Noite dessas, embalado pelas tradicionais energias autocríticas de grande profundidade que acompanham toda passagem de ano, fiquei taciturno. Mais que o normal. É sempre aquela coisa: ano novo, vida nova... Uns pretendem deixar de fazer isso e outros pretendem começar a fazer aquilo. Academia, gordura, poupar, gastar, viajar, cigarro e amor são algumas das palavras que mais figuram nessas promessas de ano novo. Confesso que de uns anos pra cá minha fé em mudanças radicais e instantâneas carece de estofo. Antes considerava tais tentativas veneráveis, porque mudanças radicais são de difícil execução. Depois comecei a desconfiar de que tais tentativas são ingênuas e, atualmente, elas me parecem francamente absurdas. Embora a última noite do ano tenha a sua aura especial, o fato é que a primeira manhã do ano parece-se com todas as manhãs e deixa aquela impressão de que no fundo nada muda mesmo. Ou muda, mas não assim.
Força de vontade é essencial, mas penso que toda verdadeira mudança é um processo lento que não necessita de uma data especial para começar ou terminar. Esses processos não são nem mesmo percebidos como tal quando começam, quando muito só são percebidos próximos do fim ou depois de terminados. No mais das vezes, o que acontece é que as pessoas que prometem coisas no reveillon acabam não cumprindo suas promessas: à euforia otimista do início segue-se a preguiça, a tentação, o fracasso e a frustração. Não poucas vezes essas pessoas ficam num estado pior do que antes de se alimentarem com essas ilusões de reveillon.
Não fiquei taciturno porque era reveillon (embora fique taciturno no Natal porque é Natal). É fato que o calendário é invenção humana e portanto a noite de 31 dezembro é, do ponto de vista da natureza que nos rege, uma noite como outra qualquer. Nunca vi ninguém vestido de branco e tomando champagne na noite de 29 de maio, por exemplo, e que além disso acreditasse que tudo seria melhor nos próximos trezentos e sessenta e cinco dias e seis horas. Entretanto, na última noite do calendário cristão bilhões de pessoas fazem isso com a maior naturalidade. Sem querer desmerecer nenhuma delas, isso tudo me parece muito artificial e, a cada passagem de ano, fico cada vez mais deslocado entre os muitos abraços, perdões, juramentos, lágrimas, sorrisos e correntes de fé que me atropelam sem que eu sequer tenha tempo de refletir sobre as palavras que acabaram de ser dirigidas a mim. Caso eu próprio aproveitasse uma reunião de família num domingo de setembro e fizesse isso, certamente pensariam em me internar num manicômio ou num desses templos de berradores.
Já que não sou o dono da verdade e que tudo nessa vida às vezes é relativo demais ao quadrado, no último reveillon fiquei mesmo foi com a champagne e com o cigarro que dessa vez não prometi largar. Mantive respeitosa distância dos demais convivas e finalmente me senti à vontade, não sendo pressionado por aquela obrigação de participar de uma conversa chata com um parente distante que mal conhecia. Uma televisão sempre pode ser útil! Sintonize um canal onde esteja sendo exibido um programa com conteúdo inteligente (a maioria das pessoas odeia esse tipo de programa, as que dizem que admiram mas não tem tempo são as que mais odeiam). Basta olhar fixamente para a telinha fingindo interesse e ninguém ousará iniciar uma conversa ou, o que é infinitamente pior, perguntar se você está triste porque, afinal, você está tão quieto... Mas, uma vez fixados os olhos na telinha e franzida a sobrancelha, é possível viajar em pensamento para qualquer lugar, inclusive para dentro de si mesmo.
Foi o que fiz. Eu não estava nem um pouco triste, mas estava taciturno. Mais que o normal. Sem mais rodeios: parece que estou sentindo o peso da idade, e isso está me incomodando mais que coceira não coçada. Tenho trinta anos. Não é muito. Não, realmente não é. Não me sinto velho e de forma alguma incapacitado para o quer que seja. Se viver mais trinta anos morro quietinho, sem reclamar. Também não é pouco, decerto. Vivi muitas coisas no decorrer desse tempo e, sendo honesto comigo mesmo, não tenho do que reclamar: não foi uma vida vazia. "O que importa não é a idade, é a quilometragem", já dizia o grande filósofo Indiana Jones. Nessa metade de caminho entre as fraldas infantis e as fraldas geriátricas resta, no entanto, uma espécie de desorientação...
Quando eu tinha treze, catorze anos, alimentava sonhos grandiosos para o meu futuro. Eu certamente me envolveria em causas nobres que ajudariam a tornar esse um mundo melhor, me dedicaria integralmente a essas causas e viveria uma velhice honrada e tranquila, saboreando em meus últimos fôlegos o descanso merecido e a convicção do dever cumprido. Morreria em paz com os homens: sem fama, sem dinheiro, sem poder. Só paz. Tudo bem se lá pelos meus vinte eu ainda não tivesse encontrado uma dessas causas nobres: com vinte anos ainda é possível começar tudo de novo! Com 22 também! Com 25... é, até que dá. Com 31... veio essa desorientação, uma espécie de angústia altamente corrosiva, uma sensação de que algo vital se perdeu numa curva da estrada e nunca será encontrado. Sim, levo uma vida normal e ninguém espera que eu faça mais do que faço. Mas eu espero! Basicamente só falta saber o quê e o porquê. Porque de resto tá tudo indo de vento em popa!
