22 de outubro de 2016

Fatias de solidão


Parto do princípio de que absolutamente ninguém é perfeito e basta a si próprio o tempo todo. Há não poucas pessoas que conseguem viver sozinhas sem serem infelizes. Não é segredo que uma pessoa que more sozinha pode muito bem usufruir de sexo à vontade, mais até do que a maioria das pessoas casadas, dependendo para isso tão somente dos seus talentos (o "bom pegador universal") ou da saúde da sua conta bancária (o "bom pagador universal"). Mas sexo é sexo, e relação é relação. Por mais sexualmente ativo que um solteiro seja, ele não consegue (pelo menos não de modo constante e sereno) contentar-se com sua própria companhia. Por mais altruístas que algumas pessoas sejam, ou aparentem ser, o fato é que cada um de nós ama principalmente ou exclusivamente a si próprio, como descobrimos nos momentos mais tristes. Apesar disso, mesmo nos melhores momentos em que realmente não se tem do quê reclamar, a falta de uma companhia torna o convívio consigo mesmo algo insuportável. Sim, há livros, há músicas, há museus e há parques botânicos para nos distrair ou nos instruir, mas não ter alguém com quem compartilhar os próprios pensamentos, sentimentos, projetos e decantações da alma é que faz o sozinho sentir-se solitário. E a solidão não é o desejo de ter alguém para amar esse alguém, é o desejo de ter alguém que nos ame, que compartilhe conosco todo nosso mundo interior, que nos afaste do tédio de sermos quem somos, tédio esse que sentimos apesar de todas as nossas boas qualidades. A solidão é o ego que reconhece sua própria fraqueza e insuficiência e logo em seguida se envergonha, procurando vampirescamente algo ou alguém para louvá-lo e assim reinstituir seu domínio. O que faz o namorado de poucos dias, senão cumular de elogios, com olhos brilhantes e sorriso bobo, aquela que é a ladra de seu sono e a substância de seus sonhos? Essa dependência, que pode ser também co-dependência, não se dá apenas nos relacionamentos ditos românticos. O monge que se abnega, fugindo da mundanidade, refugia-se na relação com o divino, a mãe infeliz no casamento tortura seu caçula com um amor desmesurado e nocivo, o calvinista encontra no trabalho incessante a sua razão de ser, o amigo pode fazer por outro amigo o que não julgava capaz de fazer por si próprio (e assim conhece-se a si mesmo, como diria aquele grande filósofo e jogador da seleção de 82). Sempre há dependência. Provam-no Heráclito de Éfeso e sua teoria dos opostos, Robinson Crusoé e Sexta Feira, Henri Charrière e Joanes Clousiot, Hannibal Lecter e Clarice Starling, Batman e Robin, Deus e o diabo, e todo prisioneiro que agradeceu a soltura da solitária. É um órgão engraçado esse, o coração: sofre como um leproso desgraçado, julga-se incapaz de sobreviver a mais um nascer do sol, corrói-se de dor, mas qualquer vislumbre de felicidade ou boa companhia é suficiente para que ele se reerga e abane o rabinho. Como os cães, como os lobos, os corações são gregários. Uivam nas noites mais frias, quando as cicatrizes doem mais.

André Faustino

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