22 de outubro de 2016

Cupido travesso


O ato de apaixonar-se é intenso, profundo e inconsequente. Isso vale tanto para o bem quanto para o mal, sem desvantagem, a princípio, para nenhum dos polos. Não se escolhe estar apaixonado, tampouco é possível desapaixonar-se por mera vontade consciente. O alvo é brinquedo nas mãos do arqueiro, e a flecha simboliza essa impotência do apaixonado diante da própria paixão.
Toda pessoa que está apaixonada, e também todas aquelas que não têm receio de viver uma paixão, concordam que a intensidade e a profundidade da paixão são realmente desejáveis, e muito! Afinal, a vida não é só feita de sobrevivência, trabalho, família e outras coisas que nos são impostas, embora delas, é justo dizer, também se possa derivar um verdadeiro prazer. A questão é que estar apaixonado é, de forma geral, considerado algo benéfico na nossa cultura ocidental. Passaporte para um possível amor, com o qual se confunde e é confundida, a paixão é a principal lobista das comédias românticas, das floriculturas, das perfumarias e dos sorrisos bobos. Não estar apaixonado ou estar sofrendo pelo fim de uma paixão não é considerado, em si, algo excessivamente ruim: há muito o que se viver e aprender fora de uma paixão. Porém, convenhamos, assistir a uma comédia romântica acompanhado tão somente de um enorme pote de sorvete, um totó e uma caixinha de lenços umedecidos é um cenário assaz aterrorizador... Nem toda lágrima é vertida por uma paixão finda, muitas são consequência de uma paixão não acontecida, que faz pesar um vazio dentro do peito, se é que o vazio pode ter peso. Sim, pode! A paixão, portanto, nos liberta da grade de ferro na qual se vivegeta e, então sim, é possível voar! O apaixonado sente-se mais belo, mais valorizado, mais potente (a la Nietzsche), mais disposto a tarefas antes consideradas hercúleas e entusiasmado com a vida. O apaixonado é capaz de acordar todo sorridente e bem disposto em plena segunda-feira: basta uma mensagem de bom dia escrita com esmero no telefone. O apaixonado vê cores antes apenas pressentidas. A lua, antes tão banal e até esquecida, ganha um lugar de honra no panteão dos deuses. Toda flor é um testemunho da beleza do mundo.
Mas... (é claro que tinha que haver um "mas") a paixão, como o fogo, aquece e ilumina, mas pode ferir e destruir: como um deus louco e insaciável, subverte a ordem das coisas. Ninguém em sã consciência sente-se completamente seguro ou pacificado interiormente quando se considera a inconsequência da paixão. Um dos grandes defeitos de qualquer pessoa que se julgue equilibrada é desejar controlar a própria vida. Isso pode, aquilo não pode. Isso pra hoje, aquilo talvez para amanhã ou nunca. Todo pensamento e todo sentimento tem sua gavetinha. É possível ser muito tolo nessa vida. A vida, ela mesma, é incontrolável: o que dizer então da paixão, um dos seus fôlegos mais impetuosos? Não. Não há controle sobre a vida ou sobre a paixão. Só há a ilusão de controle. Você pode avaliar sua personalidade, seus conceitos éticos e morais, seu passado, sua situação presente e suas perspectivas de futuro e, a partir disso, contar uma historinha para você mesmo. A isso você chamará (muito doutamente, na sua opinião) de "realidade". Então, naturalmente, você passará a viver dentro dessa gaiola, não percebendo sequer 99% do que acontece lá fora, privando-se de muitas experiências, coisas e pessoas. E ainda assim você será capaz de se julgar uma pessoa independente e esclarecida que tem o... controle sobre a própria vida. Palmas para você, com direito a confete e língua de sogra.
Esquecia-me de dizer que a paixão é um fenômeno passageiro. Dura alguns meses, quando muito. E creio ser bom que assim seja, pois tudo o que existe deve ser passível de amadurecimento. Assim, termine a paixão em cortantes lágrimas de dor ou em jubilosas lágrimas de amor, o fato é que a paixão, a flecha e o Cupido possuem um grande mérito. A paixão obriga à humildade e à humilhação. A humildade emerge da constatação de que qualquer tentativa de controlar é, na verdade, o primeiro passo para a perda de controle. Isso vale para além da paixão que um ser humano nutre por outro. O avaro não controla seu desejo por amontoar moedas, o guloso não se sacia com poucas viandas, o iracundo nunca sacia seu desejo de vingança etc. Quando um apaixonado se reconhece à mercê da paixão que sente, ele não só é convidado a viver essa paixão, mas também, num nível mais profundo, a reconhecer a falácia que é (era) seu controle sobre o próprio coração. A paixão abre os olhos do apaixonado para o fato de que há muito mais "lá fora" do que supunha sua vã filosofia. Se for inteligente, saberá tirar proveito disso, mesmo que sua bem amada fuja com o primeiro marinheiro que se apresentar. A paixão é também a humilhação do ego que julgava tudo controlar. Atropelado, espancado, pisoteado e cuspido, esse ego, com o rabinho entre as pernas e lambendo as próprias feridas enquanto mantém seus olhos baixos em sinal de submissão, nunca (se for inteligente) voltará a confiar tanto em si mesmo, e logo poderá tirar proveito disso.
Prazer e dor, volúpia e sofrimento andam juntos com a paixão: a linha que os distingue é muito tênue e caprichosamente mutante. A paixão, porém, tem o dom de dizer que os malefícios são todos para os outros e que uma indizível felicidade aguarda você (sim, você mesmo!). Torna-se fácil rasgar o seguro de vida e embarcar numa vida de aventuras. Não há limites para a manifestação da paixão, porque a paixão é o próprio decreto que abole todos os limites. Perigosamente, ela nos faz lembrar que somos deuses. Só os deuses não conhecem limites. E mais... só os deuses não conhecem a rotina (digam o que disserem defendendo a utilidade e a importância da rotina, toda rotina é uma prisão). Só a paixão pode dissolver os limites e esquartejar a rotina. Porque toda paixão que é paixão não cabe em si. Porque a paixão é condição para o reconhecimento do maravilhoso no que antes era considerado descabido. Porque apaixonar-se é se entregar como quem, nu, mergulha numa lagoa sob a luz de uma lua cheia no auge do verão. Porque apaixonar-se é perceber quão fina é a película de dois mil anos de um monoteísmo castrador incapaz de sufocar esse grande e eterno pagão que é o coração. Não pense que esse deus ciumento de suas criaturas (lembre-se: ele sempre dorme sozinho e sente cãimbras nos pés) deixará a paixão desabrochar sem luta. Quando você estiver apaixonado, seu sorriso imorredouro incomodará muitas pessoas que te acusarão de ser bobo enquanto, no íntimo, sentirão uma tremenda inveja ou repulsa. Colegas de trabalho questionarão sua produtividade, amigos questionarão sua lealdade a eles, familiares ficarão de orelhas em pé e focinhos levantados. Haverá quem pergunte se o amado é de uma família de posses, se fez faculdade, se já foi casado e tem filhos e outras tolices do mesmo jaez. Todos dirão que essas coisas são importantes e, com a mão no coração e voz embargada, dirão também que se preocupam com você e que só querem o seu bem: que eles te amam (como essa palavra, "amor", pode ser torturante...). Essas pessoas não são falsas ou mal intencionadas: elas apenas não estão apaixonadas e, das gaiolas delas, tentam estreitar os aros da sua gaiola. Nada incomoda mais uma pessoa estagnada do que outra pessoa em crescimento. Poucas pessoas suportam ter sua visão de mundo questionada, mesmo que indiretamente. Penso que não vale a pena confrontar essas pessoas, vale antes ter ouvidos moucos e compreender que elas são fei(t)as à imagem e semelhança daquele deus que nunca suou de prazer sob um lençol. Ele só espera, como aqueles velhos amargos que advertem crianças brincando, que tudo dê errado e então ele possa dizer (sem nenhum benefício para si mesmo, por sinal): "Eu avisei!". Deixe-o com seu reumatismo, com sua baba emporcalhando a camisa velha e mal passada, desprezado até mesmo pelas pombas e suas nojeiras a quem foi negado o milho da boa vontade. Espectro, nunca morrerá, mas tampouco vive e nunca, nunca desiste.

