22 de outubro de 2016

Tubarão


Você acha que sabe o que acontecerá de agora em diante
Fez planos, pesou, mediu, até usou agenda
A segurança do pensamento tateante lhe dá esse consolo
Você chega até a imaginar o que sentirá quando o imaginado acontecer
O imaginado, porém, não acontecerá, porque imaginação é tudo o que não é
A vida não se cansa de provar que é tão imprevisível quanto um tubarão
Lá está você, confiante, com o pé firme na beirada do barco
Com o arpão na mão destra, pronto a desferir o golpe fatal
E antes que você perceba, logo vem o chacoalhão, a visão tremida, a expressão de espanto,
O estrondo do mergulho involuntário se faz ouvir
A água, salgada, fria e indócil, cobre todos os poros da pele
E você sente a pressão de dezenas de dentes afiados dilacerando seu pescoço
Tubarão é você, tubarão sou eu (somos peixinhos, talvez),
Tubarão é a vida, a vida no estômago do tubarão
Que vive, sem fazer planos.

André Faustino

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