22 de outubro de 2016

Multiversos


O que faz o poeta com as palavras, o pintor com as cores, o flautista com o fôlego, o filósofo com as ideias, o crente com a fé, o cozinheiro com os temperos, o comerciante com o lucro, o trabalhador com a folga: eis aqui exemplos de momentos extraordinários, em que o homem, independentemente do seu ofício e de suas características individuais, é levado como espécime de primata evoluído ao êxtase e à fruição de sensações impossíveis de serem satisfatoriamente descritas ou racionalizadas.
Em momentos como estes é comum que cada um se pergunte, interrompendo momentaneamente o gozo do prazer e antevendo seu fim, sobre o sentido da vida, sobre o próprio significado da palavra “sentido”, sobre a precariedade da existência humana, limitada pela incansável foice de manto negro e cercada de angústias e frustrações. É então que grandiosas questões se antepõem a qualquer conclusão satisfatória: suas balizas geralmente são dicotômicas. Deus e o ateísmo, a certeza e a dúvida, a fé e a ciência, a matéria e o espírito, o indivíduo e a coletividade, a paz e a guerra, o bem e o mal, a fama e o mérito, Batman e o Coringa, Beethoven e o funk etc.
Claro é que as coisas não são tão simples assim. São múltiplos os sentimentos, memórias e raciocínios que tais questões suscitam, amontoando-se dentro de cada um, ligando-se, costurando-se, lascando-se, fundindo-se, derretendo-se... até surgir aquilo que, por falta de palavras melhores, uns chamam de "opinião", outros de "perspectiva" e (os mais soberbos) de "visão de mundo". Seja qual for a profundidade ou complexidade de tais apreciações, numa coisa até os seres irracionais concordam: estamos todos em busca do prazer ou a fugir da dor, o que na prática é tudo a mesma coisa.
Alguém encontra respostas corretíssimas, de fundamento irrefutável, para todas essas questões de importância universal? Claro que sim! Na verdade, todo mundo encontra essas respostas, até a pessoa mais imbecil que você puder imaginar nesse exato instante. A verdade..., quer dizer, o fato, é que cada pessoa, cada pessoinha que você conhece ou que anonimamente cruza com você na rua sem que você nunca a tenha visto antes, é um poço de confiança. Esse poço estará mais cheio ou menos cheio dependendo da pessoa em questão, mas sempre estará muito longe de estar vazio. Ninguém que tenha juízo arreda-se de suas próprias “verdades”. Cada um é seu próprio papa. Para cada crente, Deus exibe uma face diversa, para cada frequência de luz o diamante revela uma cor. Para cada não crente, há um aspecto particular do indiscernível.
E quem tem razão?
Todos. E ninguém.

André Faustino

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