Força de vontade é essencial, mas penso que toda verdadeira mudança é um processo lento que não necessita de uma data especial para começar ou terminar. Esses processos não são nem mesmo percebidos como tal quando começam, quando muito só são percebidos próximos do fim ou depois de terminados. No mais das vezes, o que acontece é que as pessoas que prometem coisas no reveillon acabam não cumprindo suas promessas: à euforia otimista do início segue-se a preguiça, a tentação, o fracasso e a frustração. Não poucas vezes essas pessoas ficam num estado pior do que antes de se alimentarem com essas ilusões de reveillon.
Não fiquei taciturno porque era reveillon (embora fique taciturno no Natal porque é Natal). É fato que o calendário é invenção humana e portanto a noite de 31 dezembro é, do ponto de vista da natureza que nos rege, uma noite como outra qualquer. Nunca vi ninguém vestido de branco e tomando champagne na noite de 29 de maio, por exemplo, e que além disso acreditasse que tudo seria melhor nos próximos trezentos e sessenta e cinco dias e seis horas. Entretanto, na última noite do calendário cristão bilhões de pessoas fazem isso com a maior naturalidade. Sem querer desmerecer nenhuma delas, isso tudo me parece muito artificial e, a cada passagem de ano, fico cada vez mais deslocado entre os muitos abraços, perdões, juramentos, lágrimas, sorrisos e correntes de fé que me atropelam sem que eu sequer tenha tempo de refletir sobre as palavras que acabaram de ser dirigidas a mim. Caso eu próprio aproveitasse uma reunião de família num domingo de setembro e fizesse isso, certamente pensariam em me internar num manicômio ou num desses templos de berradores.
Já que não sou o dono da verdade e que tudo nessa vida às vezes é relativo demais ao quadrado, no último reveillon fiquei mesmo foi com a champagne e com o cigarro que dessa vez não prometi largar. Mantive respeitosa distância dos demais convivas e finalmente me senti à vontade, não sendo pressionado por aquela obrigação de participar de uma conversa chata com um parente distante que mal conhecia. Uma televisão sempre pode ser útil! Sintonize um canal onde esteja sendo exibido um programa com conteúdo inteligente (a maioria das pessoas odeia esse tipo de programa, as que dizem que admiram mas não tem tempo são as que mais odeiam). Basta olhar fixamente para a telinha fingindo interesse e ninguém ousará iniciar uma conversa ou, o que é infinitamente pior, perguntar se você está triste porque, afinal, você está tão quieto... Mas, uma vez fixados os olhos na telinha e franzida a sobrancelha, é possível viajar em pensamento para qualquer lugar, inclusive para dentro de si mesmo.
Foi o que fiz. Eu não estava nem um pouco triste, mas estava taciturno. Mais que o normal. Sem mais rodeios: parece que estou sentindo o peso da idade, e isso está me incomodando mais que coceira não coçada. Tenho trinta anos. Não é muito. Não, realmente não é. Não me sinto velho e de forma alguma incapacitado para o quer que seja. Se viver mais trinta anos morro quietinho, sem reclamar. Também não é pouco, decerto. Vivi muitas coisas no decorrer desse tempo e, sendo honesto comigo mesmo, não tenho do que reclamar: não foi uma vida vazia. "O que importa não é a idade, é a quilometragem", já dizia o grande filósofo Indiana Jones. Nessa metade de caminho entre as fraldas infantis e as fraldas geriátricas resta, no entanto, uma espécie de desorientação...
Quando eu tinha treze, catorze anos, alimentava sonhos grandiosos para o meu futuro. Eu certamente me envolveria em causas nobres que ajudariam a tornar esse um mundo melhor, me dedicaria integralmente a essas causas e viveria uma velhice honrada e tranquila, saboreando em meus últimos fôlegos o descanso merecido e a convicção do dever cumprido. Morreria em paz com os homens: sem fama, sem dinheiro, sem poder. Só paz. Tudo bem se lá pelos meus vinte eu ainda não tivesse encontrado uma dessas causas nobres: com vinte anos ainda é possível começar tudo de novo! Com 22 também! Com 25... é, até que dá. Com 31... veio essa desorientação, uma espécie de angústia altamente corrosiva, uma sensação de que algo vital se perdeu numa curva da estrada e nunca será encontrado. Sim, levo uma vida normal e ninguém espera que eu faça mais do que faço. Mas eu espero! Basicamente só falta saber o quê e o porquê. Porque de resto tá tudo indo de vento em popa!
André Faustino

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