. Cada um empunhava seu revólver ou metralhadora e partia para a batalha do dia. Todo menino sabe como é que funciona uma batalha dessas: se você se arrisca a sair do seu esconderijo para matar o adversário, bem pode acontecer de ele estar com a arma dele pronta para fazer fogo, e se ele atirar primeiro você é que deve cair no chão, estrebuchando de mentira. Você está morto... Era considerado bom companheiro aquele que aceitava sua morte e conseguia permanecer muitos minutos imóvel, de olhos bem abertos e sem piscar. Passado esse tempo, o morto ressuscitava e a batalha prosseguia encarniçadamente.
O principal tipo de contratempo nessa brincadeira ocorria quando um “morto” não aceitava sua morte e, em altos brados, afirmava que havia atirado primeiro. Quando isso acontecia, todos deixavam cair os braços e, com certa contrariedade estampada nas faces, apontavam as armas para o chão, em sinal de trégua. Imediatamente todos se reuniam em círculo e uma espécie de conselho de guerra se formava, espontaneamente. O suposto morto expunha seus argumentos e o suposto sobrevivente expunha os seus contra-argumentos (geralmente vencia quem gritava mais alto). Nem sempre a decisão do conselho era suficiente. Muito raramente os contendores jogavam as armas no chão e engalfinhavam-se de verdade, com socos e chutes sucedendo-se a torto e a direito (estavam, na verdade, resolvendo algum problema mais antigo e mal resolvido). O mais comum era que um morto ou um vivo, sentindo-se despeitado e com cara de “vou contar pra minha mãe” abandonasse a brincadeira e fosse para casa, lágrimas de raiva assomando aos olhos. Nesses casos, nova divisão de guerreiros era feita e a batalha recomeçava. Mas o fato que quero ressaltar é que o desistente, caminhando de cabeça baixa e expondo suas costas, era, invariavelmente, alvo de injúrias coletivas das mais terríveis: “covarde”, “franguinho”, “maricas”, “mocinha”, “Barbie” etc. O problema, do ponto de vista dos injuriadores, não era o da desistência: eram as lágrimas nos olhos do desistente (projeto de homem que é projeto de homem não chora!). Vale enfatizar que na época não existia a palavra bullying, ou seja, os garotos eram de carne e osso, lobos em processo de criação com aceitações e reprovações da matilha, simulacro da sociedade adulta, gente de verdade, que é como tem de ser. Não eram seres de porcelana como num rebanho sem pastor, que a qualquer ofensazinha procuram uma psicopedagoga que a bons trocos nada tem de útil a dizer (porque a vida é a vida, desde que o homem é homem).
Estranhamente e sem que soubéssemos explicar exatamente como, passados poucos anos, as meninas do edifício e do colégio, até então ridicularizadas simplesmente por serem meninas e severamente apartadas do nosso convívio social, começaram paulatinamente a serem cada vez mais bem vindas. Praticamente de uma hora para outra, cada lobinho da matilha começou a uivar e a se separar um do outro, em busca desse conceito novo, até então só intuitivo, chamado “meu território”. E aquela amizade, aquele companheirismo grupal que unia a todos os machinhos, desfez-se rápida e naturalmente como um castelo de areia na maré alta. Enfim... a outra tornou-se mais interessante que o outro. As amizades do colégio passaram a falar mais alto do que as amizades do edifício, e não demorou muito para que os antigos companheiros de batalhão tornassem-se completamente estranhos entre si. Não só estranhos, mas também potencialmente adversários e, em último caso, inimigos de verdade. Terminou o treinamento. Hora de ser homem. Mas como, com 13, 14 anos?