***

Surge então, sereno, um dos guardiães do Paraíso, o Medo, e com sua espada de fogo barra-nos o caminho, fazendo-nos pensar que as consequências das inconsequências dissiparão a névoa espessa de prazer e sensualismo que acompanham a paixão. E então será revelada a Verdade para os delicados amantes. Um verá ao outro tal como ele é, sem maquiagem, sem galanteios, sem heroísmos, sem olhos oblíquos e dissimulados de Capitu, sem cavalo branco de crinas esvoaçantes à beira-mar, sem a corrida desesperada seguida de abraço apertado e rodopiante enquanto as borboletas voam e os anjos entoam cânticos no céu. A queda das máscaras: isso também vale tanto para o bem quanto para o mal. E o Medo, saindo de sua impassibilidade, nos diz então que apaixonar-se é muito perigoso, que deixar aflorar assim o coração é o mesmo que, com as mãos amarradas nas costas, expor-se a golpes de lanças pontiagudas, desferidos sem dó nem piedade pelos Cavaleiros da Prudência, que o deslumbramento inicial fatalmente sucumbirá diante da rotina, dos desentendimentos e das feridas que demoram a cicatrizar.

Terá o Medo razão?
É dolorido o golpe de sua espada?
Ou, então, será ele uma ilusão?
Talvez seja o receptáculo da minha covardia,
E fez sua morada dentro de mim.
Mantém em róseas brumas
O ardil nefasto
Oculto no sonho de paz celibatária que cultuo (agora).