Para desespero do zelador do edifício, o bom Cido, que vivia a nos ameaçar e a nos perseguir, nas semanas seguintes eu e meus vizinhos nos dividíamos em dois grupos de quatro ou cinco e brincávamos de “guerrinha” em áreas proibidas, como o estacionamento, as escadas, o jardim bem cuidado que ficava defronte à rua e o longo corredor de acesso aos elevadores, cheio de pilares que eram ao mesmo tempo ótimos esconderijos para um bravo e destemido soldado em ação. Cada um empunhava seu revólver ou metralhadora e partia para a batalha do dia. Todo menino sabe como é que funciona uma batalha dessas: se você se arrisca a sair do seu esconderijo para matar o adversário, bem pode acontecer de ele estar com a arma dele pronta para fazer fogo, e se ele atirar primeiro você é que deve cair no chão, estrebuchando de mentira. Você está morto... Era considerado bom companheiro aquele que aceitava sua morte e conseguia permanecer muitos minutos imóvel, de olhos bem abertos e sem piscar. Passado esse tempo, o morto ressuscitava e a batalha prosseguia encarniçadamente.
O principal tipo de contratempo nessa brincadeira ocorria quando um “morto” não aceitava sua morte e, em altos brados, afirmava que havia atirado primeiro. Quando isso acontecia, todos deixavam cair os braços e, com certa contrariedade estampada nas faces, apontavam as armas para o chão, em sinal de trégua. Imediatamente todos se reuniam em círculo e uma espécie de conselho de guerra se formava, espontaneamente. O suposto morto expunha seus argumentos e o suposto sobrevivente expunha os seus contra-argumentos (geralmente vencia quem gritava mais alto). Nem sempre a decisão do conselho era suficiente. Muito raramente os contendores jogavam as armas no chão e engalfinhavam-se de verdade, com socos e chutes sucedendo-se a torto e a direito (estavam, na verdade, resolvendo algum problema mais antigo e mal resolvido). O mais comum era que um morto ou um vivo, sentindo-se despeitado e com cara de “vou contar pra minha mãe” abandonasse a brincadeira e fosse para casa, lágrimas de raiva assomando aos olhos. Nesses casos, nova divisão de guerreiros era feita e a batalha recomeçava. Mas o fato que quero ressaltar é que o desistente, caminhando de cabeça baixa e expondo suas costas, era, invariavelmente, alvo de injúrias coletivas das mais terríveis: “covarde”, “franguinho”, “maricas”, “mocinha”, “Barbie” etc. O problema, do ponto de vista dos injuriadores, não era o da desistência: eram as lágrimas nos olhos do desistente (projeto de homem que é projeto de homem não chora!). Vale enfatizar que na época não existia a palavra bullying, ou seja, os garotos eram de carne e osso, lobos em processo de criação com aceitações e reprovações da matilha, simulacro da sociedade adulta, gente de verdade, que é como tem de ser. Não eram seres de porcelana como num rebanho sem pastor, que a qualquer ofensazinha procuram uma psicopedagoga que a bons trocos nada tem de útil a dizer (porque a vida é a vida, desde que o homem é homem).
Estranhamente e sem que soubéssemos explicar exatamente como, passados poucos anos, as meninas do edifício e do colégio, até então ridicularizadas simplesmente por serem meninas e severamente apartadas do nosso convívio social, começaram paulatinamente a serem cada vez mais bem vindas. Praticamente de uma hora para outra, cada lobinho da matilha começou a uivar e a se separar um do outro, em busca desse conceito novo, até então só intuitivo, chamado “meu território”. E aquela amizade, aquele companheirismo grupal que unia a todos os machinhos, desfez-se rápida e naturalmente como um castelo de areia na maré alta. Enfim... a outra tornou-se mais interessante que o outro. As amizades do colégio passaram a falar mais alto do que as amizades do edifício, e não demorou muito para que os antigos companheiros de batalhão tornassem-se completamente estranhos entre si. Não só estranhos, mas também potencialmente adversários e, em último caso, inimigos de verdade. Terminou o treinamento. Hora de ser homem. Mas como, com 13, 14 anos?
André Faustino

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