Bombons todo mundo quer. Quase todas as pessoas gostam ou gostariam de estar vivendo a intensidade e a profundidade da paixão. Valerá a pena entregar-se à ela? Estar adormecido com os cabelos desalinhados entre os braços dela não seria o mesmo que consumir uma droga de prazer? A pessoa adorada é mais adorada do que a própria paixão? Gosto da pessoa ou, verdadeiramente, do sentimento e das sensações que ela desencadeia em mim? (EGO) Repelir a paixão não é tantas vezes a receita apregoada por aqueles que são contra a paixão? E quem é contra a paixão é contra a paixão por quê?
Eu não sei, nem sei se um dia saberei. Ultimamente nem ando querendo saber. E não estou certo de que faço bem ao pensar assim. Porque às vezes não sofrer é uma ideia mais tentadora que a sedução do prazer. Mas não seria isso o Medo, barrando-me a entrada do Paraíso? Seja como for, mastigo calmamente seus conselhos, e olho com paz benévola para a minha cama de solteiro.

***

1) Cuidado. Quando era mais jovem, pensava que uma vida plena só seria possível com a vivência de uma intensa paixão. Imaturo ainda, não sabia distinguir realmente a paixão do amor e, por causa disso, não poucas vezes abandonei barcos porque a paixão passara sem deixar algo tão excitante quanto ela própria. A paixão é maravilhosa, sem dúvida, deixa um gosto de refinada cozinha mediterrânica na boca, mas quando ela passa parece que só há três opções: pastel de "cáne", "queso" ou "flango". O que a paixão tem de intensa o amor tem de diluído. Dadas as circunstâncias, um simples mingau de aveia ou um tímido copo d'água podem rivalizar com a ambrosia dos olímpicos. Isso exige tempo e experiência. O jogo dos redimensionamentos ensina que às vezes o que é grande é, de fato, pequeno. E vice-versa.

2) Cuidado. Passei um bom tempo desesperadamente em busca de uma paixão. Só Cupido pode flechar. Ninguém pode flechar a si mesmo. Descobri, após muito sofrimento (não apenas meu), que isso é, na verdade, carência. A carência é uma das formas mais insidiosas do egoísmo, pois faz o carente pensar que ele pode criar e controlar a paixão, que é incontrolável por natureza. Todos os sinais exteriores da paixão são mimetizáveis e, de tanto desejar estar apaixonado, é bem possível acreditar na própria farsa. A paixão age como uma droga, mas não é uma droga. Não se compra e nem se vende. O que eu buscava era aceitação, uma mulher que aplaudisse tudo o que eu fizesse ou dissesse e me considerasse "o cara". Claro está que eu não me importava realmente com o interior dessas mulheres, com o que elas realmente pensavam, sentiam ou esperavam de mim. Bastava que elas correspondessem a meus anseios em relação a elas. Como não podia deixar de acontecer, tão logo uma candidata apresentasse uma característica de meu agrado, eu logo procurava firmar um compromisso com ela. A princípio fazendo vistas grossas às características que me desagradavam, não demorava muito até que eu começasse a criticá-las e cometesse o erro crasso de tentar mudar uma pessoa enquanto que eu mesmo não queria mudar (afinal, eu não era perfeito?). Todo relacionamento baseado na carência dura pouco e termina de forma tempestuosa. Percebi que o que eu condenava nessas mulheres com quem eu me relacionei era na verdade reflexo das minhas fragilidades, medos, limitações e inseguranças. Hoje reconheço isso (na época não) e, a partir desse reconhecimento, descobri que todos os meus problemas são... meus. Isto é, atualmente, num relacionamento, qualquer coisa que me incomode na Julieta eu já sei que é sinal de algo que está bem escondido dentro de mim que eu preciso desentranhar, encarar e resolver. Procuro não esperar nada, apenas aceitar. Posso ser mais feliz com alguém que venha a me acrescentar algo, mas antes preciso estar feliz comigo mesmo. Nos relacionamentos, acrescentar é válido, suprir não. E, sinceramente, um bom companheirismo me encanta muito mais que o fogo ardente da paixão.

3) Cuidado. Desiludido por várias paixões avassaladoras que duraram pouco e que se sucederam num curto período de tempo, cheguei à conclusão de que esse negócio de relacionamento não tinha futuro. Se a paixão só me pregava peças (autopiedade), então eu iria pregar uma grande peça na paixão (megalomania): não me permitiria mais me apaixonar por ninguém. Seguindo espartanamente esse propósito, trabalhei como nunca, evitei qualquer segundo encontro, prezando antes a companhia de amigos e, principalmente, daqueles que nunca me abandonarão e sempre são companheiros fiéis: meus livros, meus discos e a culinária! Funcionou? Não. Não funcionou porque eu não estava à parte da paixão e sim contra ela. Ao resistir à paixão, eu a mantinha viva, embora recôndita. Enquanto a vencia, eu me enfraquecia. Não vou negar que tive meus bons momentos como solteiro convicto, embora nunca tenha sido mulherengo. Aprendi, por outro lado, que tem razão o ditado que diz que "tudo aquilo a que você resiste, persiste". Após dois anos nessa vida, apaixonei-me perdidamente. Foi a paixão mais irracional da minha vida, mãe de todas as minhas maiores sandices. Foi quando descobri o que há de pior e de melhor em mim. Não adianta. Qualquer um pode fugir de qualquer um, menos da própria sombra.

4) Cuidado. Você pode estar pronto para amar. Ou pelo menos se sentir assim. Isto não significa que ela estará.

André Faustino

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